terça-feira, 30 de julho de 2013

Meu amigo Raul




Hoje acordei com vontade de ouvir Meu Amigo Pedro, de Raul Seixas, provavelmente por ter assistido no sábado ao documentário O Início, o Fim e o Meio. E ao ouvir a canção, enquanto tomava o café da manhã antes de ir para o trabalho, me transportei quase de imediato para uma tarde quente e empoeirada de mais de 20 anos atrás, em algum trecho de uma estrada de Minas, numa das muitas viagens que fiz de ônibus nesse período. Umas quatro fileiras à minha frente, um rapaz ouvia músicas de Raul num velho gravador, que ecoavam por todo o ônibus, e era agradável passar o tempo ao lado delas. Uma das canções era justamente Meu Amigo Pedro, que lembro de ter ouvido pela primeira vez naquele momento. Estávamos em 1991 ou 1992, não sei precisar, e Raul Seixas tinha morrido poucos anos antes, embora se mantivesse vivo até demais naquele ônibus.

A idolatria em torno dele começava a tomar corpo, convertendo-o em um ícone profundamente identificado com as camadas populares. Suas músicas, mesmo as de significado mais obscuro, calavam fundo nos corações e mentes do Brasil profundo. Ao terminar de beber a vitamina e pegar a chave do carro, me veio à mente uma lembrança ainda mais remota (agosto de 1989, para ser mais preciso): eu e meu pai conversávamos na janela do quarto dele, na penumbra. Acabávamos de saber da morte de Raul, e eu me sentia triste. Meu pai, não sei se para me consolar ou apenas esboçando uma opinião pessoal, disse algo como: “A gente lamenta o fato dele morrer tão novo, mas não dá para dizer que era um grande artista, suas músicas não eram grande coisa”. Obviamente, meu pai, maturado por décadas no universo musical de Cartola, Silvio Caldas e Frank Sinatra, não perceberia em Raul uma voz capaz de lhe dizer algo de relevante.

O que fica evidente no filme de Walter Carvalho é que o roqueiro baiano não cantava para um público específico. Simples e sinceras, suas canções tinham alcance universal, daí uma canção como Ouro de Tolo fascinar tanto Caetano Veloso quanto o cara do ônibus que ia, sei lá, de Mariana para Barbacena. Isso fica bem claro na sequência do enterro de Raul, uma das mais comoventes do documentário. Aquela multidão de gente da periferia de Salvador cantando alto e chorando o fim do ídolo, do amigo barbudo e magricela que lhes falava ao pé do ouvido, abordando com simplicidade pungente (e ao mesmo tempo com profunda autenticidade e talento) temas como autoritarismo paterno (Sapato 36), amores não correspondidos (A Maçã), insanidade (Maluco Beleza), fé (Tente Outra Vez), elucubrações metafísicas (Gita) ou existências desperdiçadas pelas convenções sociais (Medo da Chuva).

Ponha uma música de Raul em qualquer baile de subúrbio ou numa festa da alta roda que a receptividade vai ser a mesma. Era o que eu percebia, um tanto emocionado, nas festinhas da faculdade em São Paulo ou, como já disse, nos ônibus interestaduais que cortam o Brasil. É uma das melhores maneiras de ser eterno.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Depois de junho




Ainda não vi Depois de Maio, que mostra como prosseguiu a vida dos manifestantes que cravaram seu lugar na história, em 1968, ao convulsionar a França – e por consequência várias cidades do mundo – com barricadas, slogans imortais e confrontos com a polícia. Talvez o filme de Olivier Assayas, com seu olhar retrospectivo, me ajudasse a compreender os movimentos populares que sacodem o Brasil de 2013. Nas últimas semanas, pouco me manifestei sobre o desenrolar dos fatos. Não saí às ruas nem levantei cartazes, muito menos corri das tropas de choque. Li muitas análises e depoimentos interessantes, outros nem tanto. Acompanhei indignado o recrudescimento da violência policial e, ao fim de tudo, me vi cheio de perguntas sem respostas sobre o real significado disso tudo. Sei apenas que gostei do que vi e creio que algo permanecerá, embora não saiba exatamente o quê.

É fato que, para se alcançar uma insurreição plena, seria necessário paralisar atividades essenciais ao funcionamento do país. Convocar uma greve geral que interrompesse, por exemplo, o sistema de transportes, os bancos e a polícia. Seria o caos, mas de certa forma vivemos o caos cotidianamente, sobretudo os mais pobres, que moram longe, levam três ou quatro horas para chegar ao trabalho (quando há trabalho) e convivem com patrulhas e grupos de extermínio invadindo constantemente a sua rua. O Brasil é um país que não respeita os seus cidadãos, e isso não é novidade. Agora, os cidadãos deixaram de respeitar o Brasil. Cansaram. E não tem Copa do Mundo que sacie a delícia de andar nas ruas.

Uma hora, as manifestações vão arrefecer (já estão arrefecendo). Há boatos golpistas de lado a lado, todos sem fundamento. O Governo acena com mudanças mais ou menos significativas e outras descabidas, o Congresso ensaia algumas decisões midiáticas. Nas redes sociais, batalhas verbais se sucedem colocando em lados opostos petistas e anti-petistas, reverberando um extremismo anacrônico e estéril. E nessa hora começa a bater um cansaço. Uma exaustão por saber que esses discursos não dão conta da complexidade do país, do grau de miséria, vergonha e desrespeito a que somos, em maior ou menor medida, expostos. A impressão é que nem mesmo quem vai às ruas sabe o que quer, apenas vislumbra a possibilidade de um país menos hostil.

Num cenário assim, qualquer centelha provoca explosão, seja o aumento de vinte centavos na passagem de ônibus ou a tal PEC 37, sobre a qual não tenho opinião formada. Aliás, não tenho opinião formada sobre quase nada. Transito o tempo todo por um terreno pantanoso de convicções frágeis, que se movimentam como placas tectônicas a cada informação que me acrescenta conhecimento e visão de mundo. Mas voltando às manifestações, o fato é que, após os milhões nas ruas pedindo eleições diretas em 1984, vivemos décadas de resignação interrompidas aqui e ali (como é o caso dos caras pintadas pedindo o impeachment de Fernando Collor em 1992). Nesse hiato, a sociedade assistiu ao esgarçamento de princípios morais elementares. Forçou-se a corda ao máximo, desde a compra de votos para a aprovação da emenda da reeleição, durante o governo FHC, até o escândalo do Mensalão, na gestão de Lula, culminando com os gastos obscenos para a Copa do Mundo de 2014.

A gota d’água, a meu ver, foi a escolha de Marcos Feliciano para presidir a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara. Ali, o cinismo atingiu seu apogeu. Foi como se dissessem: “Vamos com ele mesmo e foda-se a opinião pública”. Impossível aceitar, impossível retroceder. As manifestações que sacodem o Brasil não padecem de escassez de causas, e sim do excesso delas. Resta saber o que permanecerá depois de junho, quando os milhares de pessoas nas ruas enfrentando balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo forem apenas uma foto na parede da nossa lembrança. Enfim, olho aquelas pessoas com esperança e admiração, mas também com uma ponta de desilusão e ceticismo. E, acima de tudo, com a certeza de que o primeiro passo foi dado.

quinta-feira, 6 de junho de 2013


"Quanto a mim, eu era o começo, o meio e o fim juntados num menino muito novo e já velho, já morto (...) Reunido, apertado, tocando com uma mão meu túmulo e com a outra meu berço, sentia-me breve e esplêndido, um raio terrível eclipsado pelas trevas."

