sábado, 30 de abril de 2011

Sobre um herói



Em 2002, durante um curto período em que morei e trabalhei em Fortaleza, comprei e li um livro que se tornaria referência de grande literatura para mim nos anos seguintes. Era Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sabato. Varei madrugadas solitárias naquela cidade tendo apenas cigarros e as páginas de Sabato como companhia, e era muito bom. O texto fluía, e eu me deixava levar fascinado. Na época, tentava escrever um romance (que permanece inacabado) e não encontrava o tom, a forma, a linguagem. Sabato me ajudou a desenvolvê-lo. Já de volta a Salvador, após uma longa entrevista com Hector Babenco (uma das mais tensas e ricas que tive a oportunidade de fazer), ele me pediu que permanecesse ao seu lado mais alguns minutos para jogarmos conversa fora. Falamos de livros e lhe falei do impacto que tinha me causado a leitura de Sobre Heróis e Tumbas. Ele sorriu e concordou: "Esse livro é uma obra-prima. O capítulo do Relatório sobre os Cegos é uma das coisas mais lindas que já li na vida".

Curioso que agora, ao saber que Sabato morreu, aos 99 anos, após um longo e escuro inverno, peguei o livro na estante e o acariciei. Li a introdução, a nota preliminar e o primeiro parágrafo. E me dei conta de que recordo muito pouco dele, da sua trama, dos seus personagens. Lembro de Alejandra, uma jovem impetuosa, e vagamente de alguns momentos do Relatório sobre os Cegos, mas onde foi parar, na minha memória, o livro que tanto me fascinou há apenas oito anos? É como se houvesse retirado o conteúdo da obra da pasta onde deveria estar arquivado, no gigantesco arquivo morto de minha mente, e bagunçado tudo. Isso me entristeceu, pois queria falar um pouco de Sabato e do seu livro mais conhecido, refletir um pouco sobre seu humanismo exacerbado ou sua invejável capacidade de invadir com inquietações nossos recantos mais sossegados. Quem sabe até lembrar de alguma frase capaz de definir o seu pensamento.

Mas não. Restam apenas páginas em branco aqui dentro, ligeiramente borradas por arremedos de diálogos e acontecimentos. Sabato não merecia isso de um leitor que o admira tanto, mas é provável que compreendesse. Pretendo saldar essa dívida com ele relendo Sobre Heróis e Tumbas e também outros livros seus que tenho por aqui. E finalizo citando uma frase retirada de A Resistência, obra que encerra memórias e reflexões outonais de Ernesto, sobre a qual já falei aqui no blog: “Antigamente a morte era para mim a prova da crueldade da existência. O fato que diminuía e até ridicularizava minhas prometéicas lutas cotidianas. O atroz. Então eu costumava dizer que, para me levarem até a morte, precisariam do auxílio da força pública. Era assim que eu exprimia minha decisão de lutar até o final, de não me entregar jamais. Mas agora a morte se avizinha, sua proximidade me irradiou uma compreensão que nunca tive; neste entardecer de verão, a história do vivido está à minha frente como que posta em minhas mãos, e às vezes um tempo que eu julgava desperdiçado se mostra com mais luz que outro, que eu tinha por sublime".

Sabato não precisou da força pública. Entregou-se à morte docemente, legando um mundo só seu para nosso deleite.

domingo, 24 de abril de 2011

Dentro da noite veloz


Acho que foi Gabriel García Márquez quem uma vez disse que um escritor escreve sempre o mesmo livro, não importa quantos títulos publique. Ou seja, uma obra nada mais é do que uma peça num rol de variações em torno do mesmo tema. Um inventário de obsessões que se sucedem infinitamente, por mais que variem os enredos, épocas e personagens. É possível, partindo desse pressuposto, que Gabo tenha passado as últimas três ou quatro décadas reescrevendo Cem Anos de Solidão. Mas acredito que a frase do mestre colombiano não se aplica apenas a escritores - ou pelo menos a escritores na acepção mais restrita do termo: homens e mulheres que escrevem e publicam livros e dedicam quase todas as horas úteis dos seus dias ao ofício de transformar palavras e frases em surtos de delírio silencioso.

De acordo com esses parâmetros, não posso ser considerado um escritor. Nem mesmo um escritor medíocre. Mas acredito que há algo a me aproximar da literatura nas prosaicas reflexões que escrevo aqui no blog. Afinal, como um autor de verdade, passei os últimos dois anos reescrevendo textos que, com raras exceções, abordam invariavelmente os mesmos assuntos. Textos que ultimamente andam mais escassos, como se houvesse esgotado todo o meu estoque de obsessões. O problema é que minhas obsessões não são muitas, e nos últimos meses tenho falado demais sobre coisas de menos. Desde que criei este blog, ele vem reverberando o que sinto necessidade de exprimir: sejam flechadas no calcanhar ou pequenos nós de marinheiro que insistem em permanecer na garganta. Afinal, à maneira de Sylvia Plath, também sou habitado por gritos. É como se retirasse fardos do ombro e os colocasse na tela, na forma de palavras. O chato é que esses fardos possuem muita semelhança entre si, e há, obviamente, um limite de palavras para descrevê-los.

De que adianta repetir os mesmos argumentos, revelar os mesmos temores, manifestar as mesmas desilusões, num leitmotiv prolixo e enfadonho? Como compreender o mundo se quanto mais escrevo, menos racional ele se mostra para mim? Mais do que cansar os meus poucos leitores, temo cansar a mim mesmo com discursos tolos, que apenas expõem a ferida, mas não oferecem o tratamento para que ela cicatrize. Bem, adianto que não vou deixar de escrever, abandonar o blog à míngua. Mas existem momentos em que não encontro forças para falar de novo sobre o que considero injusto, absurdo, incompreensível ou mesmo maravilhoso. Certas coisas me calam, como aquele massacre em Realengo. O que teria a acrescentar, como poderia conferir ordem a um caos tão avassalador?

Certa vez, numa entrevista, o escritor angolano José Eduardo Agualusa me disse que, segundo um preceito budista, o mundo evolui em forma de espiral: você recua, mas vai subindo sempre. Talvez eu esteja vivendo um período de recuo, um pequeno momento de recolhimento antes de voltar ao front. Não sei, tudo isso me faz lembrar aquelas conversas para boi dormir do Paulo Coelho, mas quem sabe não existe algum sentido nessa baboseira toda? Afinal, por que outro motivo estaria aqui, faltando vinte minutos para as três da manhã, escrevendo este texto enquanto Dexter Gordon sola sem freios no aparelho de som?

Em Cartas a um Jovem Poeta, Rilke aconselhou seu discípulo a investigar nos "recantos mais profundos da alma" qual o motivo que o mandava criar versos. E pediu que confessasse a si mesmo: "Morreria, se lhe fosse vedado escrever?". Não lembro agora qual foi a resposta do jovem poeta, se é que houve. No meu caso, talvez não morresse de imediato. Mas certamente morreria aos poucos, bem devagar, agonizando de sede de palavras. Daí ser tão importante estar aqui, vivo, ouvindo um latido na rua vazia e me lançando dentro da noite veloz.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Chuva forte


Hoje baixei meio que por acaso um disco de Joan Baez. Procurava uma canção de Bob Dylan chamada Farewell, que não ouço há pelo menos uns 15 anos. Não encontrei. Mas achei um disco de mesmo nome, gravado por sua namorada lá nos paleolíticos anos 60. E o escuto agora pela segunda vez seguida, neste fim de noite que encerra um dia triste. Não deve existir nada mais fora de moda do que ouvir Joan Baez em abril de 2011, assim como não há nada mais fora de moda do que defender a dignidade do ser humano ou o anseio por um mundo menos desigual, como ela defendia quando gravou o disco. Devo ser um indivíduo extemporâneo, de princípios arcaicos, incapaz de me adequar aos valores e sonoridades do meu tempo, pois adorei ouvir de novo aquela voz cheia de vibrato e idealismo que só a garganta de Baez é - ou era - capaz de produzir.

Enquanto bebo um vinho siciliano na escuridão da varanda, ouço o disco com um prazer mudo. Até o momento em que ela chega à última canção, aquela que talvez seja a que mais me comova entre todas as canções de Dylan. Ele escreveu A Hard Rain's a-gonna Fall em 1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, que quase provocou a terceira guerra mundial e o fim de tudo isso que conhecemos e a que nos agarramos como náufragos. Tinha 22 anos. Voltei a prestar atenção na letra, como faço desde que me deparei pela primeira vez com a canção, num disco de vinil gravado ao vivo não sei mais onde (depois ganhei de uma amiga em CD o clássico The Freewheelin' Bob Dylan e pude ouvir a gravação original).

Está tudo lá. Toda nossa dor está lá. O massacre de Realengo está lá. Os massacres de Columbine e Beslan também estão, assim como os terremotos do Japão ou do Haiti ou os bombardeios contra civis que viraram regra em nosso tempo. Dylan escreveu uma canção definitiva, apocalíptica. Peguei na minha estante um velho volume com suas letras traduzidas e na introdução do livro o editor reproduz um depoimento do poeta: "É uma canção de desespero. Cada verso dela é realmente o começo de uma nova canção. Mas quando a escrevi, pensei que não ia viver tempo suficiente para fazer essas canções e portanto pus nessa tudo que pude".

