domingo, 22 de abril de 2012

Erguer e destruir




Esta semana, quando levava minha filha para a escola, Joshua Bell começou a tocar um dos Noturnos mais conhecidos de Chopin no som do carro. Aos poucos, aquela melodia tão poderosa foi nos invadindo, avançando sobre nossa consciência e criando uma espécie de transcendência, uma bolha onde nos abrigamos do congestionamento e do barulho dos carros e motos. Permanecemos silenciosos durante os pouco mais de três minutos em que o violino de Bell quase nos desmanchou (a mim, pelo menos). Foi uma ligeira epifania, uma pequena amostra de beleza absoluta. Chopin morreu em Paris no dia 17 de outubro de 1849, aos 39 anos, mas 163 anos depois ele aparecia para nós, no início de uma tarde quente de outono, nos deixando ensopados de fascínio.

Deixei minha pequena na escola e voltei para casa pensando em Chopin, Joshua Bell e na capacidade que o homem tem de, como disse Caetano, erguer e destruir coisas belas. Um Noturno de Chopin é a prova inequívoca do valor da existência. Diria até que é a prova inequívoca de que podemos vingar como espécie, por mais que a travessia até aqui tenha sido tão penosa. Não foram poucos os percalços, e para isso basta lembrar que Joshua Bell dá prosseguimento a uma longa tradição de geniais violinistas judeus. E que uma das razões pelas quais o violino virou um instrumento judeu por excelência é a sua praticidade. Em outras palavras, um instrumento fácil de carregar quando o anti-semitismo tornava-se insuportável e uma existência nômade, de um canto a outro da Europa, se fazia necessária.

Fiquei sabendo disso ao ler um texto de Arthur Dapieve para a revista Bravo, no qual ele também falava sobre a restauração de violinos enterrados nos campos de concentração nazistas. Talvez não exista imagem mais adequada para personificar o “erguer e destruir coisas belas”: um instrumento capaz de tocar um Noturno de Chopin escondido no âmago de uma máquina concebida para dizimar seres humanos em escala industrial. Dói pensar naquelas vidas sem nome com seus violinos enterrados, provavelmente homens e mulheres de talento inimaginável, aniquiladas pelo que de mais estúpido e devastador a humanidade produziu. Quantos gênios o nazismo transformou em nada? Sabe-se que 6 milhões de judeus morreram na Segunda Guerra (número que se torna ainda mais absurdo se incluirmos os mortos de outras nacionalidades), o que dá uma idéia, ainda que vaga, do que perdemos.

Hoje mais cedo assisti a Um Método Perigoso, de David Cronenberg, e já no final, pouco antes de subirem os créditos, apareceram as informações sobre o destino dos personagens principais do filme, todos eles reais: Sabina Spielrein, mulher inteligentíssima, que de paciente com sério desequilíbrio e amante de Jung se tornou uma brilhante psicanalista, foi fuzilada pelo exército nazista junto com as duas filhas, em 1942. Como pôde o mal invadir de tal forma o território da civilização? Como uma aberração como Hitler chegou tão longe? Os mortos são muitos, mas vale recordar de alguns talentos que sobreviveram para tentarmos mensurar o alcance da insânia nazista: lembro de cara dos escritores Primo Levi, Imre Kertész e Elie Wiesel e do músico Wladyslaw Szpilman, que teve sua epopéia particular reconstituída por Roman Polanski em O Pianista. Ao final do filme, já livre e de volta aos estúdios de gravação, Szpilman toca justamente o Noturno de Chopin que ouvi no carro com minha filha. Talvez não exista antídoto mais eficaz contra a barbárie. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Memória sonegada




O argentino Juan Gelman é um dos grandes poetas vivos da América Latina. E é admirável que tenha conseguido escrever versos tão amorosos e cheios de lirismo após o ano de 1976, quando a sua vida passou a ser ditada por uma busca – ou melhor: por três buscas. Marcelo e Maria Claudia, filho e nora de Gelman, foram assassinados pelo aparelho repressivo da brutal ditadura militar argentina. Durante 13 anos, Marcelo foi dado como "desaparecido", até que finalmente seu corpo foi achado e o pai pôde dar a ele uma sepultura digna. O corpo de Maria Claudia ainda não foi encontrado, mas é bem provável que seja dela uma ossada encontrada no mês passado em um quartel no Uruguai. A terceira busca se encerrou em 2000, quando Macarena, a filha de Marcelo e Maria Claudia, foi finalmente encontrada. Ela vivia com pais adotivos, simpatizantes do regime, a quem fora entregue ainda bebê, e não sabia nada do seu passado.

Lembrei da via-crúcis de Juan Gelman quando assisti na semana passada a O Dia em que não Nasci, de Florian Cossen. Um filme espesso, doloroso, que tem seu ponto de partida quando uma jovem alemã, Maria Falkenmayer, fica presa numa conexão em Buenos Aires antes de chegar a Santiago, onde participaria de um torneio de natação. Maria não fala espanhol, mas enquanto esperava a chamada para o vôo, ouviu uma mãe cantar uma canção de ninar para o seu bebê. Uma canção em espanhol. Maria reconheceu de imediato a letra e o seu significado, e aquilo a intrigou a ponto de mal se conter em lágrimas. No decorrer da narrativa, Maria vai descobrir que é mais uma das centenas de crianças cujos pais foram assassinados pela ditadura e que acabaram adotadas. No caso dela, por um sujeito que manteve estreita colaboração com o regime de Jorge Videla. Um sujeito que, até então, ela amava e chamava de pai.

O Dia em que não Nasci (o título original, em alemão, é Das Lied in Mir, algo como A Canção em Mim) aborda um episódio de clara conotação política, mas o que mais me comoveu nele foi a tragédia individual. Maria teve a sua infância – e, portanto, a sua existência – sonegada da maneira mais torpe. É como se tudo que ela viveu estivesse assentado em um terreno pantanoso, sem vida própria. Apenas um simulacro de memórias, como se ela fosse um daqueles andróides de Blade Runner, que guardam fotos de crianças que não foram e lembram de acontecimentos que não vivenciaram. A tragédia de Maria, desencadeada pelo que havia de mais íntimo nela, o seu inconsciente, me fez lembrar de uma cena tristemente linda da animação Enrolados, quando Rapunzel descobre que todos os desenhos que fez quando estava presa na torre continham uma estrela, escondida entre outros traços e desenhada de maneira inconsciente. A mesma estrela que via quando criança no palácio dos pais verdadeiros.

Já escrevi aqui no blog sobre como a tragédia coletiva de uma ditadura pode levar a reboque quem orbita em torno dela, e como é importante que um país reviva o seu passado, exponha-o em carne viva para exorcizar o sofrimento de seu povo. Mas aqui avanço sobre outro território: o quanto de nossa existência, de nossas memórias mais remotas, nos é sonegado por nossos pais ou por aqueles com quem convivemos? Até que ponto nossas memórias são realmente nossas e até que ponto nos foram incutidas? O que nos gerou: um ato de amor ou um ato de desespero? Há algo que não sabemos, que ficou trancado na bruma do passado ou que nos poupam de conhecer? Quem somos, afinal? O fato é que quanto mais avançamos rumo ao passado, mais nos perdemos em névoa espessa e desconhecimento de nós mesmos.