Jean-Paul Sartre, em As Palavras

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Por quem os sinos dobram





Ontem, escrevi no Facebook um pequeno comentário sobre a sensação de impotência e perplexidade que a sucessão de atos violentos no país vem causando em mim. O desabafo terminava com um questionamento exasperado: “Há alguma dúvida de que o Brasil está se tornando uma imensa fábrica de imbecis? Uma indústria de gente amoral, imersa em brutalidade, incapaz de viver em sociedade?”. Entre os que comentaram o texto, um amigo brincou, parafraseando Humphrey Bogart em Casablanca: “Sempre haverá Paris...”. Eu, do alto da minha ingenuidade inócua, retruquei: “Mas não quero apenas ir para Paris e deixar isso aqui entregue à barbárie. Quero ver uma evolução.”


Então o meu amigo, muito mais vivido e com uma visão de mundo mais impiedosa e realista que a minha, respondeu: “Reverter essa situação é um trabalho de 50 anos, se começar hoje às 7 da noite. Você não é responsável pela barbárie e sim um cidadão do mundo com direitos adquiridos sobre cultura e civilidade, e não é imortal. Nessa hora vale Buñuel: ‘Pátria é um conjunto de rios que correm para o mar’”. Ainda brinquei, dizendo que só me restaria então chorar aos pés da Torre Eiffel e depois tomar um vinho no Quartier Latin, que ninguém é de ferro. Ele, obviamente, sugeriu que dividíssemos a garrafa.

O que meu amigo disse, no entanto, me fez refletir sobre o meu papel – e o de todos os cidadãos brasileiros que se vêem acuados pela barbárie e não contribuíram (ou ao menos não contribuíram diretamente) para esse cenário de indigência moral, disseminado por todos os estados do país e por todas as classes sociais. E admito que ele tem razão. Será que não merecemos viver dentro dos princípios que defendemos e nos quais acreditamos? Sendo um humanista, defensor do bem-estar social, da igualdade de direitos e do absoluto respeito ao outro, por que não mereço viver em um lugar onde esses elementos compõem a regra da vida em sociedade, ao invés da exceção? A resposta me parece clara.

Mas, deslocando o ponto de vista em outra direção, será que não tenho mesmo participação ativa na consolidação da ruína em que vivemos? O que fiz até hoje para mudá-la? É meu dever mudá-la? A resposta já não me parece tão clara. O fato é que sou apenas um teórico de meia-tigela, sem nenhum pendor para a prática, incapaz de botar a mão na massa e desempenhar um papel ativo na construção de uma sociedade menos brutalizada. Os textos que escrevo aqui no blog (muito menos os comentários irritadinhos que faço no Facebook) não são capazes de me redimir da minha própria inércia. O que fazer então? O salão de embarque internacional do aeroporto não deixa de ser uma saída tentadora, mas nem saberia como me manter lá fora, sobretudo agora que a Europa vive uma crise sem solução a curto prazo.

Sei apenas que meus sentimentos seguem à risca o que John Donne escreveu há muito tempo, inspirando Hemingway a criar Por Quem os Sinos Dobram: “Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano”. Talvez por isso, mesmo se estivesse longe, bebendo tranquilamente um Bordeaux num daqueles charmosos bistrôs do Quartir Latin, feliz como um perdigueiro no mato, eu provavelmente continuaria me lamentando. Um lamento tolo, embebido em hipocrisia, inutilidade e assombro. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Filho temporão


Ao ver Mario Vargas Llosa falar com entusiasmo, no Programa Roda Viva, dos anos que viveu em Paris e Londres, eu percebi o quanto cheguei tarde ao mundo. É um sentimento que carrego há muito tempo, e que deixa entrever uma incômoda tendência à nostalgia, ao não-vivido, ao que convulsionou o mundo antes que eu pesasse sobre ele. A Paris e a Londres do escritor peruano não são as que conheci no início deste ano. Segundo ele, não existem mais a efervescência cultural e política que culminou nos protestos de Maio 68, a hegemonia dos grandes pensadores, a sensação de estar na capital do mundo. Vargas Llosa lembra, com um gostoso sorriso de desilusão, que as pessoas acreditavam em Sartre, liam Sartre e reverenciavam Sartre como se fosse um demiurgo visionário.


Hoje, a maioria das pessoas nem mesmo se pergunta: quem foi Sartre? E, ao me debruçar como faço agora sobre As Palavras, seu belo e sarcástico livro de memórias, acabo me sentindo como um soldado que se atrasou para a batalha e, quando chegou, encontrou apenas terra arrasada e corpos empilhados. Essa involuntária sensação de que sou um filho temporão de outra era faz um certo sentido. Afinal, onde foi parar o ideal socialista que Sartre tanto glorificou, mesmo sabendo das atrocidades cometidas por Stálin e sua turma vermelha? Onde foram parar a relevância das idéias, o poder de fogo dos grandes romances, as discussões inflamadas regadas a vinho ou cerveja? Sartre é extemporâneo, como eu sou (as comparações param por aí). A argamassa que deu forma ao século em que nascemos foi implodida para dar lugar a uma nova ordem mundial da barbárie. Substituímos as tempestades de fogo da Segunda Guerra pelos aviões lançados contra prédios. A batalha encarniçada e suja nas trincheiras pelo asséptico jogo de videogame que só causa dor aos que recebem as bombas.

Vargas Llosa diz que hoje a efervescência dos velhos tempos talvez possa ser encontrada em Berlim, para onde confluem milhares de jovens em busca de cosmopolitismo. Mais uma vez, percebo que cheguei tarde. Não sou mais jovem, ou pelo menos não sou mais suficientemente jovem para me hospedar em hostels e me integrar com gente do mundo todo, participar de passeatas por causas nobres, namorar uma menina do Nepal ou, sei lá, fumar haxixe com um pessoal da Nova Zelândia. Não sou mais mochileiro, nem leio mais Kerouac. Sou um recluso, um ermitão enclausurado na minha modesta torre de papel. Não é ruim, ressalto. Gosto dos vinhos na varanda, da leitura descompromissada, da companhia de minha família. Mas sinto falta de um pouco de passado. Das tertúlias em francês de que não participei, dos pensadores que não segui, das causas em que não me engajei. Enfim, sinto falta de crer em utopias, em vez de me lambuzar de silêncio e incompreensão.

terça-feira, 30 de abril de 2013

O mundo é um monstro



Eu hoje acordei meio deprimido sem saber exatamente o motivo, como acontece de vez em quando. Algo se processa em minha mente enquanto durmo e de manhã percebo o estrago. Então lembrei que, pouco antes de dormir, tinha lido a notícia de que a garotinha de cinco anos estuprada e torturada na Índia havia morrido no hospital. Aquilo doeu de uma forma estranha, como se houvesse uma implosão em algum ponto do meu corpo. Devo ter dormido com esse fato provocando pequenas incisões nos meus sentimentos, e acordei com uma desesperança, um desalento e uma constatação óbvia: o mundo é um monstro.

Na semana passada, sonhei que vi da varanda do meu apartamento uma briga de trânsito que culminou numa execução. Foi um pesadelo muito real: dois carros (curiosamente de modelos antigos) fechando-se mutuamente, os xingamentos e por fim um dos carros invadindo a calçada, um dos sujeitos saindo do carro e descarregando o revólver no outro. Lembro com nitidez do corpo já inerte, encostado num muro, enquanto as balas ainda iam em sua direção. Lembro de ter pensado em ligar para a polícia, mas permaneci paralisado pelo pavor. Então acordei, o corpo tremendo, suando, como se acabasse de presenciar um assassinato de verdade.