Já escrevi poemas igualmente desesperados aos 22 anos, um período particularmente difícil da minha vida. Mas não levado por uma avalanche poética como Dylan. Como ele conseguiu? Ouço neste momento Joan Baez cantá-la. Um mantra terrível, com versos como "Vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças" ou "Ouvi o rugir de uma onda que podia engolir o mundo inteiro" ou ainda "Eu ouvi uma pessoa morrendo de fome, eu ouvi muitas pessoas rindo". Baez canta esses versos com uma dor que comove, e em nenhum momento acalenta. Ela nos arremessa contra nossos próprios medos sem qualquer expectativa de redenção. E nos deixa sós, na noite alta, à espera de mais tragédias absurdas, suportando o nosso vazio sem voz, o nosso desencanto tolo e sem sentido.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um dia




Quando estou muito triste é como se o ar fosse sólido. Como se eu tentasse aspirar concreto. Os pulmões se retraem e os demais órgãos acusam o golpe, trabalhando em dobro. Há uma ferida aqui dentro, oculta não sei exatamente em que ponto da minha anatomia. Talvez tenha início do lado esquerdo da face, que é onde noto sua presença, mas sua extensão e sua profundidade me são desconhecidas. Vontade de ir. De levar quem eu gosto para longe do meu próprio sofrimento. E há o cansaço, pleno e vaporoso, ocupando todos os espaços. Hoje, a dor alheia se junta à minha. Um dia ruim, fechado em si mesmo, refratário a qualquer espécie de alívio.

sábado, 2 de abril de 2011

Trocando em miúdos


Um estudo recente, realizado pela Universidade de Michigan, parece endossar o que mentes feridas mundo afora já sabiam há muito tempo, mas não tinham como provar: sofrer uma rejeição social é algo tão doloroso quanto o sofrimento físico. Nesse sentido, um corte profundo no pé pode ter o mesmo efeito de uma relação encerrada subitamente. Ethan Kross, coordenador da pesquisa, afirma: “A princípio, derramar uma xícara de café quente em você mesmo ou pensar em uma pessoa com quem experimentou recentemente um rompimento inesperado parece que provoca tipos diferentes de dor, mas nosso estudo mostra que são mais semelhantes do que se pensava”. Os resultados do estudo - que serão publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences - mostram que a dor, seja ela física ou psicológica, ativa as mesmas áreas do cérebro: o córtex somatossensorial e a ínsula dorsal posterior.

Ou seja, em ambas as situações, a sensação é de um machucado, uma ferida que pode ou não ser curada com o tempo. Perder alguém dói, e muito. Pode ser o equivalente a uma xícara de café quente no nosso colo, para usar a imagem do pesquisador norte-americano, ou quem sabe até um tiro, um atropelamento, uma crise de hérnia de disco. Acho que todos nós, em algum momento da vida, passamos por isso, e o resultado é a cabeça pesada, a visão turva e um vácuo lancinante em alguma parte do tórax, além da sensação de desamparo e impotência tomando conta de nós como um manto nos cobrindo aos poucos. Já passei por isso algumas vezes (poucas, felizmente), e posso dizer: é quase insuportável. É como se toda a imagem que cultivamos de nós mesmos repentinamente se transformasse num borrão, numa caricatura que ressalta o que temos de mais grotesco. Viramos um arremedo de nós mesmos, pequenos monstros de argila amorfos e sem vida, a procurar um sentido para o espaço vazio deixado no guarda-roupa ou a ligação jamais atendida. Dá um trabalho danado reconstruir o que fomos, embora a cicatriz em algum ponto do nosso córtex somatossensorial continue coçando de vez em quando. Cura? Sinceramente, não sei se existe. Prosseguimos, e é o que interessa.

Quem dera as relações amorosas fossem idílicas, solares e uniformes como nos comerciais de lançamentos imobiliários. Um sorriso, um abraço e os filhos correndo pelo gramado. O que há na verdade é uma negociação constante, uma permuta na qual um ou outro lado sai ganhando. Enquanto há um equilíbrio nesse escambo de sentimentos e aspirações, vamos levando. Quando não há, cada um segue o seu caminho - carregando a reboque eventuais filhos, partilhas na justiça e pensões alimentícias - e tudo bem. São as sobras de tudo que chamam lar, como diriam Chico e Francis. O problema é quando não fica tudo bem. Já presenciei amigos e amigas literalmente desmoronarem, enveredando pelo labirinto da própria rejeição e se alimentando dela para sobreviver. Como se arrancassem o cascão de uma ferida para mantê-la viva. Gente centrada, experiente, que parecia capaz de tirar de letra um pontapé na bunda e partir para outra. O fato é que, voltando à letra de Chico e Francis, não deveríamos cobrar pelo estrago alheio. Mas o que fazer com o peito tão dilacerado?

A pesquisa também, de certa forma, nos faz entender - embora jamais justifique - o que deve sentir quem comete um crime passional. É a lógica da legítima defesa: você está me machucando cada vez mais, então preciso revidar. É óbvio que se trata de um raciocínio enviesado, obtuso, mas não deixa de fazer sentido. Você está matando não o objeto do seu amor, mas sim a fonte do seu sofrimento. Mas aí entra um raciocínio inverso, que vai além das consequências legais: matando a pessoa que ama, quem fica no lugar dela? Como ocupar o vazio duplamente inserido lá na ínsula dorsal posterior? É um labirinto sem saída. O que me assombra em tudo isso é a frequência cada vez maior de crimes passionais, e a forma cada vez mais brutal com que são cometidos. Há, nitidamente, um processo de desintegração social, que permite a qualquer um fazer sua justiça com as próprias mãos. Quando matar se torna uma solução - sob qualquer aspecto - é porque estamos falidos como sociedade. E não há amor no mundo que justifique um ato tão extremo.

sábado, 26 de março de 2011

A ruína das nossas convicções



Fitzgerald escreveu que aos 45 anos nossas convicções são cavernas em que nos escondemos. Não falta muito para chegar lá, mas prefiro enxergar minhas convicções como colinas de onde contemplo o horizonte, para usar a mesma analogia de Scott ao se referir à visão de mundo que temos aos 18 anos. Afinal, não gosto de opiniões cristalizadas. São como fósseis que permanecem milênios imersos no esquecimento, à espera de um arqueólogo que revele seus segredos, se é que realmente há algum segredo a ser revelado.

Escrevo isso porque tinha uma opinião sedimentada sobre a intervenção das forças da ONU na Líbia, onde o ditador Muammar Gaddafi está massacrando uma insurgência que luta pelo fim do seu regime, em vigor desde antes do meu nascimento. Gaddafi não só mata rebeldes. Mata civis também. Daí ser difícil aceitar, sob qualquer justificativa, o sacrifício de homens, mulheres e crianças em nome de uma causa maior, a tal história com H maiúsculo que aprendemos no segundo grau, mas que nunca compreendemos em sua totalidade. Penso – continuo pensando – que as Nações Unidas tomaram a decisão certa ao intervir no país e bombardear a força militar de Gaddafi. Desde, é claro, que os mesmos civis não acabem virando alvos das bombas (um desejo ingênuo, reconheço).

O fato é que o mundo real não comporta maniqueísmos. Como diria Belchior, a vida realmente é diferente, quer dizer: a vida é muito pior. Impossível enxergar vilões ou mocinhos nesse terreno pantanoso no qual se movem grandes potências, repúblicas de bananas e, no meio do bombardeio, nós, os elementos anônimos dessa história cheia de som e fúria e sem sentido algum. Tenho lido nas redes sociais críticas à intervenção na Líbia. Mas elas estão impregnadas de uma retórica fossilizada, dogmática, que põe a culpa invariavelmente “no império norte-americano”, reavivando todo esse blá-blá-blá esquerdista que todos sabemos no que deu. Mas aí vem Luis Fernando Verissimo – também ele um esquerdista convicto, mas não um esquerdista míope – escrever sobre o asssunto, só que utilizando argumentos, contextualização histórica e, claro, um poder de persuasão que apenas os grandes escritores possuem. Com sua lucidez e sensibilidade, Verissimo deixa entrever a capacidade que nós, seres humanos, temos de aprender, acumular informação e formar aos poucos uma massa crítica. Tudo depende dos mestres que escolhemos.

Em sua coluna na última quinta-feira, ele afirmou: “Tudo se repete na Líbia, a começar pela hipocrisia da indignação seletiva: alguns tiranos antes tolerados, quando não abertamente apoiados como o Saddam, passam a ser inaceitáveis e atacáveis enquanto o porrete poupa outros, que ainda servem. Depois virão as baixas civis denunciadas por um lado e negadas pelo outro, as fotos de crianças mutiladas, as discussões sobre a eficiência ou não dos ataques aéreos "cirúrgicos", etc. E teremos mais um exemplo dessa contribuição moderna às táticas de guerra, a estranha doutrina do bombardeio humanitário”.

A questão levantada por Verissimo, acima de todas as outras, é: Gaddafi não teria durado tanto (e não sabemos o quanto ainda vai durar) se não tivesse sido poupado por tanto tempo pelos mesmos países que hoje condenam sua conduta e investem contra ela. É a tal da indignação seletiva. Agora que virou apenas um tipo exótico e meio desvairado, o ditador líbio torna-se descartável, enquanto outros tipos semelhantes permanecem à sombra, fazendo das suas na Arábia Saudita, no Zimbábue, na Guiné Equatorial, no Sudão, no Uzbequistão ou em qualquer outra nação tiranizada por figuras desprezíveis. Essa carapuça cabe também na cabeça dos órfãos do marxismo-leninismo, que não veem problema na permanência de revolucionários vitalícios como Fidel Castro e Kim Jong-Il.

Mas, dito tudo isso, o que fazer? Que medida tomar quando não há mais negociações viáveis e os mortos começam a se decompor em larga escala no território alheio? Não intervir? Deixar a população líbia ser exterminada por seu próprio líder? A história recente ensina que a omissão em muitos casos resultou em tragédias até mais devastadoras do que os “bombardeios humanitários” na Líbia. A ONU não fez nada em Ruanda em 1994, e o que se viu foi um dos mais bárbaros genocídios da história, com quase 1 milhão de mortos. O mesmo aconteceu durante a "limpeza étnica" na Bósnia, entre 1992 e 1995, que culminou com o massacre de Srebrenica. E também em muitos outros cantos esquecidos do mundo, com a conivência dos capacetes azuis.

Gaddafi apenas não aceitou o papel de rei morto, rei posto imposto a Hosni Mubarak no Egito e a Zine al Abidine Ben Ali na Tunísia. Está descendo o sarrafo em quem ousa usurpar seu trono indigno e, ao que parece, só pretende sair morto de lá. Que saia. Mas, enquanto Verissimo se foi para mais uma coluna dominical, eu fiquei com a incômoda sensação de que há uma pulga se refestelando atrás da minha orelha. E com a constatação de que o mundo contemporâneo é muito mais complexo do que nos velhos tempos de polarização entre direita e esquerda, capitalismo e comunismo, democracia e ditadura do proletariado.

terça-feira, 15 de março de 2011

Selvagem?


