sexta-feira, 24 de junho de 2011
Rascunhos
O passado tem me assombrado ultimamente. Com o auxílio das redes sociais e de prosaicas caixas de sapatos cheias de cartas, retratos e reminiscências, tenho recorrido com frequência aos meus arquivos mortos. Até então, eles jaziam empoeirados e completamente esquecidos em algum canto da minha memória, pródiga em guardar números, nomes e fatos históricos, mas cada vez mais incapaz de manter ativas as imagens que passaram pela minha frente ao longo desses 41 anos de vida, como se as visse através de fitas VHS tomadas pelo bolor. Nesse sentido, as redes sociais têm sido prodigiosas na arte de trazer de volta à nossa mente coadjuvantes ou figurantes do nosso longa-metragem particular (porque os protagonistas, obviamente, permanecem desempenhando o papel de mocinhas ou vilões).
O fato é que tenho "reencontrado" pessoas que haviam evaporado da minha mente. Ao clicar nas fotos de algumas delas, me deparo com estranhos. Olho e não encontro naquela imagem o borrão correspondente que havia guardado daquele nome e sobrenome. Aquela pessoa, agora um amigo no Facebook, é pouco menos que um fantasma, um arremedo de ser humano, mas com quem posso trocar mensagens ou compartilhar retratos. Sei que convivi com essas pessoas um ano ou mais, e que troquei com elas saudações amistosas ou só palavras soltas ao vento, sem qualquer significado além da comunicação primordial entre primatas. E também, graças às fotos que surgem na minha página, postadas por mim ou não, vejo a mim mesmo como a um estranho. Quanto de mim permanece em mim? Quanto de minha juventude acompanha os meus dias de adulto prestes a entrar no outono da vida?
Mas as caixas de sapatos trazem revelações ainda mais surpreendentes. Vasculho na colina de cartas, lembretes, guardanapos e papéis avulsos e encontro pessoas que esqueci, em parte ou por completo. Fico intrigado com declarações de afeto que sugerem um amor infinito ou uma amizade capaz de ultrapassar a inóspita fronteira da adolescência. Constato que muitas daquelas amizades (que por sua vez ocultavam paixões abrasadoras) se reduziram a rabiscos num papel amarelado.
Ao manusear uma delas, me surpreendo com a remetente. É, para mim, uma completa desconhecida. Mas vejo que na caixa há outras cartas dela. Abro as cartas. Uma delas diz: "Não me esqueça, quando precisares de uma amiga conte comigo". Está com a data de 4 de fevereiro de 1987, dia em que completei 17 anos. Há outras, nas quais ela analisa poemas que eu teria enviado para a sua apreciação. Ela me pede que leia além dos escritores aos quais estava habituado, o que é um sábio conselho, e nas demais reitera nossa amizade. Termina uma delas com "Um beijão da amiga de sempre". Depois de reler todas essas cartas, consegui resgatar em parte a pessoa que as escreveu: uma garota branquinha, meio gordinha, cabelos pretos e cacheados e, se não me engano, mais velha do que eu alguns anos e com quem convivi apenas um verão, antes que ela voltasse para Piracicaba, de onde as cartas foram enviadas.
Não deixa de ser curioso que, na adolescência e nos primeiros anos do resto de nossas vidas, a palavra "sempre" tenha um caráter tão efêmero. Ao mergulhar ainda mais fundo nas camadas de passado da caixa de sapatos encontro um envelope recheado de cartas e bilhetinhos de uma namorada que nunca esqueci. Ali está, na área reservada ao remetente: "Da sua, sempre sua... ". De novo o "sempre". Há também correspondências longas e lindas a desvelar outras paixões arrebatadoras, que duraram pouco menos ou mais de um ano. Textos repletos de carinho, esperança, frustração ou decepção com o meu caráter fugidio e minha insegurança sem sentido. Textos que revelam o quanto já fui amado e o quanto amei, mesmo que só tenha, aqui, uma das metades. Gostaria muito de reler as cartas que suscitaram as réplicas que guardo aqui comigo ou as que escrevi respondendo a tantas demonstrações de afeto. Estarão guardadas?
Algumas dessas pessoas estão ao alcance de uma "solicitação de amizade" nas redes sociais, outras não. Muitas se perderam em algum canto irreconciliável do passado, e é de bom-tom não remexer em certos vespeiros. Mas há o outro lado. Até que ponto também não sou eu o esboço, o borrão quase esquecido numa mente adulta vivendo em Piracicaba, Belo Horizonte ou Dois Irmãos, uma cidadezinha sem muitos atrativos do Rio Grande do Sul? E que tipo de borrão serei eu? Um espectro desagradável, que aparece nas piores horas da insônia de alguém? Ou um indivíduo que passou por uma dessas vidas e deixou algo de sincero e verdadeiro, nem que fosse por um verão, uma semana ou mesmo uma noite? Ou quem sabe até mesmo um rascunho involuntário, quase um espasmo mental, seguido de um "como era mesmo o nome daquele cara?" Provavelmente nunca vou saber.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Desatinos do astrolábio
Enquanto termino de escalar o cume deste dia com alguma coragem e nem tanta alegria, como no poema de Borges, eu penso em Ravello. Penso naquele mar que se derrama a perder de vista, naqueles jardins suspensos, naquela beleza estupenda que me faz suspender por um instante a respiração quando vejo as fotos do lugar no Google imagens. Um dia, espero, conhecerei Ravello. Um dia, quem sabe, até morarei em Ravello. E então comerei mariscos frescos com espaguete numa casa com vista para a Costa Amalfitana. E caminharei por suas ruas estreitas e enladeiradas. E, com meu italiano rudimentar, cumprimentarei senhoras nas vendas e jogarei conversa fora com senhores nas tabernas, entre um gole e outro de vinho. E deixarei a velhice me alcançar bem longe da cidade onde nasci e vivo ainda hoje.
Penso em tudo isso e digo a mim mesmo: ah, que insensatez. Mas, por outro lado, penso: que parte de mim condena esse pequeno desvario noturno e o transforma nisso mesmo, um desvario? Que parte de mim não enxerga a possibilidade de uma vida radicalmente diferente da que vivo atualmente, num país belíssimo como a Itália e numa cidade belíssima como aquela pequena jóia litorânea a apenas meia-hora de Nápolis? Obviamente, é a razão que fala mais alto, a plena consciência das dificuldades que cercariam uma decisão como essa. Mas isso não impede que eu a tome, seja hoje, no próximo ano ou quando completar 82 anos.
O fato é que um homem abriga em sua consciência muito mais do que uma vida. Ao lado da realidade, convivem em algum canto de nós, correndo em paralelo, as outras vidas que poderíamos ter escolhido. Jamais saberemos qual delas seria a ideal, até porque não existe vida ideal. Existem apenas esboços mal acabados, rascunhos de possíveis destinos aos quais nos levariam decisões tomadas em momentos cruciais da nossa existência ou apenas estímulos motivados pelo acaso.
Algo parecido com os mundos multidimensionais imaginados por Himiko, personagem de Uma Questão Pessoal, o belo romance do japonês Kenzaburo Oe, que li recentemente: "Todos os homens, quando são colocados na encruzilhada da vida e da morte, se vêem diante de dois universos: um é aquele em que, mortos, eles deixam de existir; outro é aquele em que continuam existindo, vivos. Então, eles abandonam o universo onde só podem existir como pessoas mortas assim como se desvencilham de uma camisa velha, e vêm para o universo onde voltam a viver. Dessa forma, ao redor de um homem vão brotando universos, como folhas e ramos num tronco de árvore".
Ravello seria então, em minha consciência, um desses ramos. Um pequeno desatino que se desviou da rodovia principal em algum trecho conturbado do caminho e passou a viver em paralelo, quase tão imperceptível como uma sombra em um dia nublado. Mas por que não posso, hoje, estabelecer que meu projeto de vida é viver em Ravello daqui para frente? Quem determinou que rotas paralelas nunca se cruzam? Dois e dois são cinco, já disse Caetano. Fazemos da vida o que somos capazes, muito embora ela nos pregue peças sucessivas e nos desvie da rota como um astrolábio torto. Falando assim, até parece que temos rota. Até parece que nosso destino está escrito nas estrelas.
Então, o que se deve tirar de todas essas divagações sem sentido que escrevo aqui? Nada, é claro, além do fato de que uma vida só não basta para abarcar toda a nossa completude. Ou melhor: toda a incompletude das vidas que não podemos viver. Andamos o tempo todo por um labirinto. Cada escolha de direção implica no abandono de todas as demais. É um sacrifício diário de vidas que poderíamos levar se esta ou aquela decisão fosse tomada - ou não. Mas o pior de tudo é que de certa forma todas elas levam ao mesmo destino: a saída, quando há, é paradoxalmente o fim da linha. O que vale, portanto, é o percurso que fazemos até chegar nela.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Memórias vendidas
Vendi os discos de vinil meus e de minha família. Estavam relegados à estante mais alta e inacessível da casa de minha mãe, empoeirados e olvidados. Objetos sem serventia, reféns da própria obsolescência. Mas, ao me deparar com o espaço vazio que a ausência deles deixou no meu gabinete, me dei conta de que talvez tenha vendido também parte significativa da minha memória afetiva. Na pressa de me desfazer dos discos, acabei salvando apenas dois, que permanecem comigo: A Revolta dos Dândis, do Engenheiros do Hawaii, e uma coletânea de Bob Dylan que me foi dada de presente pelo meu melhor amigo, quando completei 18 anos. Sua dedicatória está lá na contracapa: “Para combater o marasmo dessa nossa terra tediosa, um abraço do amigo Zé W.”.
Antes de vender os discos, digitei uma relação com todos eles e a mandei por e-mail para alguns interessados – um deles fez uma boa oferta e comprou tudo. Esse processo me obrigou a manusear todos os álbuns e me fez relembrar de canções e artistas que há muito estavam no porão de minhas reminiscências. Ray Conniff e Francis Lai, discos de meu pai que eu adorava ouvir quando menino. Muita coisa de João Gilberto, Belchior, Fagner, Raul Seixas, Gonzaguinha, todos do meu irmão mais velho. Assim como os de Chico Buarque, através dos quais deixei aos poucos de ser criança ao ouvir versos como “A saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto. Do filho que já morreu”. Havia uma dor lancinante ali que eu apenas tateava, mas que já me feria de alguma forma. Canções como Pedaço de Mim, Angélica, Minha História, entre tantas outras, me mostraram que o mundo poderia ser bem mais amargo do que supunha minha alma em formação.
