quinta-feira, 29 de julho de 2010

Alumbramento


Com a ajuda da internet, eu pude ter de volta, 34 anos depois, um alumbramento que me marcou a infância. Estou me referindo a uma cena da novela Saramandaia, escrita por Dias Gomes e exibida na Rede Globo em 1976. Era uma novela impregnada do realismo fantástico latino-americano, movimento literário que naquela época ganhava o mundo, consagrando nomes como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Jorge Luís Borges e Juan Rulfo. Nela, tudo era possível, inclusive a existência de personagens como uma mulher muito gorda que explodia no final, um sujeito sorumbático que virava lobisomem, outro que comia formigas e outro ainda que expelia o coração pela boca. Mas havia um personagem que fascinava minha imaginação de criança: João Gibão, vivido por Juca de Oliveira, que ao final da novela voa pelo vilarejo sorrindo, com asas enormes nos ombros, enquanto a cidade pára para observá-lo. Foi esse vôo, embalado pela canção Pavão Mysteriozo, de Ednardo, que provocou naquele garoto de seis anos um alumbramento até hoje presente com impressionante nitidez.

Ao entrar com a palavra-chave Saramandaia no youtube, encontrei essa e muitas outras cenas e revi todas. A maioria difere bastante dos vídeos em baixíssima resolução que tinha guardados no disco rígido do meu cérebro – sobretudo a da transformação de Ary Fontoura em lobisomem. Mas a do vôo de João Gibão é curiosamente próxima daquela revelação que me foi dada há tanto tempo. Sei que devo ter visto essa cena outras vezes, nos anos seguintes, em programas do tipo Vídeo Show. Mas mesmo assim a semelhança me impressionou. E novamente me emocionou muito. Afinal, ver um homem realizar o sonho primevo de voar é algo que toca fundo a nossa alma. Falar em liberdade talvez seja se restringir à camada mais superficial de sentimentos, pois a cena evoca muito mais: a descoberta de um universo paralelo longe da mesmice e das limitações físicas, a melancolia por saber que não há mais volta, apenas um ir contínuo para bem distante do que se foi um dia.

A permanência dessas imagens de Saramandaia em minha memória talvez se dê porque, de certa forma, elas serviram de alicerce visual para as histórias que mais tarde, já adolescente, eu encontraria nos livros de García Márquez. Há muito de João Gibão em Um Senhor Muito Velho com umas Asas Enormes. E também em O afogado mais Bonito do Mundo. E em todos aqueles personagens meio etéreos de Cem Anos de Solidão. Os livros de García Márquez, assim como Saramandaia, deixaram tatuada em mim uma forma muito peculiar de observar o mundo, impregnada de uma abstração que ainda hoje me acompanha. E o melhor: eles serviram de base para que mais tarde eu me encontrasse com a fantasia esteticamente mais elaborada e intelectualizada de Borges. Como se subisse uma escada e fosse acumulando sons, imagens e pensamentos a cada degrau. Não deixa de ser uma metáfora interessante para a vida.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Essa dor doeu mais forte


A prostração causada pela virose que nos últimos dias atacou o meu corpo – e também o de minha filha, que precisou ser internada e só saiu do hospital hoje – me deixou quase fora das trincheiras. Exaurido, com o corpo à beira da ruína, precisei conciliar a atenção a ela com os compromissos no trabalho e a irritação no trânsito de uma cidade que parece estar à beira de um colapso. E foi assim que vi, do alto de minha insignificância, notícias que desvelam o país em que vivemos. Em Fortaleza, um policial atirou contra um pai e seu filho numa moto, durante uma blitz. A alegação: eles não pararam o veículo. Ao policial, não ocorreu a possibilidade de que poderiam não ter visto ou ouvido a abordagem. O tiro matou o adolescente e o pai passou um bom tempo deitado no chão, abraçado sobre o seu cadáver. Como diria Zé Geraldo, essa dor doeu mais forte.

O caso em Fortaleza teve repercussão pequena na imprensa porque, no mesmo período, o filho da atriz Cissa Guimarães morreu atropelado enquanto andava de skate num túnel interditado no Rio de Janeiro. O mais absurdo nesse caso (menos, é claro, do que a morte em si) foi o fato de que um policial subornou o atropelador e o liberou em seguida (fato que lembrou muito aquele ocorrido com o criador do Afroreggae, deixado à míngua enquanto os policiais liberavam o ladrão em troca do tênis do morto – afinal, não ocorreu a eles que uma vida vale mais que um tênis). Em Goiás, a justiça libertou, por conta da progressão da pena, um homem que havia matado a esposa, grávida de sete meses, e a enteada, de cinco anos. De novo em liberdade, o rapaz matou seis mulheres. Não ocorreu aos peritos e juízes responsáveis que um homem que comete crime tão brutal não merece a liberdade.

Nos três casos acima, entidades e profissionais encarregados de proteger os cidadãos tiveram participação ativa no extermínio deles – atingindo o grau máximo no caso de Fortaleza. A mim, não cabe propor soluções para acabar com essa incompetência endêmica ou tecer comentários que tentem elucidar por que chegamos a um nível tão abissal de falência moral. Enquanto o vírus vai lentamente indo embora do meu corpo, o que permanece é o pasmo, mas também um enfado resignado. Por perceber que, no Brasil, a estupidez e a brutalidade são enfermidades sem cura.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Território inalcançável


“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.”

Fernando Pessoa


Aos 20 anos eu disse a mim mesmo que conheceria o mundo com meus próprios olhos. Como um jovem violeiro vindo do nada e ávido por tudo, eu seguiria em frente, conhecendo as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs. Afinal, não queria ter para mim apenas o mundo visto através da retina dos meus autores preferidos. Sabia que Paris, aos meus olhos, seria bem diferente daquela festa móvel presenciada por Hemingway, ou que a América decantada por Kerouac não estaria disponível para a minha vista míope.

O tempo passou e viajei muito menos do que gostaria. Não perdi países, como diria Pessoa. A maturidade, os compromissos e a grana curta não permitiram que me lançasse ao mundo. Hoje tenho 40 anos e não conheço a Europa. Conheço bem o Brasil, conheço alguns países da América do Sul, conheço os Estados Unidos... mas a Europa permanece incólume ao meu olhar e à minha compreensão, como um livro escrito em mandarim. Não falo, aqui, da Europa rápida e superficial das excursões para turistas, cheia de japoneses com câmeras de última geração ou brasileiros mal-educados. Mas sim a Europa insondável, que se esconde nas vielas de uma cidade da qual nem sei o nome.

Sinto saudade do pinot noir que não bebi, acompanhado de uma tábua de queijos, em alguma estalagem numa pequena cidade medieval do interior da França. Saudade de algum entardecer à beira do Mediterrâneo, visto do alto de um penhasco, na costa italiana. Ou do charuto que jamais fumei, comprado numa antiga tabacaria em Lisboa, talvez a mesma que Pessoa (de novo ele) freqüentou em outros tempos. É uma nostalgia que incomoda, por não vir acompanhada de lembranças verdadeiras, mas sim de relatos que fui colecionando ao longo dos anos. Como o replicante de um filme de Ridley Scott, eu me valho de memórias alheias, que num primeiro momento até parecem verdadeiras, mas ao final deixam na boca um retrogosto frustrante.

Sei que basta planejar com antecedência, economizar alguns euros, estar com o passaporte válido e bon voyage. Mas os anos passam, outros compromissos aparecem e lá continua ela, do outro lado do Atlântico, quase tão velha quanto a civilização humana e inalcançável quanto uma montanha do Himalaia. Mas quem sabe um dia me lanço ao ar, fazendo o caminho inverso dos conquistadores portugueses que um dia lançaram-se às águas, e conquisto enfim a minha Europa particular, o meu território de sonhos represados e jamais esquecidos.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Gangrena


Num ensaio sobre Anton Tchekhov, publicado semana passada na Folha de S.Paulo, o poeta e tradutor Leonardo Fróes utilizou a expressão “gangrena social” para definir o universo retratado com maestria pelo escritor russo em seus contos. Ele se refere ao início da derrocada do império czarista russo, nas últimas décadas do século 19, quando os avanços tecnológicos começavam a deixar para trás a Rússia essencialmente agrária e cronicamente atrasada. Fróes recorre a frases como “sociedade em fase terminal, que apodrecia por inércia” e “que sofre, sobretudo, de estreiteza mental”. É essa sociedade que o criador de As Três Irmãs e A Dama do Cachorrinho espelha em seus textos: “Clinicamente, como o médico praticante que foi, Tchekhov observa e anota os sintomas que ausculta no corpo social gangrenado”, registrando “a ganância desmedida de uns, a boçalidade desesperada de outros, o desânimo, a obstinação, a esperteza”.