Desde que desceu das árvores, o homem vem percorrendo um caminho que o leva cada vez mais para longe de sua própria origem selvagem. É possível que lá atrás, enquanto se refugiava numa caverna para se abrigar do frio e da escuridão, um homem de Neandertal tenha vislumbrado, ali em frente ao fogo, um futuro melhor para seus tataranetos. Quem sabe até pensou num apartamento confortável, com aquecedor central e cama king size, num prédio com segurança 24 horas, imune a invasores – pelo menos aqueles com presas e garras gigantes. De lá para cá, o homem foi tratando de transformar em realidade essa quimera, e se aglomerou em centenas, depois milhares e depois milhões e bilhões, invadindo quase todos os confins do planeta e compensando a fragilidade física com artefatos de utilidades variadas, do barbeador elétrico às armas de destruição em massa. Enfim, o fato é que chegamos lá.

Mas o curioso é que algumas pessoas escolhem justamente o caminho oposto: um improvável retorno à selva primordial de onde viemos. Em maior ou menor medida, muitos de nós sentimos uma necessidade atávica de primitivismo, de encarnar o arquétipo rousseauniano do bom selvagem, puro e incorruptível. Muitos indivíduos - escritores e artistas aí incluídos, como Thoreau e Gauguin - pregaram essa volta às origens ou a seguiram à risca, por mais complicada que seja a readaptação a um cenário que abandonamos há tanto tempo. Como reaprender a dormir numa caverna, conviver de perto com animais selvagens ou resignar-se com a escuridão absoluta sem um interruptor por perto? Como viver sem remédios para pressão alta, lojas de conveniência ou mesmo uma singela taça de vinho tinto?

Timothy Treadwell foi um desses indivíduos. Ele optou deliberadamente por ignorar os milênios de civilização acumulada em nosso DNA para conviver sem meio termo com o lado selvagem da Terra. Selvagem mesmo: ele foi parar nos confins do Alasca, território onde o homem é quase nada (e mesmo assim faz um estrago danado) e o urso pardo reina como um semideus. A trajetória de Treadwell, interrompida bruscamente, foi reconstituída em O Homem-Urso, documentário de Werner Herzog que assisti no último domingo. Um filme rico em imagens, já que o aventureiro e ativista deixou gravadas horas e mais horas de filmagens em boa qualidade, além do áudio que captou sua morte e a da namorada, atacados por um urso. Não ouvimos, felizmente, essa gravação.

Mas nem por isso O Homem-Urso deixa de ser um testemunho doloroso, movido pelos questionamentos de Herzog, que tenta a todo custo entender as motivações e escolhas de Treadwell, um sujeito meio insano que se diz apaixonado pela vida na selva e defensor dos ursos, com quem jamais desenvolve uma relação mútua de afeição. Daí o próprio Herzog refletir: “O que me assusta em todos os rostos de ursos que ele filmou é que não vejo qualquer parentesco, compreensão, nenhuma piedade. Vejo apenas a esmagadora indiferença da natureza”.

Teatral e histriônico, Treadwell mascara em parte a solidão e a dificuldade de se adaptar a condições tão extremas. Sua via-crúcis voluntária me fez lembrar a vivida pelo jovem Christopher McCandless, que serviu de inspiração para Jon Krakauer escrever o livro Na Natureza Selvagem, transposto para o cinema por Sean Penn, sobre o qual já falei por aqui. Uma busca incessante por um sentido oculto nos confins do mundo, marcada por estoicismo e auto-sacrifício. Mas para quê? Tanto Treadwell quanto McCandless esboçaram argumentos para justificar seus atos, mas o que fica de tudo aquilo quando se sabe que ambos foram embora cedo demais?

Ou talvez não. Treadwell parecia ansiar a morte, sobretudo uma morte violenta, como se ela purgasse o seu desnorteio. Já para McCandless, como escrevi no texto anterior, “morrer solitário no Alasca não era o epílogo esperado por quem sorveu sem meias-medidas o legado dos seus antecessores?”. Tanto um quanto o outro viveram situações-limite por convicção, e não involuntariamente, em função de um acidente de percurso, como o garotão narcisista de 127 Horas ou o Robinson Crusoé moderno vivido por Tom Hanks em Náufrago. Além de tudo, estes que cito agora sobreviveram, o que confere uma moral à história de suas vidas e as dignifica. A verdade de tudo isso é que eu, você ou qualquer outro que não abre mão de um cobertor quentinho no frio ou de um cineminha seguido de um jantar numa sexta-feira à noite jamais vai entender o que se passava ali, no íntimo de Treadwell e de McCandless. Uma necessidade obscura de voltar ao útero da própria espécie. De sentir o medo primordial do frio, do breu e do bafo quente do predador sempre à espreita.

***

“Enquanto observamos os animais em sua alegria de ser, em sua graça e ferocidade, fica mais claro um pensamento: isso não é apenas um vislumbre na natureza selvagem. É um olhar dentro de nós mesmos, da nossa natureza.”

Werner Herzog, em O Homem-Urso 

domingo, 13 de março de 2011

Quadro-negro


Há pouco mais de 10 anos, escrevi para o jornal em que trabalhava uma resenha sobre um livro de fotografias de Robert Capa, o homem que captou como ninguém os grandes conflitos do século 20. E comecei o texto citando o retrato de uma menina num campo de refugiados durante a Guerra Civil Espanhola. Sua expressão de alheamento contrastava com a realidade que vivenciava naquele momento: ela e sua família fugiam dos bombardeios do exército franquista, que já havia matado vários civis naquele 15 de janeiro de 1939. Era a grande história se sobrepondo às pequenas coisas da vida. Mas, como escrevi, o que mais me comoveu foi o caráter anônimo daquela garota eternizada por Capa: "Quem é essa menina? Ela sobreviveu à Guerra Civil Espanhola? Ela ainda é viva?" Fiz e ainda me faço esses questionamentos, pois existe algo nas grandes tragédias que sempre me emociona: o drama vivenciado por cada indivíduo arrastado pela correnteza de uma guerra ou de um terremoto.

Mas talvez seja mais do que isso. Se, entre centenas de fotos espetaculares de guerra, eu foquei minha atenção no sofrimento particular de uma única garota é porque involuntariamente eu tento, 80 anos depois, resgatá-la do oblívio. O século 20 - e o novo século parece ir pelo mesmo caminho - foi pródigo em devastar populações inteiras, fazendo com que os sobreviventes precisassem peregrinar rumo a um improvável novo Éden, perdendo pelo caminho um pai, uma filha ou nacos significativos de dignidade. Mas, e quanto àqueles que não completaram o percurso? Os adultos, velhos e crianças com pequenos universos dentro deles? Onde foram parar esses mundos? Num terremoto como o do Haiti, por exemplo, quantas existências não foram violentamente suprimidas, como palavras escritas com giz que um professor apaga para substituir por outras? Para cada relato de um ser humano salvo dos escombros existem centenas de outros soterrados em definitivo no quadro-negro da história.

Milhões de nós passam pela vida e se despedem dela sem que essa passagem seja sequer registrada, impressa em papel fotográfico, como a garota da foto de Capa. São borrões, como aqueles seres sem rosto que vemos de relance quando passam por um trem de metrô em caminho inverso ao que estamos indo. Lembro agora do final de O Rei de Havana, quando Pedro Juan Gutierrez relata a agonia final do seu personagem: "O cadáver se corrompeu em poucas horas. Chegaram os urubus. E o devoraram pouco a pouco. O festim durou quatro dias. Foi devorado lentamente. Quanto mais apodrecia, mais gostavam daquela carniça. E ninguém jamais ficou sabendo de nada". Sim, ninguém ficou sabendo de nada. Por um tempo, é possível que parentes ou amigos lembrem daquela pessoa, e até se perguntem por onde ela anda. Mas depois a própria lembrança se evapora.

Nesse sentido, a fotografia é uma invenção revolucionária. Porque, se nossa memória não é preservada, ao menos nossa imagem é. Não sei se isso serve de consolo, mas não deixa de ser um registro, uma pequena nódoa, de que um dia estivemos por aqui, e que um dia pensamos, sorrimos, choramos, amamos. Isso não é pouco. Outro dia recebi por e-mail imagens belíssimas, tiradas entre 1909 e 1912 pelo fotógrafo Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii, de habitantes de pequenos povoados russos. São fotos coloridas de altíssima qualidade. É como se, ao olhar para elas, olhássemos para nós mesmos. Os tipos físicos e as vestimentas são diferentes, a arquitetura também, mas algo nos aproxima, como se passado e presente não estivessem cindidos por 100 anos de história. Mas vale lembrar que nesse intervalo, a humanidade presenciou a Revolução Russa, as duas grandes guerras, o Holocausto. O que dirão, então, os futuros inquilinos do planeta ao contemplar nossas fotos nas redes sociais, sorrindo como se flertássemos com a eternidade? Certamente vão sorrir também, e pensar: "Eles não sabiam de nada".

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Poupamos no essencial


Em Pedaço de Mim, Chico Buarque define a saudade como o revés de um parto. Pior do que o esquecimento, pior do que se entrevar. Nela, o compositor fala da mais devastadora de todas as formas de saudade: a do filho perdido. A minha é mais comum, já que diretamente ligada ao curso natural da vida, esse rio caudaloso que nos leva a lugar nenhum e mesmo assim fazemos questão de continuar navegando nele. É como se sentir manco, talvez. A consciência ininterrupta de que está faltando algo. Em vários momentos da minha vida eu me vi às voltas com essa forma de desamparo. Uma sensação muitas vezes imperceptível, mas que se tornou palpável a partir de 2003, quando meu pai morreu. Mesmo tendo passado dos 40 anos, ainda me defronto com um vácuo infantil, algo até certo ponto habitual entre os que perdem as pessoas que amam. Afinal, não existe limite máximo de idade para o sentimento de perda, muito menos o de orfandade. Somerset Maugham, de quem estou lendo as Confissões, conviveu por oito décadas com esse sentimento, e quando morreu, aos 91 anos, tinha ao seu lado a foto da mãe, que perdera aos oito.