Muitas outras descobertas intelectuais e sensoriais que vivi ao longo de pelo menos 20 anos passaram pela minha frente naquele momento. Discos aparentemente tolos, mas com os quais me afirmei como um jovem confuso, tímido e orgulhoso: Blitz, Robertinho do Recife, 14 Bis, Lulu Santos, Herva Doce. E, mais tarde, Legião Urbana (por que não salvei o Dois e o Que Pais é Este?), RPM, Beto Guedes, Ira!. E, mais tarde ainda, Led Zeppelin, U2, Pink Floyd, Woody Guthrie, Dylan, Rolling Stones, Creedence e muito mais. Capas lindas, muitas delas estragadas pelo manuseio, amareladas pela cinza das horas.
Senti saudade daquela sonoridade que só o vinil tinha, dos agudos mais acentuados, do prazer de colocar a agulha sobre os sulcos e desvendar um mundo. De certa forma, também senti saudade de quem fui antes do surgimento do CD e dos downloads gratuitos. Ao me desfazer daquele “trambolho”, me desfiz também de um pouco de mim. Dos meus devaneios infantis, da minha adolescência angustiada, da minha maturidade incipiente, que ainda hoje não atingiu a plenitude. E só me dei conta disso agora, nesta noite de insônia e ventania.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Crimes e castigos
Outro dia, reproduzi aqui no blog uma frase de Schopenhauer, na qual ele dizia que “a pior coisa que pode acontecer a alguém é nascer”. Uma frase de efeito, evidentemente, mas carregada de um ceticismo sólido e vertiginoso como um corpo caindo do oitavo andar de um prédio. Cioran também era cético, assim como Nietzsche, embora conheça muito pouco desses e de outros filósofos para falar com tanta propriedade sobre o pensamento deles. Sou apenas um leitor de romances.
Mas, do alto de minha ignorância, tenho plena certeza de que a vida merece ser devidamente degustada, acariciada, acalentada. Pelo menos neste momento tão agradável, em que levo à boca um charuto hondurenho, um vinho português e pequenos cubos de um delicioso queijo importado da Holanda, numa noite de quinta-feira. Muito fácil acreditar no real valor da vida assim, não? No som, Lester Young parece endossar o que digo, pois alguém que destila notas com tamanho lirismo ao saxofone certamente amou muito a vida, por mais que a tenha tido tão pouco tempo em seus braços - morreu antes de completar 50 anos.
Acredito no valor da existência e sobretudo no valor do homem, por mais que este faça questão de me desmentir diariamente. E, nesse aspecto, gostaria de pensar que para cada crime há sempre o castigo correspondente, como se fosse uma necessidade premente do próprio criminoso. Mas o mundo não é habitado por legiões de Raskolnikovs, para citar um dos mais célebres personagens da história da literatura, que, corroído de remorso, ansiou pela punição para o seu delito abjeto: matar sem motivo uma velha avarenta.
Havia uma ética, por mais insana e absurda que fosse, na forma como o anti-herói de Dostoievski se entregou ao próprio castigo, talvez porque o autor russo desconhecesse o cinismo e o despudor do homem moderno. Características fáceis de identificar, por exemplo, no jornalista Antonio Pimenta Neves, que se valeu de uma justiça com recursos inesgotáveis para ficar longe da prisão por 11 anos, vivendo com certo conforto e tranquilidade após ter matado com frieza a ex-namorada e destruído a vida da família dela. Ou no ex-general sérvio Ratko Mladic, que se escondeu por 15 anos para não pagar pelo genocídio de 8 mil homens e meninos que perpetrou na cidade de Srebrenica.
Ambos agora estão presos. São homens idosos, que certamente aproveitaram em maior ou menor medida alguns prazeres, frívolos ou não, que a vida oferece. Mas que negaram a outros esses mesmos prazeres. Não entro aqui no mérito da punição que merecem - e merecem, obviamente. Apenas tento entender por que neles o peso da culpa não foi suficiente para que se entregassem, dessem a cara a tapa, encarassem o mal que há neles com alguma dignidade e se lançassem no próprio castigo com a avidez de um Raskolnikov. Covardia, talvez.
Lembro agora de Bardamu, o narrador-protagonista de Viagem ao Fim da Noite, de Céline, que presenciava sem reação (apenas um cansaço perene) o mundo se liquefazer em carnificina na época da Primeira Guerra. John Updike observou que Céline enxergava na covardia o único motor para se manter vivo quando o que há em redor é apenas caos. Será que é isso mesmo? É possível. No nosso dia-a-dia, recorremos de certa forma à covardia para nos mantermos estáveis, para conseguirmos escapar da lama e ascender a lugar nenhum. Mas, neste caso, nossa covardia só faz mal a nós mesmos. A covardia de Mladic e Pimenta Neves brota de um breu muito mais profundo. Eles permanecem vivos, mas promoveram um expurgo desnecessário de vidas que poderiam estar agora, como eu, ouvindo Lester Young e fumando um charuto hondurenho nesta noite de quinta-feira. Parece pouco, mas não é.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Gente como a gente
O que mais comove em Não me Abandone Jamais, filme de Mark Romanek, é saber que a dor manifesta por seus personagens não é uma dor inexistente na vida real, como leva a crer a narrativa. Não, a dor daqueles jovens órfãos é inerente à condição humana. Confinados num mundo à parte e criados com o único objetivo de se tornarem doadores de órgãos, eles apenas expressam o desespero diante do fim, traduzido quase sempre em perplexidade e desalento, que acomete todos nós, seja qual for a nossa origem, classe social ou etnia. Nesse sentido, o longa, baseado no romance homônimo do japonês Kazuo Ishiguro, dialoga diretamente com fábulas visionárias embebidas em ceticismo, como Admirável Mundo Novo, de Huxley, e 1984, de Orwell. Nas três obras é possível, também, identificar um forte viés humanista, que se volta contra a padronização da sociedade e a supressão do indivíduo em prol do coletivo. Mas essa talvez seja a leitura menos importante a ser feita.
Estamos diante de um filme que exalta a beleza e os bons sentimentos acima de todas as coisas. Mesmo que não saiam vitoriosos (e o filme é niilista o bastante para não permitir qualquer possibilidade de redenção), o amor e a amizade se apresentam como valores fundamentais do ser humano, mesmo numa civilização em franco processo de deterioração. Iniciada na infância e sedimentada na juventude, a relação que une Kathy, Tommy e Ruth se mantém sólida mesmo quando eles se separam. Por mais que cada um siga seu caminho, o destino é o mesmo: os três terão seus órgãos retirados sucessivamente até o ponto em que não conseguirão viver sem eles. Isso pode acontecer logo na primeira doação ou se estender por mais três ou quatro cirurgias.
O sentimento de opressão e desconforto é reforçado pelo registro naturalista, mesmo que a trama se aproxime em alguns momentos da ficção científica. Não existem ou existiram, ao que se saiba, escolas como o rígido internato em que as crianças são educadas, mas ele parece estranhamente palpável. Daí não ser um completo disparate imaginar um cenário histórico como o que o filme propõe. No desenrolar do século 20, vimos aberrações ganharem corpo e alcançarem status de ciência, como foi o caso da eugenia, que deu origem às experiências bizarras dos nazistas durante a Segunda Guerra. O ideário nazista – ou mesmo a insânia coletiva promovida por Trujillo, Pol Pot e tantos outros – não é em si absurdo? Mas nem por isso deixou de existir. Não me Abandone Jamais trafega nessa fronteira em que o absurdo caminha lado a lado com nosso delírio cotidiano.
Do meio para o fim, a narrativa se adensa ainda mais, tornando-se quase insuportável de tão espessa. É nesse momento que nos damos conta do quanto ela é uma metáfora perfeita da condição humana. O grito primal jogado aos céus por Tommy é o mesmo grito que quase todos nós guardamos em alguma reentrância da garganta, mas que de alguma maneira deixamos de expelir, seja por fé ou resignação. Seu desespero nasce do fato de ter que partir tão cedo, mas de certa forma todos nós não partimos cedo demais? O que são 60, 80, 110 anos se a alternativa é o oblívio? Li outro dia um texto do jornalista Paulo Nogueira no qual ele cita a seguinte frase de Schopenhauer: “A pior coisa que pode acontecer a alguém é nascer”. Eu penso que a pior coisa que pode acontecer a alguém é morrer, salvo raras exceções. A fala derradeira de Kathy mata a charada: “No final, acho que nossas vidas não são muito diferentes das vidas das pessoas que recebem nossos órgãos”. A metáfora, enfim, se completa.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Entre os muros da escola
Outro dia, conversava com um amigo sobre a projeção que as discussões envolvendo bullying vêm alcançando dentro e fora do ambiente escolar. Para ele, tudo agora é bullying. Até mesmo uma prosaica discussão entre colegas seguida de um palavrão é recebida pelos pais como um atentado à dignidade do filho. "É a moda do momento. Se uma criança tropeçar no pátio da escola, estará sofrendo bullying por parte da pedra". Talvez ele tenha razão. Afinal, o bom senso anda escasso nessas discussões chatíssimas presentes em reuniões de pais e mestres. Principalmente no caso de pais que costumam parar em filas duplas e lançam os filhos para fora dos carros sem se importar se as suas mochilas estão pesadas ou se eles gostariam de companhia no trajeto até a sala de aula. Talvez estejamos diante de mais um sinal dos tempos. Tempos em que não cabe mais o bullying, mas por outro lado cabem a indiferença, o desapego e a falta de tempo e paciência para lidar com as crianças.