Uma vez minha mãe me falou de uma senhora já idosa e doente que queria reencontrar a filha que entregou para uma outra família, por não ter condição de criá-la. Ela só guardava na memória a cena da garotinha sendo levada em um cavalo. Tentou por meio de pessoas comuns encontrar a filha, mas depois eu fiquei sabendo que a mãe adotiva, ao saber da procura, entrou em pânico e disse que a moça jamais poderia saber que era filha adotiva e que passava por um momento pessoal delicado. Com isso, o reencontro acabou não acontecendo, e à velha mãe verdadeira restou apenas a imagem da garotinha no cavalo, indo embora. Aquilo me doeu, tanto que permaneceu aqui guardado todo esse tempo. Voltando a Juan Gelman: uma vez eu o entrevistei e ele, no meio de uma das respostas, afirmou que "uma infância feliz é a pátria mais invulnerável". Pode ser. Mas até que ponto nossas infâncias foram verdadeiramente felizes? No caso da Maria de O Dia em que não Nasci e da neta do próprio Gelman, a pátria invulnerável se esfacelou ao ser invadida pela verdade.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Aprendizado



Fui na semana passada a uma cerimônia de batismo. Um ritual simples e singelo, ministrado não por um padre ou pastor, mas por amigos dos pais da criança. Em um pequeno púlpito de frente para o mar, algumas pessoas se revezaram em discursos rápidos e sinceros, e em todas as mensagens percebia-se uma mesma tendência: a de considerar a criança uma bênção, uma dádiva, um acontecimento que veio para enriquecer espiritualmente a vida dos pais. Há um detalhe nessa história: o garotinho, hoje com um ano e meio, é um sobrevivente. Nasceu com uma doença congênita gravíssima e desde o seu nascimento passou por intervenções cirúrgicas invasivas e tratamentos pesados, que o mantiveram boa parte da sua curta existência dentro de hospitais. São perceptíveis os efeitos de todos esses dissabores sobre o seu corpo, mas de resto é uma criança que chora e sorri com a mesma graça pura de qualquer outro bebê.

Observei os pais. A exaustão estava esculpida em seus rostos, causada por 18 meses de sofrimento e abnegação, noites mal dormidas em desconfortáveis poltronas de hospital, esperanças acalentadas e em seguida descartadas. Mas não percebi em nenhum momento uma expressão de fastio, prostração ou desejo de jogar a toalha. Por mais difícil que possa parecer para um cético como eu, era evidente que eles encaravam toda aquela situação – que ainda está muito longe de acabar – de uma maneira estóica, como um aprendizado, uma via-crúcis necessária e até certo ponto almejada, vigorosamente alicerçada num amor profundo por sua cria. Não havia nem mesmo qualquer manifestação de auto-engano, quando as palavras exprimem o oposto do que diz a expressão facial.

Naquele momento, me pareceu claro que a espiritualidade exercia sobre o casal um efeito positivo. Acreditar no que está além do humano permite que se enxergue um aprendizado onde um ateu enxerga apenas dor e sofrimento. Crer, no caso deles, equivale a uma espécie de calor. Nada de fanatismo, ignorância ou dogmas engessados, apenas um sopro morno que os protege do frio voraz que é a nossa brutal e fugaz passagem pela Terra. Era como se os três estivessem cobertos por um manto de solidariedade e aconchego, um grande útero refratário a pensamentos ruins e confrontos interiores, desses que nos lançam contra o que há de mais impiedoso em nós. Acho que pela primeira vez, nessa minha longa trajetória agnóstica, eu me dei conta da capacidade que uma religião tem de atenuar nossas desgraças, aparar nosso desespero, fincar em nossa consciência uma lógica moral que explique por que fomos nós os escolhidos, e não a mãe que abandona o filho no mato. É a mesma lógica de Jó, personagem da Bíblia, aquele que é castigado ao extremo da miséria, das chagas e das perdas em profusão e mesmo assim não renega o seu ser supremo.

Obviamente, o batizado da semana passada não significou para mim uma epifania, uma conversão ao sagrado. Não me tornei de uma hora para outra um católico fervoroso, um espírita convicto ou um evangélico fanático. Não. Sei bem do meu frágil limite físico, da minha insignificância (e a de todos nós) diante de um universo tão vasto que não o apreendemos em sua totalidade. Apenas tateamos, tentando achar em uma nebulosa a bilhões de anos-luz de distância uma resposta para a nossa existência, nossa escalada em um único planeta habitável dentre milhões de astros áridos e inóspitos, quentes ou gelados ao extremo. As religiões nunca vão encontrar respostas para esses questionamentos e nem deveria ser esse o papel delas. Sua função é bem mais modesta, mas não menos valorosa: oferecer algumas xícaras de conforto e resignação bem quentes a quem se depara com um frio lancinante e solitário na alma.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Aquela coisa toda



Acabei de reler Este Lado do Paraíso, romance que batizou este blog. É como atracar em um cais seguro, tão familiar que sabemos exatamente onde ficam as pedras e armadilhas do caminho. Com ele, F. Scott Fitzgerald se tornou aos 24 anos uma celebridade, vendendo milhares de exemplares e moldando uma juventude que se espelhava naqueles jovens ricos, hedonistas e melancólicos personificados na figura de Amory Blaine. Este Lado do Paraíso fez de Fitzgerald a voz dos “anos loucos”, da geração perdida do entreguerras, recém-saída do front na Europa e prestes a enfrentar outro front ainda mais brutal na década seguinte. Uma geração que se esbaldou em festas intermináveis, patrocinadas por fortunas que pareciam também elas intermináveis, como um diamante do tamanho do Ritz. Mas, por outro lado, uma geração culta, que enveredava madrugadas adentro discutindo autores como Chesterton, Wilde e Tolstoi.

Hoje, penso o quanto é improvável que um romance como Este Lado do Paraíso seja capaz de atrair milhares de leitores, muito menos de moldar uma geração inteira. A literatura deixou de ser um meio de massa para se refugiar em trincheiras, sobreviver em guetos. A histeria (e de certo modo a angústia) juvenil está direcionada para outras mídias – o cinema, a música pop, os blogs, as redes sociais, os vídeos do You Tube – e os anseios e interesses estão cada vez mais fragmentados. Num panorama assim, dedicar-se a um ato que exige concentração, disciplina e introspecção, como ler um romance de mais de 300 páginas, soa no mínimo descabido.

Li outro dia um artigo falando sobre o livro A Geração Superficial, de Nicholas Carr, que defende que a internet está criando uma geração de leitores com pouca capacidade de concentração e compreensão de texto, mesmo entre pessoas acostumadas ao ato de ler. Isso me parece claro. Eu mesmo, enquanto estou absorto em um livro, às vezes me pego pensando em entrar na internet para ver se tem alguma atualização, seja no meu blog, no Facebook ou nos portais de notícias. Não estou lamentando tudo isso, é só uma constatação – embora de certa forma essa mudança me entristeça. Nascido em 1970, eu fui moldado em outra era geológica, herdeira direta dos tempos de Fitzgerald e de Este Lado do Paraíso. No meu paleolítico particular, parte significativa (ou não, posso estar redondamente enganado) da juventude cultuava livros que atravessavam gerações. Havia, de certo modo, tempo suficiente para que uma obra nascesse, crescesse e arregimentasse adeptos fiéis, para só então decair e morrer – quando morria.

Cresci lendo e ouvindo falar de obras que poderiam virar do avesso a minha visão de mundo, me elevar a um novo plano intelectual e, quem sabe, espiritual. Eram meus faróis. Não foram poucas as vezes em que varei noites discutindo entusiasmado com amigos os romances que tínhamos acabado de ler. Ou outras em que comemorei achados preciosos em livrarias, sebos e feiras livres nas calçadas. Já fiquei até sem dinheiro para comer durante uma viagem, depois de torrar uma pequena fortuna numa edição raríssima de Pra Cima com a Viga, Moçada, de Salinger, em uma livraria de Florianópolis. E já vibrei de satisfação ao receber, de um vendedor de livros usados no Bixiga, em São Paulo, exemplares em bom estado de Factotum (Bukowski) e Os Subterrâneos (Kerouac), esgotados havia muitos anos. Hoje eles são facilmente encontrados até em postos de combustível, em edições de bolso novinhas, mas naquele tempo, ah, naquele tempo...

Entendo que esse entusiasmo que marcou a minha juventude e a de meus amigos tende a morrer – se é que não já morreu. Entendo que a literatura tenha sido desbancada pelo cinema e pela música como fonte primordial de cultura e entretenimento. Mas ainda me intriga o fato de que muitas pessoas, mais novas ou não, simplesmente não leem sequer jornais. É claro que o velho hábito matinal de folhear notícias tornou-se em parte obsoleto com a internet. Mas onde encontrar informações que avancem para além do lide? Vou além: onde encontrar o fascínio que um romance como Este Lado do Paraíso provoca em nosso córtex cerebral?