Passados mais de 100 anos, sabe-se que a Rússia não reservou um mundo melhor para os descendentes daquela sociedade gangrenada. O império czarista deu lugar a uma leva de ditadores sanguinários e estultos, que provocaram a morte de milhões de seres humanos em execuções em massa ou nos campos de trabalhos forçados na Sibéria, e hoje, com a União Soviética devidamente retalhada em pequenas repúblicas paupérrimas, o que se vê é corrupção generalizada, autoritarismo e conflitos étnicos irremovíveis.

Mas o que mais impressiona no texto de Fróes é a semelhança entre a descrição que ele faz da Rússia czarista do século 19 e a realidade que vivemos no Brasil do século 21. Impossível não reconhecer um corpo social gangrenado neste país permanentemente assolado pela violência urbana endêmica, pela paralisia do poder público, pelos abismos entre classes e pela absoluta ausência de premissas éticas. Só uma sociedade em fase terminal é capaz de gerar o câncer da brutalidade, que se espalha por todos os órgãos, veias e vísceras. O caso do goleiro Bruno é sintomático, pela inexistência de qualquer valor moral envolvido. Mata-se um ser humano como quem se livra de uma dor de cabeça tomando uma aspirina. De maneira prosaica, como quem entrega uma pizza, recorre-se a expedientes macabros como entregar uma mão e o resto do corpo de uma mulher para que cães façam o serviço sujo de tornar invisível a prova de um crime estarrecedor.

Tudo nessa história deixa entrever o apodrecimento generalizado: o atleta de origem pobre e personalidade torpe, que enriquece mas não é capaz de deixar para trás a escória onde nasceu. A garota amoral, que via num relacionamento forçado com um homem rico e famoso a oportunidade de deixar essa mesma escória. O pai da garota, condenado por estupro no passado. O amigo do jogador, disposto a tomar qualquer medida para o comparsa não sair chamuscado. O adolescente que participa de um crime bárbaro sem aparentemente se horrorizar em fazer parte dele. Tchechov certamente teria dificuldade em auscultar esse organismo gangrenado, por se tratar de uma enfermidade talvez ainda mais grave do que aquelas que diagnosticou na velha Rússia, com suas infindáveis hordas de famintos. Aqui é a barbárie que toma conta, se alastrando a passos largos rumo a lugar algum.

terça-feira, 6 de julho de 2010

À sombra das chuteiras imortais


“Duas vezes na minha carreira de jogador de futebol eu quis a minha mãe: a primeira quando disputei meu primeiro clássico Peñarol e Nacional, no estádio Centenário de Montevidéu, aos 17 anos de idade. A segunda quando enfrentamos a Holanda na Copa de 1974. Quando peguei na bola pela primeira vez no jogo, logo na saída, vieram quatro deles para tirar a bola de mim. Achei que ficaria naquilo. Mas acontecia a cada vez que eu pegava na bola. Aí me lembrei dela, da minha mãe. Queria ela ali comigo, porque aquilo não era o futebol como eu conhecia.”

Pedro Rocha, atacante uruguaio.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Amigo é pra essas coisas


Estou lendo um livro de Saul Bellow, chamado Ravelstein, no qual ele recria no terreno da ficção a amizade que cultivou ao longo de décadas com o filósofo Allan Bloom, o Ravelstein do título. Uma amizade marcada pela sinceridade sem amarras, pelo compartilhamento dos pequenos e grandes prazeres da vida e pela afeição mútua e silenciosa. Assim costumam ser as verdadeiras relações de amizade entre homens (e, provavelmente, entre mulheres). Ravelstein e Bellow (Chick no romance) são intelectuais de formação sólida, com bagagem cultural suficiente para que suas tertúlias sejam atraentes não apenas para os dois, mas também para o leitor. Ambos estão na casa dos 70 anos: o primeiro se aproxima a passos largos do fim e o segundo tem plena consciência do que representa viver o ocaso da existência.

Saboroso, o romance me faz lembrar das minhas próprias amizades. Enquanto bebo um agradável vinho chileno e escuto um solo de Coltrane, percebo que gostaria muito de ter um dos meus velhos amigos aqui agora para podermos conversar, ouvir música e beber, não necessariamente nesta ordem. É claro que nossos diálogos não mereceriam ser reproduzidos em livro (embora alguns tenham inspirado certos questionamentos e reflexões presentes neste blog), nem acho que tenhamos essa intenção. Mas uma relação mais próxima com meus amigos – como a de Chick/Bellow e Ravelstein/Bloom – me faz uma falta imensa. Não chegamos ainda à fase crepuscular das nossas vidas, mas, aos 40 anos, já é possível fazer balanços, tecer comentários auto-depreciativos e ridicularizar ou lamentar as nossas escolhas. É possível, também, projetar o que faremos no futuro, de preferência pensando que estaremos juntos sentados numa varanda de apartamento ou numa mesa de bar para questioná-lo ou louvá-lo.

Há algo de único na amizade entre homens que, creio, não pode ser reproduzido na amizade entre um homem e uma mulher. É a cumplicidade silenciosa de quem conhece intimamente os conflitos do outro, num momento da vida em que a competição mútua já foi devidamente mitigada. De quem sabe perfeitamente o que é uma crise no casamento ou o tédio causado por anos seguidos numa mesma profissão. Só um velho amigo sabe compartilhar aquele saco cheio do mundo ou o desejo irrefreável de rever (e se possível reacender) um amor de juventude e acertar as contas com o passado. Só homens falam de futebol, mulheres e bebidas com a autoridade necessária para que a opinião de um seja levada em conta pelo outro (uma afirmação profundamente machista, admito).

A maioria dos meus grandes amigos está longe. Meu melhor amigo é certamente o que vive mais distante, embora nos vejamos com alguma freqüência, quando ele vem ao Brasil. É curioso como nos entendemos com pequenos silêncios ou com frases que dizem muito mais do que os substantivos, artigos e verbos são capazes de expressar. E como a bebida nos une sem que precisemos tomar um porre para explicitar o que sentimos – embora, após a terceira garrafa de vinho, sejamos capazes de edificar reflexões arrebatadoras, fruto das nossas visões de mundo ao mesmo tempo próximas e distantes.

É fato que muitas dessas amizades foram e são essenciais na minha formação. Lembro das muitas madrugadas que jamais acabavam no Puppy, um boteco sagrado cravado no meio da Avenida Paulista, nas quais um mundo se descortinava para mim e onde eu cultivei um número significativo de amigos que permanecem comigo, apesar da distância. Ou de uma noite em que fiquei falando sobre filosofia e literatura com um grande amigo na varanda de uma pousada em Florianópolis, enquanto minha mulher e minha filha dormiam lá dentro e nós acabávamos com os maços de cigarro e com o conteúdo de duas garrafas de vinho e uma de uísque. Ou de uma vez em que mostrei meus poemas recém-escritos para um velho amigo no Extudo, um barzinho que abrigava a boemia baiana nos anos 90. Boas lembranças. Mas agora estou sozinho em casa, numa noite de segunda-feira, bebendo um vinho chileno, ouvindo um solo de Coltrane, e não tenho com quem conversar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ausência


“- Uma velha pergunta : o senhor escreve para fugir da morte?

- Não, porque ninguém foge da morte. É uma ilusão. O que pode acontecer é pensarmos – e devo ter pensado – que se escreve porque não se quer morrer. Parte-se do princípio de que a obra vai ficar, não se sabe por quanto tempo. Hoje, não sou tão ambicioso. Eu me limito a dizer que escrevo para tentar compreender as coisas.”

José Saramago, em entrevista a Geneton Moraes Neto.

***

Não sei se devemos lamentar a morte de alguém que conseguiu viver 87 anos. Afinal, é um tempo razoavelmente longo para um ser humano aproveitar a dor e a delícia de ser o que é, antes de se entregar definitivamente à inconsciência. Estou falando uma grande bobagem, claro, pois mesmo a idade da Terra seria insuficiente para vivermos em plenitude o que o ato de existir nos oferece. Mas talvez seja uma forma inexata de dizer que, mais do que a perda do homem, a ausência de José Saramago no mundo representa a perda de um tipo muito peculiar de consciência, de um humanismo ferrenho, de uma exaustiva e inútil necessidade de compreender a própria existência. Saramago viveu muito, é certo, mas mesmo assim nos sentiremos órfãos precoces. Faltará a estatura dos seus pontos de vista, o sólido alicerce das suas idéias e até mesmo a sua teimosia em defender um modelo político-econômico fracassado.