Meu pai era um lastro, uma âncora, embora não num sentido clássico. Foi ele quem me direcionou, ainda jovem, para os prazeres da leitura e do cinema. Lembro bem do dia em que me falou de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Eu devia ter uns 11 anos, e estávamos subindo a escada para chegar ao nosso apartamento. Aquele nome (que de imediato associei a uma fantasia de Julio Verne ou coisa do tipo) ficou encerrado como um pequeno tesouro que eu deveria descobrir mais tarde – ele apenas me deu o mapa. Não sei nem se meu pai leu esse livro, é possível que não. Mas ele estava ali para citá-lo, para me mostrar que a grande literatura não era feita, digamos, de um Harold Robbins. Também me ensinou a gostar dos filmes de Paul Newman, a amar o Flamengo e, mais tarde, a perceber que o vinho era muito mais do que uma bebida, e sim um amigo engarrafado, como diria Vinicius.

Acho que uma parte de mim ainda não se deu conta da perda de meu pai. É como se o inconsciente cobrasse a sua presença no meu cotidiano. Talvez por isso, sonhe com ele com alguma freqüência. Da última vez, foi um sonho ruim: recebia a notícia de que ele tinha se jogado de um avião em pleno vôo. Acordei com um gosto amargo e um certo alívio. Outros foram mais agradáveis. Num deles, jogávamos bola numa praia à noite. Uma praia estranha, precariamente iluminada por postes na rua, que ficava num porto ou algo parecido, com a água muito parada, a faixa de areia estreita e um muro na parte de cima. Eu era ainda criança, e minha mãe esperava sentada nos observando. Já o capítulo que deu origem à série provocou em mim sentimentos ambíguos: descia a escada que levava ao village de veraneio que nós tínhamos e minha mãe me recebeu dizendo: “Olha quem está aqui”. Então olhei para o lado e vi meu pai sentado numa cadeira. Ele me olhou e tentou falar, mas sua boca não se abria, e seus olhos deixaram entrever uma angústia enorme. 

Nossa relação, quase sempre sem sobressaltos, foi marcada mais por silêncios que por colóquios. Passávamos horas um ao lado do outro trocando pouco mais do que meia dúzia de palavras, bebendo e observando a noite. Seu silêncio escondia um ensimesmamento, uma busca de tranqüilidade através da introspecção que acabei herdando. Enfim, era um silêncio que me acalentava, como um sopro numa ferida. Gostaria de ter dito tudo isso a meu pai, mas o meu próprio silêncio também era abissal. Uma vez, quando ele já estava doente, demos um passeio pela Cidade Baixa e paramos no Bonfim. Minha mãe entrou na igreja com minha mulher e minha filha e nós ficamos lá fora, encostados na balaustrada observando a vista. Sabia que não o teria por muito mais tempo, e pensei em dizer alguma coisa. Mas não consegui e ficamos conversando amenidades. Poupamos no essencial, como no poema de Brecht. A forma de me redimir é escrever textos como este, entre muitos outros que já escrevi sobre ele. Afinal, como disse o dramaturgo Mario Viana, nossa eternidade tem a duração da memória de quem nos ama.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Beleza roubada


Hoje pela manhã caminhei na orla, no trecho que vai do Jardim de Alá até a Boca do Rio. E passei pelas ruínas do antigo Aeroclube, que para quem não conhece era uma galeria a céu aberto à beira-mar, com lojas, cinema, restaurantes, livraria, lanchonetes e parques infantis. Um lugar agradável, aonde costumava levar minha filha para passear, tomar um sorvete e observar as ondas. Por conta de problemas judiciais que paralisaram uma possível reforma do local, hoje existe apenas a carcaça das antigas edificações, como naqueles filmes em que os personagens voltam a um lugar da sua mocidade e encontram apenas o espectro de um lugar que não existe além da sua memória, por mais que a construção em si esteja ainda de pé. Mais do que impressionado, fiquei triste com a destruição de mais um ponto de lazer e encontros na cidade onde moro.

E então me dei conta do quanto o Aeroclube representa uma espécie de microcosmo do que ocorre hoje com a própria Salvador, uma cidade que agoniza a céu aberto. Há 20 anos, mais ou menos, Salvador era bonita, aconchegante e boa de se viver, para onde vinham turistas do Brasil e do exterior, num clima de festa móvel que durava mais do que um verão. Tudo isso acabou, evidentemente, embora alguns incautos ainda venham para cá acreditando que estão desembarcando em Cancún ou Punta del Este, quando na verdade estão chegando a uma versão edulcorada de Porto Príncipe. Existe muita beleza ainda, obviamente, como pude perceber num passeio de barco pela Baía de Todos os Santos na semana passada. Mas é uma beleza roubada, agredida pela violência desmedida e por gestões incompetentes em sequência. O fato é que, ao se fazer uma ligeira retrospectiva mental da nossa história recente, é possível perceber os sinais de decadência que desaguariam no ambiente de guerra civil não-declarada em que vivemos.

Salvador nunca teve um projeto de cidade, assim como durante muitos anos o Brasil não teve um projeto de país. Fomos e somos governados invariavelmente por indivíduos ineptos ou corruptos – ou as duas coisas ao mesmo tempo. Nunca se procurou mitigar a nossa desigualdade social brutal, o nosso crescimento sem trégua e a nossa tendência ao descumprimento das leis e costumes morais mais básicos. A cidade onde vivi na infância, na juventude, ou mesmo aquela que conheci há menos de dez anos, quando ia ao Aeroclube passear com minha filha, se tornou um campo de batalha diário, no trânsito, nos bares ou nas ruas. Há muita gente andando armada, e há outros tantos dispostos a brigar por motivos os mais esdrúxulos.

A cidade com a maior população negra fora da África é também a que mata mais negros. Basta olhar as manchetes dos jornais para se deparar com notícias como “Jovem de 16 anos é assassinado no bairro de Pau da Lima” ou “Adolescente de 17 anos é baleado no peito em Cajazeiras VIII”. É um extermínio diário, motivado por disputas de pontos de tráfico (uma metástase que se espalha pelos bairros pobres), dívidas contraídas pelo consumo de crack, brigas fúteis ou apenas pela má sorte de se estar no lugar errado na hora errada. E cada vez mais esse extermínio silencioso respinga na classe média, que por muitos anos ignorou o problema e agora se vê sem saída, porque o problema deixou os guetos e desceu para as avenidas de vale que cortam a cidade e exibem as vísceras de sua miséria.

Não é à toa que o número de assassinatos em Salvador cresceu 70% nos últimos dez anos. Isso é palpável. Assim como é palpável a sensação de que não existe qualquer projeto mais amplo sendo pensado para reverter esse quadro. São apenas ações pontuais, tomadas quando a coisa aperta e a opinião pública começa a bradar. Até mesmo na condição de cidade com enorme potencial turístico, Salvador está ficando para trás. Quem vai a Recife ou Fortaleza – para citar outras duas grandes capitais nordestinas – percebe um rumo, um zelo, por mínimo que seja. Enquanto isso, caminhamos para a formação de estados paralelos, num cenário que se aproxima em muito do Rio de Janeiro das últimas décadas, onde a corrupção endêmica desafia qualquer noção de progresso. Somos um balneário decadente, como Acapulco ou Havana, no qual os turistas são entregues a ambulantes insistentes, motoristas de táxi ou de vans mal intencionados e trombadinhas sempre à espreita. Enquanto uma população com educação formal precária se entrega a um hedonismo desenfreado, traduzido num cenário cultural paupérrimo que louva a nossa sexualidade exacerbada em números musicais patéticos, consumidos com avidez tanto pela plebe como pela elite.

É duro constatar tudo isso. Perceber que a cidade em que nasci atingiu a derrocada sem ter passado pelo apogeu. Afinal, não tivemos por aqui uma era do jazz como a Nova York dos anos 20, nem nos tornamos um paraíso permissivo como a Paris dos anos 30 ou uma capital musical, linda e cálida como o Rio dos anos 50. Gosto de Salvador, da sua gastronomia singular, da sua luz, do vento que sopra do mar e me atinge agora, nesta noite de verão. Gosto da sua devassidão, do seu jeito descompromissado, da beleza extraordinária que se descortina quando passo pela Barra, pela Contorno, pela Ribeira. Mas a cada dia sou tomado pela perplexidade diante de um cenário que me assusta. Nossa cordialidade inata está sendo substituída por um individualismo atroz, e isso se reflete na cidade que vemos: suja, descuidada, brutalizada, pronta para virar geléia.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Obviedade mórbida


Nunca o sedentarismo foi tão combatido e desprezado como nos dias de hoje. Abdicar de fazer exercícios físicos regularmente, seja em casa, na praia ou numa academia, representa não apenas um descuido com a própria saúde, mas também uma forma deliberada de ficar de fora de boa parte das rodas sociais contemporâneas. Há um preconceito, de certa forma velado, contra os barrigudos (no caso dos homens) ou contra as portadoras de celulite, culotes e afins (no caso das mulheres). Enfim, cultua-se o corpo apolíneo, a musculatura bem torneada e a gostosura bem delineada como se fossem a expressão máxima da nossa evolução como espécie.