Para mim ficou claro: minha mente processava naquele momento o estado de torpor, medo e impotência em que vivemos. Um estado latente, que se exacerbou em sonho, mas que nos deixa em permanente alerta quando estamos acordados. Temos motivos para isso, como os animais da savana que ficam o tempo todo de olhos, nariz e ouvidos atentos a qualquer balançar de arbusto ou arrastar de patas no solo. Somos como zebras, tentando proteger a nós mesmos e a nossas crias do ataque iminente, da banalidade do mal. Curioso como é oportuna nos dias atuais essa expressão criada por Hannah Arendt para explicar o que sentiu durante o julgamento do nazista Adolf Eichmann. De acordo com Hannah, os atos de Eichmann não eram desculpáveis, muito menos ele era inocente. Mas não foram atos executados por um ser dotado de imensa capacidade de crueldade, e sim por um funcionário burocrata dentro de um sistema baseado em atos de extermínio. Um sujeito banal, em suma.

O que percebo hoje é que o mal – sistemático, gélido e praticado em escala industrial – serve não a um regime, mas a toda uma civilização. Padecemos de uma enfermidade moral, que ora se expressa no estupro absurdo de uma criança, ora num assalto que termina com a vítima incendiada sem qualquer possibilidade de defesa. Ou também em uma bomba dentro de uma panela de pressão, detonada por rapazes com feições angelicais e, num estágio acima, em um avião não-tripulado que despeja bombas e transforma famílias em escombros. É como se todos os princípios morais e humanistas sedimentados durante séculos tivessem evaporado. O tudo é permitido de que falava Dostoievski finalmente chegou. Vivemos em um mundo pré-iluminista, pré-renascentista. Um mundo à beira da pré-história.

Pergunto a mim mesmo como o ato tão extremo e tão profundo de matar pode ser cometido com tamanha regularidade e das formas mais prosaicas. Que mecanismo se processa em nós e nos transforma em assassinos? Não busco aqui explicações sociológicas, já que a profunda desigualdade social de países como Índia e Brasil é diretamente responsável pela violência urbana, mas não necessariamente por atos gratuitos de crueldade. Gostaria de compreender como é gestado um assassino potencial, até para não me sentir tão vulnerável diante de um, dos tantos que habitam o país onde vivo. Mas a chave está mesmo com Hannah Arendt: o mal é banal, e não comporta compaixão, piedade ou remorso.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O afeto que se encerrou




Paulo Francis morreu no dia em que completei 27 anos. Eu trabalhava no departamento de pesquisa da Folha de S.Paulo e passei o dia escrevendo e levantando material para a edição especial sobre ele que sairia no dia seguinte, ao tempo em que suprimia a tristeza por sua perda e por meu aniversário passar praticamente em branco. Tinha aprendido a gostar de Francis, estimulado por um colega de faculdade cujas idéias e a bagagem cultural eu respeitava e admirava. Até hoje considero seus livros de memórias – Trinta Anos Esta Noite e O Afeto que se Encerra – duas obras-primas. Sua erudição, mesclada com coloquialismo e boa dose de coragem, produzia textos sedutores, envolventes, mesmo que por vezes suas opiniões se mostrassem extremamente preconceituosas.


Grande parte dessa reverência se esvaiu com o passar dos anos. E isso ficou muito claro para mim outro dia, quando vi no Twitter um link para uma página que reunia 30 aforismos de Francis. Eu planejava compartilhar essas citações nas minhas redes sociais, até que fui lendo as frases. Havia reflexões interessantíssimas, como “Todo otimista é um mal-informado”, e insultos hilários, como “Dizem que escrever é um processo torturante para Sarney. Sem dúvida, mas quem grita de dor é a língua portuguesa”. Outras, no entanto, eram de uma imbecilidade exemplar, como “A descoberta do clarinete por Mozart foi uma contribuição maior do que toda a África nos deu até hoje” ou “A função da universidade é criar elites e não dar diplomas a pés-rapados”.

Sei que posso ser acusado, aqui, de querer pregar o politicamente correto, quando na verdade estou tentando pregar apenas o que considero correto. As duas frases que citei por último deixam entrever a característica mais deplorável de Francis: o seu racismo. Sim, a função da universidade é criar elites, mas desde quando pés-rapados não podem ou não devem fazer parte dessa elite? A que elite ele se refere? Uma elite intelectual ou uma elite financeira? Quanto à África, deixando de lado toda a trajetória miserável que não permitiu ao continente produzir Mozarts em série, será que é tão difícil enxergar as contribuições musicais relevantes que ela nos legou? Eu mesmo poderia citar aqui, de cabeça, uns 10 artistas africanos excepcionais. A obtusidade de Francis neste caso é ainda mais clara.

Essa desconstrução de alguém que já admirei muito se intensificou hoje, quando assisti ao documentário Caro Francis, dirigido por Nelson Hoineff. Um filme interessante, embora claramente afetivo. Ali estava o Francis amigo, capaz de gestos profundamente generosos, e também o Francis hilário, com sua voz empostada de bêbado e seus olhos de louco. Os momentos derradeiros (do filme e da vida dele) são comoventes. Mas mesmo nesses trechos fica claro como as atitudes do jornalista eram nocivas, inclusive para ele mesmo.

Pouco antes de morrer, Francis acusou, no programa Manhattan Connection, os diretores da estatal Petrobras de enriquecerem de forma ilícita, depositando milhões em paraísos fiscais. Mesmo alertado pelos colegas de bancada da gravidade do que disse, preferiu sustentar a informação, que obviamente não poderia ser provada. A Petrobras entrou com um processo na justiça norte-americana que o levaria à falência, o que o deixou em desespero e provavelmente contribuiu para o infarto fulminante que o matou. Mas em nenhum momento os entrevistados dizem que Francis foi leviano ou que sua atitude era incompatível com o exercício do jornalismo. Limitam-se a culpar o médico e a Petrobras por sua morte. É claro que houve um erro grosseiro do médico (que tratou um infarto como uma bursite), mas por que Francis não buscou outro médico mesmo quando as dores aumentaram sensivelmente?

Quando o filme relembra a briga entre Francis e Caio Túlio Costa (então ombudsman da Folha), que culminou com a saída do colunista do jornal, Diogo Mainardi prefere ofender Caio Túlio, chamando-o de medíocre, a analisar o caso de maneira imparcial. Muitos outros entrevistados agem de forma parecida, tratando Paulo Francis como um arauto da inteligência e do refinamento numa cruzada contra a estupidez generalizada do brasileiro. O problema é que mesmo com um recorte tão favorável ao biografado, o que fica – ao menos para mim – é o retrato de um sujeito muitas vezes egocêntrico, arrogante e irresponsável.