Entendo a preocupação do meu amigo com os exageros que vêm envolvendo essa questão (que hoje serve de justificativa para todo tipo de atitude, incluindo até um massacre numa escola). Nesse sentido, é possível que a longo prazo o combate indiscriminado a todo tipo de zombaria acabe destruindo a imunidade natural da criança, que teoricamente precisaria desenvolver uma couraça para se virar na escola. Mas, e quanto aos que não conseguem desenvolver essa couraça? Ficam à míngua? Transformam-se em adultos retraídos e atemorizados – ou, pior, violentos? É por isso que acho válido o combate ao bullying. Acho válido até mesmo que esse cotidiano imemorial de intimidações, maltratos e humilhações escolares tenha ganhado um nome, por pior que ele seja. Já fui criança, já fui adolescente e conheço bem o poder de destruição da violência moral (e às vezes física) praticada por alunos contra colegas que carregam, como chagas, algumas características que os tornam particularmente vulneráveis à insânia coletiva. Sofri (e também pratiquei) bullying, e acho que me saí relativamente incólume dessa experiência, mesmo acreditando que a timidez que manifesto até hoje tenha se exacerbado nos tempos de escola.
Tudo isso me veio à mente após assistir ao filme As Melhores Coisas de Mundo, de Laís Bodanzky. Poucas vezes vi o universo adolescente retratado com tamanha fidelidade. Nele, o bullying representa um dos papéis capitais, e nos faz perceber o quanto podemos passar de algozes a vítimas em questão de semanas. É o caso de Mano, o personagem principal. Sua vida desaba ao saber que seu pai acaba de largar a mãe para assumir um romance com um homem. Até então, Mano transitava com certa habilidade entre a turma dos "populares" e a dos "nerds" (utilizo aqui expressões que minha filha usa ao se referir a alguns de seus colegas de escola). Com a nova situação a que se vê exposto, tudo que ele mais teme é a descoberta desse segredo na escola. Em desespero, ele confessa ao irmão mais velho: "Se o pessoal da escola descobre que nosso pai é viado, a gente está fodido". Bem, o pessoal descobre. Apesar do tema, As Melhores Coisas de Mundo é um filme alto-astral, divertido e bem dirigido, que mostra também o lado bom de ser adolescente, que pode simplesmente não existir para alguns deles.
Tive colegas de escolas que foram muito humilhados. Lembro de um deles: Lisédino. Nome estranho, muito magro, introspectivo ao ponto de parecer invisível. Mas não era. Por ser física e emocionalmente muito frágil, era costumeiramente sacaneado, e mudou de escola. Encontrei-o uns dois anos depois na escola para a qual também mudei, e ele continuava do mesmo jeito e continuava sendo sacaneado, até se transferir novamente. Lembro de uma vez em que ele precisou ir até a frente da sala cantar uma música, como parte de um trabalho valendo pontos. Era Fruto do Suor, do grupo Raíces de América, mas acho que só eu e ele a conhecíamos. Ele cantava muito mal, a voz rouca e sem ritmo saía após exaustivo esforço e concentração. Os outros alunos riam, e eu fiquei meio encabulado, porque afinal percebia que havia algo de mim em Lisédino. Admirei e me apiedei dele naquele momento. Era só um garoto, mais culto e inteligente do que a maioria, mas incapaz de se valer de alguma forma dessas virtudes. Não fiquei amigo dele, até porque, na nossa estúpida ética adolescente, não era uma atitude recomendável se juntar a "perdedores".
Talvez o grande problema do bullying seja gestar visões de mundo que mais tarde se revelarão profundamente equivocadas. Preconceito é um troço terrível, e é na adolescência que ele desabrocha, após passar anos sendo inoculado em nós por nossos pais ou pelas pessoas com quem convivemos. Opiniões de cunho racista, homofóbico, misógino ou de discriminação social ouvidas na infância se manifestam mais tarde em comportamentos imbecilizados, mas que - dependendo de quem os ostenta - tornam-se profundamente admirados no ambiente escolar. Talvez por isso a adolescência seja o paraíso dos fascistas. A prática do bullying apenas reverbera tudo isso em forma de agressão, causando lesões por maltrato repetitivo na mente e no corpo de centenas, talvez milhares de meninos e meninas.
sábado, 30 de abril de 2011
Sobre um herói
Em 2002, durante um curto período em que morei e trabalhei em Fortaleza, comprei e li um livro que se tornaria referência de grande literatura para mim nos anos seguintes. Era Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sabato. Varei madrugadas solitárias naquela cidade tendo apenas cigarros e as páginas de Sabato como companhia, e era muito bom. O texto fluía, e eu me deixava levar fascinado. Na época, tentava escrever um romance (que permanece inacabado) e não encontrava o tom, a forma, a linguagem. Sabato me ajudou a desenvolvê-lo. Já de volta a Salvador, após uma longa entrevista com Hector Babenco (uma das mais tensas e ricas que tive a oportunidade de fazer), ele me pediu que permanecesse ao seu lado mais alguns minutos para jogarmos conversa fora. Falamos de livros e lhe falei do impacto que tinha me causado a leitura de Sobre Heróis e Tumbas. Ele sorriu e concordou: "Esse livro é uma obra-prima. O capítulo do Relatório sobre os Cegos é uma das coisas mais lindas que já li na vida".
Curioso que agora, ao saber que Sabato morreu, aos 99 anos, após um longo e escuro inverno, peguei o livro na estante e o acariciei. Li a introdução, a nota preliminar e o primeiro parágrafo. E me dei conta de que recordo muito pouco dele, da sua trama, dos seus personagens. Lembro de Alejandra, uma jovem impetuosa, e vagamente de alguns momentos do Relatório sobre os Cegos, mas onde foi parar, na minha memória, o livro que tanto me fascinou há apenas oito anos? É como se houvesse retirado o conteúdo da obra da pasta onde deveria estar arquivado, no gigantesco arquivo morto de minha mente, e bagunçado tudo. Isso me entristeceu, pois queria falar um pouco de Sabato e do seu livro mais conhecido, refletir um pouco sobre seu humanismo exacerbado ou sua invejável capacidade de invadir com inquietações nossos recantos mais sossegados. Quem sabe até lembrar de alguma frase capaz de definir o seu pensamento.
Mas não. Restam apenas páginas em branco aqui dentro, ligeiramente borradas por arremedos de diálogos e acontecimentos. Sabato não merecia isso de um leitor que o admira tanto, mas é provável que compreendesse. Pretendo saldar essa dívida com ele relendo Sobre Heróis e Tumbas e também outros livros seus que tenho por aqui. E finalizo citando uma frase retirada de A Resistência, obra que encerra memórias e reflexões outonais de Ernesto, sobre a qual já falei aqui no blog: “Antigamente a morte era para mim a prova da crueldade da existência. O fato que diminuía e até ridicularizava minhas prometéicas lutas cotidianas. O atroz. Então eu costumava dizer que, para me levarem até a morte, precisariam do auxílio da força pública. Era assim que eu exprimia minha decisão de lutar até o final, de não me entregar jamais. Mas agora a morte se avizinha, sua proximidade me irradiou uma compreensão que nunca tive; neste entardecer de verão, a história do vivido está à minha frente como que posta em minhas mãos, e às vezes um tempo que eu julgava desperdiçado se mostra com mais luz que outro, que eu tinha por sublime".
Sabato não precisou da força pública. Entregou-se à morte docemente, legando um mundo só seu para nosso deleite.
domingo, 24 de abril de 2011
Dentro da noite veloz
Acho que foi Gabriel García Márquez quem uma vez disse que um escritor escreve sempre o mesmo livro, não importa quantos títulos publique. Ou seja, uma obra nada mais é do que uma peça num rol de variações em torno do mesmo tema. Um inventário de obsessões que se sucedem infinitamente, por mais que variem os enredos, épocas e personagens. É possível, partindo desse pressuposto, que Gabo tenha passado as últimas três ou quatro décadas reescrevendo Cem Anos de Solidão. Mas acredito que a frase do mestre colombiano não se aplica apenas a escritores - ou pelo menos a escritores na acepção mais restrita do termo: homens e mulheres que escrevem e publicam livros e dedicam quase todas as horas úteis dos seus dias ao ofício de transformar palavras e frases em surtos de delírio silencioso.
De acordo com esses parâmetros, não posso ser considerado um escritor. Nem mesmo um escritor medíocre. Mas acredito que há algo a me aproximar da literatura nas prosaicas reflexões que escrevo aqui no blog. Afinal, como um autor de verdade, passei os últimos dois anos reescrevendo textos que, com raras exceções, abordam invariavelmente os mesmos assuntos. Textos que ultimamente andam mais escassos, como se houvesse esgotado todo o meu estoque de obsessões. O problema é que minhas obsessões não são muitas, e nos últimos meses tenho falado demais sobre coisas de menos. Desde que criei este blog, ele vem reverberando o que sinto necessidade de exprimir: sejam flechadas no calcanhar ou pequenos nós de marinheiro que insistem em permanecer na garganta. Afinal, à maneira de Sylvia Plath, também sou habitado por gritos. É como se retirasse fardos do ombro e os colocasse na tela, na forma de palavras. O chato é que esses fardos possuem muita semelhança entre si, e há, obviamente, um limite de palavras para descrevê-los.
De que adianta repetir os mesmos argumentos, revelar os mesmos temores, manifestar as mesmas desilusões, num leitmotiv prolixo e enfadonho? Como compreender o mundo se quanto mais escrevo, menos racional ele se mostra para mim? Mais do que cansar os meus poucos leitores, temo cansar a mim mesmo com discursos tolos, que apenas expõem a ferida, mas não oferecem o tratamento para que ela cicatrize. Bem, adianto que não vou deixar de escrever, abandonar o blog à míngua. Mas existem momentos em que não encontro forças para falar de novo sobre o que considero injusto, absurdo, incompreensível ou mesmo maravilhoso. Certas coisas me calam, como aquele massacre em Realengo. O que teria a acrescentar, como poderia conferir ordem a um caos tão avassalador?