Desde que sem exageros, acho válida essa ditadura do esplendor físico. Mas, por outro lado, não deveríamos também combater o sedentarismo mental? Afinal, com o mesmo fervor com que se cultua o físico também se cultua a mediocridade. Estamos nos tornando mentalmente preguiçosos. Cada vez mais os encontros sociais, sejam eles reais ou virtuais, são pautados por platitudes e manifestações explícitas de preconceitos, seguidas invariavelmente de expressões como “exato”, “com certeza”, “é verdade” ou qualquer outro clichê que endosse o que está sendo dito sem que se necessite acrescentar uma opinião própria. Apoia-se o descalabro pela preguiça do embate. Padecemos de uma espécie de obviedade mórbida, que pode se manifestar no besteirol interativo da TV aberta, nos 140 caracteres do Twitter, em comentários sem pé nem cabeça no Facebook ou em qualquer outro canto onde alguém resolva exprimir sua opinião sem sequer pensar a fundo sobre o que está falando ou escrevendo.

Em seu blog Herdando uma Biblioteca, o escritor paranaense Miguel Sanches Neto aborda o assunto com perspicácia: “Precisamos de algumas frases feitas para manter uma conversa em situações de banalidade ou de formalidade. É isso que se espera de uma pessoa que vive no meio das outras: que ela possa reverenciar as convenções. O indivíduo, por exemplo, não acredita na mística do ano novo, mas deseja um bom ano para amigos ou meramente conhecidos. Neste momento, não é ele que está falando, mas a própria linguagem que funciona sozinha. Essas frases são acionadas nas ocasiões as mais diversas: para consolar pessoas, concluir um assunto, refletir sobre acontecimentos. Há quem as use com moderação, mas outros falam apenas por meio desses clichês. Por mais que se policie, ninguém está, no entanto, a salvo deles. Por trás de cada frase há um conceito sobre as coisas, sobre a própria vida. Então, ao repetir um desses chavões, nós estamos vendendo determinada visão do mundo, que talvez não seja nem a nossa, mas que passamos adiante como a expressão de uma verdade, de uma tendência, de uma ideologia”.

Sanches Neto toca num ponto crucial: estamos passando para a frente uma visão de mundo que sequer foi concebida por nossa própria mente, mas que endossamos meio que por letargia. Afinal, para forjar uma opinião consistente é preciso exercitar-se, pôr a musculatura dos neurônios para pegar peso, e não apenas entrincheirar-se em lugares-comuns ou frases feitas. Tudo é derivativo. Ou, como diria Chacrinha, “nada se cria, tudo se copia”. Hoje, enquanto almoçava num restaurante, via de relance pela televisão ligada – mas felizmente sem som – um programa de auditório, no qual o apresentador conversava com tipos oriundos de um reality show. E pensei comigo: para milhões de pessoas espalhadas pelo Brasil , aquele sujeito é a fonte primordial de informação a que têm acesso naquele momento, e de certa forma ele e os demais que participam daquele circo involuntário representam uma espécie de reserva moral da nossa sociedade, de exemplos a serem seguidos, da personificação do nosso ideal, por mais absurdo que isso possa parecer. Havia ali algo tão mecânico, tão artificial em sua busca pela atenção do telespectador, que eu me senti constrangido e tratei de prestar atenção ao meu prato.

Recentemente, o jornalista Daniel Piza falou em seu blog sobre a ausência de critérios no julgamento de uma obra de arte por parte do público, mesmo louvando a democratização da informação: “Se o espaço para a informação e o debate aumentou com a multiplicação da mídia, aumentou em proporção bem maior para o palpite e o preconceito. Nos assuntos culturais, em especial, desconfio sempre de quem faz distinções nítidas entre amador e profissional, até porque às vezes o profissional tem um olhar tão viciado e pedante que se afasta do espírito da obra de arte; mas interpretá-la sem esforço de compreensão e sem fundamento na opinião só nos vai deixar menos livres. Mesmo a resenha que tem certo número de linhas anda parecida demais com as estrelinhas dadas nos guias, os achismos lançados em twitters, o ‘curti’ ou ‘não curti’ das redes sociais. O crítico precisa conhecer técnica e história para primeiro entender o que o artista quis fazer e depois dizer se gostou ou não”. Piza decifrou a senha: ficamos menos livres quando pensamos menos. Ou seja: é preciso refletir, gastar neurônios como se gasta a sola de um tênis durante uma corrida de três quilômetros. Uma coisa não exclui a outra, é bom que se diga. Tanto o exercício físico quanto o mental são fundamentais para que nos tornemos pessoas saudáveis, em todos os sentidos. Nada mais nada menos do que aquela velha frase dos tempos de escola: “Mens sana in corpore sano”. Enfim, mais um clichê.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Odisséia


Outro dia,  enquanto cortava o cabelo num salão e folheava uma edição antiga da revista Veja, eu li uma matéria sobre os preparativos que estão sendo feitos para a primeira viagem tripulada a Marte. E descobri que um grupo de cientistas cogita um projeto à primeira vista descabido, mas que após alguns minutos de reflexão se revelou plausível: como a viagem de ida ao planeta mais próximo da Terra duraria em torno de cinco meses e a volta é ainda uma incógnita, eles defendem que os astronautas poderiam ser os primeiros colonizadores de Marte e, caso concordassem, ficariam lá para sempre.

Sim, passariam o resto de suas vidas naquele ambiente ameaçador de ar irrespirável, com aquela paisagem monótona de pedras e céu avermelhado. Não veriam mais o lugar em que nasceram. Não apenas o bairro ou a cidade, mas também o país, o continente e, por fim, o planeta. Não veriam mais os oceanos, o céu azul, o verde, os animais, a família, os amigos. Dariam as costas para tudo isso para cravarem seus nomes no célebre panteão dos grandes desbravadores. Foi aí, quando o autor do texto fez essa comparação entre esses astronautas e os navegadores do passado, que me dei conta de que toda essa odisséia no espaço pode sim se concretizar. Afinal, já existem precedentes na história da civilização.

Numa época em que acessamos qualquer lugar do mundo com o auxílio do Google Earth, não é fácil imaginar o que representaram para a humanidade as grandes navegações. Muitos homens se lançaram no oceano numa época em que existia apenas a Europa e uma parte da Ásia e da África. Do lado de lá do ponto mais avançado do continente – o Cabo da Roca, em Portugal – enxergava-se apenas o infinito. E ele era apavorante. Américo Vespúcio  chegou à América e seu nome batizou o novo mundo, mas ele imaginou que se tratava do continente asiático. Ou seja: ignorava a existência de toda aquela extensão de terra que vai da Groelândia à Terra do Fogo e, por trás dela, o maior dos oceanos, o Pacífico. Enfim, havia mais coisas entre a Europa e o resto do mundo do que supunha nossa vã filosofia. 

Quando criança, li com avidez um livrinho que contava a saga do navegador Fernão de Magalhães, cuja esquadra foi a primeira a dar a volta ao mundo. Partiram mais de 500 homens em cinco naus. Voltaram pouco mais de 30, se a memória não me falha, amontoados, doentes e famintos na menor de todas as caravelas. Magalhães ficou pelo caminho, ao morrer combatendo povos indígenas que tentava subjugar em algum canto do globo. O fato é que descobrir mundos desconhecidos, lá pelos idos de 1400 ou 1500, era quase tão assustador e irreal quanto uma viagem a Marte, com a diferença de que hoje sabemos a distância exata, o trajeto a ser feito e até a paisagem que será encontrada quando desembarcarmos por lá.

Mas a idéia do exílio voluntário eterno me intriga e de certa forma me fascina. A matéria dizia que, com a brutal diferença de gravidade entre os dois planetas e a rotina estafante por lá, a expectativa de vida dos astronautas colonizadores seria de apenas 10 anos. Como alguém poderia em estado de plena lucidez tomar uma decisão como essa? A idéia, segundo os cientistas, seria criar uma colônia de humanos em Marte: eles criariam hortas, estudariam maneiras de extrair a água do subsolo e, caso tudo desse certo, procriariam. Teríamos, assim, os primeiros bebês nascidos em solo marciano – em que condições é impossível dizer. Com a passagem das décadas ou dos séculos e com a Terra exaurida, poderíamos – os mais afortunados – nos mudar para lá, deixando para trás o caos institucionalizado.

Mas… como lidar com a saudade? Penso no banzo que acometia os escravos saudosos, uma dor íntima e silenciosa por saber que nunca voltariam e teriam que seguir em frente em terra estranha, sob o jugo de gente hostil. Aos terráqueos solitários restaria apenas olhar o céu. Ali, em algum ponto do universo, repousaria uma estrela quase igual às outras, como é Marte quando a observamos daqui. É distância demais para um coração, por mais duro e impenetrável que seja. 


Todas essas especulações são apenas (ao menos por enquanto) delírio visionário. Mas foi o delírio posto em prática que permitiu à humanidade avançar – e em alguns casos retroceder. Seria, de todo modo, uma maneira de a espécie humana responder a um dos questionamentos primordiais que nós, como indivíduos, sempre nos fizemos, invariavelmente sem encontrar a resposta: para onde vamos? 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Uni, duni, tê


Alguém ainda lembra de Hermes Aquino? Quando criança, eu adorava a música Nuvem Passageira, que acredito tenha sido seu único sucesso, e me intrigava a suavidade com que ele cantava aqueles versos, como se quisesse esconder o verdadeiro significado deles. “Você não vê que a vida corre contra o tempo? Sou um castelo de areia na beira do mar”. Todos nós somos. No caso de alguns, a maré alta surpreende antes da hora e destrói o que parecia feito para durar muito mais do que uma tarde. Mario Quintana uma vez escreveu: “Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?”. A morte provoca um espanto semelhante: por mais que a presenciemos todos os dias nos jornais e nas conversas com parentes e amigos, sempre cabe o assombro, a lâmina no estômago, o desconforto mudo.

Desde o início, a maioria de nós tem consciência, ainda que fugidia, dessa condição provisória, do curto percurso que nos leva à velocidade da luz do berço à sepultura, mesmo que em alguns a fé aplaque o espanto e conduza à resignação. E nos surpreende mais ainda o caráter aleatório, que faz com que uns permaneçam até se cansarem da vida, enquanto outros se vêem privados dela antes mesmo de tateá-la inteiramente. É quase como os nazistas faziam – segundo o comovente relato de uma sobrevivente de Auschwitz ao repórter Geneton Moraes Neto –, ao decidir quem seria brindado com um banho de água corrente e quem levaria uma ducha de gás letal. Uni, duni, tê. Apenas uma imensa vastidão de acaso a nos assombrar.