Caetano Veloso cita em Verdade Tropical, que estou relendo, outro episódio envolvendo Francis: “No final dos anos 80, o jornalista carioca Paulo Francis escreveu de Nova Iorque para um jornal de São Paulo que, ao ver Bethânia cantando o ‘Carcará’ em substituição a Nara Leão em 64, percebera que o Rio mudara e ele passara desde então a considerar aquele momento como o marco da vinda ‘dessa gente’ (que ele despreza) para o Rio”. Esse episódio relembrado por Caetano (outro que já brigou feio com o jornalista) desvela o pensamento de Francis em todo o seu tenebroso esplendor: o elitismo sem sentido, o permanente saco cheio do mundo, a revolta contra as “impurezas” que tomavam conta do Brasil. São elementos que sem dúvida enriquecem o personagem, mas evidenciam a pobreza de espírito do criador. Como Pound ou como Céline, sendo que Francis nem de longe chegou perto da estatura desses dois.  

quarta-feira, 27 de março de 2013

Conversa na varanda




Às vezes, quando é alta a madrugada e me sinto só, eu penso comigo mesmo: como seria bom se a realidade pudesse entrar em suspensão. Seria só um breve hiato, desses que acontecem de um jeito quase prosaico nos contos de Borges. Capaz de me transportar para o reino do fantástico e me trazer de volta, ainda que por algumas horas, quem perdi um dia. Uma noite seria o bastante, apenas uma noite. Deixaria a varanda para ir à cozinha pegar água e quando voltasse me depararia com meu pai sentado na cadeira, me esperando. Não ficaria atônito ou assustado, muito menos me desesperaria com o fato de que o meu ateísmo, naquele momento, se reduziria ao pó do qual viemos e ao qual voltaremos. Ali, na mesma varanda da minha casa, onde costumo ficar até a madrugada, ouvindo música e bebendo vagarosamente a última taça de vinho. 

Sentaria ao lado de meu pai e conversaríamos sobre as coisas que aconteceram nesses quase infinitos dez anos que nos separam. Iniciaríamos com as platitudes: diria que estamos todos bem, que sentimos a sua falta e que vamos levando a vida como se deve. Depois relataria de memória alguns episódios que aconteceram de 2003 para cá. Lembraria, provavelmente, do tsunami que matou 250 mil pessoas na Ásia, no natal de 2004, e da morte de Paul Newman, que ele tanto admirava, em 2008. E é claro que lhe contaria sobre o heróico campeonato brasileiro conquistado pelo Mengão em 2009, comandado por Petkovic e Adriano (tenho certeza de que ele diria com alguma incredulidade: “Foi mesmo?”).

Diria mais. Comentaria sobre os livros que li, os filmes que assisti, os países que conheci. Confessaria que lembrei muito dele quando estive no Chile. Ou em Paris. Ou em qualquer outro canto onde sentei para beber um vinho olhando ao redor, absorto em mim mesmo, como ele costumava fazer. Mostraria fotos de minha filha e o levaria até o quarto dela, para que ele a visse dormindo. Imagino o seu espanto ao se dar conta de como ela cresceu. Diria ainda que ele ganhou mais uma neta, loirinha e de olhos azuis, e em seguida abriria o melhor vinho da adega para que pudéssemos relembrar melhor os 33 anos de interseção entre a vida dele e a minha vida.

Mas, principalmente, ficaríamos vários minutos imersos em um silêncio cúmplice, como já ficamos muitas e muitas e muitas noites, bebendo ou fumando. Um silêncio morno e sereno, que me enchia de uma sensação aconchegante e que até hoje me enche de saudade. Não procuraria saber dele o que é o além ou o infinito, nem buscaria a resposta para o  inútil questionamento que fazemos há 10 mil anos ou mais: para onde vamos? E pouco me importaria com a chegada da aurora, mesmo sabendo que com ela a realidade – clara, quente e violenta como um bombardeio aéreo – expulsaria da varanda essa frágil lacuna de fantasia. Garrafa vazia, sono chegando, nos despediríamos enfim com um abraço e ele sairia pela porta, como saiu tantas outras vezes, com a diferença de que sempre voltava.

sábado, 9 de março de 2013

Casas de intolerância



Woody Allen tem um pensamento interessante sobre o fato de estarmos realmente sozinhos nesta aventura sem rumo pela Terra, e mesmo assim procurarmos viver de acordo com premissas morais nas quais acreditamos: “Existe uma porção de gente que escolhe levar a vida de um jeito completamente autocentrado, homicida. Pensam assim: já que nada significa nada e eu posso me dar bem com assassinato, vou fazer isso. Mas pode-se também fazer a escolha de que estamos vivos, e outras pessoas estão vivas, e estamos juntos num bote salva-vidas e é preciso tentar e fazer o bote ser o mais decente possível para você e para todo mundo. E me parece que isso é muito mais moral, e até mesmo muito mais ‘cristão’. Se você admite a terrível verdade da existência humana e escolhe ser um ser humano decente diante dela, em vez de mentir para si mesmo que vai haver uma recompensa ou um castigo celestial , isso me parece mais nobre”.  

Concordo com esse pensamento. E não me surpreendo quando vejo, em pessoas sem Deus em suas vidas, uma visão de mundo profundamente altruísta. Por outro lado, cada vez mais percebo o quanto as religiões, quase sem exceção, desde as judaico-cristãs até as muçulmanas, estão estruturadas numa relação de causa e efeito. Você faz o bem aqui e ganha lá na frente, ou melhor, no Juízo Final. Ok, cada um pensa como quiser, desde que prevaleça a decência. Mas me preocupa um pouco quando essa relação de causa e efeito é substituída por contratos de compra e venda, como nas tais igrejas neopentecostais. Um paraíso a prestação, pode-se dizer. O crente paga aos pastores – seja em dinheiro vivo ou em doações de veículos e até casas – e ganha o amor de Jesus a perder de vista. Caso contrário, o Todo-Poderoso se revoltará contra ele e desgraças das mais diversas cairão sobre sua cabeça.  Pensando bem, mais do que um contrato de compra e venda, é uma relação de coerção.

Mas até algum tempo atrás, os seguidores dessas igrejas eram os únicos prejudicados por esse conto do vigário espiritual. Eram eles que perdiam boa parte dos rendimentos para enriquecer indivíduos como Edir Macedo e Sônia Hernandez. Terrível, mas pelo menos um problema restrito a um grupo (embora grande) de pessoas, muitas delas sem vivência ou educação formal para perceber o quanto estavam sendo enganadas. Isso acabou, e deixou de ser um problema puramente religioso. O poder que essas igrejas concentram faz delas uma ameaça séria ao processo democrático brasileiro, e mesmo assim paira uma desconfortável conivência, seja por parte do Governo, dos partidos políticos ou da justiça, com o enriquecimento ilícito dos seus donos.

Hoje, a bancada evangélica tem influência decisiva no Congresso Nacional. Por conta disso, chegou-se ao ponto em que um escroque, o deputado Marco Feliciano, acaba de ser eleito para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. É um fato tão grave que mesmo um povo acomodado como o brasileiro parece estar dizendo: basta! Para quem não sabe, o também pastor e empresário Feliciano já deu declarações dizendo que os africanos são um povo amaldiçoado. Foi ele também que, em um culto da sua igreja, andou pedindo a senha do cartão de crédito oferecido por um seguidor: “Doou o cartão, mas não doou a senha. Aí não vale. Depois vai pedir um milagre para Deus, Deus não vai dar, aí vai achar ruim”. Sim, é esse sujeito que vai presidir a Comissão de Direitos Humanos. Por conta disso, já correm piadas na internet dizendo que o goleiro Bruno, condenado pelo homicídio da ex-namorada, vai presidir a comissão de direitos da mulher. Afinal, vivemos a era do cinismo.