Quase não li seus livros. Gostei muito de Ensaio sobre a Cegueira, mas de resto esbarrei no seu “português de Portugal” e nos temas pouco atrativos dos seus romances. Mas aprecio muito seus textos não ficcionais, suas opiniões, suas entrevistas, seu desencanto. Do seu Everest particular, Saramago via um mundo desigual ao extremo, estúpido, brutalizado, em vias de se dissipar. Deixou esse mundo sem uma resposta satisfatória para seus questionamentos – mas, nesse caso, nem mesmo outros 87 anos seriam suficientes para encontrá-la.

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“A pergunta que não consigo responder é muito simples: para quê? Para que tudo isso? Vou morrer sem encontrar a resposta. Creio que ninguém nunca encontrou.”


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Futuro do presente


A internet é tão nova e tão intrinsecamente ligada aos conceitos de modernidade e tecnologia que não conseguimos imaginá-la como um repositório de antiguidades. Um museu de palavras, imagens, sons e sentimentos, no qual é possível encontrar tudo que foi produzido pela humanidade ao longo de anos, décadas e séculos. Pensando retrospectivamente, do futuro até os dias atuais, será que tudo que circula hoje pela rede permanecerá acessível daqui a 200 anos? Não deixa de ser curioso imaginar nossos textos plenamente vivos quando nós – eu, você e os seis bilhões de habitantes do planeta, sem exceção – já tivermos alcançado a condição de pó. Se isso realmente acontecer, o sonho de quase todos os escritores – de fazer com que a própria obra sobreviva ao fim físico – vai ser enfim realizado. Se hoje lemos Shakespeare, Cervantes ou mesmo Homero e Platão é porque as gerações posteriores perpetuaram o seu legado. Já os menos afortunados só podem se tornar conhecidos de novos leitores se um exemplar mofado encontrado num sebo deixar enfim a prateleira para cair nas mãos de algum desavisado. A situação é ainda mais dramática para os que jamais foram publicados: a papelada sai das gavetas direto para o lixo, e daí para o esquecimento sem retorno. Um mundo que se acaba.

Hoje, a internet permite que qualquer escritor tenha suas gavetas virtuais devassadas por leitores desconhecidos. Basta que aconteça uma conjunção de fatores não tão improváveis, como uma busca num site de pesquisa ou um link passado via e-mail ou Twitter. E, no futuro, é bem provável que esses pensamentos quase anônimos espalhados por blogs, redes sociais e outras ferramentas digitais permaneçam flutuando num purgatório virtual, até que uma palavra-chave inocentemente digitada no Google (haverá Google?) os resgate do limbo, levando o internauta a uma viagem ao passado, rumo à nossa página. Ele certamente estranhará o projeto gráfico antiquado, as palavras escritas num idioma só na aparência semelhante ao seu, as idéias de sentido confuso e os temas anacrônicos.

A questão é: haverá algum tipo de epifania, como acontece quando nos deparamos hoje com uma reflexão escrita dois mil anos atrás por um filósofo grego? Vai depender, é claro, da qualidade do que deixarmos escrito para essa posteridade improvável. Imagino num futuro longínquo um curioso fuçando o meu humilde blog, e de certa forma se relacionando com o meu jeito de pensar e ver o mundo. Um mundo completamente diferente do dele. Que tipo de sentimento nutrirá pelas palavras que escrevo hoje aqui? Haverá alguma identificação, algum elo capaz de superar a indiferença, o tempo e a distância? Que ele, dois séculos depois, responda a esses questionamentos postando um comentário logo aí abaixo. Infelizmente, eu não poderei responder.

domingo, 13 de junho de 2010

A importância do caos


Num universo cada vez mais conservador e politicamente correto como o do futebol, a presença de Diego Maradona na Copa do Mundo merece ser louvada. Gosto de ouvi-lo dizer que seus jogadores poderão praticar sexo e beber vinho nos dias de folga da seleção argentina. Gosto de vê-lo cobrar faltas com perfeição e em seguida acender um charuto para curtir os últimos momentos do treino, já com o dia indo embora. Sua anarquia extemporânea (não há nada mais anacrônico do que um Che Guevara tatuado no braço) representa a agonia de uma era. No futebol pragmático e irremediavelmente chato de hoje, Maradona e seu time personificam um sopro derradeiro de invenção, uma manifestação caótica do imponderável, uma desordem genial. Vendo a seleção argentina jogar, eu me deparo com artistas, não com atletas. Capazes de executar lançamentos longos e precisos, trocas de passes em altíssima velocidade e finalizações surpreendentes. E, fora do campo, um maestro desajeitado e histriônico, a nos lembrar de um tempo em que os gênios decidiam uma Copa, não os esquemas táticos ou o comprometimento dos atletas com seu país. Não deixa de ser sintomático que Maradona tenha reaparecido justamente num torneio realizado na África, onde o improvável desafia o pragmatismo para o bem (as torcidas alegres e barulhentas ou a linda dança dos jogadores sul-africanos antes de entrarem em campo) ou para o mal (os feridos num amistoso desastroso entre Nigéria e Coréia do Norte).

Nesse sentido, não há nada mais oposto do que Argentina e Brasil. As diferenças entre Maradona e Dunga vão muito além da já gasta dicotomia Apolo versus Dionísio. São formas de encarar o mundo que se confrontam em meio ao enxame de abelhas promovido pelas vuvuzelas. Com seu ufanismo tolo, sua ótica tosca e seus jogadores medíocres (com raras exceções), o treinador brasileiro lembra um general de comédias antigas, desses que acabam sendo invariavelmente ludibriados por seus subordinados. Não importa quem seja o campeão: se Brasil, Argentina (o meu preferido) ou um terceiro país à sua escolha. Afinal, reflito aqui muito menos sobre futebol e muito mais sobre o comportamento humano. Sobre ordem e caos, e em como ambos são necessários em nossas vidas, desde que na medida certa.

sábado, 5 de junho de 2010

Um cara decente



“E pouco depois de dar esse telefonema, ele estava de pé no escritório e sentiu uma tontura. ‘Tô ficando tonto’, disse. Aí ele se sentou numa cadeira, e eu vi os olhos dele ficarem vazios. O olhar dele ficou vazio. Ele tinha morrido. Mas eu pensei que ainda desse para fazer alguma coisa, saí de carro correndo para a casa de um cardiologista que morava ali perto. Não encontrei o cardiologista, voltei pra casa e ele já estava morto. Foi terrível viver com essa imagem de ver o pai morrer, ver a morte tomar conta de uma pessoa. Ficar com os olhos vazios assim.”


Luis Fernando Verissimo, em Conversa sobre o Tempo.


***


Não pude ver os olhos de meu pai ficarem vazios. Quando cheguei esbaforido do trabalho com meu irmão, ele estava lá na cama enquanto os paramédicos tentavam reanimá-lo. Mas não havia mais vida naqueles olhos nem naquele corpo. Lembro que me senti mal, como se o coração fosse transbordar de sangue, e corri ao banheiro para chorar. Minha mãe veio em seguida e me deu um comprimido para que me acalmasse. A partir daí, fiquei em suspensão. Deixei de sentir tristeza e um alheamento incômodo me invadiu, só me abandonando uns dois dias depois do enterro. Os paramédicos terminaram o serviço e deram início aos trâmites burocráticos. Após um curto tempo, sentei ao lado de meu pai e fechei seus olhos apagados. Restava muito pouco da pessoa que sete meses antes fora diagnosticada com um câncer no pulmão com metástase no cérebro. Os cabelos surpreendentemente pretos e vastos para a idade tinham caído após as sessões de quimioterapia e – como disse minha mãe – ele foi se apagando aos poucos, como uma vela. Meu pai deixou a vida com dignidade, em sua cama, como no verso de Lorca.


Passados quase oito anos, é uma saudade que não cessa. E faz com que me apegue ainda mais a minha mãe, pelo temor de perder a outra parte do meu alicerce. Hoje não posso compartilhar com ele minhas impressões sobre os jogos do Flamengo. Não posso compartilhar os vinhos que compro e bebo sozinho na varanda lamentando a sua ausência. Não posso compartilhar os livros que leio, os discos que escuto, os filmes que assisto. Não posso compartilhar as viagens que faço de vez em quando com a minha (e sua) família, nas quais sua presença seria louvada. Enfim, faço minhas as palavras de Verissimo, ao final de Conversa sobre o Tempo, quando ele diz: “Eu gostaria de ser lembrado como um cara decente. Um cara decente como foi meu pai, decente em todos os sentidos da palavra”. Acho que é por aí.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Mundo maravilhoso


Quando era mais novo, achava a letra de What a Wonderful World uma grande bobagem. Buscava ali alguma ironia dissimulada, algo que ridicularizasse furtivamente aqueles versos tão plenos de felicidade cantados por Louis Armstrong. Sei lá, alguma coisa do tipo “eu vejo o céu azul e as nuvens brancas, mas apesar de tudo eu quero me matar”. Mas não, a canção é só otimismo em doses cavalares. Como assim, um mundo maravilhoso? E a fome, a desigualdade, a violência, as guerras, a estupidez coletiva? Como admirar céus azuis ou contemplar as cores do arco-íris num planeta tão devastado? Havia inclusive, acho que no filme Bom Dia, Vietnã, uma seqüência que se apropriava dessa ironia inexistente na música, ao mostrar imagens de confrontos, mortes em combate e rajadas de metralhadoras, enquanto o velho Satchmo despejava sua voz nascida no princípio do mundo.