Eu tinha 12 anos quando uma prima morreu, vítima de um tumor no cérebro. Até então, acreditava que os santos-anjos e pais-nossos ensinados por minha mãe seriam capazes, por si sós, de reverter o quadro, trazê-la de volta a uma vida saudável. Aos 16, já estava convertido ao ateísmo, crença que professo até hoje por falta de opção, e que só se fortalece quando leio histórias como a de Arthur Amorim Santos, definido em seu obituário na Folha de S.Paulo como “o pequeno paleontólogo”. Aos nove anos, Arthur se orgulhava de entender tudo de dinossauros. Conhecia todas as espécies e os períodos em que viveram, e chegou a escrever um livrinho sobre eles: As Aventuras de Yoshito. Morreu de um tipo raro de câncer, como um cristal bonito, que se quebra quando cai. O que dizer sobre isso, além do lamento aparvalhado? O que depreender de um fato tão cruel e ao mesmo tempo tão banal? Não é a primeira vez que escrevo sobre isso, nem será a última. A repetição funciona como um mantra obsessivo, mórbido talvez, que uso para tentar entender o vazio. Inutilmente, claro.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Novo feudalismo


Não lembro quem escreveu que a internet, ao invés de democratizar a informação e incentivar o pluralismo, está na verdade criando pequenos feudos onde as pessoas ficam entrincheiradas em suas opiniões, cada vez mais arraigadas e refratárias ao que o outro tem a dizer. Quando digo “o outro”, me refiro aos que possuem opiniões contrárias às da maioria e as expressam de algum modo, seja em artigos na imprensa, textos em blogs ou outro meio qualquer de comunicação. Não sei se é culpa da internet, mas o fato é que estamos ficando intolerantes. E essa espécie de “novo feudalismo”, na qual cada um é dono do seu quadrado e tudo que vem de fora é desqualificado sistematicamente, vem ganhando ainda mais força nos sites e blogs de política.

Ontem, li no blog do jornalista Luís Nassif uma nota afirmando que o historiador inglês Eric Hobsbawm elogiava o ex-presidente Lula, definindo-o como “o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil”, acrescentando que “no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles”. Uma bela frase vinda de um belo intelectual, humanista forjado no marxismo e na convulsão das duas guerras mundiais, que admiro profundamente desde que li A Era dos Extremos. O estranho, apenas, é que se trata de uma frase dita há dois anos, o que curiosamente não é informado no blog. Mas o que mais me chamou a atenção foi o espaço reservado aos comentários dos leitores. Quase sem exceção, eles elogiavam Hobsbawm e aproveitavam para desancar o poeta Ferreira Gullar, que no domingo passado escreveu, em sua coluna na Folha de S.Paulo, um virulento ataque ao ex-presidente. Como se uma opinião automaticamente excluísse a outra.

Tanto Hobsbawm quanto Gullar apresentam argumentos pertinentes para justificar seus elogios e críticas, respectivamente. Pode-se concordar com eles ou não, mas vale a pena ler o que têm a dizer, para o bem de uma consciência crítica plenamente formada. Foi o que acredito ter feito. Concordo em parte com Gullar, embora ache que Lula foi um dos maiores presidentes – se não o maior – que o Brasil já teve. Errou? Muito, sobretudo no primeiro mandato. E a forma demagógica com que atuou nos últimos anos é quase tão condenável quanto o apoio irrestrito a José Sarney, o descaso diante das denúncias do mensalão, a aproximação com o Irã e a recusa teimosa em reconhecer os méritos do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Essa é só uma amostra da fartura de equívocos cometidos na era Lula. Mas poderia elencar aqui uma série de virtudes do mesmo governo que fizeram desse período uma época sem precedentes, das quais o combate à exclusão social e à miséria absoluta foram as mais louváveis.

Fechar os olhos para essas contradições é agir com irresponsabilidade e desrespeito à história. E chamar um dos maiores poetas e intelectuais brasileiros de “gagá”, “fichinha” ou “representante das elites mais reacionárias do Brasil” é não aceitar a opinião do outro, por mais embasada e honesta que seja – e é, no caso de Ferreira Gullar. Mas na internet essa parece ser mesmo a regra. Os esquerdistas se entrincheiram em blogs como o de Nassif e os direitistas ficam aquartelados no portal de um Reinaldo Azevedo, por exemplo (muito embora o conceito de direita e esquerda, hoje, seja absolutamente nebuloso).

Com isso, estimulamos o sectarismo e reprimimos a capacidade primordial de pensar por conta própria, discutir e convencer ou ser convencido. Afinal, é mais fácil se esconder em comentários anônimos ou vociferar contra o oposto (quase sempre com um vocabulário simplório e raciocínios que não se completam) como se ele fosse um inimigo da verdade. Neste universo digital de compartimentos estanques, o consenso se torna a regra e quem pensa diferente que vá procurar sua turma. Afinal, a internet não é uma mesa de bar, onde pessoas de todo tipo sentam, bebem, conversam, discutem e trocam conhecimento mutuamente, enriquecendo o debate sobre as coisas que realmente importam.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Lugar nenhum


Nos extras do DVD de Desejo e Reparação, o diretor Joe Wright conta que deixou uma cena de fora da edição final do longa, argumentando que, quando a assistiu, ela não lhe pareceu suficientemente realista: três soldados ingleses caminhando pelos campos devastados da França durante a Segunda Guerra se deparam com uma perna de criança no alto de uma árvore. Apenas a perna, que se desprendera do corpo após uma bomba ter atingido a casa em que ela morava com a família. Daquela criança anônima restara apenas a perna na árvore. Vi a cena, também incluída nos extras, e ela nem me pareceu assim tão insólita, embora seja mesmo difícil transformar em imagem e movimento o que antes era apenas um bloco de palavras, nascidas da imaginação prodigiosa de Ian McEwan, autor do romance em que o filme é baseado.

McEwan imaginou uma perna no alto de uma árvore, mas a realidade muitas vezes consegue se embrenhar ainda mais fundo no território do absurdo. Hoje, vi a foto de um filhote de elefante morto no alto de uma árvore, a quatro ou cinco metros do rio que corria embaixo. Era como uma fruta estranha, pendendo dos galhos de uma floresta no Sri Lanka, onde – assim como no Brasil – as águas estão matando. Na região onde o elefante foi achado, elas subiram 5,5 metros, o que explica um animal tão pesado pendurado lá em cima quando voltaram ao nível normal. Não há ficção capaz de recriar uma imagem assim sem que o romance em questão não seja rotulado como uma obra de realismo fantástico. Trata-se de território exclusivo do absurdo, do onírico, mas ao qual de tempos em tempos a vida real se lança, deixando o mundo atordoado.

No Brasil, ao contrário, o que temos é um romance enfadonho, que se repete a cada ano com o festival de horrores habitual: casas, ruas e bairros desaparecendo em minutos e mortos aparecendo em escala semelhante à de grandes terremotos. Aqui, o nonsense tem como matérias-primas a monotonia e a reincidência. Mesmo as imagens – com algumas exceções que só confirmam a mesmice – parecem saídas do banco de dados das emissoras, num espetáculo de som e fúria que não significa nada. Contabilizamos nossos prejuízos, choramos nossos mortos, festejamos nossos sobreviventes e não identificamos nossos culpados. Nossa jornada é a dos errantes, que esquecem o passado para tentar prosseguir. Calando a dor, escondendo as lágrimas e caminhando inapelavelmente rumo a lugar nenhum. 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O princípio do terremoto


Há algum tempo já era possível perceber que o debate político nos Estados Unidos equilibrava-se de forma perigosa sobre placas tectônicas movediças – e que em algum momento o terremoto seria inevitável. Pois ele (ou sua primeira manifestação) aconteceu no último sábado, em Tucson, no Arizona. Um sujeito com nebulosas motivações políticas matou seis pessoas e feriu outras 14, incluindo a deputada democrata Gabrielle Giffords, uma das mais ativas representantes do Partido Democrata no Congresso americano, que permanece em estado gravíssimo. Atentados como esse ocorrem vez por outra nos Estados Unidos, país que tem entre seus pilares o belicismo atávico e o respeito sagrado às liberdades individuais – até mesmo para comprar uma pistola automática no supermercado da esquina.

Mas há algo de diferente neste caso em relação ao massacre de Columbine, por exemplo. Estamos diante da personificação, na prática, da retórica extremista do Tea Party, o movimento da extrema direita capitaneado, entre outros, por Sarah Palin, ex-senadora e candidata derrotada ao cargo de vice-presidente. Uma retórica que insufla preconceitos e reverbera ao máximo os já virulentos discursos do Partido Republicano e as manifestações de cunho racista contra Barack Obama. É a incapacidade de aceitar o outro, ainda mais quando esse outro mexe com conceitos arraigados, ao pregar o fim de privilégios seculares e a necessidade de se repartir o bolo entre mais convidados. É curioso que o presidente esteja sofrendo ataques verbais tão pesados por conta principalmente de um projeto tão legítimo: a reforma da saúde, que vai proporcionar o acesso a hospitais e tratamentos para gente que nunca pôde contar com ele. Gente que pertence à escória, como aquela que George W. Bush largou à própria sorte em New Orleans para morrer na passagem do furacão Katrina. Como alguém em sã consciência pode se opor a isso? Ou melhor: como uma nação em sã consciência pode ter uma oposição liderada por Sarah Palin?

Obama, de fato, não conseguiu ainda retirar o país da sua pior crise econômica desde 1929, provocada em grande parte pela incompetência do antecessor. Parece claudicar em momentos cruciais, e em outros se vê paralisado pela complexidade e extensão da presença americana em outros países, mais um legado amargo de Bush. Se por um lado conseguiu avançar nas investigações em Guantánamo e programar a retirada do Iraque, por outro seu exército ainda continua matando civis indiscriminadamente no Afeganistão. Mas, acima de tudo, Obama passa a impressão de ser um sujeito bem-intencionado e preparado para conduzir os Estados Unidos a um novo patamar, distante do belicismo estúpido e da farra de bancos e especuladores imobiliários. Além, é claro, de se dispor a elevar milhares de pessoas à categoria de cidadãos americanos.