Como um velho senil, sinto falta do meu passado, da minha geração, por mais apática e individualista que tenha sido. Sinto também uma nostalgia irrefreável da geração que não conheci, aquela que há quase 100 anos se deixou enlevar pelo livro de Fitzgerald, e que ele definiu com tanta sensibilidade nos derradeiros parágrafos do seu livro: “O espírito do passado meditava sobre uma nova geração, aquela juventude eleita que vinha de um mundo perturbado, impuro, que ainda se nutria romanticamente dos equívocos e sonhos quase esquecidos dos poetas e estadistas. Ali estava uma nova geração, bradando velhos gritos, aprendendo velhas crenças, através de um sonho que se prolongava por longas noites e dias, destinada finalmente a expor-se àquele turbilhão cinza, sujo, a fim de seguir o amor e o orgulho; uma nova geração, mais dedicada do que a anterior ao temor da pobreza e ao culto do sucesso; uma geração que cresceu para descobrir que todos os deuses morreram, todas as guerras haviam sido combatidas, toda fé no homem estava abalada...”

sexta-feira, 16 de março de 2012

Purgação



Nunca fiquei tanto tempo sem escrever no blog. Os temas se aproximam e escapam de mim sem que esboce disposição para aprisioná-los num texto. São temas recorrentes, gastos, e me sinto cansado de falar sobre eles. O mundo vai nos abatendo aos poucos, vencendo pelo cansaço e pelas sucessivas estocadas em nossas costas, como um toureiro paciente. Leio sobre episódios terríveis e incomodamente banais e não consigo refletir sobre eles. O que dizer, por exemplo, da menina marroquina de 16 anos que se matou por não suportar os maus-tratos do homem que a estuprou e que, beneficiado pelas leis do país, escapou da prisão casando-se com ela? Ou do garoto de 12 anos que pôs fim à vida por não suportar a violência excessiva e rotineira dos colegas de escola? Ou da criança de 9 anos morta nos braços do pai durante um tiroteio em São Paulo, enquanto esperava o transporte escolar? O que dizer da brutalidade cotidiana que nos apavora e nos desnorteia, como touros exaustos à espera do abate?

Por sorte somos animais duros, traquejados, e queremos continuar vivos apesar de tudo. Afinal, existem momentos que fazem a vida valer a pena. Eu mesmo me pego extasiado ao contemplar o sol sumir no mar ao lado de minha filha, admirando encabulado e apaixonado suas mudanças de fisionomia e comportamento, deixando aos poucos de ser criança para viver uma adolescência dourada. Seria o suficiente para viver em plenitude. Mas infelizmente não estamos imunes à vida, como diz o personagem de George Clooney em Os Descendentes, ao comentar o fato de que, por morar no Havaí, ele teoricamente habitaria um paraíso refratário ao sofrimento e à perda. Não, não estamos imunes à vida, ou melhor, não estamos imunes à violenta opressão da realidade. Não há invólucro capaz de nos tornar invulneráveis, e é isso o que mais tememos.  

Ao escrever, é como se eu me purgasse da dor dos outros, mitigando o temor de um dia também ser vítima da dor. Mesmo um texto como este, sem pé nem cabeça, me ajuda nesse processo de penitência. De certa forma, invejo quem segue seu curso imune à desgraça alheia. Pois para que serve a minha compaixão, a minha tristeza solidária, se ela não tem qualquer serventia? Não sei o que fazer. Absorvo o mundo à minha volta como um mata-borrão, uma esponja, e me sinto impotente e aparvalhado diante de massacres como aquele do soldado americano no Afeganistão ou do genocídio sistemático promovido pelo ditador sírio contra seu povo. Não me reconheço no meu país ou nas pessoas que o habitam, assim como não me reconheço no meu tempo. E, por mais que me refugiasse em um lugar remoto, o mundo me alcançaria.

É o que acontece com Bucky Cantor, o personagem atormentado pela pólio de Nêmesis, livro mais recente de Philip Roth. Cantor era uma espécie de zelador de um pátio para crianças no bairro judeu de Newark, quando, no verão de 1944, elas começaram a morrer em sequência, por conta de uma epidemia de paralisia infantil. Moído pela culpa (por irracionalmente se considerar o responsável pela epidemia), ele parte rumo a uma colônia de férias para crianças bem distante de Newark, totalmente isolada, onde a pólio não chegou. Mas o mundo acaba por alcançar Cantor: logo após a sua chegada, um surto da doença começa a fazer estrago na colônia, incluindo entre suas vítimas ele próprio. De certa forma, Roth defende que não existe lógica na escolha dos que vão sofrer, a não ser a lógica perversa do acaso, tão aleatória e cruel como uma bala perdida.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O declínio das paixões




Depois de muitos anos, voltei a ouvir Yo Pisaré las Calles Nuevamente, do compositor cubano Pablo Milanés, uma canção de que gosto muito. Uma amiga tinha compartilhado várias músicas dele no Facebook e sugeri essa, que para mim pertence a um tempo em que as utopias ainda não tinham sido substituídas pelo cinismo – de parte a parte. “Yo Pisaré...” fala abertamente do golpe militar no Chile, que depôs o governo legítimo de Salvador Allende para implantar aquela que foi provavelmente a ditadura mais sangrenta da história da América do Sul. Durante muito tempo, Allende representou o elo perdido de um socialismo de face mais humana ao sul do Equador. Intelectual, íntegro e bem-intencionado, foi talvez o último sonho genuíno que os socialistas tiveram de se mostrar como uma alternativa viável pelas bandas de cá, apesar dos sérios problemas de gestão no seu governo.

Hoje, se não estou redondamente enganado (e posso estar, obviamente), não há mais espaço para utopias como a de Allende, muito menos para outras forjadas no decorrer do século 20. O socialismo ruiu com a queda do Muro de Berlim, em 1989, mas o fato é que já estava podre por dentro, como uma árvore consumida por cupins. A Revolução Cubana, a mais vistosa das utopias socialistas, agoniza em praça pública, e na Coréia do Norte não há sequer socialismo, mas sim totalitarismo hereditário. Um totalitarismo trágico e sanguinário muito semelhante ao que indivíduos como Stálin, Ceausescu, Hoxha, Mao e Pol Pot, entre outros, proporcionaram aos seus respectivos povos. Quanto à direita, ela teve a sua utopia sepultada com a derrocada do nazi-fascismo (que de vez em quando ensaia uma ressurreição) e acabou optando pelo pragmatismo neoliberal de Thatcher e Reagan nas últimas décadas do século passado.

Paixões costumam ser perigosas, mas sinto falta delas nas discussões políticas. Na última eleição presidencial aqui no Brasil, o que tivemos não foi paixão, mas sim uma defesa ferrenha de interesses que beirou o ridículo dos dois lados. Falo de paixões mesmo, da maneira mais ingênua possível, como um namoro entre adolescentes. Do acreditar que é possível um mundo menos desigual. Paixões capazes de criar uma canção como Yo Pisaré las Calles Nuevamente. Capazes de mover não só artistas e intelectuais, mas o povo também – ao menos uma parte dele. Mas não, não há ambiente propício à proliferação de quimeras, mesmo que alguns enxerguem uma delas na Primavera Árabe. Bem, talvez seja melhor assim. É mais fácil mudar de idéia, por considerá-la equivocada ou obsoleta, do que deixar de lado uma velha paixão de juventude. Estamos menos emotivos e mais racionais. Mas, por que ficamos assim? As escolhas foram infundadas? Nossos ícones nos decepcionaram?

De minha parte, gostaria apenas que olhassem com mais carinho e atenção para a experiência política que mais deu certo no mundo: os estados de bem-estar social, ou welfare states, surgidos após o fim da Segunda Guerra e defendidos por historiadores como Eric Hobsbawm e Tony Judt. Seus princípios – que as medidas para conter a crise econômica na Europa estão tentando solapar – são muito claros: Estado forte e provedor, mas não autoritário, capaz de controlar as instabilidades do livre mercado, e investimento maciço em políticas sociais, com ênfase em educação e assistência médica gratuitas, auxílio-desemprego e renda mínima.