É claro que esses questionamentos diziam muito mais de mim mesmo do que da música de Bob Thiele e George David Weiss. Afinal, minha trajetória sempre foi povoada por sombras e nuvens. De qualquer modo, hoje eu percebo que a estupenda beleza da canção nasce exatamente da sua textura prosaica, mundana, o que não a torna menos legítima. É basicamente o olhar do homem maduro sobre a face mais singela da existência, aquela em que vemos nossos filhos crescerem tão rápido quanto cães, enquanto tentamos a todo custo aproveitar os momentos que passamos com eles, antes que nos abandonem para se lançar à própria vida.

Todo esse sentimento de suave plenitude torna-se ainda mais emblemático quando tomamos conhecimento da vida pregressa de Louis, que enfrentou uma infância de pobreza extrema e preconceito antes de se tornar uma das vozes essenciais da América. Há muita sabedoria encravada na sua voz quando ele nos enleva e comove ao cantar versos como “I hear babies cry, I watch them grow. They'll learn much more, than I'll never know. And I think to myself, what a wonderful world”. Num mundo onde a brutalidade avança como um exército nazista, é um alento saber que não há qualquer ironia nessas palavras, e que os sentimentos contidos nelas são genuínos e puros como “um dia brilhante e abençoado”.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Decolagem na neblina


Com raras exceções, nas quais o exibicionismo se sobrepõe ao prazer, a prática do sexo é uma atividade íntima, feita em espaços fechados, ocupados apenas por quem protagoniza o ato sexual. O que você faz nesse espaço diz respeito a você e à pessoa com quem se relaciona, desde, é claro, que se trate de uma relação consensual entre adultos. Por tudo isso, não consigo compreender a obsessiva onipresença do sexo nas relações sociais – e, principalmente, os preconceitos que decorrem dessa onipresença. Cada um busca sua forma particular de alcançar o prazer, seja buscando posições inusitadas ou realizando fantasias mais ou menos ortodoxas, mas tudo isso pertence ao território sagrado do indivíduo. Por que, então, a sociedade, a justiça e as religiões interferem tanto no julgamento de um ato meramente privado, sem qualquer intromissão significativa no coletivo?

Todas essas questões me vieram à mente quando assisti ao filme A Single Man. Mais precisamente, à cena em que o professor vivido por Colin Firth recebe por telefone a notícia da morte do companheiro, num acidente de carro. Enquanto seu mundo desaba em silêncio ali naquela poltrona, ele ouve do interlocutor – um membro da família do rapaz que teve a delicadeza de avisá-lo do desastre – que sua presença não é desejada no enterro, restrito aos familiares. É mais um exemplo do coletivo se sobrepondo ao individual. O relacionamento gay do filho morto não era aceito pela família, por mais sólido e afetuoso que fosse esse relacionamento. Em nenhum momento, o sentimento do indivíduo – no caso, o do rapaz e do seu companheiro – foi posto em pauta. Afinal, havia provavelmente um sobrenome a zelar. Restou ao personagem de Firth se enclausurar em si mesmo, fechando-se para o mundo exterior.

Como ele, milhares de homens e mulheres têm suas rotinas devassadas, ridicularizadas e perseguidas por algo que fazem longe da vista de todo mundo, numa espécie de totalitarismo social. O sexo deixa de ser íntimo para se tornar um fardo público, condenado por autoridades, padres (que curiosamente praticam o que condenam, só que com crianças) e civilizações incapazes de enxergar legitimidade numa relação que não ousa dizer o nome. Daí ser tão difícil para um jovem homossexual se manifestar abertamente, seja no trabalho, na escola e sobretudo em casa. E daí haver nos relacionamentos com pessoas do mesmo sexo muito mais afeto e solidez do que com seus familiares, que na maioria dos casos os renegam.

Tenho amigos gays e imagino o peso que devem ter sentido em determinado momento de suas vidas. A revelação da sua condição, a necessidade de manter a auto-estima na superfície para não sucumbir. Como se fôssemos autômatos, é exigido de nós um comportamento padrão, sem matizes. Temos, os do sexo masculino, que nos comportar como machos em tempo integral, sacanear os tipos delicados, propagar nossas conquistas amorosas, cuspir no chão, coçar o saco, ser a personificação de um estereótipo. Ser diferente é decolar na neblina sem o auxílio de instrumentos. Oscar Wilde apodreceu na prisão por conta de seu escandaloso caso com um jovem herdeiro. Thomas Mann tomava banhos com água fervendo para mitigar o desejo que aflorava. Já Mario de Andrade, segundo dizem, jamais conseguiu concretizar fisicamente a sua condição homossexual. Se para eles – intelectuais e cosmopolitas – foi difícil, imagine para um rapaz da periferia, cansado dos safanões na escola, das gozações dos vigias, do olhar desaprovador dos pais. Tudo isso por algo que ninguém vê, só imagina.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Alma deformada


Quando leio nos jornais casos dilacerantes de maldade sem meios-tons, como o da procuradora que adotou uma criança apenas com o intuito de torturá-la, eu me lembro de Cathy Ames. Ou melhor: lembro da descrição que John Steinbeck fez, em A leste do Éden, “da mulher que causou uma agitação dolorosa e desconcertante no seu mundo”. No romance (que considero o melhor do autor norte-americano), Steinbeck estabelece uma analogia entre monstros físicos – pessoas que nascem com anomalias graves no corpo – e monstros mentais ou psíquicos. Estes seriam almas deformadas, despidas do senso moral vigente em sua época, ou talvez de qualquer senso moral vigente em qualquer período da civilização.

“Alguma peça da balança estava com o peso mal calculado, alguma engrenagem fora do eixo”. Cathy era assim, e foi assim que ela destruiu a vida de todas as pessoas com quem se relacionou, incluindo aí o marido, Adam Trask, e o filho Cal, que se corroía de angústia por temer ter herdado dela o gene da maldade. É pouco? Pois bem, foi ela a responsável – quando tinha 16 anos – pela morte dos próprios pais, ao forjar um incêndio na casa onde moravam e trancar as fechaduras para que não pudessem escapar. Steinbeck vai mais longe: “Talvez todos tenhamos um lago secreto onde coisas más e feias germinam e se fortalecem. Mas esta cultura é cercada e os germes da maldade sobem até a borda só para cair de novo no lago. Não poderia ocorrer que nos lagos escuros de alguns homens a maldade tivesse força bastante para saltar a cerca e nadar livremente? Não seria esse tipo de homem nosso monstro e não estaríamos ligados a ele em nossa água oculta? Seria absurdo se não entendêssemos tanto os anjos como os demônios, pois fomos nós que os criamos.”

A verdade é que, ao contrário do maniqueísmo bipolar dos filmes de aventura hollywoodianos, mal e bem habitam uma zona cinzenta, matizada, e muitas vezes não se percebe a fronteira que separa um do outro. Já falei aqui no blog sobre essa centelha que todos carregamos na alma e que um dia simplesmente deflagra um furor sem sentido, capaz de varrer tudo ao redor. Em dado momento, enlouquecemos, matamos ou morremos e não existe lógica capaz de desvendar a origem dessa centelha primordial.