Marco Feliciano é apenas a ponta mais vistosa do iceberg. A enorme massa de manobra dos pastores neopentecostais também volta a sua fúria fanática contra homossexuais e sobretudo contra religiões de matriz africana. Terreiros têm sido invadidos, objetos de culto são destruídos, adeptos das religiões africanas são hostilizados. Há muitas explicações para o recrudescimento da agressividade dos tementes a Jesus, Jeová ou quem quer que seja. E o principal deles talvez seja o fato de que as igrejas precisam expandir seus negócios. Mais fiéis representam mais dízimos, mais influência no Poder Público, mais força nas emissoras de rádio e televisão, mais templos grandiosos.

Mas há algo de sintomático na forma como a intolerância se processa, inclusive para além do universo religioso. Vivemos uma era onde a alteridade é matéria-prima escassa e o extremismo é hegemônico, seja na política, no futebol, nas relações entre diferentes classes sociais. Nesse território engolfado pelo fundamentalismo, opiniões discordantes são rechaçadas e a lucidez se torna um corpo estranho, como um vírus indesejado. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ídolos abatidos




Lembrei agora de Ettore Scola, um cineasta de que gosto muito, e me dei conta, após pesquisar em um site especializado, que ele não faz filmes há uma década. Está com mais de 80 anos, e creio que não irá mais nos oferecer pérolas de encanto, reflexão e sentimento como Um Dia Muito Especial (o meu preferido), Feios, Sujos e Malvados ou Nós que nos Amávamos Tanto. Nem todos, afinal, são Manoel de Oliveira, que aos 105 anos filma com ímpeto de iniciante. O tempo um dia se torna um fardo. É impossível continuar e aos poucos nós, que nascemos no século 20, vamos ficando órfãos dos nossos ídolos. Tenho pensado nisso ultimamente, agora que estou lendo Conversas com Woody Allen, reunião de entrevistas com o cineasta feitas por Eric Lax ao longo de mais de 30 anos.

Allen tem 78 anos. Seu tempo pode estar acabando, o que é uma lástima. Não gostaria de abandonar o hábito de assistir aos filmes que ele lança a cada ano, mesmo que não sejam mais as obras-primas do passado. O que importa é ele continuar sendo uma referência moral e cultural da qual não podemos prescindir. Como Luis Fernando Verissimo, que aos 76 anos foi internado uns meses atrás com uma infecção grave e me deixou morrendo de medo de perdê-lo. Outros vão sendo abatidos em pleno vôo outonal. É o caso de García Márquez, cuja centelha se extingue inevitavelmente, como a Macondo de Cem Anos de Solidão. A possibilidade da perda de pessoas luminosas, como as citadas acima, é particularmente dolorosa no meu caso, já que a maioria dos mestres que admiro – seja na música, no cinema ou na literatura – não habita mais o mundo.

Enfeitam meu gabinete pôsteres de John Coltrane, Miles Davis, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Jack Kerouac, Charles Bukowski, García Márquez e Philip Roth, além de uma ilustração do cartaz de A Doce Vida, de Federico Fellini, com Marcello Mastroianni. Todos mortos, com exceção do senil Gabo e de Roth, recém-aposentado aos 79 anos. Nas estantes, outros mortos ilustres. Não posso me dar ao luxo, por exemplo, de esperar pelo novo romance de Somerset Maugham ou pelo novo álbum de Thelonious Monk. É claro que esse culto aos que já foram revela também a passagem do tempo para mim mesmo. Estou profundamente atrelado ao século ao qual pertenço, daí ansiar tanto pela permanência dos que ainda estão aqui e que também pertencem a esse século. Vivam, é o que peço. Vivam muito, se possível mantendo a mente inquieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

We’re not that strong, my Lord



Penso nos mais de 200 jovens que morreram em Santa Maria e lamento que não tenham tido a oportunidade de conhecer o ocaso. É como se uma manhã virasse o fim da noite abruptamente, sem o sereno intervalo da tarde. Imagino os corpos empilhados, a asfixia em meio à escuridão, os celulares tocando como gritos de mãe desesperados. E em seguida penso em mim também, e temo que eu mesmo possa não conhecer o ocaso. Temo o fim da felicidade tranquila que a minha vida pessoal me proporciona, já que às vezes o corpo me parece incomodamente frágil e dolorido. Por outro lado, penso que o próprio ocaso está longe de representar um epílogo digno e reconfortante. “We’re not that strong, my Lord. You know we ain't that strong”, como cantou Caetano.

 Ao contrário do que imaginava, não chegamos aos 80, 90 anos com a sensação do dever cumprido. Queremos mais, até porque não nos sentimos com tanta idade, ela nos pesa de fora para dentro, e não o contrário. Verissimo quase morreu uns meses atrás, e aos 76 anos clama por mais tempo sobre a Terra – e não sob ela. Tudo isso me vem à cabeça aos borbotões após ter assistido Amor, de Michael Haneke, um mergulho sombrio nos dias derradeiros de um casal de velhos amorosos, refinados e com uma vida pela frente (mesmo que curta) de pequenos prazeres a dois: concertos, vinhos, leituras, conversas e cumplicidade. Então vem a decrepitude, na forma de uma doença sem cura, e com ela dias longos, enfadonhos, quase sem nenhuma válvula de escape, que vão minando aos poucos tudo o que marido e mulher construíram ao longo de décadas.

Uma vez conversei com um primo que é médico – e sobrevivente de um câncer particularmente agressivo – e ele me contou que já viu morrer muita gente que ansiava por mais tempo. Isso sempre o comoveu e de certa forma faz com que prossiga tentando salvar vidas. Afinal, não deve ser fácil presenciar a despedida de pessoas que queriam permanecer para ver os filhos crescerem ou, sei lá, fazer a viagem sempre adiada para Paris. Enfim, assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar, como dizia Cartola na música de Candeia. É duro se saber finito, reconhecer que a engrenagem do mundo não precisa nem vai precisar de nós para continuar funcionando. O casal de Amor se bastava, mesmo com a idade avançada, tanto que a filha podia ser considerada uma intrusa no prosaico mundo deles. Como pianistas aposentados, contribuíram para uma civilização mais harmônica, e agora desfrutavam de sua existência tardia. Estavam vivos e queriam estar vivos. Mas a vida não permite finais felizes, até porque o final, em si, impossibilita qualquer forma de felicidade.  

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Oceano de saudade




Assim como os leões carregam a selva consigo, mesmo tendo nascido no cativeiro – mesmo os seus pais tendo nascido no cativeiro –, nós também carregamos no nosso íntimo algo essencial, uma herança que vem de muito longe e se manifesta em determinado momento de nossas vidas. Há, em mim, uma nostalgia do continente que ficou para trás em algum período da linhagem à qual pertenço. Sou, por mais que desconheça isso, parte do imigrante que deixou o velho continente há mais de 100 anos para se estabelecer no Brasil. Não sei o seu nome, mas sei que veio de Portugal, a ponta peninsular da Europa, a pista de decolagem para o novo mundo desconhecido. Como esse tataravô, carrego comigo uma espécie de saudade. E essa saudade não me abandona.

Encontrei algo de muito remoto do meu passado ao conhecer a Europa, ao caminhar a esmo por Paris. Percebi, naqueles rostos ensimesmados, naqueles prédios seculares, praças e sacadas, naquela forma de levar a vida, algo de profundamente familiar. Sou latino, daí ter me afeiçoado mais por Paris do que por Londres, anglo-saxônica por excelência. Mesmo que Paris não seja a minha casa primordial (que, acredito, deva ser Lisboa, Coimbra, Porto ou qualquer outra cidade portuguesa), ela evoca um sentimento de pertencimento. Sou feito desse sentimento, e ele aflora quando bebo um vinho europeu (mais os ibéricos que os franceses), leio um poema de Fernando Pessoa ou me emociono com o que é muito mais antigo e duradouro do que o jovem país onde nasci.