Certa vez, numa entrevista, o escritor angolano José Eduardo Agualusa me disse que, segundo um preceito budista, o mundo evolui em forma de espiral: você recua, mas vai subindo sempre. Talvez eu esteja vivendo um período de recuo, um pequeno momento de recolhimento antes de voltar ao front. Não sei, tudo isso me faz lembrar aquelas conversas para boi dormir do Paulo Coelho, mas quem sabe não existe algum sentido nessa baboseira toda? Afinal, por que outro motivo estaria aqui, faltando vinte minutos para as três da manhã, escrevendo este texto enquanto Dexter Gordon sola sem freios no aparelho de som?
Em Cartas a um Jovem Poeta, Rilke aconselhou seu discípulo a investigar nos "recantos mais profundos da alma" qual o motivo que o mandava criar versos. E pediu que confessasse a si mesmo: "Morreria, se lhe fosse vedado escrever?". Não lembro agora qual foi a resposta do jovem poeta, se é que houve. No meu caso, talvez não morresse de imediato. Mas certamente morreria aos poucos, bem devagar, agonizando de sede de palavras. Daí ser tão importante estar aqui, vivo, ouvindo um latido na rua vazia e me lançando dentro da noite veloz.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Chuva forte
Hoje baixei meio que por acaso um disco de Joan Baez. Procurava uma canção de Bob Dylan chamada Farewell, que não ouço há pelo menos uns 15 anos. Não encontrei. Mas achei um disco de mesmo nome, gravado por sua namorada lá nos paleolíticos anos 60. E o escuto agora pela segunda vez seguida, neste fim de noite que encerra um dia triste. Não deve existir nada mais fora de moda do que ouvir Joan Baez em abril de 2011, assim como não há nada mais fora de moda do que defender a dignidade do ser humano ou o anseio por um mundo menos desigual, como ela defendia quando gravou o disco. Devo ser um indivíduo extemporâneo, de princípios arcaicos, incapaz de me adequar aos valores e sonoridades do meu tempo, pois adorei ouvir de novo aquela voz cheia de vibrato e idealismo que só a garganta de Baez é - ou era - capaz de produzir.
Enquanto bebo um vinho siciliano na escuridão da varanda, ouço o disco com um prazer mudo. Até o momento em que ela chega à última canção, aquela que talvez seja a que mais me comova entre todas as canções de Dylan. Ele escreveu A Hard Rain's a-gonna Fall em 1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, que quase provocou a terceira guerra mundial e o fim de tudo isso que conhecemos e a que nos agarramos como náufragos. Tinha 22 anos. Voltei a prestar atenção na letra, como faço desde que me deparei pela primeira vez com a canção, num disco de vinil gravado ao vivo não sei mais onde (depois ganhei de uma amiga em CD o clássico The Freewheelin' Bob Dylan e pude ouvir a gravação original).
Está tudo lá. Toda nossa dor está lá. O massacre de Realengo está lá. Os massacres de Columbine e Beslan também estão, assim como os terremotos do Japão ou do Haiti ou os bombardeios contra civis que viraram regra em nosso tempo. Dylan escreveu uma canção definitiva, apocalíptica. Peguei na minha estante um velho volume com suas letras traduzidas e na introdução do livro o editor reproduz um depoimento do poeta: "É uma canção de desespero. Cada verso dela é realmente o começo de uma nova canção. Mas quando a escrevi, pensei que não ia viver tempo suficiente para fazer essas canções e portanto pus nessa tudo que pude".
Já escrevi poemas igualmente desesperados aos 22 anos, um período particularmente difícil da minha vida. Mas não levado por uma avalanche poética como Dylan. Como ele conseguiu? Ouço neste momento Joan Baez cantá-la. Um mantra terrível, com versos como "Vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças" ou "Ouvi o rugir de uma onda que podia engolir o mundo inteiro" ou ainda "Eu ouvi uma pessoa morrendo de fome, eu ouvi muitas pessoas rindo". Baez canta esses versos com uma dor que comove, e em nenhum momento acalenta. Ela nos arremessa contra nossos próprios medos sem qualquer expectativa de redenção. E nos deixa sós, na noite alta, à espera de mais tragédias absurdas, suportando o nosso vazio sem voz, o nosso desencanto tolo e sem sentido.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Um dia
Quando estou muito triste é como se o ar fosse sólido. Como se eu tentasse aspirar concreto. Os pulmões se retraem e os demais órgãos acusam o golpe, trabalhando em dobro. Há uma ferida aqui dentro, oculta não sei exatamente em que ponto da minha anatomia. Talvez tenha início do lado esquerdo da face, que é onde noto sua presença, mas sua extensão e sua profundidade me são desconhecidas. Vontade de ir. De levar quem eu gosto para longe do meu próprio sofrimento. E há o cansaço, pleno e vaporoso, ocupando todos os espaços. Hoje, a dor alheia se junta à minha. Um dia ruim, fechado em si mesmo, refratário a qualquer espécie de alívio.
sábado, 2 de abril de 2011
Trocando em miúdos
Um estudo recente, realizado pela Universidade de Michigan, parece endossar o que mentes feridas mundo afora já sabiam há muito tempo, mas não tinham como provar: sofrer uma rejeição social é algo tão doloroso quanto o sofrimento físico. Nesse sentido, um corte profundo no pé pode ter o mesmo efeito de uma relação encerrada subitamente. Ethan Kross, coordenador da pesquisa, afirma: “A princípio, derramar uma xícara de café quente em você mesmo ou pensar em uma pessoa com quem experimentou recentemente um rompimento inesperado parece que provoca tipos diferentes de dor, mas nosso estudo mostra que são mais semelhantes do que se pensava”. Os resultados do estudo - que serão publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences - mostram que a dor, seja ela física ou psicológica, ativa as mesmas áreas do cérebro: o córtex somatossensorial e a ínsula dorsal posterior.
Ou seja, em ambas as situações, a sensação é de um machucado, uma ferida que pode ou não ser curada com o tempo. Perder alguém dói, e muito. Pode ser o equivalente a uma xícara de café quente no nosso colo, para usar a imagem do pesquisador norte-americano, ou quem sabe até um tiro, um atropelamento, uma crise de hérnia de disco. Acho que todos nós, em algum momento da vida, passamos por isso, e o resultado é a cabeça pesada, a visão turva e um vácuo lancinante em alguma parte do tórax, além da sensação de desamparo e impotência tomando conta de nós como um manto nos cobrindo aos poucos. Já passei por isso algumas vezes (poucas, felizmente), e posso dizer: é quase insuportável. É como se toda a imagem que cultivamos de nós mesmos repentinamente se transformasse num borrão, numa caricatura que ressalta o que temos de mais grotesco. Viramos um arremedo de nós mesmos, pequenos monstros de argila amorfos e sem vida, a procurar um sentido para o espaço vazio deixado no guarda-roupa ou a ligação jamais atendida. Dá um trabalho danado reconstruir o que fomos, embora a cicatriz em algum ponto do nosso córtex somatossensorial continue coçando de vez em quando. Cura? Sinceramente, não sei se existe. Prosseguimos, e é o que interessa.
Quem dera as relações amorosas fossem idílicas, solares e uniformes como nos comerciais de lançamentos imobiliários. Um sorriso, um abraço e os filhos correndo pelo gramado. O que há na verdade é uma negociação constante, uma permuta na qual um ou outro lado sai ganhando. Enquanto há um equilíbrio nesse escambo de sentimentos e aspirações, vamos levando. Quando não há, cada um segue o seu caminho - carregando a reboque eventuais filhos, partilhas na justiça e pensões alimentícias - e tudo bem. São as sobras de tudo que chamam lar, como diriam Chico e Francis. O problema é quando não fica tudo bem. Já presenciei amigos e amigas literalmente desmoronarem, enveredando pelo labirinto da própria rejeição e se alimentando dela para sobreviver. Como se arrancassem o cascão de uma ferida para mantê-la viva. Gente centrada, experiente, que parecia capaz de tirar de letra um pontapé na bunda e partir para outra. O fato é que, voltando à letra de Chico e Francis, não deveríamos cobrar pelo estrago alheio. Mas o que fazer com o peito tão dilacerado?
A pesquisa também, de certa forma, nos faz entender - embora jamais justifique - o que deve sentir quem comete um crime passional. É a lógica da legítima defesa: você está me machucando cada vez mais, então preciso revidar. É óbvio que se trata de um raciocínio enviesado, obtuso, mas não deixa de fazer sentido. Você está matando não o objeto do seu amor, mas sim a fonte do seu sofrimento. Mas aí entra um raciocínio inverso, que vai além das consequências legais: matando a pessoa que ama, quem fica no lugar dela? Como ocupar o vazio duplamente inserido lá na ínsula dorsal posterior? É um labirinto sem saída. O que me assombra em tudo isso é a frequência cada vez maior de crimes passionais, e a forma cada vez mais brutal com que são cometidos. Há, nitidamente, um processo de desintegração social, que permite a qualquer um fazer sua justiça com as próprias mãos. Quando matar se torna uma solução - sob qualquer aspecto - é porque estamos falidos como sociedade. E não há amor no mundo que justifique um ato tão extremo.
sábado, 26 de março de 2011
A ruína das nossas convicções
Fitzgerald escreveu que aos 45 anos nossas convicções são cavernas em que nos escondemos. Não falta muito para chegar lá, mas prefiro enxergar minhas convicções como colinas de onde contemplo o horizonte, para usar a mesma analogia de Scott ao se referir à visão de mundo que temos aos 18 anos. Afinal, não gosto de opiniões cristalizadas. São como fósseis que permanecem milênios imersos no esquecimento, à espera de um arqueólogo que revele seus segredos, se é que realmente há algum segredo a ser revelado.
Escrevo isso porque tinha uma opinião sedimentada sobre a intervenção das forças da ONU na Líbia, onde o ditador Muammar Gaddafi está massacrando uma insurgência que luta pelo fim do seu regime, em vigor desde antes do meu nascimento. Gaddafi não só mata rebeldes. Mata civis também. Daí ser difícil aceitar, sob qualquer justificativa, o sacrifício de homens, mulheres e crianças em nome de uma causa maior, a tal história com H maiúsculo que aprendemos no segundo grau, mas que nunca compreendemos em sua totalidade. Penso – continuo pensando – que as Nações Unidas tomaram a decisão certa ao intervir no país e bombardear a força militar de Gaddafi. Desde, é claro, que os mesmos civis não acabem virando alvos das bombas (um desejo ingênuo, reconheço).