Por tudo isso, fico ainda mais intrigado ao me deparar com a maldade cozida em banho maria e sorvida lentamente, como um gozo artificialmente prolongado. A garotinha de dois anos não entrou na vida da procuradora por vontade própria. Não foi abandonada à própria sorte na porta da sua casa ou sequer vendida pelos pais biológicos em troca de moedas ou favores. Não, a procuradora saiu de casa, foi até o orfanato, livrou-se dos entraves burocráticos que habitualmente dificultam a adoção de crianças por pessoas desequilibradas, levou-a para casa e a torturou. Mais um pouco e a garotinha sairia direto para o necrotério. Que engrenagem é responsável por atitudes como essas? Que peso mal calculado é capaz de produzir tamanha aberração? Fico com Steinbeck: monstros já nascem monstros. Mesmo que tenham o rosto angelical de Cathy Ames ou os traços grotescos da procuradora aposentada que atende pelo nome de Vera Lúcia Santana Gomes.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Pátria invulnerável





De tempos em tempos, volto aos lugares da minha infância. Faço um pequeno périplo pelos bairros do Barbalho, de Nazaré, da Soledade, da Lapinha. Lugares hoje meio decrépitos, assombrados pela decadência e escurecidos pela fuligem que vem da fumaça dos ônibus. Procuro, no Lanat, a casa onde passei a minha aurora soturna em meio a livros e bonequinhos de plástico. Ela está lá. Bem diferente, reformada e tomada por um muro alto, mas ainda lá. Vasculho na memória os tímidos registros da minha primeira escola, da igreja que detestava freqüentar e da casa do meu avô, com seus sabiás, pássaros-pretos e lindas velharias lusitanas. Também estão todas ainda lá, de pé. Posso me deter por uns instantes e percorrê-las com os olhos, antes de voltar para a realidade de uma outra Salvador, aquela na qual vivo e trabalho. Poderia até, caso desejasse, pedir aos donos atuais desses lugares para entrar um pouco e tomar um café, mesmo correndo o risco de ter as minhas reminiscências devassadas.

Pensei muito nos meus primeiros anos, e em como eles ainda estão impregnados em mim, depois de ler o comovente relato de uma amiga que não tem como voltar fisicamente aos lugares da sua infância – embora os mantenha inviolados na memória, que é o que realmente importa. Ela nasceu na velha Canudos, a mítica cidade onde, em 1897, o exército republicano brasileiro dizimou os seguidores de Antonio Conselheiro. Eternizada por Euclides da Cunha em Os Sertões (e também por Mario Vargas Llosa em A Guerra do Fim do Mundo e Sándor Márai em Veredicto em Canudos), a pequena cidade do árido nordeste baiano voltou a ser dizimada nos anos 60, desaparecendo sob as águas de uma barragem. Não apenas a cidade submergiu. Foi embora com ela a memória coletiva de um povo. Segundo minha amiga, muitos habitantes só saíram quando as águas começaram a preencher as ruas de terra batida, transformando a cidade numa improvável Veneza do semi-árido. E o pai dela, antes de tudo um forte, chorou pela única vez na vida naquele momento.

De vez em quando, em tempos de seca, a água da barragem baixa e é possível ver os escombros da cidade velha, como ossos desgarrados de um corpo insepulto. Mas, para minha amiga, é bem provável que a verdadeira Canudos não esteja ali. Não, a pátria invulnerável de sua infância feliz – para usar as palavras de Juan Gelman que ela cita em seu relato – está devidamente arquivada nas prateleiras da sua mente: o sino da igreja, a casa onde ela nasceu, a casa dos seus avós, o “campo de bola”, o barracão, as balas da batalha perdida que ela e outras crianças tiravam do solo para dar aos visitantes. Está tudo lá, e talvez seja até melhor que ela não possa revisitar fisicamente o próprio passado, revolvê-lo com as mãos, senti-lo sob os pés. Afinal, como alguém já disse, nunca devemos voltar ao lugar onde fomos muito felizes.

sábado, 1 de maio de 2010

A persistência da memória



Deveria existir um equipamento que fosse capaz de mensurar tudo que nossa mente acumula pelo caminho, ano após ano. As camadas de alegrias, frustrações, traumas, revelações, surpresas, perdas e superações, que vão sendo meticulosamente sobrepostas em nossos espíritos, como uma pilha de livros construída displicentemente. Com elas, formamos a nossa matéria-prima. Cada livro espremido lá embaixo é essencial para o equilíbrio da torre à medida que avançamos. Um puxão irresponsável e a pilha vai ao chão, provocando atitudes extremas, na forma de um suicídio, um crime passional ou um indício claro de insanidade ou deformação moral. O fato é que está tudo lá dentro, encerrado em algum canto escuro. Somos produto de nossa memória, embora em alguns momentos seja necessário esquecer para seguir em frente.


Benjamín Espósito, o personagem de Ricardo Darín em O Segredo dos seus Olhos, não quer esquecer. Próximo ao ocaso, ele não acredita que lhe reste apenas a lenta descida de degraus rumo aos sete palmos abaixo do chão. A vida pulsa nele, a memória também. E o que ela traz de volta é apenas amargura e decepção. O passado, como uma crise reumática crônica, a assombrar sua velhice. Mais do que voltar a um crime brutal ocorrido 25 anos antes, que não resultou na condenação do criminoso e abriu passagem para os esgotos da ditadura argentina, Espósito quer recordar um amor bem escondido, como na canção do Madredeus. Um amor moldado em silêncio e sombras. Acima de qualquer outra coisa, o filme de Juan José Campanella fala sobre a persistência da memória, não apenas a de Espósito, mas também a de sua antiga paixão, Irene, e a de Ricardo Morales, o homem que perdeu a jovem e amada esposa no crime brutal citado acima.


Todos eles estão de alguma forma agrilhoados ao passado, por mais que a passagem dos anos acrescente novas camadas de sentimentos e esmaeça a saudade e o desejo. Voltando à imagem da torre de livros, é como se alguns volumes da pilha fossem os nossos preferidos, aqueles que levamos conosco ao longo dos anos. O romance não concretizado com Irene é a obra-prima particular de Espósito, e vice-versa. Mas nada deixa mais evidente o caráter carcerário do passado do que a sombria e obsessiva trajetória de Ricardo, como ficará claro no surpreendente desfecho da narrativa. Ao final, como costuma acontecer nos grandes filmes, os questionamentos dos personagens se projetam para além da tela e alcançam o nosso território mais íntimo: o que fizemos de nossas vidas? Onde foi parar aquele eu tão diferente de mim que sumiu um dia e nunca mais deu as caras? Fizemos as escolhas certas? Até que ponto o acaso nos direcionou ao ponto em que estamos? Há retorno? Vale a pena retornar? São perguntas que nos levam a um confronto com nossos medos mais escuros. Mas, de tempos em tempos, esse confronto é necessário.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Eldorado


Até bem pouco tempo atrás, havia um oásis de tranqüilidade que parecia não ter sido afetado pelo recrudescimento da violência urbana em Salvador. Em qualquer estádio de futebol da capital baiana era possível ver torcedores de Bahia e Vitória caminhando juntos com suas respectivas camisas rumo à mesma catraca, torcendo juntos numa mesma arquibancada e voltando para casa irmanados no mesmo ônibus lotado. Afinal, o futebol, aqui, sempre foi encarado como uma festa descompromissada, por mais que a alma do torcedor saísse ferida após uma eventual goleada ou um título perdido.

Hoje não são as almas que saem feridas, nem apenas títulos são perdidos. A delinqüência e a estupidez invadiram de vez o universo futebolístico baiano, como de resto já haviam invadido o cotidiano de um estado em franco processo de degradação. Importamos de São Paulo a barbárie institucionalizada das torcidas organizadas, mas não conseguimos importar a opulência industrial e a prosperidade das cidades do interior do estado mais rico do país. Da mesma forma, importamos do Rio de Janeiro o crime organizado e a onipresença das drogas, mas somos incapazes de nos transformar numa terra bonita e cosmopolita como aquela cantada por Jobim e Vinicius.

Somos uma cidade e um estado estagnados há décadas, esperando um porvir improvável, onde a ausência de lideranças políticas sérias, cabeças pensantes e profissionais competentes leva a um marasmo intelectual e a um cemitério de idéias e iniciativas. A cordialidade de outros tempos foi parar em algum aterro sanitário, e hoje vivemos num território sem lei, violento e amargo, com uma desigualdade social brutal, travestido de eldorado tropical para consumo interno e externo. E agora nem é mais possível enterrar as mágoas dessa desdita com um singelo e sofrido grito de gol.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Corações atormentados


Passeava pelos canais a cabo ontem à noite quando me deparei com uma cena de Na Natureza Selvagem, que havia assistido algum tempo atrás. Era um momento decisivo do filme, no qual o protagonista, o jovem Christopher McCandless, abandona uma provável trajetória profissional de sucesso em troca de uma rica – e arriscada – experiência existencial, profundamente alicerçada no estoicismo pregado por Liev Tolstói, Jack London e Henry David Thoreau, mais precisamente por este último. Vale salientar que McCandless, personagem real cuja história ganhou o mundo através do romance de Jon Krakauer, no qual o longa de Sean Penn é baseado, não buscava inspiração nas obras desses autores, e sim em suas vidas.