Passados alguns dias do fim da minha curta viagem, Paris ainda não me abandonou. Permanece em mim, como uma sombra quente ou o espectro de alguém querido. Pode ser meu pai, meu avô, meu bisavô, meus velhos ancestrais sentados num banco de praça da velha Europa, espiando o tempo se esvair. Como canta Henri Salvador em Jardin d’Hiver, “Les années passent / Qu'il est loin l'âge tendre / Nul ne peut nous entendre” (“Os anos passam / Longe é a tenra idade / Ninguém pode nos entender”). Trago comigo um oceano de saudade. Sou um europeu tardio, temporão, perdido na América do Sul. Uma alma velha, vivendo em um tempo ao qual não pertenço, incapaz de me fazer entender e mais incapaz ainda de entender o que me rodeia. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Talibãs apaixonados




Betty Blue, o romance de Philippe Djian que foi levado às telas com maestria por Jean-Jacques Beineix, se encerra em forma de tragédia. Ao se deparar com o que restou de sua namorada Betty (Béatrice Dalle), tomada pela insanidade e presa a uma cama de hospital, Zorg (Jean-Hughes Anglade) toma uma decisão extrema: poupá-la de tamanho sofrimento. É impossível mensurar a dimensão da sua dor quando ele pega um travesseiro e a sufoca. Zorg sai de lá vazio, oco como um tronco tomado por cupins, do mesmo modo que Frank, o personagem de Clint Eastwood em Menina de Ouro, após cometer eutanásia na sua aprendiz e jovem lutadora Maggie (Hillary Swank), a quem amava com fervor de pai.

Tanto Zorg quanto Frank estão moídos por uma tristeza infinita, revirados em si mesmos por se sentirem obrigados a cometer atos tão extremos. A vida, nas duas situações, é tirada como uma forma de preservação, se é que isso é possível. São homens matando mulheres, o que é deplorável, mas também são seres humanos poupando outros seres humanos de um destino sombrio, para dizer o mínimo. Ao sacrificarem por compaixão as pessoas que amam, eles sacrificam a própria dignidade, reduzindo suas vidas a escombros. Ambos põem em prática o que se poderia chamar de crime passional, numa acepção rigorosa do termo, hoje tão banalizado.

É algo bem diferente do que acontece com espantosa frequência nas cidades brasileiras, onde execuções motivadas por ódio, ciúmes ou intolerância recebem a alcunha de crimes passionais. São chamados assim sem qualquer tipo de reflexão pela polícia, pela imprensa e pela população em geral – numa inversão de valores que torna o algoz uma espécie de justiceiro a lavar sua honra com sangue. Ao contrário dos crimes de Frank e Zorg, profundamente misericordiosos, atos como esses revelam antes de tudo um incômodo egoísmo. Os motivos alegados são invariavelmente os mesmos: matam a mulher que, em teoria, amam por conta de uma suposta impossibilidade de viverem sem ela. Mas e a vida dela? E os filhos de ambos, as famílias destroçadas?

Suicidar-se em seguida não melhora a situação, antes a agrava. Mas, numa sociedade patriarcal e ainda presa a sua origem rural, o morto sobrevive forjando um arquétipo de herói. É o Brasil arcaico sobrevivendo no Brasil moderno e sobrepondo-se a ele. Nesse cenário desolador, nós caminhamos a passos largos rumo ao passado, como bandeirantes broncos e desajeitados, incapazes de encarar um mundo no qual pessoas de sexos diferentes, etnias diferentes e orientações sexuais diferentes sejam capazes de conviver entre si. É uma espécie de fundamentalismo, guardando desagradável semelhança com o mundo islâmico contemporâneo, que condena mulheres a uma vida de desterro por trás de panos grossos e inacessíveis ao cotidiano. Somos como talibãs ocidentais, apaixonados por futebol, praia, cerveja e mulheres de biquíni minúsculo, desde, é claro, que não sejam as “nossas” mulheres.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O gigante inerte




Quando eu cursava jornalismo em São Paulo, lá pelos idos de 1994, acompanhei a gravação de um programa na TV Gazeta (que ficava no mesmo prédio da minha faculdade) com o então candidato a presidente Lula. Lembro de ter ficado a uns três metros dele, observando-o tirar o microfone da lapela enquanto conversava com seus assessores. Quis me aproximar, dizer alguma coisa, apertar sua mão, mas a timidez falou mais alto. Na mesma época, eu e um amigo estávamos saindo de um cinema especializado em filmes de arte, perto da Av. Paulista, e nos deparamos com José Genoíno no saguão. Ficamos um tempo ali, a uns três metros de distância, observando um dos políticos mais queridos, atuantes e respeitados do Brasil enquanto ele conversava com amigos de um jeito simpático e descontraído. Pensamos em nos aproximar, dizer alguma coisa, apertar sua mão, mas novamente a timidez falou mais alto.

O PT perdeu as eleições presidenciais naquele ano. Amparado pelo êxito do Plano Real, Fernando Henrique começava ali o reinado de oito anos do PSDB, que rendeu uma série de melhorias significativas ao país, embora tenha decepcionado no aspecto social e na forma quase obsessiva com que rezou pela cartilha do neoliberalismo. Enquanto isso, Lula, Genoíno e outros petistas, como Aloísio Mercadante e Eduardo Suplicy, permaneceram incólumes como os portadores legítimos de uma utopia, a nossa utopia. Eram os caras que a gente queria ver no poder, para encarar de frente o abismo da desigualdade social, da educação em frangalhos, da saúde sucateada, dando um basta na corrupção sem freios, na politicagem mesquinha.

Dezoito anos separam 1994 de 2012. Hoje, o que o homem de 42 anos teria a dizer àquele jovem idealista de 24? Bem, a primeira coisa seria: não acredite em utopias, meu rapaz. Não existem mais ilusões. Agora o principal: o que eu teria a dizer a Lula e Genoíno hoje, se a timidez novamente não falasse mais alto? A primeira pergunta seria: onde foram parar o Lula e o Genoíno de 1994? Ou será que eles nunca existiram, eram apenas espectros projetados por nossos anseios em uma parede descascada? Ao observar imagens recentes de Genoíno, com seu semblante abatido, me sinto tomado por uma profunda desilusão. Bem ou mal, devemos em grande parte o estado democrático em que vivemos a pessoas como ele. Adianto que não estou aqui defendendo uma punição mais branda para seus delitos, que são graves, apenas tentando entender como uma trajetória tão elevada se deixou arruinar. Genoíno não tem a prepotência nem o perfil stalinista de um José Dirceu. Sempre foi um conciliador, um sujeito que acreditava no diálogo, um cara do bem, imaginávamos.

Com Lula, a situação me parece ainda mais séria. Seu governo foi, apesar de todos os equívocos, histórico. Daqui a cem anos, ele será lembrado como um dos estadistas que construíram o Brasil do século 21, para o bem e para o mal. Mas... que tipo de proveito Lula tirou ou está tirando de tudo isso? Como uma personalidade tão amada e admirada, dentro e fora do país, pode ser capaz de deliberadamente encardir a própria biografia de um modo tão vil? Que espécie de pragmatismo justifica uma aliança com Paulo Maluf ou um abraço em Fernando Collor? Nunca o velho ditado “diz-me com quem andas e te direi quem és” foi tão apropriado.