O fato é que o mundo real não comporta maniqueísmos. Como diria Belchior, a vida realmente é diferente, quer dizer: a vida é muito pior. Impossível enxergar vilões ou mocinhos nesse terreno pantanoso no qual se movem grandes potências, repúblicas de bananas e, no meio do bombardeio, nós, os elementos anônimos dessa história cheia de som e fúria e sem sentido algum. Tenho lido nas redes sociais críticas à intervenção na Líbia. Mas elas estão impregnadas de uma retórica fossilizada, dogmática, que põe a culpa invariavelmente “no império norte-americano”, reavivando todo esse blá-blá-blá esquerdista que todos sabemos no que deu. Mas aí vem Luis Fernando Verissimo – também ele um esquerdista convicto, mas não um esquerdista míope – escrever sobre o asssunto, só que utilizando argumentos, contextualização histórica e, claro, um poder de persuasão que apenas os grandes escritores possuem. Com sua lucidez e sensibilidade, Verissimo deixa entrever a capacidade que nós, seres humanos, temos de aprender, acumular informação e formar aos poucos uma massa crítica. Tudo depende dos mestres que escolhemos.
Em sua coluna na última quinta-feira, ele afirmou: “Tudo se repete na Líbia, a começar pela hipocrisia da indignação seletiva: alguns tiranos antes tolerados, quando não abertamente apoiados como o Saddam, passam a ser inaceitáveis e atacáveis enquanto o porrete poupa outros, que ainda servem. Depois virão as baixas civis denunciadas por um lado e negadas pelo outro, as fotos de crianças mutiladas, as discussões sobre a eficiência ou não dos ataques aéreos "cirúrgicos", etc. E teremos mais um exemplo dessa contribuição moderna às táticas de guerra, a estranha doutrina do bombardeio humanitário”.
A questão levantada por Verissimo, acima de todas as outras, é: Gaddafi não teria durado tanto (e não sabemos o quanto ainda vai durar) se não tivesse sido poupado por tanto tempo pelos mesmos países que hoje condenam sua conduta e investem contra ela. É a tal da indignação seletiva. Agora que virou apenas um tipo exótico e meio desvairado, o ditador líbio torna-se descartável, enquanto outros tipos semelhantes permanecem à sombra, fazendo das suas na Arábia Saudita, no Zimbábue, na Guiné Equatorial, no Sudão, no Uzbequistão ou em qualquer outra nação tiranizada por figuras desprezíveis. Essa carapuça cabe também na cabeça dos órfãos do marxismo-leninismo, que não veem problema na permanência de revolucionários vitalícios como Fidel Castro e Kim Jong-Il.
Mas, dito tudo isso, o que fazer? Que medida tomar quando não há mais negociações viáveis e os mortos começam a se decompor em larga escala no território alheio? Não intervir? Deixar a população líbia ser exterminada por seu próprio líder? A história recente ensina que a omissão em muitos casos resultou em tragédias até mais devastadoras do que os “bombardeios humanitários” na Líbia. A ONU não fez nada em Ruanda em 1994, e o que se viu foi um dos mais bárbaros genocídios da história, com quase 1 milhão de mortos. O mesmo aconteceu durante a "limpeza étnica" na Bósnia, entre 1992 e 1995, que culminou com o massacre de Srebrenica. E também em muitos outros cantos esquecidos do mundo, com a conivência dos capacetes azuis.
Gaddafi apenas não aceitou o papel de rei morto, rei posto imposto a Hosni Mubarak no Egito e a Zine al Abidine Ben Ali na Tunísia. Está descendo o sarrafo em quem ousa usurpar seu trono indigno e, ao que parece, só pretende sair morto de lá. Que saia. Mas, enquanto Verissimo se foi para mais uma coluna dominical, eu fiquei com a incômoda sensação de que há uma pulga se refestelando atrás da minha orelha. E com a constatação de que o mundo contemporâneo é muito mais complexo do que nos velhos tempos de polarização entre direita e esquerda, capitalismo e comunismo, democracia e ditadura do proletariado.
terça-feira, 15 de março de 2011
Selvagem?
Desde que desceu das árvores, o homem vem percorrendo um caminho que o leva cada vez mais para longe de sua própria origem selvagem. É possível que lá atrás, enquanto se refugiava numa caverna para se abrigar do frio e da escuridão, um homem de Neandertal tenha vislumbrado, ali em frente ao fogo, um futuro melhor para seus tataranetos. Quem sabe até pensou num apartamento confortável, com aquecedor central e cama king size, num prédio com segurança 24 horas, imune a invasores – pelo menos aqueles com presas e garras gigantes. De lá para cá, o homem foi tratando de transformar em realidade essa quimera, e se aglomerou em centenas, depois milhares e depois milhões e bilhões, invadindo quase todos os confins do planeta e compensando a fragilidade física com artefatos de utilidades variadas, do barbeador elétrico às armas de destruição em massa. Enfim, o fato é que chegamos lá.
Mas o curioso é que algumas pessoas escolhem justamente o caminho oposto: um improvável retorno à selva primordial de onde viemos. Em maior ou menor medida, muitos de nós sentimos uma necessidade atávica de primitivismo, de encarnar o arquétipo rousseauniano do bom selvagem, puro e incorruptível. Muitos indivíduos - escritores e artistas aí incluídos, como Thoreau e Gauguin - pregaram essa volta às origens ou a seguiram à risca, por mais complicada que seja a readaptação a um cenário que abandonamos há tanto tempo. Como reaprender a dormir numa caverna, conviver de perto com animais selvagens ou resignar-se com a escuridão absoluta sem um interruptor por perto? Como viver sem remédios para pressão alta, lojas de conveniência ou mesmo uma singela taça de vinho tinto?
Timothy Treadwell foi um desses indivíduos. Ele optou deliberadamente por ignorar os milênios de civilização acumulada em nosso DNA para conviver sem meio termo com o lado selvagem da Terra. Selvagem mesmo: ele foi parar nos confins do Alasca, território onde o homem é quase nada (e mesmo assim faz um estrago danado) e o urso pardo reina como um semideus. A trajetória de Treadwell, interrompida bruscamente, foi reconstituída em O Homem-Urso, documentário de Werner Herzog que assisti no último domingo. Um filme rico em imagens, já que o aventureiro e ativista deixou gravadas horas e mais horas de filmagens em boa qualidade, além do áudio que captou sua morte e a da namorada, atacados por um urso. Não ouvimos, felizmente, essa gravação.
Mas nem por isso O Homem-Urso deixa de ser um testemunho doloroso, movido pelos questionamentos de Herzog, que tenta a todo custo entender as motivações e escolhas de Treadwell, um sujeito meio insano que se diz apaixonado pela vida na selva e defensor dos ursos, com quem jamais desenvolve uma relação mútua de afeição. Daí o próprio Herzog refletir: “O que me assusta em todos os rostos de ursos que ele filmou é que não vejo qualquer parentesco, compreensão, nenhuma piedade. Vejo apenas a esmagadora indiferença da natureza”.
Teatral e histriônico, Treadwell mascara em parte a solidão e a dificuldade de se adaptar a condições tão extremas. Sua via-crúcis voluntária me fez lembrar a vivida pelo jovem Christopher McCandless, que serviu de inspiração para Jon Krakauer escrever o livro Na Natureza Selvagem, transposto para o cinema por Sean Penn, sobre o qual já falei por aqui. Uma busca incessante por um sentido oculto nos confins do mundo, marcada por estoicismo e auto-sacrifício. Mas para quê? Tanto Treadwell quanto McCandless esboçaram argumentos para justificar seus atos, mas o que fica de tudo aquilo quando se sabe que ambos foram embora cedo demais?
Teatral e histriônico, Treadwell mascara em parte a solidão e a dificuldade de se adaptar a condições tão extremas. Sua via-crúcis voluntária me fez lembrar a vivida pelo jovem Christopher McCandless, que serviu de inspiração para Jon Krakauer escrever o livro Na Natureza Selvagem, transposto para o cinema por Sean Penn, sobre o qual já falei por aqui. Uma busca incessante por um sentido oculto nos confins do mundo, marcada por estoicismo e auto-sacrifício. Mas para quê? Tanto Treadwell quanto McCandless esboçaram argumentos para justificar seus atos, mas o que fica de tudo aquilo quando se sabe que ambos foram embora cedo demais?
Ou talvez não. Treadwell parecia ansiar a morte, sobretudo uma morte violenta, como se ela purgasse o seu desnorteio. Já para McCandless, como escrevi no texto anterior, “morrer solitário no Alasca não era o epílogo esperado por quem sorveu sem meias-medidas o legado dos seus antecessores?”. Tanto um quanto o outro viveram situações-limite por convicção, e não involuntariamente, em função de um acidente de percurso, como o garotão narcisista de 127 Horas ou o Robinson Crusoé moderno vivido por Tom Hanks em Náufrago. Além de tudo, estes que cito agora sobreviveram, o que confere uma moral à história de suas vidas e as dignifica. A verdade de tudo isso é que eu, você ou qualquer outro que não abre mão de um cobertor quentinho no frio ou de um cineminha seguido de um jantar numa sexta-feira à noite jamais vai entender o que se passava ali, no íntimo de Treadwell e de McCandless. Uma necessidade obscura de voltar ao útero da própria espécie. De sentir o medo primordial do frio, do breu e do bafo quente do predador sempre à espreita.
***
“Enquanto observamos os animais em sua alegria de ser, em sua graça e ferocidade, fica mais claro um pensamento: isso não é apenas um vislumbre na natureza selvagem. É um olhar dentro de nós mesmos, da nossa natureza.”
Werner Herzog, em O Homem-Urso
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“Enquanto observamos os animais em sua alegria de ser, em sua graça e ferocidade, fica mais claro um pensamento: isso não é apenas um vislumbre na natureza selvagem. É um olhar dentro de nós mesmos, da nossa natureza.”