Criador de Guerra e Paz e Anna Karenina, entre muitos outros romances fundamentais, Tolstói foi um bem-sucedido latifundiário, que nos últimos anos de vida renegou a fortuna e a vida burguesa e partiu de trem pela Rússia para conhecer de perto a realidade do seu país. Morreu de pneumonia numa estação insalubre. Já London era um aventureiro em tempo integral, posteriormente influenciado pelo ideário comunista, peculiaridades que se materializaram em livros como O Chamado da Floresta e De Vagões e Vagabundos. Já Thoreau – ao que parece a influência primordial do jovem – foi um precursor do anarquismo e da ecologia, que não mediu esforços para pôr em prática as teorias que formulou nos seus livros, incluindo aí o clássico Desobediência Civil.

Ingênuo, profundamente atormentado e minando vida por todos os poros, McCandless se deixou levar até o limite pelas pregações por vezes irresponsáveis – mas inegavelmente sedutoras – desses autores. E descobriu muito tarde que elas não podiam ser levadas ao pé da letra. Afinal, como ele mesmo constatou, a felicidade não se consegue sozinho. Mas até que ponto o jovem filho de aristocratas não atingiu o seu intento? Morrer solitário no Alasca não era o epílogo esperado por quem sorveu sem meias-medidas o legado dos seus antecessores? Pode ser. Mas Tolstói se despediu da vida já octagenário, enquanto London e Thoreau já haviam passado dos quarenta (no caso do autor de Caninos Brancos, a morte se deu por vontade própria). McCandless contava apenas 22 anos. É fato que seu último ano de vida valeu por décadas, mas e daí? Duvido que ali, no ônibus abandonado que se tornou o seu esquife, ele não ansiasse por mais nacos de vida, enquanto agonizava na solidão absoluta.

***

Aos 20 anos, eu também me deixei influenciar pela vida – muito mais do que pela obra – de um escritor. É uma escolha (involuntária, claro) arriscada. Nessa época, a vida de Jack Kerouac me parecia o caminho a ser seguido. Um contraponto de audácia e destemor à tormenta perene que habitava a minha alma. O que me seduziu no velho Jack não foram as deliciosas aventuras regadas a álcool e anfetaminas de Sal Paradise e Dean Moriarty em On The Road, mas sim o embate silencioso entre religiosidade e hedonismo que forjou a matéria-prima do autor em Kerouac – Uma Biografia, o excepcional livro de Ann Charters. Aí sim eu encontrei o meu espírito, como costumava escrever nesses tempos. Charters esmiuçou implacavelmente as contradições que habitavam o coração atormentado de Kerouac, alicerçadas na perda nunca superada do irmão Gerard, na relação de dependência e respeito com a mãe e na homossexualidade em parte reprimida (que na época me chocou, por considerá-la incongruente com o ideal do aventureiro macho que pede carona nas estradas e se envolve de maneira fugaz, mas intensa, com mulheres).

Não fui o mesmo depois de Kerouac, o homem e o biografado. Tentei encontrá-lo nas estradas esburacadas rumo ao sul, na tremenda solidão das viagens de ônibus e caronas e no sentimento genuíno de perda de alguém que tinha o sangue igual ao meu. Mas o Brasil de 1990 era muito diferente dos Estados Unidos dos anos 40. E eu era muito diferente de Kerouac. Percebi que anfetaminas, cocaína, ópio, heroína e outros psicotrópicos não faziam parte da minha dieta existencial, embora comungue com o velho Jack o apreço por líquidos com alto teor etílico. Enfim, o criador de Big Sur e eu pertencíamos a mundos impermeáveis um ao outro, como mais tarde constatei que havia em mim muito pouco de Hemingway ou Fitzgerald, nos quais me espelhei aos 30 anos. Até porque precisaria ganhar em euros um salário exorbitante para torrar na Riviera Francesa ou nos cafés de Paris, onde eles um dia fizeram suas festas móveis. Além, obviamente, de não ostentar sequer uma nesga de todo aquele talento. Em suma: no meu caso, o caminho do excesso jamais levaria ao palácio da sabedoria. Sou o que sou, e isso, hoje, me basta. Afinal, não quero morrer de hemorragia abdominal por excesso de álcool ou pulverizar meus humildes miolos com uma bala de carabina.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Silêncio


Faz mais de uma semana que não escrevo no blog, e o mês de abril tem sido escasso em postagens. Talvez esteja padecendo do Mal de Montano, espécie de bloqueio criativo que acomete um jovem escritor no romance de Enrique Vila-Matas, que estou começando a ler. Mas é mais provável que esteja cansado de levantar muros de indignação com minhas palavras. A brutalidade do real me exaure, notícias me apunhalam a cada início de manhã e me sinto cada vez mais entorpecido, incapaz de reagir e vociferar contra escândalos acachapantes ou assassinatos sem sentido. Melhor assim. Nunca fui muito bom em escrever movido pela cólera, a saliva escorrendo pelos cantos da boca, as frases se atropelando como numa avalanche. Gosto de mastigar lentamente cada palavra, sentir a sua textura, o seu poder de sedução, a sua capacidade de se harmonizar sem farpas com os outros ingredientes de um texto. E, obviamente, não pretendo fazer deste espaço um desfile de lamúrias.

O fato é que é quase impossível reprimir um certo enfado diante de acontecimentos dignos de asco, como o escândalo dos padres pedófilos, devidamente acomodados dentro da batina do Papa, ou do pai que joga as filhas da ponte. Depois de tantos “por quês” repetidos à exaustão silenciosamente, acabo me dando conta de que meus comentários sobre esses assuntos não vão oferecer nada de novo a ninguém, nem irão contribuir para que eu mesmo compreenda como essas engrenagens encharcadas de estupidez nos impelem incessantemente para o futuro. Prefiro o silêncio, agora interrompido com estas frases soltas neste início de madrugada de uma segunda-feira. Um silêncio que me faz lembrar as imagens daquele vulcão expelindo lava do centro da Terra para cobrir quilômetros de céu na Islândia. É possível encontrar resquícios de beleza e inocência nessa manifestação aterradora da natureza. Afinal, não há ali qualquer vestígio de bem ou de mal. É apenas magma, fogo e fumaça, como no início do mundo. E, provavelmente, como no seu fim.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Numa noite fria, nessa terra crua


Ontem à noite, enquanto a chuva castigava a cidade lá fora, assisti novamente ao documentário de João Moreira Salles sobre o pianista Nelson Freire. E, em meio a relâmpagos em profusão e oscilações de luz, um trecho do filme me chamou a atenção. É quando o pai de Nelson descreve numa carta emocionada todo o sacrifício que a família fez para que aquele garoto prodígio, que tocava Chopin aos quatro anos, pudesse se tornar o intérprete genial que acabaria se tornando. Os Freire eram do sul de Minas, família de classe média baixa, e precisaram mudar para o Rio de Janeiro em busca de tutores adequados ao desenvolvimento do talento do filho mais novo. Largaram casa, trabalho e rotina em troca de uma hipotética carreira de sucesso num universo restrito como o da música clássica. Já estavam quase desistindo e se preparando para voltar quando apareceu a professora Nise Obino, e o resto é uma bonita história pontuada por execuções precisas e cheias de lirismo.

O sacrifício da família de Freire valeu a pena. Mas, ontem mesmo, enquanto observava da varanda o céu ser tomado por clarões, fiquei pensando no sacrifício inútil de dezenas de pais pobres, iletrados e exaustos que perderam seus filhos e sua vida nos desmoronamentos das encostas no Rio e em Niterói. Homens e mulheres que trabalhavam como pedreiros, domésticas, garis ou operários para garantir alimento, habitação e escola às suas crianças. Não porque elas tivessem algum dom especial, mas porque eram suas. Dificilmente haveria, entre aqueles meninos e meninas mortos, um novo Nelson Freire – ou um novo Freud ou um novo Einstein. Isso torna essas mortes ainda mais dramáticas.

A maioria das pessoas soterradas viveu grande parte da vida num sacrifício perene, com dinheiro insuficiente para honrar as contas e muito menos projetar uma mudança significativa no padrão de vida nos anos seguintes. Suas rotinas se limitavam a pouco mais do que horas e mais horas de trabalho braçal, seguidas de noites de tédio brevemente interrompidas por hiatos de felicidade, como uma conversa divertida numa mesa de bar, uma brincadeira com os filhos ou um cafuné da mulher no sofá. Até a invasão de lama, pedra e concreto tomar conta de tudo e reduzir esse cotidiano a escombros.

A morte de cada uma dessas pessoas abre uma imensa clareira na forma como entendemos a existência humana. E deixa à mostra nossa insignificância coletiva e, paradoxalmente, nossa inestimável riqueza individual, diariamente solapada pela realidade. Vale aqui o clichê de que cada cabeça é um mundo, por mais simplório, vulgar e pequeno que seja esse mundo. Havia vida ali: pequenos desejos sublimados, crenças sem embasamento teórico, atos de generosidade ou mesquinhez, sonhos frívolos, mas nem por isso menos legítimos, e provavelmente uma grande vontade de continuar vivendo, apesar das intempéries. São histórias que não terminaram num recital de Chopin ou Beethoven numa luxuosa sala de concertos em Viena, Moscou ou Paris. Afinal, o talento de cada uma daquelas pessoas era apenas sobreviver. O que, obviamente, não foi suficiente.