Por tudo isso, fica ainda mais difícil compreender o que querem os ultradireitistas, que na sua cruzada moralista e fundamentalista trazem de volta o discurso do medo e da paranóia, tão caro ao fascismo. Uma cruzada contagiosa, entretanto, que pode estar criando um cenário semelhante ao dos explosivos anos 60, quando um presidente foi morto e o seu provável sucessor (e irmão) também. Um período de acirramento dos conflitos raciais, que provocou a morte dos dois mais importantes líderes negros da história americama – e que de certa forma permitiu ao país mais poderoso do mundo ter hoje um negro no poder, fato que vai muito além de puro simbolismo.

A verdade é que algo vai muito errado quando o respeito às idéias e comportamentos alheios são solapados pela intolerância e pela estupidez de maneira tão aberta e ostensiva. É possível que estejamos assistindo ao despertar de um “momento novo e assustador”, como disse o jornalista Matt Bai, do New York Times (em artigo publicado hoje na Folha de S.Paulo). Bai acrescenta: “A questão mais premente é onde tudo isso vai acabar – se vamos começar a reavaliar o tom exacerbado de nosso debate político ou se estamos mergulhando em alta velocidade em um período assustador, mais semelhante ao final dos anos 1960. Tucson ou será a tragédia que nos trará de volta da beira do abismo, ou será a primeira de uma série de recordações sinistras que ainda estão por vir.”

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

País desvelado



Gosto de rever Central do Brasil sempre que o filme passa na tevê, como fiz na semana passada. E desta vez fiquei comovido ao me deparar com uma cena da qual não lembrava – e que me fez retroceder ao meu próprio passado. Lá estava a “pedra da boca” da minha infância, agora servindo de pano de fundo para uma seqüência em que Dora e Josué viajam num pau-de-arara. A mesma montanha que eu aguardava ansiosamente para ver quando passava por Milagres, no interior baiano, indo com meus pais rumo a Santa Inês, a pequena cidade onde minha mãe nasceu. Lembro que voltava a cabeça e ficava um bom tempo contemplando pelo vidro traseiro aquele enorme maciço de pedra com uma boca imensa esculpida naturalmente em sua face. Não deu para ver, no filme, se ainda havia na boca umas letras enormes formando a palavra Tyresoles, nome de uma fábrica de pneus que não sei se ainda existe.

A “pedra da boca” era apenas um dos atrativos de uma viagem de cinco horas, muitas vezes cansativa para um garoto de sete ou oito anos, que me transportava para um universo radicalmente oposto ao que estava acostumado. Minha mente de criança absorvia tudo aquilo com fascínio e avidez: a vastidão avassaladora de céu e sertão, as pessoas e animais que eram pouco mais que borrões na margem da pista, as estradas de uma Bahia árida e empobrecida cortando vilarejos anônimos – traduções de um país que aos poucos se desvencilhava do seu passado rural e seguia firme na direção do caos urbano. Quando me tornei adolescente, e já não acompanhava meus pais rumo a Santa Inês, continuei cruzando estradas. Agora de ônibus, reproduzindo numa escala muito maior o tédio e o encanto que experimentara na infância. Horas que não acabavam, dias que se sucediam e as mais lindas auroras da minha vida. Peregrinações – solitárias ou não – por Goiás, Minas, São Paulo, Ceará, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Espírito Santo, Rio Grande do Norte, que me permitiram conhecer um Brasil indômito e incansável.

Hoje, com as passagens aéreas bem mais baratas, não há mais sentido em enfrentar 32 horas de ônibus de Salvador a São Paulo, por exemplo, se o mesmo trajeto pode ser feito em duas. Até porque as estradas se tornaram um fosso de insegurança e violência. Perdemos, por outro lado, a capacidade de conhecer verdadeiramente o país. Vamos para Nova York ou Paris e não sabemos mais o que significam nomes como Gijoca, Ipameri, São Mateus ou Curvelo, para ficar em pequenas cidades que conheci e das quais guardo boas recordações. Vivenciar a realidade do país em que nascemos é fundamental para descobrirmos as suas contradições e desigualdades – e tentarmos entender por que elas permanecem ano após ano. É algo, de certa forma, semelhante ao percurso empreendido por Dora em Central do Brasil, no qual ela não descortina apenas um novo mundo à medida que se embrenha nele. Descobre a si mesma também. O fato é que carregamos em nós este país arcaico, injusto e gigantesco, por mais que nos deslumbremos com as maravilhas do Primeiro Mundo e por mais que não nos identifiquemos com aquele povo encurvado, de pele ressequida e olhar parvo, que habita um território que não ousamos reconhecer como nosso. 

sábado, 25 de dezembro de 2010

2011


Sinto falta dos finais de tarde de minha juventude. De parar para ver o sol morrer no mar e continuar lá muito tempo depois, conversando ou contemplando. Sinto falta das noites de minha juventude. De parar para ver a lua nascer no mar e continuar lá muito tempo depois, conversando ou contemplando. A violência mudou nossos hábitos, e hoje é raro eu ficar na praia nas horas que mais aprecio, quando o sol se retira e a lua toma o seu lugar. Uma pena. Gostaria de passar mais tardes assim, livre das paredes e cortinas de um prédio empresarial ou mesmo das paredes e cortinas da minha casa. De caminhar descalço na areia com minha família, com uma sensação íntima e muda de felicidade, como às vezes faço quando deixamos Salvador e nos hospedamos numa praia distante. Talvez por isso, gostaria que 2011 me trouxesse, além dos votos de praxe – paz, felicidade, saúde, prosperidade –, um pouco mais de finais de tarde. De ver mais vezes o sol morrendo e a lua nascendo em frente ao mar. Um desejo prosaico, sem dúvida, mas talvez as melhores coisas da vida sejam mesmo as mais prosaicas.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Quero viver mais 200 anos


Hoje, na hora do almoço, estava assistindo a um programa na GloboNews que tinha como convidado um senhor bem magrinho, de aparência fragilizada, cabelos bem brancos e dentes amarelados, com uma guitarra nos braços. Quando a apresentadora conversou com ele, eu reconheci a sua voz, mas ela não correspondia à imagem que tinha na minha frente. Era Beto Guedes. Ou alguém muito diferente do Beto Guedes que conheci em shows, capas de discos e programas de tevê: um sujeito tímido, de cabelos fartos e boa estampa, autor de canções que até hoje eu adoro, como No Céu com Diamantes, Amor de Índio, Canção do Novo Mundo e muitas, muitas outras. Em seguida, ele começou a cantar uma música do pai, Godofredo, chamada justamente Cantar. Tão linda. Fiquei observando Beto Guedes cantá-la com um fio de voz, tão fraquinho e debilitado, e senti um desalento muito forte, que ia além do espanto com o seu profundo envelhecimento.

Percebi, naquele momento, o quanto eu também envelhecera nos últimos anos, e o quanto ainda vou envelhecer até chegar à idade dele, que tem 59. Doeu em mim intimamente constatar que o homem que fui aos 20 ou aos 30 também não existe, ao menos em sua totalidade. Mas... por que a juventude nos é tão necessária? Por que nos apegamos aos seus últimos sinais como um moribundo que se recusa a ceder ao último suspiro? Provavelmente porque sabemos que, como o cineasta Mario Peixoto disse um dia, quando o ponteiro de segundos do relógio avança, ele não está dizendo: mais um, mais um, mais um. E sim: menos um, menos um, menos um. É claro que já acompanhamos outras vezes, sem perceber, o envelhecimento de pessoas públicas, artistas principalmente. Até chegar o dia em que nos damos conta de que aquele eterno galã da novela das oito ou aquela grande cantora de MPB não exibem mais a forma física de outros tempos. A verdade é que eles são espelhos da nossa própria caminhada rumo à decrepitude. Estão ali para nos mostrar o caminho, como se dissessem: se nós ficamos assim mesmo com plásticas e maquiagens, imagine você.

Beto Guedes, contudo, me pareceu mais decaído do que sugeriria a sua idade. Entra aí, claro, a vida desregrada comum aos artistas: noites perdidas, álcool, farras etc. Não importa. Para mim, foi como se tivesse convivido a vida toda com a pessoa de juventude imutável dos meus 16 anos e, naquele momento, me deparasse repentinamente com o quadro que ela escondia no armário, como um improvável Dorian Gray de Montes Claros. Como artista, ele permaneceu no passado, resumindo-se a cantá-lo: Sol de Primavera, O Sal da Terra e um punhado de canções que em nossa memória vão ficar, para usar versos de sua autoria. Não se reinventou, não trilhou novos caminhos. Talvez isso contribua para que a sua performance na tevê seja ainda mais melancólica, o que é uma pena. Ou talvez o meu olhar é que esteja contaminado. Ao expor sua decadência física em público, Beto Guedes nos brinda com o que a vida tem de mais dolorosamente fascinante: a nossa incompreensão, o nosso assombro e a nossa luta vã contra o oblívio. Tempo, quero viver mais 200 anos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Correnteza


Às vezes um livro nos faz companhia por tanto tempo que não lembramos da sua existência. Durante anos ele permanece ali, sorumbático e silencioso como um cão abandonado, até que nos damos conta de que sempre esteve lá, esperando a sua vez. Durante anos, Conversa na Catedral permaneceu na minha estante, grande demais para ser ignorado, e talvez grande demais para ser levado a sério como leitura obrigatória. O título me remetia a uma tertúlia de cunho religioso, ambientada numa igreja e tendo padres ou sacristães como protagonistas. Não tinha me dado conta de que guardava em meu gabinete uma obra máxima de Mario Vargas Llosa. Afinal, essa alcunha me parecia mais apropriada a títulos como A Cidade e os Cães (que tenho aqui em sua primeira tradução, ainda com o título Batismo de Fogo), A Guerra do Fim do Mundo ou quem sabe até Tia Julia e o Escrevinhador, romance pelo qual nutro um grande carinho. Após o Prêmio Nobel concedido ao autor peruano, a curiosidade – aguçada pela leitura de O Paraíso na Outra Esquina – ganhou força quando li, nos jornais, reportagens e análises que apontavam Conversa na Catedral como sua obra-prima. Sim, aquele livro de capa verde publicado pela Arx, que conservava na estante havia pelo menos cinco anos e que nunca me dispusera a encarar.