Os resultados são inequívocos. Basta ver a vida que se leva em países como Noruega, Dinamarca, Canadá e Finlândia, ou em outros que adotaram em parte as premissas do welfare state: França, Austrália e Nova Zelândia. São nações que em maior ou menor medida unem a liberdade e o empreendedorismo, comuns ao capitalismo, com a implementação de políticas sociais fundamentais, que Marx lá atrás já defendia e pelas quais milhares de pessoas ao redor do mundo caíram de paixão, gritando palavras de ordem e levantando bandeiras por uma utopia que infelizmente nunca deixou de ser utopia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Páginas de eternidade




Hoje me dei de presente um passeio de algumas horas por duas livrarias. Sem pressa, perambulei pelas estantes como um explorador de histórias infanto-juvenis, caçando reminiscências e visitando territórios inexplorados. Autores búlgaros, alemães, latino-americanos. Contos, romances, memórias. Aproveitei para trocar o vale-presente de aniversário que recebera do meu irmão por livros de Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e o romance de um autor novo, Tom Rachman, chamado Os Imperfeccionistas. Em seguida, sentei no café da livraria e abri ao acaso o livro de Pessoa, Quando Fui Outro, uma antologia organizada pelo escritor Luiz Ruffato. E o mundo me pareceu entrar em suspensão.

Após folhear algumas páginas, Pessoa me tomou pelo braço e me confessou: “Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim – sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nessas ruas, o que outros vagamente evocarão com um ‘o que será dele?’. E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer”.

Fechei o livro por um momento e me dei conta de que o amanhã de Pessoa era o meu ontem. Ou melhor, era um tempo muito antes do meu ontem. Pessoa morreu em 1935, ano em que meu pai nasceu. E nos 68 anos seguintes meu pai viveu a sua vida, gerou outras vidas, incluindo a minha, e voltou para o território do oblívio. Um dia eu também voltarei. Mas o amanhã de Pessoa se eternizou quando o li, recostado ali naquela cadeira, quase 80 anos depois de ter virado ontem. E voltará a se eternizar muitos anos adiante, quando outro leitor desavisado, em outra cadeira qualquer, for tomado nos braços pelo poeta.

Terminei o café, peguei a sacola de livros e fui para outra livraria. Lá, após novas incursões pelas prateleiras, me deparei com uma edição recém-lançada de um clássico da minha infância: A Máquina do Tempo, de H. G. Wells. Guardo com carinho o livro, uma singela edição de bolso com tradução de Paulo Mendes Campos, dada por uma tia, que conta a história do cientista que constrói uma máquina revolucionária e com ela viaja rumo a um futuro muito distante, chegando ao ano de 802.701. Folheei o livro, me detendo em algumas passagens, até que cansei de permanecer em pé e procurei uma poltrona onde me recostar.

Lembrava de uma passagem na qual o personagem se dirigia a um futuro ainda mais remoto e lá encontrava caranguejos gigantes numa praia. Fui até esse futuro e reencontrei nele o meu passado, o do garoto excessivamente introspectivo que se refugiava no mundo das palavras. Os acontecimentos eram muito parecidos com os que guardava na memória: os caranguejos, o entardecer eterno, a sensação de absoluta desolação causada pela ausência do ser humano: “Continuei a viagem, detendo-me de tempos em tempos, em intervalos de milhares de anos ou mais, arrastado pelo mistério do destino da Terra, vendo com estranha fascinação o sol tornar-se cada vez maior e mais triste, enquanto a vida da Terra se extinguia gradualmente. Por fim, a mais de trinta milhões de anos do momento atual, a imensa abóbada rubra do sol havia acabado por obscurecer uma sexta parte do céu sombrio”. 

Como Pessoa, Wells falava também de finitude, embora de uma finitude quase infinita, se isso é possível. E, ao falarem de finitude, Pessoa e Wells falaram a mim sobre eternidade. Sobre a perenidade das idéias e dos sentimentos, mesmo após o fim propriamente dito. Continuei lendo até acabar o capítulo. Em seguida, levantei da poltrona, coloquei o livro de volta no lugar e saí da livraria. O sol por trás da abóbada de vidro do shopping e as pessoas passeando sem direção me causavam uma impressão estranha, como se eu mesmo tivesse acabado de sair da máquina do tempo. Mas de certa forma saí, atônito e feliz por dentro, como se vislumbrasse, nas entrelinhas das páginas de Wells, o garoto gordinho que um dia foi arrebatado pelo delírio silencioso ao ler aquelas mesmas páginas, trinta anos atrás.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Quando o Carnaval chegar




Ontem, revi depois de muito tempo a seqüência inicial de O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg. Filmada com apuro técnico irretocável, ela é de longe o que o longa tem de melhor (depois, com o passar do tempo, a narrativa vai ficando mais e mais edulcorada, muito em função da trilha de John Williams, carregada na sacarose). Lá estão os soldados norte-americanos morrendo como formigas no desembarque na Normandia, no litoral da França, que entraria para a história da Segunda Guerra e da humanidade como o Dia D. Ou, mais precisamente, o dia em que os aliados começaram a selar o destino do conflito a favor deles – e, de certa forma, a favor de todos nós.

Foi uma carnificina, e Spielberg não nos poupa de ver tripas expostas, soldados sem membros e um mar tingido de vermelho. Só no desembarque na praia de Omaha, reproduzido no filme, foram mais de mil mortos, atingidos por saraivadas de balas de metralhadora, minas, explosivos e todo um arsenal preparado pelos alemães para fazer o maior estrago possível. É um numero significativo, mas que se torna ínfimo quando sabemos que os seis anos de conflito mataram em torno de 50 milhões de pessoas. Se há algum alento em toda essa brutalidade, vale dizer que a Segunda Guerra Mundial foi provavelmente a única guerra necessária, na qual os papéis de mocinhos e vilões estavam bem definidos. O mundo seria, hoje, muito diferente se Hitler e sua trupe de lunáticos tivessem triunfado.

Partindo desse pressuposto, os mil e tantos rapazes chacinados em Omaha morreram por uma boa causa – se é que causa alguma justifica uma morte, muito menos milhares. Muito piores são as mortes vãs, que não trazem consigo qualquer promessa, por mais frágil que seja, de que as coisas vão mudar. Mortes que atingem apenas a vítima e seus parentes mais próximos, deixando intacta a Grande História. Em quase todas as guerras os combatentes abatidos caem em seqüência, como peças de dominó, sem que exista algum sentido ou justificativa plausível. Mais grave ainda é quando os abatidos não são sequer combatentes, e sim civis pegos de surpresa pela estupidez, sem qualquer espécie de lógica que não a da barbárie.

Na última semana, a cidade em que vivo – que de resto já vem sendo aviltada de todas as formas há anos – deixou à mostra a lógica da barbárie em toda a sua extensão. Os 152 mortos em tão pouco tempo são apenas a faceta mais exacerbada de um território brutalizado, pelo qual transitamos como soldados fugindo de balas no Dia D. Mais do que isso: não há qualquer indício de que esses assassinatos serviram ao menos para pensarmos em um desabafo, um esboço de ponto final, um “acabou, chega!”. São mortes menores, se é que podemos mensurar o tamanho de um morto. Um garoto de 12 anos aqui, um morador de rua que gostava de rap ali e vamos nessa, a vida continua, estamos prontos para outra. E, parafraseando Chico Buarque, quem nos vê assim sempre parados, é que estamos nos guardando para quando o Carnaval chegar.  

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Sonata de outono



Há alguns meses, li na revista Bravo uma reportagem sobre Caetano Veloso que citava uma teoria da psicanalista inglesa Mary Esther Harding. De acordo com Mary, a existência humana pode ser dividida do mesmo modo que as estações do ano. A primavera vai até os 21 anos. O verão, dos 21 aos 42. O outono vai dos 42 aos 63 e, a partir daí, só nos resta o inverno pela frente, que pode ser mais ou menos gélido e tenebroso, dependendo da maneira como o encaramos e do que o destino nos irá proporcionar.

Bem, de acordo com a divisão estabelecida por Mary Esther Harding, hoje é o dia em que abandono a temporada de verão para abraçar o meu outono particular. Daqui para a frente, a minha realidade será a de folhas secas na relva, de temperaturas amenas e de um olhar mais sereno e reflexivo sobre a minha condição de ser humano. Ou, como dizem os versos iniciais de Autumn in New York, canção de Vernon Duke imortalizada por Billie Holiday, é tempo de me preparar para enfrentar minhas aventuras e batalhas. Então, que sejam mais aventuras e menos batalhas.