***

“Numa noite fria, nessa terra crua

Cada qual leva a morte que é sua.

Cada homem certamente amou a vida

Coberto por palmos de terra batida.”

Bertolt Brecht

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A verdade sobre os imortais


Fiquei sabendo, por uma matéria publicada no Estado de S.Paulo, que a vaga aberta na Academia Brasileira de Letras após a morte de José Mindlin está sendo bastante concorrida. Tem muita gente almejando a tal imortalidade, que na prática se traduz em algum prestígio, no uso do fardão verde com detalhes dourados e em animadas tertúlias nas sessões de chá com biscoitinhos promovidas pela entidade, fundada por Machado de Assis há 123 anos. Estão na disputa, entre outros, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Eros Grau (autor de livros jurídicos e de um único romance), o embaixador Geraldo Holanda Cavalcanti (tradutor de poetas italianos e autor de um livro que foi finalista do Prêmio Jabuti) e o sambista Martinho da Vila (que também escreveu uma dezena de livros infantis).

Considerei a obra desses candidatos pouco expressiva, literariamente falando, e não encontrei justificativa para que fizessem parte da ABL. Mas dias depois li, no blog de Geneton Moraes Neto, que o poeta Mario Quintana tentara por três vezes fazer parte da entidade, sem que lhe fosse concedida a honraria. Logo Quintana, um gênio terno e compassivo, capaz de cometer versos como: “Ai de mim/Ai de ti, ó velho mar profundo/Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios”. A princípio, achei uma grande injustiça, mas em seguida fiz uma rápida pesquisa para encontrar outros autores e intelectuais que não integram ou integraram os quadros da ABL, seja por vontade própria ou não. Parafraseando o cronista esportivo Fernando Calazans, que um dia disse que “se Zico nunca ganhou uma Copa, azar da Copa”, cheguei à conclusão de que, se Quintana nunca entrou para a ABL, azar da ABL.

O poeta gaúcho não está só nessa cruzada involuntária. Ou melhor, está muito bem acompanhado, como é possível perceber nesta rápida lista de reles mortais que não constam no site da ABL: Erico Verissimo e seu filho Luis Fernando, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Clarice Lispector, Cecília Meirelles, Vinicius de Moraes, Antonio Candido, Adélia Prado, Wilson Martins, Graciliano Ramos e Rubem Fonseca, além de – para incluir outras áreas que não só a literatura – Chico Buarque, Antonio Carlos Jobim, Oscar Niemeyer, Heitor Villa-Lobos e por aí vai. Em compensação, estão entre os imortais nomes como Ivo Pitanguy, Marco Maciel e José Sarney, além de figuras para mim desconhecidas (o que provavelmente é um problema meu e não da Academia), como João de Scantimburgo, Padre Fernando Bastos de Ávila ou Evanildo Bechara. Ou seja: Vidas Secas não está lá, mas Marimbondos de Fogo está. Azar da ABL.

Claro que o paralelo acima é injusto, afinal estamos comparando a quintessência dos mortais com a escória dos imortais. Também já vestiram o fardão Guimarães Rosa, Jorge Amado, Darcy Ribeiro, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Otto Lara Resende, Nelson Pereira dos Santos e muito mais gente de talento inquestionável. O que me causa desconforto é apenas essa situação meio esdrúxula na qual há tantos imortais de fato excluídos da lista de imortais de direito. Mas a verdade de tudo isso é que a eternidade não depende da vontade de um restrito grupo de homens, estejam eles vestidos ou não com suntuosos fardões bordados. Shakespeare não é lido hoje, passados 400 anos da sua morte, porque alguém um dia afirmou que ele merecia tal galardão. O tempo pode às vezes ser injusto, mas ainda é o melhor critério para a escolha dos verdadeiros imortais.

domingo, 21 de março de 2010

Destinos escuros



Existe o amor que enternece, mas há também o amor que devasta. Sobreviver à perda de alguém que se ama é seguir em frente com algo em nós amputado, algum órgão imaginário que começa no estômago e termina na garganta. Um sofrimento que nos faz, como na canção de José Miguel Wisnik, cantar e gritar “de lamento e luto”, para no final arrematar: “Te amarei eternamente e ainda depois”. Enfim, permanecemos e prosseguimos, e essa é a dor suprema: permanecer e prosseguir quando aquilo que nos fazia viver, nosso passaporte para a plenitude, se extingue inapelavelmente, como um diamante no ralo.
É dessa dor que fala A Trégua, de Mario Benedetti. Um pequeno e valioso ensaio sobre a inevitável incompletude do amor, por mais que tentemos trazê-lo para nós, protegê-lo, criar em torno dele um invólucro invulnerável. Uma novela outonal, implacavelmente triste, que ao final deixa em nós um travo de amargura. A Trégua me lembrou um romance pouco conhecido de Balzac que li aos 13 anos, chamado O Lírio do Vale. Ambos tratam do mesmo tema, embora de forma radicalmente diferente. Benedetti também me fez recordar de outros romances e contos que falam sobre o amor dilacerado, aquele sentimento em carne viva que pode levar fortalezas à ruína. Textos que em épocas diferentes incutiram em mim o medo da perda, o pavor de continuar mesmo com uma hemorragia na alma.
Lembro, por exemplo, de Adeus às armas e do seu parágrafo final, que Hemingway reescreveu dezenas de vezes até atingir o ponto máximo de depuração e o mínimo de autocomplacência: “Era como se eu estivesse me despedindo de uma estátua. Depois de um instante, saí para a rua e regressei ao hotel a pé, lentamente, debaixo da chuva”. Lembro também de Riobaldo, devastado pela morte de Diadorim e simultaneamente descobrindo o seu verdadeiro sexo em Grande Sertão: Veredas: “Aqui a estória se acabou. Aqui a estória acabada. Aqui a estória acaba”. Lembro, ainda, do velho ateu confrontado com a fé da mulher que amou e perdeu, em Fim de Caso, de Graham Greene: “Oh, Deus, você já fez o bastante, já me privou do bastante, estou cansado e velho demais para aprender a amar, deixe-me em paz para sempre”. E por aí vai.
Mas há os contos também. Aquele de Bukowski, A Mais Linda Mulher da Cidade, sobre uma garota belíssima (perfeitamente encarnada no cinema por Ornella Muti) que provocava cortes impiedosos no próprio corpo até dar cabo de si mesma, deixando o seu amante reduzido a um tronco oco: “A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada”. Ou uma história pouco conhecida de García Márquez, chamada O Rastro do Teu Sangue na Neve: “Foi embora sem se despedir, sem nada a agradecer, pensando que a única coisa que necessitava com urgência era encontrar alguém para arrebentar a correntadas, para se desquitar de sua desgraça”.
Os trechos acima evidenciam reações distintas, que vão da revolta ao ensimesmamento, passando pela indiferença e pelo conformismo. O improvável herói de meia-idade de A Trégua, Martín Santomé, recolhe-se a um sentimento difuso: “Em algumas ocasiões, não posso captar os matizes que separam a inércia do desespero”. Para o personagem de Benedetti, prosseguir é um martírio sem sentido, um caminhar sem norte até que a própria morte o resgate e redima. Dor, em suma, vã e estúpida como costumam ser as dores mais avassaladoras. A Trégua nos leva a ela aos poucos, em conta-gotas, até o momento do espasmo.
***
“É evidente que Deus me concedeu um destino escuro. Nem sequer cruel. Simplesmente escuro. É evidente que me concedeu uma trégua. A princípio, relutei em acreditar que isso pudesse ser a felicidade. Resisti com todas as minhas forças, depois me dei por vencido e acreditei. Mas não era a felicidade, era apenas uma trégua. Agora estou outra vez metido em meu destino. E é mais escuro do que antes, muito mais.”

sexta-feira, 19 de março de 2010

“A política e o destino da humanidade são moldados por homens sem ideais e sem grandeza.”
Albert Camus

terça-feira, 16 de março de 2010

Passarinhos


Alguns textos possuem a estranha mania de nos deixar asfixiados, emudecidos, sem ar. Doem na gente como uma incisão. Acabo de sair do blog da jornalista Eliane Brum, ex-repórter da revista Época, e é assim que me sinto depois de ter lido seu texto mais recente. Um texto que nos arremessa para dentro do que existe de mais brutal, estúpido e obtuso na mente e no comportamento humanos. Eliane conta a história de Nujood Ali, uma menina de 10 anos que escapou de uma prisão domiciliar informal para pedir o divórcio em um tribunal. Sim, divórcio. Sim, 10 anos. Nascida numa família miserável no Iêmen do Sul, país igualmente miserável de maioria muçulmana, ela foi entregue pelo pai a um homem com mais de 30 anos, que a violentava e espancava todas as noites.