Werner Herzog, em O Homem-Urso
domingo, 13 de março de 2011
Quadro-negro
Há pouco mais de 10 anos, escrevi para o jornal em que trabalhava uma resenha sobre um livro de fotografias de Robert Capa, o homem que captou como ninguém os grandes conflitos do século 20. E comecei o texto citando o retrato de uma menina num campo de refugiados durante a Guerra Civil Espanhola. Sua expressão de alheamento contrastava com a realidade que vivenciava naquele momento: ela e sua família fugiam dos bombardeios do exército franquista, que já havia matado vários civis naquele 15 de janeiro de 1939. Era a grande história se sobrepondo às pequenas coisas da vida. Mas, como escrevi, o que mais me comoveu foi o caráter anônimo daquela garota eternizada por Capa: "Quem é essa menina? Ela sobreviveu à Guerra Civil Espanhola? Ela ainda é viva?" Fiz e ainda me faço esses questionamentos, pois existe algo nas grandes tragédias que sempre me emociona: o drama vivenciado por cada indivíduo arrastado pela correnteza de uma guerra ou de um terremoto.
Mas talvez seja mais do que isso. Se, entre centenas de fotos espetaculares de guerra, eu foquei minha atenção no sofrimento particular de uma única garota é porque involuntariamente eu tento, 80 anos depois, resgatá-la do oblívio. O século 20 - e o novo século parece ir pelo mesmo caminho - foi pródigo em devastar populações inteiras, fazendo com que os sobreviventes precisassem peregrinar rumo a um improvável novo Éden, perdendo pelo caminho um pai, uma filha ou nacos significativos de dignidade. Mas, e quanto àqueles que não completaram o percurso? Os adultos, velhos e crianças com pequenos universos dentro deles? Onde foram parar esses mundos? Num terremoto como o do Haiti, por exemplo, quantas existências não foram violentamente suprimidas, como palavras escritas com giz que um professor apaga para substituir por outras? Para cada relato de um ser humano salvo dos escombros existem centenas de outros soterrados em definitivo no quadro-negro da história.
Milhões de nós passam pela vida e se despedem dela sem que essa passagem seja sequer registrada, impressa em papel fotográfico, como a garota da foto de Capa. São borrões, como aqueles seres sem rosto que vemos de relance quando passam por um trem de metrô em caminho inverso ao que estamos indo. Lembro agora do final de O Rei de Havana, quando Pedro Juan Gutierrez relata a agonia final do seu personagem: "O cadáver se corrompeu em poucas horas. Chegaram os urubus. E o devoraram pouco a pouco. O festim durou quatro dias. Foi devorado lentamente. Quanto mais apodrecia, mais gostavam daquela carniça. E ninguém jamais ficou sabendo de nada". Sim, ninguém ficou sabendo de nada. Por um tempo, é possível que parentes ou amigos lembrem daquela pessoa, e até se perguntem por onde ela anda. Mas depois a própria lembrança se evapora.
Nesse sentido, a fotografia é uma invenção revolucionária. Porque, se nossa memória não é preservada, ao menos nossa imagem é. Não sei se isso serve de consolo, mas não deixa de ser um registro, uma pequena nódoa, de que um dia estivemos por aqui, e que um dia pensamos, sorrimos, choramos, amamos. Isso não é pouco. Outro dia recebi por e-mail imagens belíssimas, tiradas entre 1909 e 1912 pelo fotógrafo Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii, de habitantes de pequenos povoados russos. São fotos coloridas de altíssima qualidade. É como se, ao olhar para elas, olhássemos para nós mesmos. Os tipos físicos e as vestimentas são diferentes, a arquitetura também, mas algo nos aproxima, como se passado e presente não estivessem cindidos por 100 anos de história. Mas vale lembrar que nesse intervalo, a humanidade presenciou a Revolução Russa, as duas grandes guerras, o Holocausto. O que dirão, então, os futuros inquilinos do planeta ao contemplar nossas fotos nas redes sociais, sorrindo como se flertássemos com a eternidade? Certamente vão sorrir também, e pensar: "Eles não sabiam de nada".
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Poupamos no essencial
Em Pedaço de Mim, Chico Buarque define a saudade como o revés de um parto. Pior do que o esquecimento, pior do que se entrevar. Nela, o compositor fala da mais devastadora de todas as formas de saudade: a do filho perdido. A minha é mais comum, já que diretamente ligada ao curso natural da vida, esse rio caudaloso que nos leva a lugar nenhum e mesmo assim fazemos questão de continuar navegando nele. É como se sentir manco, talvez. A consciência ininterrupta de que está faltando algo. Em vários momentos da minha vida eu me vi às voltas com essa forma de desamparo. Uma sensação muitas vezes imperceptível, mas que se tornou palpável a partir de 2003, quando meu pai morreu. Mesmo tendo passado dos 40 anos, ainda me defronto com um vácuo infantil, algo até certo ponto habitual entre os que perdem as pessoas que amam. Afinal, não existe limite máximo de idade para o sentimento de perda, muito menos o de orfandade. Somerset Maugham, de quem estou lendo as Confissões, conviveu por oito décadas com esse sentimento, e quando morreu, aos 91 anos, tinha ao seu lado a foto da mãe, que perdera aos oito.
Meu pai era um lastro, uma âncora, embora não num sentido clássico. Foi ele quem me direcionou, ainda jovem, para os prazeres da leitura e do cinema. Lembro bem do dia em que me falou de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Eu devia ter uns 11 anos, e estávamos subindo a escada para chegar ao nosso apartamento. Aquele nome (que de imediato associei a uma fantasia de Julio Verne ou coisa do tipo) ficou encerrado como um pequeno tesouro que eu deveria descobrir mais tarde – ele apenas me deu o mapa. Não sei nem se meu pai leu esse livro, é possível que não. Mas ele estava ali para citá-lo, para me mostrar que a grande literatura não era feita, digamos, de um Harold Robbins. Também me ensinou a gostar dos filmes de Paul Newman, a amar o Flamengo e, mais tarde, a perceber que o vinho era muito mais do que uma bebida, e sim um amigo engarrafado, como diria Vinicius.
Acho que uma parte de mim ainda não se deu conta da perda de meu pai. É como se o inconsciente cobrasse a sua presença no meu cotidiano. Talvez por isso, sonhe com ele com alguma freqüência. Da última vez, foi um sonho ruim: recebia a notícia de que ele tinha se jogado de um avião em pleno vôo. Acordei com um gosto amargo e um certo alívio. Outros foram mais agradáveis. Num deles, jogávamos bola numa praia à noite. Uma praia estranha, precariamente iluminada por postes na rua, que ficava num porto ou algo parecido, com a água muito parada, a faixa de areia estreita e um muro na parte de cima. Eu era ainda criança, e minha mãe esperava sentada nos observando. Já o capítulo que deu origem à série provocou em mim sentimentos ambíguos: descia a escada que levava ao village de veraneio que nós tínhamos e minha mãe me recebeu dizendo: “Olha quem está aqui”. Então olhei para o lado e vi meu pai sentado numa cadeira. Ele me olhou e tentou falar, mas sua boca não se abria, e seus olhos deixaram entrever uma angústia enorme.
Nossa relação, quase sempre sem sobressaltos, foi marcada mais por silêncios que por colóquios. Passávamos horas um ao lado do outro trocando pouco mais do que meia dúzia de palavras, bebendo e observando a noite. Seu silêncio escondia um ensimesmamento, uma busca de tranqüilidade através da introspecção que acabei herdando. Enfim, era um silêncio que me acalentava, como um sopro numa ferida. Gostaria de ter dito tudo isso a meu pai, mas o meu próprio silêncio também era abissal. Uma vez, quando ele já estava doente, demos um passeio pela Cidade Baixa e paramos no Bonfim. Minha mãe entrou na igreja com minha mulher e minha filha e nós ficamos lá fora, encostados na balaustrada observando a vista. Sabia que não o teria por muito mais tempo, e pensei em dizer alguma coisa. Mas não consegui e ficamos conversando amenidades. Poupamos no essencial, como no poema de Brecht. A forma de me redimir é escrever textos como este, entre muitos outros que já escrevi sobre ele. Afinal, como disse o dramaturgo Mario Viana, nossa eternidade tem a duração da memória de quem nos ama.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Beleza roubada
Hoje pela manhã caminhei na orla, no trecho que vai do Jardim de Alá até a Boca do Rio. E passei pelas ruínas do antigo Aeroclube, que para quem não conhece era uma galeria a céu aberto à beira-mar, com lojas, cinema, restaurantes, livraria, lanchonetes e parques infantis. Um lugar agradável, aonde costumava levar minha filha para passear, tomar um sorvete e observar as ondas. Por conta de problemas judiciais que paralisaram uma possível reforma do local, hoje existe apenas a carcaça das antigas edificações, como naqueles filmes em que os personagens voltam a um lugar da sua mocidade e encontram apenas o espectro de um lugar que não existe além da sua memória, por mais que a construção em si esteja ainda de pé. Mais do que impressionado, fiquei triste com a destruição de mais um ponto de lazer e encontros na cidade onde moro.
E então me dei conta do quanto o Aeroclube representa uma espécie de microcosmo do que ocorre hoje com a própria Salvador, uma cidade que agoniza a céu aberto. Há 20 anos, mais ou menos, Salvador era bonita, aconchegante e boa de se viver, para onde vinham turistas do Brasil e do exterior, num clima de festa móvel que durava mais do que um verão. Tudo isso acabou, evidentemente, embora alguns incautos ainda venham para cá acreditando que estão desembarcando em Cancún ou Punta del Este, quando na verdade estão chegando a uma versão edulcorada de Porto Príncipe. Existe muita beleza ainda, obviamente, como pude perceber num passeio de barco pela Baía de Todos os Santos na semana passada. Mas é uma beleza roubada, agredida pela violência desmedida e por gestões incompetentes em sequência. O fato é que, ao se fazer uma ligeira retrospectiva mental da nossa história recente, é possível perceber os sinais de decadência que desaguariam no ambiente de guerra civil não-declarada em que vivemos.