A verdade, porém, é que o outono sempre esteve em mim. Gosto da cor que as folhas ganham quando começam a morrer ainda nas árvores, de um amarelo opaco pendendo para o vermelho vivo. Gosto dos céus tomados por nuvens, do vento frio que chega do oceano, da calmaria que vem depois da fúria. Poderia até dizer que esses meus 42 anos sempre foram assombrados por um sentimento de declínio que jamais se concretizou. Hoje, só desejo a mim mesmo um outono longo e sem sobressaltos, um tempo de colheita, que me lance sem medo ao inverno daqui a 21 anos. E, enquanto abro uma garrafa de vinho para comemorar o meu ingresso no ocaso, eu celebro a vida.

Como no poema de Whitman, eu quero sentir “minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões. O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro. O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento. Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço. A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis. O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas. O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol”.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mea-culpa



Como repórter de cultura de um jornal daqui de Salvador, eu todos os anos era escalado para cobrir uma das noites do principal festival de música realizado na cidade. Ia de má vontade e cara fechada, pois me sinto intimidado no meio de multidões e não aprecio a quase totalidade dos gêneros musicais presentes no evento. Mas também trabalhava contrariado porque o festival era organizado pela rede de comunicação à qual o jornal pertence, e as matérias tinham invariavelmente que tecer elogios eloqüentes às atrações e à reação do público. Paciência. Era o meu trabalho, ganhava para isso e precisava do salário no fim do mês para pagar as contas.

Numa dessas noites, fui no carro do jornal com o fotógrafo e o motorista e encontramos a avenida onde o evento acontecia totalmente congestionada. As horas andavam, mas nós, não. Depois de um tempo, o motorista conseguiu fazer o retorno e pegar um caminho alternativo, que mergulhava nas entranhas de Salvador, longe dos cartões-postais que a eternizaram. O caminho percorreu uma via conhecida como Estrada Velha do Aeroporto. Em dado momento, precisamos pegar um atalho numa baixada, por uma estradinha de barro sem qualquer iluminação, conhecida popularmente como “estrada da desova”, por ser um local onde os grupos de extermínio costumam depositar o fruto do seu trabalho.

Definitivamente, estava em outro mundo, e ele me amedrontava. Passada a estrada da desova, voltamos a outro trecho da Estrada Velha, e lá nos deparamos com um monte de entulho ocupando toda a pista e à margem dezenas de pessoas gritando e protestando. Era uma cena acima de tudo aterradora: homens, mulheres e crianças ocupando a rua para protestar contra a falta de luz, que já durava dois dias. Eles gritaram para nós dizendo que não deixariam ninguém passar. Não foram agressivos, longe disso. Pareciam tão amedrontados quanto nós dentro do carro. Ou pelo menos quanto eu que, ao contrário do motorista e do fotógrafo, não tinha o costume de cobrir as ocorrências policiais que proliferam como mosquitos da dengue nessa parte da cidade. Lembro que o motorista tentou forçar a passagem, jogando o carro contra os entulhos, e que eu coloquei a mão em seu ombro e pedi que parasse.

Bem ou mal, aquelas pessoas nos consideravam seus aliados. Acreditavam, provavelmente, que estávamos ali para cobrir o evento deles. Mas eu não exerci o meu faro de repórter nem vislumbrei ali uma matéria de capa. Enxerguei apenas uma das faces de uma desgraça cotidiana que não respingava em meus pés. Fiquei paralisado observando aqueles rostos no escuro, rostos negros com olhos enormes que evocavam raiva, impotência e desespero. Até que enfim demos meia-volta e percorremos um caminho ainda mais longo para chegar ao festival. Chegamos tarde, já no terceiro ou quarto show, não lembro agora. Entramos e me deparei com o Jota Quest cantando para uma multidão ensandecida. Aquilo me parecia irreal. Aquele som altíssimo, aquela gente toda se esbaldando e, pairando sobre tudo, luz. Muita luz. Megawatts para dar e vender. Telões de alta definição e holofotes superpotentes permitindo a todos ver o show e a si mesmos com absoluta nitidez.

Não lembro do que escrevi no dia seguinte. Certamente uma reportagem patética recheada de elogios e declarações bobinhas dos artistas que entrevistei. Não acrescentei nenhuma linha sobre o episódio da Estrada Velha do Aeroporto, e acho que comentei apenas com poucas pessoas o que tinha acontecido. Afinal, aquele não era o meu mundo, e logo eu poderia voltar às críticas de filmes e livros que tanto gostava de escrever. Aquelas pessoas anônimas prosseguiriam no mais absoluto anonimato, como continuam até hoje, numa cidade na qual um terço da população vive em favelas e um segundo terço habita construções precárias em bairros precários.

O que posso dizer? Que fui covarde? É claro que fui covarde. Claro que poderia ter feito algo, embora não saiba bem o quê. Talvez saltar do carro, ouvir aquelas pessoas, anotar as suas declarações, entender as suas motivações e, ao final, escrever uma puta reportagem, podendo até recorrer às técnicas do New Journalism de Tom Wolfe e Gay Talese. Mas não: me limitei a um textinho recheado de frases cheias de alegria e alto astral. Coisas como “uma festa da diversidade” e “muito som e alegria para todos os gostos”.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Franco-atirador



Sou um monoglota. Embora consiga me expressar com razoável destreza em inglês e espanhol, não domino esses idiomas. Apenas arranho a superfície de suas sintaxes e seus intrincados labirintos fonéticos. Sei também que “je t'aime” significa “eu te amo” em francês e que “salaam aleikum” é uma saudação árabe que quer dizer “que a paz esteja com você”. Com esse conhecimento precário, acho que consigo me virar em boa parte do mundo. O mais difícil, no meu caso, é ser um monoglota comportamental. Meu limitado arcabouço de gestos, atos e opiniões me impede de compreender o meio que me cerca.

Tento, com a persistência dos analfabetos, compreender as ações e reações de pessoas que transitam diariamente perto de mim, seja no trânsito, no supermercado ou em algumas rodas de conversa. Gente que em muitas ocasiões se manifesta no volume máximo, mas da qual sou incapaz de extrair qualquer coisa. Ou, como diria Humberto Gessinger: “Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”. É como se eu fosse um exilado na cidade onde nasci, apartado dos outros, vivendo numa bolha com as poucas pessoas que gosto, manifestando intimamente um alívio quando entro em casa e tranco a porta do apartamento. Aí sim estou em minha comunidade, meu gueto, meu habitat.

Na rua sinto um pouco de medo, como um angolano recém-chegado a Lisboa, um turco a Berlim ou um haitiano ao Acre. Sem perceber, me tornei um imigrante indesejado, um refugiado de guerra, um sujeito facilmente reconhecido como vindo de outras paragens, seja pelos gestos ou pelo linguajar. Não pertenço ao tempo que habito, muito menos ao espaço que habito. Às vezes, penso que uma mudança me faria bem. Quem sabe seria capaz de encontrar mais pessoas falando o meu idioma em outra cidade, ou até em outro país. Mas acho que não. O ser estrangeiro é uma condição essencial do meu temperamento, da minha formação, do meu jeito ensimesmado. Sou como um franco-atirador desarmado, observando do alto de um campanário as trincheiras lá embaixo.

Pensando bem, talvez a chave esteja justamente nessa palavra: desarmado. Fui uma criança desarmada, um adolescente desarmado e hoje sou um adulto desarmado, rodeado por fuzis, pistolas e escopetas – metaforicamente e literalmente falando. Nesse sentido, só poderia mesmo ser um monoglota, incapaz de entender a linguagem de sinais que verbaliza a indiferença, a brutalidade gratuita, o salve-se quem puder. Nem melhor, nem pior, apenas alguém inoportuno. O carinha chato numa roda de amigos que não sabe os códigos de conduta ou os motivos que levam ao riso ao fim da piada.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Viagem à semente




A lembrança mais remota que carrego comigo é uma imagem do meu irmão recém-nascido na cama dos meus pais. Recordo vagamente a madeira clara da cabeceira e a roupinha branca que ele usava. Pela nossa diferença de idade, eu devia ter uns dois anos na época. Guardo também imagens enevoadas da minha primeira escola e da cama de ferro, dessas de hospital, onde minha avó materna passou seus últimos dias, embora não consiga lembrar dela, apenas da sua presença na casa. A partir daí, começam a aparecer filmes curtos com começo, meio e fim, e não apenas flashes isolados e sem sentido. Fico intrigado com o fato de não lembrar de nada antes dos dois anos de vida, e muito menos dos nove meses em que permaneci imerso numa pequena caverna escura e aconchegante. É um período relativamente longo, sobre o qual paira apenas breu.