Antes, li Pantaleão e as Visitadoras, divertido mas esquecível, desses romances que, como casos fortuitos, passam por nossa vida sem causar avalanches no nosso espírito. Então, num final de noite, tirei o calhamaço de quase 800 páginas da estante, sentei onde estou agora, e comecei a saboreá-lo. A sedução, devo confessar, foi instantânea. Em pouco mais de 40 páginas, me dei conta de que tinha sido contaminado pelo delírio silencioso. Fui me deixando levar pela vida de Santiago Zavala, o Zavalita, por suas contradições, por seus remorsos ambíguos, pela tentativa que fazia de compreender o próprio fracasso e o fracasso do seu país – no caso, o Peru dos anos 50. Avançando um pouco mais, ficou claro que Vargas Llosa prestava tributo a William Faulkner: seus personagens e diálogos avançavam e retrocediam anos e décadas em instantes, separados apenas por um parágrafo ou nem isso. Iam e vinham, como um bate-papo num boteco, a catedral que dá nome ao livro. Nada de elucubrações eclesiásticas, portanto.

Aos poucos, foram surgindo outros personagens: Ambrósio, Amália, Cayo Bermúdez, Don Fermín, Ludovico, Carlitos, Chispas, Teté, Hortênsia, Queta. Gente comum, como eu ou você, que em dado momento se via arrebatada pela história de um país dominado por militares sem ideais, empresários sem dignidade e arrivistas sem escrúpulos. Um país separado por uma correnteza sem rumo. Numa margem, o presidente Odría, os apristas, comunistas e congêneres. Na outra, uma população sem horizonte, capaz de se agarrar ao cipó mais próximo para não submergir no rio do anonimato. Se por um lado é impiedoso com o seu país, por outro Vargas Llosa refaz o percurso de todos esses párias com um afeto que comove. São tragédias que se sucedem sem redenção à vista, amenizadas por ligeiros lapsos de felicidade fugidia, mas inevitavelmente fadadas ao desenlace trágico. Mais do que um romance político, Conversa na Catedral é um romance de formação – no caso, a de Santiago, que rejeita o dinheiro e o afeto do pai para viver miseravelmente, primeiro como militante comunista e mais tarde como jornalista sem ideais, movido pela inércia, destroçado pela própria inteligência. É um dos personagens mais palpáveis que já conheci nessas andanças por romances e contos vida afora. Vi muito de mim em Santiago, assim como vi muito de pessoas que conheço ou que imagino existirem nos demais personagens.

À medida que fui avançando, Conversa na Catedral me conquistou em definitivo, e em pouco tempo não conseguia atravessar as noites sem passar por ele, ler nem que fossem umas cinco ou seis páginas, relembrar em que momento da trama eu me encontrava. Pesado, exigiu de mim um esforço físico ao qual não teria me dedicado se a recompensa não fosse tão proveitosa. Nos últimos dias, me vi perdendo noites e encontrando posições menos desconfortáveis para avançar por aquele matagal de palavras. Ia dormir entre angustiado e saciado, após 40, 70 ou 100 páginas consumidas. No domingo à noite, após mais umas 130 páginas, finalmente cheguei ao final: “... e depois aqui, acolá, e depois, bem, depois morreria, não, menino?”. Um final lancinante, que me deixou como heranças um travo no peito, uma angústia muda e a incômoda sensação de impotência de quem sabe que essa história cheia de som e fúria não leva a lugar nenhum. Em algum momento do livro, todas aquelas pessoas se depararam com a grande história, esse carro velho e desgovernado que nos leva a reboque sem cerimônia, nos mastiga e nos reduz a nada. Enquanto um novo romance não aparece para flertar comigo, elas permanecem aqui, como espectros desgarrados, povoando meus pensamentos. E eu me sinto invadido por uma ternura imensa.

domingo, 12 de dezembro de 2010

A essência de uma era




De tempos em tempos, volto à série Jazz, de Ken Burns. Uma produção com mais de 12 horas de duração espalhadas por quatro DVDs, que reconstitui a trajetória do mais relevante e complexo gênero musical surgido no século 20, do nascimento aos dias atuais, passando pela era do swing, o bebop, o cool, as experimentações do avant-garde e a decadência quase seguida de morte, quando o rock tomou conta do mundo a partir de meados dos anos 60. Adoro rever sobretudo o último DVD, que aborda o jazz moderno, pós-swing, aquele que Charlie Parker, Thelonious Monk e Dizzy Gillespie erigiram e Miles Davis e John Coltrane elevaram ao Olimpo.

Assistir à série nos permite enxergar o jazz não apenas como um gênero musical, mas também como um fenômeno político, comportamental e sobretudo social. Estão lá a barbárie da Segunda Guerra, a nova conquista do oeste por americanos endinheirados, as manifestações pelos direitos civis e contra a guerra do Vietnã e principalmente o racismo exacerbado e institucionalizado, que cindia a sociedade americana entre anglo-saxões descendentes de ingleses e irlandeses e os que carregavam na pele a descendência de escravos africanos. Algo fundamental para se entender uma música essencialmente de negros, sendo alguns deles os homens e mulheres mais talentosos e singulares do seu tempo. Mas essa é uma observação retrospectiva, despida do calor da hora, da tensão racial do período. Na época, era comum associar músicos de jazz à escória, ao lado selvagem dos bares enfumaçados cheios de viciados e bebuns, onde moças e rapazes de boa família não entravam.

Daí ser impossível dissociar, por exemplo, o sofrimento atátivo na voz de Billie Holiday ou o ensimesmamento agressivo de Miles Davis do contexto racial no qual eles estavam inseridos. Toda a dolorosa vida pregressa de Lady Day e de seu povo está presente na sua obra: basta ouvi-la cantando Strange Fruit, metáfora macabra para os negros enforcados em árvores, das quais pendiam como frutas estranhas. Já Miles tinha muitos motivos para ser um cara durão: chegou inclusive a ser agredido por um policial branco ao sair para fumar no intervalo de um show do qual era a grande estrela. Miles não aceitou o “circulando”, tão comum até hoje nas cidades brasileiras, e foi coberto de pancadas.

Tudo isso está em em Jazz, assim como algumas histórias lindas, que guardam um pouco daquelas pessoas para a posteridade. Lembro agora de algumas delas: o pai de Miles, ao receber em casa o filho que tentava se livrar do vício da heroína, dizendo: “Tudo que posso lhe oferecer é o meu amor”. A resposta de Coltrane, que morreria dentro de alguns meses, ao ser perguntado sobre os seus planos para os próximos anos: “Pretendo me tornar um santo”. Dave Brubeck explicando como sugeriu a Paul Desmond que juntasse dois temas criados em separado para dar forma a Take Five, uma das grandes composições da história do gênero. Louis Armstrong desbancando os Beatles em plenos anos 60 com Hello Dolly, no último suspiro do gênero nas paradas de sucesso. Histórias trágicas também, como a reação aturdida de Charlie Parker ao saber da morte da filhinha Pree, e dos telegramas que passou em sequência para a esposa Chan, cada um mais desconexo do que o outro. Os momentos que antecedem a morte do próprio Bird – drogado, bêbado, depressivo e com o corpo em frangalhos.

A série nos faz acompanhar angustiados ou com um sorriso cúmplice todas essas passagens, ao mesmo tempo em que constrói um rico painel da América, mostrando suas contradições, sua opulência e o fascínio coletivo que o jazz exercia sobre jovens, adultos e velhos naqueles tempos politicamente sombrios e musicalmente solares. O mais importante, no entanto, é perceber que a música nascida em guetos negros, tocada por ex-ladrões e ex-prostitutas, se tornou o gênero americano por excelência e, o principal, a música clássica do século 20.

Uma música que ouço todos os dias, sem cansar, e que descubro a cada novo artista, a cada novo disco desenterrado em lojas ou na internet. O fascínio de um solo quase se evaporando de Lester Young. O dedilhado infinito de Oscar Peterson. A ascese espiritual e musical de Coltrane. A força vital de Blue Mitchell, Lee Morgan, Kenny Dorham. O lirismo de Clifford Brown, que foi embora tão cedo. A sonoridade que se assemelha a um dry martini nos solos de Paul Desmond. A alegria incontida na voz de Louis, que joga por terra qualquer melancolia. A loucura sagrada de Monk. A chama gélida nos solos de Miles, que adoro acima de todos os outros e que ouço agora, nesta noite preguiçosa de domingo.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Salute!


E assim se passaram dois anos. No dia 4 de dezembro de 2008, Este Lado do Paraíso chegava ao mundo. De lá para cá, foram 190 postagens, mais de 5 mil visitas (com um recorde de 516 no mês passado), mais de 200 comentários e um grande prazer de escrever o que me vem à mente e de poder expressar as minhas angústias, perplexidades e sonhos de um jeito sincero e pessoal. Não sei aonde esses textos vão me levar, mas agradeço aos leitores e leitoras por seguirem comigo, lendo, comentando, discordando e sugerindo. Incluindo aí os que não conheço pessoalmente, mas que passei a conhecer um pouquinho neste espaço, onde também descobri o quanto muitas de minhas impressões sobre a vida, o mundo, o passado e o futuro são compartilhadas com outras pessoas. E hoje, depois de um mês particularmente conturbado, principalmente no Brasil, em que a realidade invadiu os nossos corações e mentes com fatos estarrecedores exibidos em grande angular nas nossas casas, quero apenas comemorar abrindo um chardonnay bem gelado nesta noite quente de quase verão. Salute! E que a fonte nunca seque.