Salvador nunca teve um projeto de cidade, assim como durante muitos anos o Brasil não teve um projeto de país. Fomos e somos governados invariavelmente por indivíduos ineptos ou corruptos – ou as duas coisas ao mesmo tempo. Nunca se procurou mitigar a nossa desigualdade social brutal, o nosso crescimento sem trégua e a nossa tendência ao descumprimento das leis e costumes morais mais básicos. A cidade onde vivi na infância, na juventude, ou mesmo aquela que conheci há menos de dez anos, quando ia ao Aeroclube passear com minha filha, se tornou um campo de batalha diário, no trânsito, nos bares ou nas ruas. Há muita gente andando armada, e há outros tantos dispostos a brigar por motivos os mais esdrúxulos.
A cidade com a maior população negra fora da África é também a que mata mais negros. Basta olhar as manchetes dos jornais para se deparar com notícias como “Jovem de 16 anos é assassinado no bairro de Pau da Lima” ou “Adolescente de 17 anos é baleado no peito em Cajazeiras VIII”. É um extermínio diário, motivado por disputas de pontos de tráfico (uma metástase que se espalha pelos bairros pobres), dívidas contraídas pelo consumo de crack, brigas fúteis ou apenas pela má sorte de se estar no lugar errado na hora errada. E cada vez mais esse extermínio silencioso respinga na classe média, que por muitos anos ignorou o problema e agora se vê sem saída, porque o problema deixou os guetos e desceu para as avenidas de vale que cortam a cidade e exibem as vísceras de sua miséria.
Não é à toa que o número de assassinatos em Salvador cresceu 70% nos últimos dez anos. Isso é palpável. Assim como é palpável a sensação de que não existe qualquer projeto mais amplo sendo pensado para reverter esse quadro. São apenas ações pontuais, tomadas quando a coisa aperta e a opinião pública começa a bradar. Até mesmo na condição de cidade com enorme potencial turístico, Salvador está ficando para trás. Quem vai a Recife ou Fortaleza – para citar outras duas grandes capitais nordestinas – percebe um rumo, um zelo, por mínimo que seja. Enquanto isso, caminhamos para a formação de estados paralelos, num cenário que se aproxima em muito do Rio de Janeiro das últimas décadas, onde a corrupção endêmica desafia qualquer noção de progresso. Somos um balneário decadente, como Acapulco ou Havana, no qual os turistas são entregues a ambulantes insistentes, motoristas de táxi ou de vans mal intencionados e trombadinhas sempre à espreita. Enquanto uma população com educação formal precária se entrega a um hedonismo desenfreado, traduzido num cenário cultural paupérrimo que louva a nossa sexualidade exacerbada em números musicais patéticos, consumidos com avidez tanto pela plebe como pela elite.
É duro constatar tudo isso. Perceber que a cidade em que nasci atingiu a derrocada sem ter passado pelo apogeu. Afinal, não tivemos por aqui uma era do jazz como a Nova York dos anos 20, nem nos tornamos um paraíso permissivo como a Paris dos anos 30 ou uma capital musical, linda e cálida como o Rio dos anos 50. Gosto de Salvador, da sua gastronomia singular, da sua luz, do vento que sopra do mar e me atinge agora, nesta noite de verão. Gosto da sua devassidão, do seu jeito descompromissado, da beleza extraordinária que se descortina quando passo pela Barra, pela Contorno, pela Ribeira. Mas a cada dia sou tomado pela perplexidade diante de um cenário que me assusta. Nossa cordialidade inata está sendo substituída por um individualismo atroz, e isso se reflete na cidade que vemos: suja, descuidada, brutalizada, pronta para virar geléia.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Obviedade mórbida
Nunca o sedentarismo foi tão combatido e desprezado como nos dias de hoje. Abdicar de fazer exercícios físicos regularmente, seja em casa, na praia ou numa academia, representa não apenas um descuido com a própria saúde, mas também uma forma deliberada de ficar de fora de boa parte das rodas sociais contemporâneas. Há um preconceito, de certa forma velado, contra os barrigudos (no caso dos homens) ou contra as portadoras de celulite, culotes e afins (no caso das mulheres). Enfim, cultua-se o corpo apolíneo, a musculatura bem torneada e a gostosura bem delineada como se fossem a expressão máxima da nossa evolução como espécie.
Desde que sem exageros, acho válida essa ditadura do esplendor físico. Mas, por outro lado, não deveríamos também combater o sedentarismo mental? Afinal, com o mesmo fervor com que se cultua o físico também se cultua a mediocridade. Estamos nos tornando mentalmente preguiçosos. Cada vez mais os encontros sociais, sejam eles reais ou virtuais, são pautados por platitudes e manifestações explícitas de preconceitos, seguidas invariavelmente de expressões como “exato”, “com certeza”, “é verdade” ou qualquer outro clichê que endosse o que está sendo dito sem que se necessite acrescentar uma opinião própria. Apoia-se o descalabro pela preguiça do embate. Padecemos de uma espécie de obviedade mórbida, que pode se manifestar no besteirol interativo da TV aberta, nos 140 caracteres do Twitter, em comentários sem pé nem cabeça no Facebook ou em qualquer outro canto onde alguém resolva exprimir sua opinião sem sequer pensar a fundo sobre o que está falando ou escrevendo.
Em seu blog Herdando uma Biblioteca, o escritor paranaense Miguel Sanches Neto aborda o assunto com perspicácia: “Precisamos de algumas frases feitas para manter uma conversa em situações de banalidade ou de formalidade. É isso que se espera de uma pessoa que vive no meio das outras: que ela possa reverenciar as convenções. O indivíduo, por exemplo, não acredita na mística do ano novo, mas deseja um bom ano para amigos ou meramente conhecidos. Neste momento, não é ele que está falando, mas a própria linguagem que funciona sozinha. Essas frases são acionadas nas ocasiões as mais diversas: para consolar pessoas, concluir um assunto, refletir sobre acontecimentos. Há quem as use com moderação, mas outros falam apenas por meio desses clichês. Por mais que se policie, ninguém está, no entanto, a salvo deles. Por trás de cada frase há um conceito sobre as coisas, sobre a própria vida. Então, ao repetir um desses chavões, nós estamos vendendo determinada visão do mundo, que talvez não seja nem a nossa, mas que passamos adiante como a expressão de uma verdade, de uma tendência, de uma ideologia”.
Sanches Neto toca num ponto crucial: estamos passando para a frente uma visão de mundo que sequer foi concebida por nossa própria mente, mas que endossamos meio que por letargia. Afinal, para forjar uma opinião consistente é preciso exercitar-se, pôr a musculatura dos neurônios para pegar peso, e não apenas entrincheirar-se em lugares-comuns ou frases feitas. Tudo é derivativo. Ou, como diria Chacrinha, “nada se cria, tudo se copia”. Hoje, enquanto almoçava num restaurante, via de relance pela televisão ligada – mas felizmente sem som – um programa de auditório, no qual o apresentador conversava com tipos oriundos de um reality show. E pensei comigo: para milhões de pessoas espalhadas pelo Brasil , aquele sujeito é a fonte primordial de informação a que têm acesso naquele momento, e de certa forma ele e os demais que participam daquele circo involuntário representam uma espécie de reserva moral da nossa sociedade, de exemplos a serem seguidos, da personificação do nosso ideal, por mais absurdo que isso possa parecer. Havia ali algo tão mecânico, tão artificial em sua busca pela atenção do telespectador, que eu me senti constrangido e tratei de prestar atenção ao meu prato.
Recentemente, o jornalista Daniel Piza falou em seu blog sobre a ausência de critérios no julgamento de uma obra de arte por parte do público, mesmo louvando a democratização da informação: “Se o espaço para a informação e o debate aumentou com a multiplicação da mídia, aumentou em proporção bem maior para o palpite e o preconceito. Nos assuntos culturais, em especial, desconfio sempre de quem faz distinções nítidas entre amador e profissional, até porque às vezes o profissional tem um olhar tão viciado e pedante que se afasta do espírito da obra de arte; mas interpretá-la sem esforço de compreensão e sem fundamento na opinião só nos vai deixar menos livres. Mesmo a resenha que tem certo número de linhas anda parecida demais com as estrelinhas dadas nos guias, os achismos lançados em twitters, o ‘curti’ ou ‘não curti’ das redes sociais. O crítico precisa conhecer técnica e história para primeiro entender o que o artista quis fazer e depois dizer se gostou ou não”. Piza decifrou a senha: ficamos menos livres quando pensamos menos. Ou seja: é preciso refletir, gastar neurônios como se gasta a sola de um tênis durante uma corrida de três quilômetros. Uma coisa não exclui a outra, é bom que se diga. Tanto o exercício físico quanto o mental são fundamentais para que nos tornemos pessoas saudáveis, em todos os sentidos. Nada mais nada menos do que aquela velha frase dos tempos de escola: “Mens sana in corpore sano”. Enfim, mais um clichê.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Odisséia
Outro dia, enquanto cortava o cabelo num salão e folheava uma edição antiga da revista Veja, eu li uma matéria sobre os preparativos que estão sendo feitos para a primeira viagem tripulada a Marte. E descobri que um grupo de cientistas cogita um projeto à primeira vista descabido, mas que após alguns minutos de reflexão se revelou plausível: como a viagem de ida ao planeta mais próximo da Terra duraria em torno de cinco meses e a volta é ainda uma incógnita, eles defendem que os astronautas poderiam ser os primeiros colonizadores de Marte e, caso concordassem, ficariam lá para sempre.
Sim, passariam o resto de suas vidas naquele ambiente ameaçador de ar irrespirável, com aquela paisagem monótona de pedras e céu avermelhado. Não veriam mais o lugar em que nasceram. Não apenas o bairro ou a cidade, mas também o país, o continente e, por fim, o planeta. Não veriam mais os oceanos, o céu azul, o verde, os animais, a família, os amigos. Dariam as costas para tudo isso para cravarem seus nomes no célebre panteão dos grandes desbravadores. Foi aí, quando o autor do texto fez essa comparação entre esses astronautas e os navegadores do passado, que me dei conta de que toda essa odisséia no espaço pode sim se concretizar. Afinal, já existem precedentes na história da civilização.