Mas, por menos que lembremos de quem fomos quando bebês, há muito da nossa infância mais remota nos adultos em que nos convertemos. Carregamos centelhas sensoriais que dizem muito do ambiente em que vivíamos, do amor que recebemos (ou não) e da avalanche de sentimentos passada via cordão umbilical por nossas mães. Muitas dessas centelhas permanecem, por mais que nossa consciência seja incapaz de traduzi-las em algo racional. É como mostra o filme O Dia em que Eu Não Nasci (que ainda não tive oportunidade de ver), sobre uma mulher alemã que, ao fazer uma conexão inesperada no aeroporto de Buenos Aires, ouve uma mãe argentina entoando uma canção de ninar para seu bebê e reconhece de imediato essa canção, mesmo não sabendo falar espanhol. A partir daí, ela investiga a sua origem e descobre que é filha de um casal assassinado durante a ditadura militar argentina e que toda a existência que levou até então estava assentada numa mentira.

Voltando às lembranças, minha filha diz que sua primeira recordação sou eu trocando sua fralda, talvez porque tenha feito isso raras vezes quando ela era bebê. Lembra também de meus pais fazendo com ela uma brincadeira chamada Maria Cadeira, possivelmente a única imagem que guarda com certa nitidez do avô paterno, morto quando ela tinha três anos. É uma pena, portanto, que minha filha não consiga lembrar da primeira vez em que a aninhei em meus braços com todo cuidado, para que parasse de chorar, e ela adormeceu quase de imediato. Ou da noite em que assistimos juntos ao filme Procurando Nemo. Desta vez, fui eu que chorei, sentindo a falta do meu pai e tentando esconder os soluços dela, que me abraçou distraída, como se me acalentasse, e disse: “Papai, eu te amo”. Isso diz muito sobre minha filha e talvez mais ainda sobre mim, já que a primeira infância dos filhos é antes de tudo um território dos pais.

Não sei onde quero chegar com todas essas memórias e reflexões sem direção. Talvez esteja só tateando no escuro, em busca do que existe de mais remoto em mim, para compreender os sentimentos que me atravessam desde o momento em que me percebi como gente. Ou quem sabe é só uma necessidade de entender o meu assombro diante do absurdo da existência, não apenas a minha, mas a de todos nós. Tão ou mais assustadora que a morte é a criação de uma nova vida. Uma célula que se multiplica ao infinito dentro de outro corpo até se expandir e ganhar o mundo com lágrimas, gritos, espanto e uma absoluta incompreensão de si mesma e de tudo que está em redor. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Faíscas



Quando um homem de 41 anos, pai de três filhos, morre assassinado, nós nos sentimos compelidos a vociferar contra a violência urbana crescente e o excesso de armas em circulação no país. Quando essa pessoa morre vítima de um acidente de carro, nós deploramos as condições das estradas, a irresponsabilidade dos motoristas alcoolizados e a permissividade das leis. Mas em quem devemos pôr a culpa no caso de uma morte causada por um acidente vascular cerebral? Contra quem devemos direcionar nosso ódio e nossa impotência?

Nas últimas horas do último dia de 2011, fiquei sabendo por meu irmão da morte de Daniel Piza. Aquilo me chocou e ficou remoendo aqui dentro por dias, enquanto me lançava aos prazeres de uma praia distante com minha família. Na mesma hora, entrei na internet e dei de cara com a foto de Piza sorrindo e as informações sobre a sua morte. Senti uma contração no peito e vontade de chorar, não exatamente por ser ele, mas por ser um homem da minha idade, jornalista como eu, pai de família como eu e um apaixonado por cultura como eu (há diferenças também, é claro, já que estou falando de alguém que era colunista do Caderno 2 de um dos melhores jornais do país e autor de mais de uma dezena de livros).

Nem sempre concordava com o que Daniel Piza escrevia e confesso que às vezes o achava meio pedante, sobretudo quando emulava Paulo Francis, um de seus principais inspiradores. Mas sempre lia o seu blog e sua coluna no Estadão. Era uma fonte de informação cultural muitíssimo relevante numa imprensa cada vez menos pujante nesse quesito. Entrei no seu blog após sua morte e reli seus últimos textos. O derradeiro post informava: “Parada de fim de ano. Volto no dia 11. Feliz 2012 para todos nós”. Essa frase foi escrita no dia 28 de dezembro. Dois dias, portanto, antes da sua morte. Ao que parece, estava claro para Piza que não havia qualquer problema com a sua saúde, tanto que foi passar o fim de ano com a família e os pais no interior de Minas. Mas, enfim, o “Feliz 2012” começou e terminará sem ele.

O que mais me deixou consternado na morte de Piza foi a sua absurda incongruência. Já vi pessoas muito mais jovens morrerem de forma também abrupta antes, mas algo nessa história me tocou particularmente. Não faz sentido. Mas, afinal, o que faz sentido? Volto à pergunta do início: a quem culpar por uma vida tragada em seu auge? Os religiosos têm ao seu dispor uma resignação obstinada, mas e quanto aos ateus? Para mim, ficou ainda mais clara a nossa absoluta vulnerabilidade, a minha em particular. O corpo que habito e que é tudo de mim hoje me parece ainda mais frágil, com seus ossos, órgãos, músculos e tecidos combalidos pelo sedentarismo trabalhando precariamente para me manter vivo. Uma máquina que pode falhar qualquer dia e para a qual não existe um mecânico especializado capaz de fazê-la funcionar de novo. Nesse ponto, somos um pouco formigas, amebas, peixes de aquário. A existência, que à primeira vista parece um incêndio arrebatador e quase incontrolável, é na verdade pouco mais que uma faísca, uma centelha, uma vela acesa ao vento.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Que venha 2012



John Fante tem um livro chamado 1933 Foi um Ano Ruim. Eu poderia parafraseá-lo e dizer que 2011 foi um ano ruim. Não um ano terrível, daqueles que nos lançam contra nossos medos mais profundos, mas sim um ano sem graça, modorrento e marcado por episódios que preferiria não ter vivenciado. Passei por anos piores, e de cara lembro de três: 1988, 1999 e 2003, cada qual com seus próprios infortúnios. No final do ano passado, escrevi aqui no blog que gostaria de ter em 2011 “um pouco mais de finais de tarde. De ver mais vezes o sol morrendo e a lua nascendo em frente ao mar”. Não tive. Vivi menos do que gostaria.

Por outro lado, é muito difícil encerrar cada ano em compartimentos estanques, sem qualquer ligação com aqueles que o antecederam e sucederam. Mesmo porque, à medida que envelhecemos, os anos cada vez mais se parecem uns com os outros, como se fossem uma única correnteza espessa e opaca, que se desloca cada vez mais rápido rumo a um oceano de silêncio e breu. O que os diferencia é o pouco que fazemos de valoroso em cada um deles: uma viagem, uma ruptura profissional, uma nova relação amorosa. Lembro que aos 14, 15 ou 16 anos cada ano encerrava uma descoberta específica, que podia ser tanto uma epifania sexual quanto um pontapé no coração adolescente. Os anos passavam lentos, cindidos pelos dois períodos de férias escolares. O mundo se revelava com toda a sua apoteose de alegrias, temores, hesitações, triunfos e decepções.