Nujood tinha nove anos quando foi entregue a esse sujeito. É a idade da minha filha. Impossível não sentir um aperto no peito, uma indignação muda, como se algo em mim se dilacerasse. Afinal, eu sei muito bem que uma criança de nove anos deve ser abraçada da mesma forma que uma mão deve segurar um passarinho. Antes de ir ao Tribunal, a menina chegou a procurar socorro na própria família. Encontrou só indiferença. Fico imaginando o mundo que desmoronou dentro dela ao perceber que não teria ajuda nem das pessoas que teoricamente seriam responsáveis por tratá-la como um passarinho. À inocência física perdida na cama somou-se a perda de um tipo mais valioso de inocência: o defloramento da alma.

Dentro do possível, o caso de Nujood terminou bem, embora ela tenha voltado a morar com os familiares após conseguir o divórcio. E o seu caso – que ganhou o mundo, virou livro e a transformou numa improvável celebridade – se tornou um precedente histórico para outras crianças recorrerem à justiça do país com sucesso. Mas Eliane Brum não nos concede o benefício de um final feliz, pois a vida não cabe num filme de Hollywood. Ela prefere comparar a vida no Iêmen com a realidade brasileira, esta terra devastada onde meninas de 7 ou 8 anos praticam sexo com caminhoneiros ou onde políticos e outras autoridades forjadas na intimidação arregimentam crianças da mesma idade para orgias com adultos. Enfim, não estamos em melhor situação do que um país em ruínas fincado num pequeno rincão do Oriente Médio, onde o analfabetismo atinge 41% da população e conflitos separatistas já provocaram o êxodo de 150 mil refugiados.

Não vou me estender no assunto, até porque Eliane faz isso com muito mais competência. Fico apenas pensando na minha filha, com sua inocência plenamente preservada. E em Nujood, que justificou sua decisão de querer o divórcio dizendo apenas que “não suportava mais”. E também na existência lancinante de crianças e mulheres em países como Nigéria, Afeganistão, China, Sudão ou Cazaquistão. Estamos falando aqui de coisas pesadas, como tráfico de escravas sexuais, mutilação genital, afogamento de bebês do sexo feminino, apedrejamento em praça pública e outras aberrações. No mês em que o Dia da Mulher é comemorado, fica ainda mais fácil perceber o quanto existe de hipocrisia por trás das rosas vermelhas, das homenagens em anúncios de jornal e dos cumprimentos respeitosos dos colegas de trabalho. A emancipação feminina e todas as conquistas que ela trouxe a reboque (a pílula, a inclusão efetiva no mercado de trabalho, o divórcio e muito mais) representam apenas uma camada fina e opaca que esconde o inferno de ser mulher em uma vasta área do planeta. Esse bicho esquisito que todo mês sangra, como diz Rita Lee. Não necessariamente por causa da menstruação.

terça-feira, 9 de março de 2010

A última trincheira


Às vezes me pergunto que fim levou a transgressão como forma de afirmação da juventude. Não existem mais transgressores, ou pelo menos não como nos acostumamos a vê-los no cinema, na pele de um James Dean em Juventude Transviada ou de um Jean-Paul Belmondo em Acossado. Numa era em que os jovens são tão ou mais reacionários que seus pais, não existe espaço para transgredir, ou ao menos transgredir de forma consciente, com um propósito maior, seja ultrapassando fronteiras pessoais ou fragilizando com pontapés os pilares do conservadorismo. Bem, seria pedir demais querer que os jovens bem alimentados e mal educados de hoje discutissem Sartre nos cafés ou fossem às ruas exigir a renúncia de um político corrupto, e nem acho que isso seja assim tão necessário ou eficaz.

Mas há algo de muito sombrio numa sociedade cuja última trincheira de transgressão da juventude é encher a cara para depois dirigir pela cidade. E é claro que vai muito mal um país onde atitudes como essas são toleradas pela justiça, incapaz de alterar uma legislação frouxa ou fiscalizar e reprimir de forma efetiva o binômio álcool e direção. Desde criança ouço dizer que o Brasil é o país que mais mata no trânsito. Lá se vão vinte, trinta anos e continuamos matando e morrendo sem remorso. Nesse período, “formamos” cidadãos que não têm a menor percepção de que um automóvel conduzido de forma irresponsável pode ser muito mais letal do que uma arma de fogo. Sobretudo se o combustível estiver sendo usado não só no automóvel, mas também no condutor.

Outro dia, num supermercado, prestei atenção à conversa de um rapaz ao celular com um amigo. Em dado momento, ele disse que não sabia como havia voltado para casa após uma festa na noite anterior. Não sabia onde tinha deixado o carro ou mesmo se tinha dirigido no final da noite. O curioso é que havia um tom de deboche na sua fala, como se ele se vangloriasse do fato de ter enchido a cara e voltado dirigindo para casa. É, como diriam os crentes, o fim dos tempos. Após décadas de barricadas, protestos, alucinógenos e mochilas nas costas, a transgressão chegou ao século 21 reduzida a um sinônimo de estupidez e irresponsabilidade.

Para esse rapaz do celular foi um episódio cômico, uma transgressão inócua, mas poderia ter terminado como terminam dezenas de acidentes de trânsito em todos os cantos do país, que não envolvem apenas jovens, mas quase sempre envolvem bêbados. Só nos últimos dias, dois deles chamaram a atenção. No primeiro, um homem que admitiu ter tomado algumas cervejas dirigiu por 20 km na contramão até encontrar o carro de um casal que acabara de levar a filha a um hospital. O casal morreu, o bêbado não. No outro acidente, um sujeito embebido em álcool saiu da pista e entrou num parque, atropelando um pai e um bebê de oito meses, que está em estado gravíssimo. São tragédias individuais que evidenciam a nossa tragédia coletiva: a incapacidade de formar pessoas conscientes, cultas e, no bom sentido, transgressoras. Resta só esse admirável gado novo pastando na cidade em veículos de trocentas cilindradas.

terça-feira, 2 de março de 2010

Ovos de serpente


Um dos clichês mais utilizados por repórteres e críticos, quando analisam determinada obra de arte, é afirmar de forma categórica que as pessoas podem amar ou odiar essa obra, mas jamais ficarão indiferentes a ela. Esta semana terminei um romance de Manuel Puig, chamado The Buenos Aires Affair. No verso do livro, o escritor Eric Nepomuceno sentencia: “Para alguns, The Buenos Aires affair é o melhor de todos os romances de Manuel Puig. Há, é claro, os que discordam. O que não há é quem passe indiferente por estas páginas”. Por que não? O curioso é que o livro me provocou justamente uma incômoda sensação de indiferença. Não o odiei, muito menos o adorei, e é bem provável que o seu conteúdo esteja apagado da minha memória daqui a alguns anos. Pode ser um defeito meu, é claro. Afinal, a indiferença vem se manifestando em mim de diversas formas, seja quando assisto a programas da TV aberta ou folheio revistas de celebridades nas salas de espera dos consultórios médicos. Ou, mais ainda, quando escuto conversas alheias, de pessoas conhecidas ou não, sobre assuntos que não me despertam o menor interesse.

Mas creio que o problema é mais amplo e não se restringe a mim. Norman Mailer já disse que o “estado natural do homem do século 20 é a angústia”. É possível que o homem do século 21 padeça de um mal ainda mais grave, pois a indiferença traz consigo o tédio, o enfado, a apatia e uma desconfortável sensação de impotência. O mundo me parece anestesiado. Ao contrário do clichê, pouco se ama ou se odeia nos dias de hoje, restando apenas o pensamento entorpecido. Não há causas pelas quais lutar, além da causa própria. Não há limites para a estupidez ou para a violência, seja ela de cunho social, religioso ou político. Pensar diferente é quase um sacrilégio, e assistimos a uma ditadura do consenso, do compadrio, da falta de assunto para além das platitudes e, o mais grave, do horror ao outro. O princípio da alteridade soa como latim – uma coisa antiga, chata, fora de moda – aos ouvidos de gente que não enxerga diferentes grupos sociais e raciais como seres da sua espécie. A história ensina que sociedades assim são ambientes propícios ao aparecimento de ovos de serpente. Há pouco menos de um século, vimos algo parecido: uma pequena serpente peçonhenta rastejando num limbo moral até ascender sem resistência ao poder máximo de um país culto, industrializado e com um ódio latente camuflado pela indiferença. Deu no que deu.