Esse sentimento de desilusão é nocivo. Estamos sendo tomados por um profundo ceticismo, por mais que o julgamento do mensalão represente um marco civilizatório na política brasileira, como se dissessem: isso aqui não é mais a Ilha de Vera Cruz. O fato é que, ao condenarmos o Genoíno de hoje, amassamos e jogamos fora o Genoíno de ontem, e com ele todas as nossas convicções, nossas utopias ingênuas, nosso ideal de um país viável. Perguntamos a nós mesmos: quem restou, com a digna exceção de personalidades isoladas e sem cacife político para chegar ao poder, como Marcelo Freixo? Ninguém. Habitamos um cemitério de ilusões, um deserto de idéias. O fruto disso tudo todo mundo sabe: um país que nada tem de cordial, embebido em dispersão, inércia e brutalidade. Um gigante que, ao contrário do que mostra a propaganda do Johnny Walker, permanece longe de despertar.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ausências




Anoiteço lentamente na companhia de Dave Brubeck, a quem velo com fervorosa admiração neste final de quarta-feira, enquanto saboreio um delicioso vinho argentino. Dave vai embora, um dia antes de completar 92 anos, com sua música atemporal e seu jeito sereno e até certo ponto obsessivo de encarar a vida e a arte. Ouço seu piano em contraponto ao sax alto de Paul Desmond, sua alma gêmea musical. Até poucos minutos atrás estava revendo um documentário sobre ele, Redescobrindo Dave Brubeck, que mostra imagens do músico já bem velhinho, com uma simpatia arrebatadora, tocando com os filhos e colhendo com serenidade os frutos do reconhecimento. Dave viveu bem, produziu muito e ficará eternizado por temas como Take Five e Blue Rondo a la Turk, mas também por se posicionar radicalmente contra o racismo. Enfim, um homem de valor.

No mesmo dia, Oscar Niemeyer cessou sua chama, com espantosos 104 anos. Já era um adolescente quando Brubeck nasceu, e ninguém há de negar que sorveu como poucos o seu tempo – ou, melhor dizendo, os seus tempos. Outro dia, comecei a escrever um texto sobre o fascínio que a longevidade de Niemeyer e Manoel de Oliveira (o cineasta português, ainda vivo e ativo aos 105 anos) provocava em mim. Invejava a oportunidade que eles tiveram de contemplar o século 20 se descortinando aos seus olhos, o mesmo século ao qual cheguei já nos estertores. Tanto Niemeyer quanto Oliveira têm (me recuso a usar o verbo no passado) de velhice mais ou menos o que eu tenho de vida. É um oceano de tempo. Como se ambos ousassem roçar a eternidade e brincar com o nosso conceito de finitude. Como se ambos fossem monumentos feitos de ossos, sangue e sentimento, a atestar a nossa permanência na Terra, imperecíveis como pirâmides egípcias. Mas agora sei que o velho arquiteto comunista finalmente capitulou.

Fico imaginando o que os olhos de Niemeyer, Oliveira e mesmo os de Brubeck já viram. Nascidos nas primeiras décadas do século 20, já eram adultos em 1939, quando a insânia nazista desaguou na guerra mais brutal da história humana. Brubeck, inclusive, presenciou o horror da batalha, da qual felizmente saiu sem sequelas físicas (já que as psicológicas invariavelmente permanecem). Talvez o mundo de hoje, tomado por uma imbecilidade sem tamanho, já não precise deles, embora Manoel ainda resista e mostre que o seu tempo particular prossegue, num desafio que nos impressiona e sobretudo nos comove. Talvez nenhum deles tenha conseguido entender como a barbárie permanece incólume, mesmo após 100 anos de sofrimento generalizado. Ou quem sabe não é exatamente o oposto: quem, como eles, viu o mundo quase se desintegrar no início dos anos 40 talvez não se espante mais com nada, e esteja mais apto que qualquer um de nós a enriquecer com arte o que outros homens preenchem com pinceladas de estupidez.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Acalanto




A primeira sensação que tive ao saber que ia ser pai foi um certo desespero. Estava com quase 30 anos e numa situação profissional incerta, sem trabalho fixo, tendo voltado a morar em Salvador após os anos de faculdade em São Paulo. Naquele momento, nem lembrei que costumava dizer que queria ter um filho no ano 2000, numa época em que o ano 2000 ainda estava bem longe, assim como os 30 anos, e minha juventude beirava a eternidade. Mas ali estava o fato, inapelável. No entanto, três dias após a notícia, a sensação já havia mudado: passou a ser de uma ternura muda, como se alguém me cantasse um acalanto baixinho no ouvido. Essa ternura se intensificou quatro meses depois, quando a médica que fazia a ultrassonografia – uma senhora que nos transmitia uma imensa serenidade – disse: “Olha só, é uma menininha”. Lembro de, bem nesse instante, ser invadido por uma sensação úmida, cálida e aconchegante, como um banho morno após um dia intenso de trabalho. Minha filha.

Escolhi seu nome muitos anos antes do seu nascimento, ainda no colegial, quando ouvi pela primeira vez, numa aula de história, o nome de uma antiga cidade da Mesopotâmia. A sonoridade da palavra me encantou, e decidi que minha filha teria o mesmo nome da capital do império assírio, que abrigou a primeira grande biblioteca criada pela humanidade. A mesma cidade que, segundo a Bíblia, Deus pretendia destruir e para a qual mandou Jonas, responsável por avisar aos seus habitantes sobre a catástrofe iminente – e que hoje é apenas um sítio arqueológico no norte do Iraque, composto de ruínas provocadas pelo tempo e por bombas norte-americanas.

A princípio, minha filha seria a primogênita de uma prole que teria ainda outros nomes insólitos, cultivados durante a adolescência. Acabou sendo a única a vir ao mundo povoar de encanto a minha vida. Seu nascimento promoveu em mim uma pequena hecatombe interior, proporcionando uma transformação radical no modo como encarava a vida. Meu egocentrismo inato deu lugar a um altruísmo meio sem jeito, a uma descoberta do outro através dessa outra parte de mim mesmo. E também precisei enfrentar a dificuldade de adaptação às obrigações sociais e profissionais da idade adulta para sustentar a família, como fazem homens e mulheres desde os tempos mais remotos.

Imaginava que me tornaria escritor um dia. Um romancista nos moldes de, sei lá, Scott Fitzgerald. Escrevi dois ou três livros de poesia, outro de contos autobiográficos e a metade de um romance, mas minha obra maior – feita em parceria e a única a ser “publicada” – acabou sendo aquele ser humano frágil e assustado, que vi pela primeira vez pelo vidro da maternidade. Um ser humano que no decorrer dos últimos 12 anos foi aos poucos ganhando a forma de uma jovem mulher, de cabelos longos e castanhos, sorriso largo, olhos inquietos, corpo esguio e harmonioso. Mas, principalmente, uma jovem mulher íntegra, amorosa, com uma generosidade e um senso de justiça e lealdade que quase sempre me surpreende.