Sim, passariam o resto de suas vidas naquele ambiente ameaçador de ar irrespirável, com aquela paisagem monótona de pedras e céu avermelhado. Não veriam mais o lugar em que nasceram. Não apenas o bairro ou a cidade, mas também o país, o continente e, por fim, o planeta. Não veriam mais os oceanos, o céu azul, o verde, os animais, a família, os amigos. Dariam as costas para tudo isso para cravarem seus nomes no célebre panteão dos grandes desbravadores. Foi aí, quando o autor do texto fez essa comparação entre esses astronautas e os navegadores do passado, que me dei conta de que toda essa odisséia no espaço pode sim se concretizar. Afinal, já existem precedentes na história da civilização.
Numa época em que acessamos qualquer lugar do mundo com o auxílio do Google Earth, não é fácil imaginar o que representaram para a humanidade as grandes navegações. Muitos homens se lançaram no oceano numa época em que existia apenas a Europa e uma parte da Ásia e da África. Do lado de lá do ponto mais avançado do continente – o Cabo da Roca, em Portugal – enxergava-se apenas o infinito. E ele era apavorante. Américo Vespúcio chegou à América e seu nome batizou o novo mundo, mas ele imaginou que se tratava do continente asiático. Ou seja: ignorava a existência de toda aquela extensão de terra que vai da Groelândia à Terra do Fogo e, por trás dela, o maior dos oceanos, o Pacífico. Enfim, havia mais coisas entre a Europa e o resto do mundo do que supunha nossa vã filosofia.
Mas a idéia do exílio voluntário eterno me intriga e de certa forma me fascina. A matéria dizia que, com a brutal diferença de gravidade entre os dois planetas e a rotina estafante por lá, a expectativa de vida dos astronautas colonizadores seria de apenas 10 anos. Como alguém poderia em estado de plena lucidez tomar uma decisão como essa? A idéia, segundo os cientistas, seria criar uma colônia de humanos em Marte: eles criariam hortas, estudariam maneiras de extrair a água do subsolo e, caso tudo desse certo, procriariam. Teríamos, assim, os primeiros bebês nascidos em solo marciano – em que condições é impossível dizer. Com a passagem das décadas ou dos séculos e com a Terra exaurida, poderíamos – os mais afortunados – nos mudar para lá, deixando para trás o caos institucionalizado.
Mas… como lidar com a saudade? Penso no banzo que acometia os escravos saudosos, uma dor íntima e silenciosa por saber que nunca voltariam e teriam que seguir em frente em terra estranha, sob o jugo de gente hostil. Aos terráqueos solitários restaria apenas olhar o céu. Ali, em algum ponto do universo, repousaria uma estrela quase igual às outras, como é Marte quando a observamos daqui. É distância demais para um coração, por mais duro e impenetrável que seja.
Todas essas especulações são apenas (ao menos por enquanto) delírio visionário. Mas foi o delírio posto em prática que permitiu à humanidade avançar – e em alguns casos retroceder. Seria, de todo modo, uma maneira de a espécie humana responder a um dos questionamentos primordiais que nós, como indivíduos, sempre nos fizemos, invariavelmente sem encontrar a resposta: para onde vamos?
Todas essas especulações são apenas (ao menos por enquanto) delírio visionário. Mas foi o delírio posto em prática que permitiu à humanidade avançar – e em alguns casos retroceder. Seria, de todo modo, uma maneira de a espécie humana responder a um dos questionamentos primordiais que nós, como indivíduos, sempre nos fizemos, invariavelmente sem encontrar a resposta: para onde vamos?
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Uni, duni, tê
Alguém ainda lembra de Hermes Aquino? Quando criança, eu adorava a música Nuvem Passageira, que acredito tenha sido seu único sucesso, e me intrigava a suavidade com que ele cantava aqueles versos, como se quisesse esconder o verdadeiro significado deles. “Você não vê que a vida corre contra o tempo? Sou um castelo de areia na beira do mar”. Todos nós somos. No caso de alguns, a maré alta surpreende antes da hora e destrói o que parecia feito para durar muito mais do que uma tarde. Mario Quintana uma vez escreveu: “Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?”. A morte provoca um espanto semelhante: por mais que a presenciemos todos os dias nos jornais e nas conversas com parentes e amigos, sempre cabe o assombro, a lâmina no estômago, o desconforto mudo.
Desde o início, a maioria de nós tem consciência, ainda que fugidia, dessa condição provisória, do curto percurso que nos leva à velocidade da luz do berço à sepultura, mesmo que em alguns a fé aplaque o espanto e conduza à resignação. E nos surpreende mais ainda o caráter aleatório, que faz com que uns permaneçam até se cansarem da vida, enquanto outros se vêem privados dela antes mesmo de tateá-la inteiramente. É quase como os nazistas faziam – segundo o comovente relato de uma sobrevivente de Auschwitz ao repórter Geneton Moraes Neto –, ao decidir quem seria brindado com um banho de água corrente e quem levaria uma ducha de gás letal. Uni, duni, tê. Apenas uma imensa vastidão de acaso a nos assombrar.
Eu tinha 12 anos quando uma prima morreu, vítima de um tumor no cérebro. Até então, acreditava que os santos-anjos e pais-nossos ensinados por minha mãe seriam capazes, por si sós, de reverter o quadro, trazê-la de volta a uma vida saudável. Aos 16, já estava convertido ao ateísmo, crença que professo até hoje por falta de opção, e que só se fortalece quando leio histórias como a de Arthur Amorim Santos, definido em seu obituário na Folha de S.Paulo como “o pequeno paleontólogo”. Aos nove anos, Arthur se orgulhava de entender tudo de dinossauros. Conhecia todas as espécies e os períodos em que viveram, e chegou a escrever um livrinho sobre eles: As Aventuras de Yoshito. Morreu de um tipo raro de câncer, como um cristal bonito, que se quebra quando cai. O que dizer sobre isso, além do lamento aparvalhado? O que depreender de um fato tão cruel e ao mesmo tempo tão banal? Não é a primeira vez que escrevo sobre isso, nem será a última. A repetição funciona como um mantra obsessivo, mórbido talvez, que uso para tentar entender o vazio. Inutilmente, claro.
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Novo feudalismo
Não lembro quem escreveu que a internet, ao invés de democratizar a informação e incentivar o pluralismo, está na verdade criando pequenos feudos onde as pessoas ficam entrincheiradas em suas opiniões, cada vez mais arraigadas e refratárias ao que o outro tem a dizer. Quando digo “o outro”, me refiro aos que possuem opiniões contrárias às da maioria e as expressam de algum modo, seja em artigos na imprensa, textos em blogs ou outro meio qualquer de comunicação. Não sei se é culpa da internet, mas o fato é que estamos ficando intolerantes. E essa espécie de “novo feudalismo”, na qual cada um é dono do seu quadrado e tudo que vem de fora é desqualificado sistematicamente, vem ganhando ainda mais força nos sites e blogs de política.
Ontem, li no blog do jornalista Luís Nassif uma nota afirmando que o historiador inglês Eric Hobsbawm elogiava o ex-presidente Lula, definindo-o como “o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil”, acrescentando que “no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles”. Uma bela frase vinda de um belo intelectual, humanista forjado no marxismo e na convulsão das duas guerras mundiais, que admiro profundamente desde que li A Era dos Extremos. O estranho, apenas, é que se trata de uma frase dita há dois anos, o que curiosamente não é informado no blog. Mas o que mais me chamou a atenção foi o espaço reservado aos comentários dos leitores. Quase sem exceção, eles elogiavam Hobsbawm e aproveitavam para desancar o poeta Ferreira Gullar, que no domingo passado escreveu, em sua coluna na Folha de S.Paulo, um virulento ataque ao ex-presidente. Como se uma opinião automaticamente excluísse a outra.
Tanto Hobsbawm quanto Gullar apresentam argumentos pertinentes para justificar seus elogios e críticas, respectivamente. Pode-se concordar com eles ou não, mas vale a pena ler o que têm a dizer, para o bem de uma consciência crítica plenamente formada. Foi o que acredito ter feito. Concordo em parte com Gullar, embora ache que Lula foi um dos maiores presidentes – se não o maior – que o Brasil já teve. Errou? Muito, sobretudo no primeiro mandato. E a forma demagógica com que atuou nos últimos anos é quase tão condenável quanto o apoio irrestrito a José Sarney, o descaso diante das denúncias do mensalão, a aproximação com o Irã e a recusa teimosa em reconhecer os méritos do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Essa é só uma amostra da fartura de equívocos cometidos na era Lula. Mas poderia elencar aqui uma série de virtudes do mesmo governo que fizeram desse período uma época sem precedentes, das quais o combate à exclusão social e à miséria absoluta foram as mais louváveis.
Fechar os olhos para essas contradições é agir com irresponsabilidade e desrespeito à história. E chamar um dos maiores poetas e intelectuais brasileiros de “gagá”, “fichinha” ou “representante das elites mais reacionárias do Brasil” é não aceitar a opinião do outro, por mais embasada e honesta que seja – e é, no caso de Ferreira Gullar. Mas na internet essa parece ser mesmo a regra. Os esquerdistas se entrincheiram em blogs como o de Nassif e os direitistas ficam aquartelados no portal de um Reinaldo Azevedo, por exemplo (muito embora o conceito de direita e esquerda, hoje, seja absolutamente nebuloso).
Com isso, estimulamos o sectarismo e reprimimos a capacidade primordial de pensar por conta própria, discutir e convencer ou ser convencido. Afinal, é mais fácil se esconder em comentários anônimos ou vociferar contra o oposto (quase sempre com um vocabulário simplório e raciocínios que não se completam) como se ele fosse um inimigo da verdade. Neste universo digital de compartimentos estanques, o consenso se torna a regra e quem pensa diferente que vá procurar sua turma. Afinal, a internet não é uma mesa de bar, onde pessoas de todo tipo sentam, bebem, conversam, discutem e trocam conhecimento mutuamente, enriquecendo o debate sobre as coisas que realmente importam.
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