Hoje, quando nos vestimos de branco, bebemos espumante quente e desejamos votos de paz e prosperidade a todo mundo que surge à nossa frente, estamos apenas repetindo um ritual que celebra a vinda de algo que já conhecemos intimamente. Mais do mesmo, com raras exceções. Talvez por isso, não levo muito a sério essas resoluções de ano-novo, promessas inúteis que fazemos a nós mesmos e que sempre acabam na vala comum das recaídas, seja no vício em nicotina ou na acomodação geral. Gostaria, no entanto, de imaginar que 2012 possa vir a fazer parte da lista de anos pelos quais tenho um carinho especial, como 1990, 1996 ou 2000. Um ano gostoso e aconchegante, no qual possa continuar aproveitando a companhia das pessoas que amo, ver minha filha abraçar sem medo a adolescência, ascender profissionalmente e ir para a Europa. Além, é claro, de ter um pouco mais de finais de tarde.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Espirais



Tenho lembrado nos últimos dias de uma resposta que o escritor angolano José Eduardo Agualusa me deu uma vez, durante uma entrevista, ao ser indagado se a humanidade estava sendo assombrada por um tempo particularmente sombrio: “Os budistas dizem que a gente evolui em espiral: você recua, mas vai subindo sempre. Quando você olha para trás, vê um tempo de sombras. Quanto mais para trás você olha, piores eram os tempos. Há cem anos havia escravidão aqui no Brasil, e eu não conheço sistema mais indigno e injusto que a escravatura. E era aceito. Depois houve o Hitler. Hoje já não seria possível existir um Hitler, nem a escravatura. O mundo não permitiria. Nós melhoramos muito, não há dúvida que há uma evolução ética e moral”.

Acho que Agualusa está certo, que estamos realmente evoluindo como civilização, como sociedade. Mas ele também está certo quando cita o provérbio budista, de que avançamos em espiral. Cada avanço é precedido e sucedido de retrocessos muitas vezes brutais. Se fizermos uma rápida retrospectiva do século 20, perceberemos que ele alternou movimentos radicalmente distintos de sístoles e diástoles: uma primeira década tranquila e marcada por inovações tecnológicas, seguida da explosão de violência da Primeira Guerra que, ao acabar, ofereceu ao mundo a década de paz, riqueza e hedonismo desenfreado que ficou conhecida como a Era do Jazz. Em seguida, foi a vez do Crash da Bolsa de Nova York, da Grande Depressão e da ascensão do fascismo na Europa, que iria desaguar no horror absoluto da Segunda Guerra. Tempos sombrios, mas que por sua vez culminaram, entre as décadas de 50 e 70, nos estados de bem-estar social, com um grau de prosperidade nunca visto – nem antes, nem depois.

Não tenho dúvida de que o ataque da Al Qaeda ao World Trade Center inaugurou e simbolizou uma nova era de retrocesso. Hoje, presenciamos um momento de franca deterioração moral, de retorno ao que temos de mais bárbaro e primitivo, como uma espiral que sai um pouco fora da curva e derrapa inapelavelmente rumo ao precipício. É nítida a sensação de queda. Desde que criei este blog, há exatos três anos, me vi várias vezes discorrendo sobre a perplexidade que me toma diante de alguns atos cometidos por seres humanos. Em muitas outras me calei, pois percebi que me tornaria repetitivo e enfadonho, como um cantor de um único sucesso. Mas esta semana algo parece ter provocado uma pequena fratura em algum canto da minha mente, pois me vi de novo compelido a arfar como um asmático antes de pôr para fora todo o meu desassossego.

Não vou me estender em torno de disparates como o da enfermeira que matou um cãozinho a pauladas sob o olhar complacente da pessoa que filmava o ato. Ou da garota de 14 anos atacada com facadas e pedradas por colegas da mesma idade, ao ponto de ter o pulmão e o ovário perfurados. Eles são apenas variações de uma mesma desdita. O que mais me espanta em episódios como esses é como germinam cada vez mais crimes cometidos por pessoas que, em tese, não são criminosas. Bem ou mal, podemos esperar que um assaltante ou um traficante de drogas, submersos como estão num lamaçal crônico de violência, sejam capazes de nos arrancar a vida com diferentes matizes de crueldade. Mas não esperamos isso de alguém que poderia quem sabe ser nosso vizinho ou nosso colega de trabalho.

Estamos em um ponto tão obscuro da espiral que não sabemos mais onde foi parar o significado de palavras como dignidade, compaixão ou alteridade. É o fim dos tempos, como diria um temente a Deus. Ou talvez, como apregoam os budistas, o fim de uma era de retrocesso antes que voltemos a avançar de novo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Espelho distorcido



Certa manhã, após uma noite de sonhos intranqüilos, eu acordei com uma dor terrível na perna esquerda. Tinha 17 anos, e passara a madrugada escrevendo em sonho um romance ao qual dei o nome de O Livro Vermelho. Do conteúdo do livro restou quase nada. Mas a dor desse dia foi a primeira de muitas manifestações que desaguaram em uma doença chata, diagnosticada inicialmente como síndrome de Reiter e mais tarde como espondilite anquilosante, que me acompanha até hoje. Agora mesmo, enquanto escrevo, sinto uma pontada forte nas costas. Mas já estou acostumado.

Na época, fui tratado com antiinflamatórios e depois de algumas semanas me senti melhor. Mas em dezembro de 1991, pouco antes de completar 22 anos, a doença se manifestou de novo. O curioso é que novamente houve um componente literário nessa história. Estava escrevendo à máquina um poema enorme numa folha de fax e quando estava prestes a terminá-lo comecei a perceber os sintomas. Desta vez, eles foram ainda mais intensos. Praticamente não conseguia andar e passei mais de um mês sem sair de casa, a não ser para ir ao médico.

Os antiinflamatórios não surtiam o mesmo efeito e, ao lado de minha mãe, pulei de médico em médico à procura de uma solução. Uns deram de ombros como se eu não tivesse cura, outros insinuaram que eu estava muito deprimido e isso poderia agravar a doença, que tem um componente auto-imune (o sistema de defesa do meu organismo passa a atacar a mim mesmo, como se algumas de minhas células fossem um corpo estranho). Na verdade era a doença que estava me deixando deprimido, e não o contrário. Enfim, uma médica mais interessada me tratou com corticóides e finalmente eu melhorei, mas meu corpo nunca mais foi o mesmo.

Nos anos seguintes, a dor vinha e voltava, e eu passei por tratamentos que iam de fisioterapia e RPG a medicamentos de todo tipo. Minha mobilidade piorou sensivelmente, devido também a uma tendência irreversível ao sedentarismo, e a doença começou a formar pontes ósseas entre uma vértebra e outra. Somente há uns quatro anos minha reumatologista indicou um tratamento inovador, à base de um medicamento intravenoso que age diretamente nos sintomas da espondilite. Isso atenuou de maneira significativa as dores e me deu nova mobilidade. Mas quando o tratamento acaba, elas voltam, mesmo que com menos intensidade que antes.

Não sei por que estou relatando isso aqui. Talvez porque esteja lendo Outras Vidas que Não a Minha, um romance que, entre outros assuntos, aborda a rotina de pessoas com enfermidades muito mais graves do que essas prosaicas dores na coluna que me deixam entrevado. As histórias do livro de Emmanuel Carrère são todas reais, vividas por pessoas mais ou menos próximas a ele, embora tratadas de maneira romanceada. De certa forma, me identifiquei com o juiz Étienne, que sofre de um câncer na adolescência e depois na juventude, e acaba por amputar uma perna.

Não tenho propensão à hipocondria, e sempre que possível evito imergir nesse terrível universo de perdas e superações com que nos deparamos quando eventualmente precisamos circular por hospitais. Mas o fato é que uma doença – nossa ou de alguém que gostamos – nos lança em um território cinzento, opaco e asséptico, no qual é muito pequena a distância entre sucumbir e sobreviver. Há muitos fatores envolvidos nessa guerra interior, e temos pouquíssimo poder de decisão sobre a maioria deles.

Acredito que tiramos algum tipo de lição quando conseguimos escapar mais ou menos incólumes de uma temporada no inferno dos hospitais. O juiz do livro de Carrère, por exemplo, se tornou um profissional íntegro, que livra da falência pessoas às voltas com dívidas gigantescas. Não sei que tipo de pessoa eu me tornaria caso conseguisse me safar de tamanha provação, e espero nunca saber. Mas certamente não seria o mesmo, com os mesmos valores, preconceitos e idiossincrasias. O sofrimento não costuma aliviar: ele é como um espelho distorcido no qual nos miramos e enxergamos um estranho. Sendo que esse estranho representa quem fomos antes da tormenta, e quem nunca mais voltaremos a ser.  