Há muito de mim nela, assim como há muito da mãe, o que me tranquiliza. Não gostaria de legar a minha filha os meus titubeios e o meu desnorteio perene – embora ela tenha herdado de mim a incompreensão diante das equações, operações e expressões numéricas que compõem o ensino de matemática. De certa forma, começo a perceber que um ciclo está se encerrando. Sem traumas ou rupturas, a infância se despede dela, deixando (inclusive em nós, pais) um sentimento de missão cumprida, de que os 12 primeiros anos de sua existência foram vividos em plenitude. E que venha o futuro.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Portas de percepção




Em Joseph Anton, seu recém-lançado livro de memórias, o escritor anglo-indiano Salman Rushdie escreveu: “À medida que crescemos, nós nos acostumamos com o jeito como as coisas são, à cotidianidade da vida, e uma espécie de poeira ou película nos tolda a visão, e com isso nos escapa a natureza verdadeira, miraculosa, da vida na Terra. A tarefa do artista consiste em remover essa camada que nos cega e restaurar nossa capacidade de maravilhamento”.

Um livro como o de Rushdie é por si só uma comprovação do que ele afirmou. Capaz de remover a camada de mesmice e nos fazer enxergar melhor e com mais nitidez, como se fizéssemos com o nosso cérebro o mesmo movimento de dedos que fazemos para aproximar uma imagem em um smartphone, numa espécie de zoom da própria consciência. Algo simplesmente se ilumina, como uma clareira numa mata fechada. Mas há diferentes formas de “maravilhamento”, diversas maneiras de chegar com precisão àquele ponto ínfimo de interseção entre a massa encefálica e o músculo cardíaco. São sentimentos distintos que nos enlaçam e abrem portas de percepção em algum território ermo e rarefeito do nosso íntimo.

No meu caso, o que sinto ao ouvir, por exemplo, Gilberto Gil cantando Pai e Mãe é diametralmente oposto ao prazer que me atinge quando escuto Joshua Bell tocar a Serenade de Schubert. Um prazer mais sensorial, que me enleva e me lança para longe de mim, enquanto o outro sentimento mexe com minhas reminiscências, minhas ausências, meus arraigados princípios morais. Enfim, me leva a pensar. Hemingway me atinge de uma maneira, Fitzgerald, de outra, mas ambos às vezes me deixam com o coração exaurido. A cena final de A Insustentável Leveza do Ser (até hoje o meu filme predileto) já me levou aos prantos mais de uma vez, assim como o final de, quem diria, Procurando Nemo. Em um, o desespero e o desalento diante da extinção inevitável. No outro, a saudade em carne viva do pai para sempre perdido.

O fato é que arte verdadeira, e não apenas a literatura, nos enche de centelhas, nos povoa de questionamentos, nos inunda de conhecimento de nós mesmos. É como se nos tirasse da caverna e nos apresentasse à luz do dia. Por outro lado, nos torna ainda mais ignorantes diante do infinito, como neandertais fascinados pela lua, embora incapazes de compreendê-la. Como alguém já escreveu, o que o artista cria é muito diferente do que o leitor/espectador/ouvinte interpreta. Nenhuma obra é fechada em si mesma. É, sim, um eterno trabalho em andamento, movendo-se ao sabor dos tempos e das diferentes formas de compreensão, ou – no caso dos Versos Satânicos de Rushdie – da mais completa incompreensão. Voltando a ele: “A alma tinha muitos desvãos escuros, e às vezes os livros os iluminavam”.

Tive o privilégio de, desde menino, ter sido capaz de iluminar os meus próprios desvãos graças ao conhecimento do mundo que me trouxeram livrinhos despretensiosos, como Viagem ao Mundo Desconhecido, Coração de Onça, A Máquina do Tempo e As Aventuras de Tibicuera. Meus desvãos então já eram muitos, e por vezes se abriam como gavetas, onde até hoje escondo medos, dúvidas e frustrações. A cada grande livro, filme ou canção (mas sobretudo a cada grande livro), essas gavetas se abrem e me permitem contemplar o seu conteúdo, examinar suas nuances, verificar o quanto mudaram desde a última vez em que foram expostos. São como um retrato de Dorian Gray ao contrário, que guarda a minha essência intacta, enquanto lá fora o invólucro se corrompe e perde o vigor com a passagem dos anos. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Maremotos




De acordo com a teoria do caos, concebida pelo meteorologista norte-americano Edward Lorenz nos anos 60, uma mudança aparentemente insignificante no curso dos acontecimentos pode provocar consequências imponderáveis no futuro. É o chamado efeito borboleta, segundo o qual o ruflar das asas de uma borboleta no deserto do Saara pode provocar, digamos, um maremoto na costa de Nova York. Partindo desse pressuposto, eu me pergunto: quais as consequências, sobre nossa consciência, de um míssil israelense despencando em um prédio cheio de mulheres e crianças na Faixa de Gaza? Ou, para não ir tão longe, de um tiro desferido por um bandido contra um bebê no colo da mãe, em um carro na periferia de São Paulo?

São atitudes infinitamente mais concretas que o simples bater de asas de uma borboleta. Como elas chegam até nós? Como reagimos a tamanha onda de agressividade reverberando por aí até nos atingir como furacões? É possível que tenhamos desenvolvido anticorpos mentais, capazes de fazer as balas e mísseis ricochetearem para longe das nossas preocupações diárias. Vamos vivendo, e é o que importa. Mas será mesmo? Ou com o acúmulo dos anos algo em nós vai lentamente erodindo, perdendo as formas originais, como uma rocha exposta ao sol, vento e chuva? Nosso semblante anestesiado revela uma resignação impotente, devidamente amadurecida em barris abarrotados de sofrimento alheio. O efeito borboleta traz a desgraça de bem longe e ela se aloja em nosso peito, na inquietude silenciosa que nos invade antes de cairmos no sono. Mas em seguida adormecemos. “Amanhã é um outro dia. Não é”, como cantou Renato Russo em A Via Láctea.

Há em nós algo de Winston, o personagem de George Orwell na terrível distopia narrada em 1984, que foi confrontado com seus medos mais profundos (no caso, o de ratos famintos) ao ter seu caso amoroso descoberto pelo regime totalitário comandado pelo Grande Irmão. Winston renegou a mulher que amava, renegou a liberdade, a lucidez, o direito ao delírio, para preservar a própria vida. Tornou-se um homem oco, como acontece com os que sofrem um trauma profundo ou passam por uma lavagem cerebral. O esquecimento generalizado, no caso de Winston e também no nosso, se faz necessário. Deixamos de lado o disparate dos corpos em cascata desabando ao nosso lado para preservar a lucidez. Caso contrário, nossa mente os absorverá como um mata-borrão. É dor demais para um ser humano.

Mas é isso o que acontece comigo. Absorvo como uma esponja cada perda inútil de vida, cada criança morta por obra de adultos estúpidos, cada tiro letal disparado por armas em profusão nas mãos de homens com o desenvolvimento mental de pulgas. Não tenho a capacidade de esquecer, de virar a página e continuar imune. Com o tempo, aprendi a refletir, sem o auxílio de padres ou psicanalistas, sobre a origem desse sentimento perene de perda.  A deixar pedaços dessa dor em papéis ou confissões. De qualquer modo algo permanece e se acumula, o ruflar das asas da borboleta que despeja sucessivos maremotos dentro de mim. E é com eles que acordo todos os dias, aperto o botão do elevador, levo minha filha na escola, converso com minha mulher, troco ideias com os colegas de trabalho e por fim chego em casa, assisto tevê, leio e adormeço. Afinal, amanhã é outro dia. Não é.