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Em vão



Dois textos publicados hoje na Folha de S.Paulo se complementam à perfeição, exibindo sem cortes as vísceras do país no qual vivemos. O primeiro é a coluna da comentarista política Eliane Cantanhêde, que aborda a disparidade entre a percepção que se tem do Brasil na Europa e Ásia, altamente positiva, e a realidade que nós, brasileiros, vivemos por aqui. O segundo texto relata o bárbaro linchamento de um motorista de ônibus que, após sofrer um mal súbito e perder os sentidos, bateu em alguns carros e atropelou um rapaz na noite de anteontem, no Jardim Planalto, zona leste de São Paulo.

Em seu artigo, Eliane conclui, após listar alguns dados sobre a violência no país: “Falta, portanto, muita coisa para o Brasil ser toda essa cocada preta: educação, saúde, produtividade, inovação, combate à corrupção, distribuição de renda. E, enquanto os brasileiros não pararem de se matar à toa, é melhor deixar o oba-oba para a mídia estrangeira e pensar o estágio e as fraquezas do país com um mínimo de racionalidade”. Ela está coberta de razão, e não vejo qualquer pendor partidário na sua análise (acho mesmo que se tivéssemos um outro partido no poder a realidade seria a mesma).

O crescimento inequívoco do Brasil, sem dúvida positivo e necessário, não vem acompanhado de um avanço significativo na nossa cidadania. É mais ou menos o que acontece nas outras nações emergentes, China, Índia e Rússia, que não conseguem estancar a pobreza extrema nem anomalias como o trabalho semi-escravo, máfias incrustadas em diversos setores da economia e castas rígidas que inviabilizam a mobilidade social. Porém, mais do que a corrupção endêmica, entraves burocráticos insolúveis e saúde e educação públicas à beira da falência, nossa enfermidade social mais grave é outra: a propensão atávica à violência. O Brasil é um país minado pela barbárie.

E é aí que entra em cena o segundo texto da Folha, que desvela o que somos de verdade, para além dos clichês do povo cordial e do país tropical abençoado por Deus: arrastado para fora do ônibus por cerca de 40 pessoas, que estavam em um baile funk próximo ao local do acidente, o motorista Edmilson dos Reis Alves, de 60 anos, teve o crânio esmagado por extintores de incêndio. O ônibus que dirigia foi alvejado por pedras enormes, que por pouco não atingiram os passageiros. A reportagem de André Caramante e Fernanda Barbosa revela que Edmilson era um profissional exemplar, que não bebia e tinha acabado de deixar a esposa que viajava com ele perto da casa dos dois, a apenas dez minutos do local do acidente. A polícia ainda vai investigar se ele morreu do mal súbito ou das pancadas.

Não interessa. Um linchamento como esse na maior cidade do Brasil – episódio corriqueiro, como os que lemos todos os dias nos jornais – expõe a fratura moral de uma sociedade em declínio. Uma sociedade fortemente armada, brutalizada e sem escrúpulos, que da classe A à classe Z fabrica cidadãos dotados de um senso de justiça enviesado e incapazes de coexistir com regras básicas de convívio. É nesse habitat inóspito que eu, você e pessoas como Edmilson vivemos e tentamos não morrer de morte matada. No caso dele, em vão.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O mesmo amor duas vezes



Outro dia, conversando com um grande amigo numa noite de domingo, em um barzinho de frente para o mar, ele me falou da impossibilidade de reviver um amor perdido e reencontrado. Havia desalento e alguma resignação em seu rosto, e ao ouvi-lo remoer as cinzas do passado e degustar o sabor amargo do presente, eu me lembrei de Scott Fitzgerald. Ou melhor: dos amores impossíveis dos contos de Scott Fitzgerald. Scott é sob qualquer aspecto um de meus escritores favoritos, e nem sei se gosto mais dos seus contos ou de seus romances. Ele canta a dissipação das grandes paixões, o hedonismo da era do jazz substituído pela melancolia da crise de 29, o desencanto de uma geração que teve – e perdeu – tudo.

No início do ano, eu retirei da estante o livro 24 Contos de Scott Fitzgerald, lançado há alguns anos pela Companhia das Letras com tradução de Ruy Castro (aqui tem uma resenha que escrevi à época do lançamento). Senti um prazer dolorido ao reler aquelas histórias de beleza cadente, fadadas inevitavelmente ao malogro, seja pelo poder destrutivo dos vícios (Scott legou o próprio alcoolismo à maioria dos seus personagens masculinos) ou pela incapacidade que temos de assumir um amor avassalador com toda a plenitude que ele exige.  

Há, em um dos contos, uma frase que talvez tenha provocado em mim a lembrança do livro enquanto conversava com meu amigo: “Há todas as espécies de amor neste mundo, exceto o mesmo amor duas vezes”. Para Scott, é inútil reviver aquilo que fomos um dia, até porque as pessoas mudam, as cidades mudam, os sentimentos mudam. Meu amigo deve ter plena consciência de que, no homem que ele é agora, há muito pouco do que ele foi há 20 anos. São, um e outro, estranhos que não se conectam nem se comunicam, separados por compartimentos estanques de memória e esquecimento.

O fato é que qualquer amor que resgatamos de um tempo até então enterrado e posteriormente exumado não é o mesmo amor de antes, embora também não seja um amor diferente. É como um morto-vivo, um zumbi de aparência ambígua, que nos sorri com uma face e nos amedronta com a outra. Cabe a nós escolher qual delas será revivida em nosso presente. E, se revivido, como ele pode conviver com aquilo que nós e o outro nos tornamos, incluindo aí casamentos, filhos, emprego, pressão social e certa letargia de ter que largar tudo isso para encarar uma aventura de êxito incerto.

Bem, em tempos de sexo casual e casamentos mais casuais ainda, talvez eu esteja me portando como um romântico tolo, falando de um sentimento em extinção. O mesmo sentimento que em outros tempos fez o jovem Werther do livro de Goethe abandonar a vida, inspirando na vida real muitos outros suicídios na Alemanha do século 18. Mas, naquela noite de domingo, eu percebi uma centelha, uma tempestade por trás da calmaria, como o silêncio que precede o ataque de um cachalote. Ali estava, à minha frente, uma manifestação inequívoca de amor em estado bruto. Desgastado pelo avanço do tempo, esmaecido por décadas de hibernação, mas nem por isso menos amor.  

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A melancolia do fim



Na semana passada, um asteróide passou muito perto da Terra, chegando a ficar mais perto de nós do que a Lua, a apenas 325 km de distância. Do tamanho de um porta-aviões, o asteróide teria feito um estrago danado se caísse por aqui: poderia abrir uma cratera de 6,4 km de diâmetro e 528 metros de profundidade. E se tivesse caído no oceano, teria provocado um tsunami com ondas de até 21 metros. Nada, porém, que acabasse com a vida no planeta. Mas convém lembrar que uma chuva de meteoros é a hipótese mais aceita pelos cientistas para o desaparecimento dos dinossauros – e o percurso dos dinossauros pela Terra foi muito mais extenso do que a nossa humilde aventura pelo planeta, ainda em andamento. Daí que não devemos ficar tão tranqüilos quanto a uma vida eterna por aqui.

Quando a natureza se manifesta – e ela tem se manifestado com incômoda freqüência nos últimos anos – vemos o quanto é cruel. Terremotos e tsunamis varrem cidades inteiras, levando sem nenhum tipo de compaixão seletiva homens, mulheres e crianças. Não existe piedade, apenas o acaso brutal e sem sentido. A natureza do universo não é muito diferente e poderia, quem sabe, nos presentear com a aproximação de um planeta gigantesco na órbita da Terra. É o que se vê em Melancolia, a parábola niilista de Lars Von Trier sobre o fim do mundo. Não o fim do mundo como o conhecemos, mas o fim do mundo mesmo: a Terra sendo engolida por um astro muito maior, levando a tiracolo tudo que somos nós: mamíferos, aves, insetos, flores e algas marinhas, mas também oceanos, cordilheiras e florestas.

Não sei se foi essa a intenção de Lars Von Trier, mas Melancolia faz também uma crítica à incapacidade que temos de compreender nossa própria insignificância. Na primeira parte, um casamento caríssimo celebra um amor inexistente, que não se consuma nem se justifica. Na segunda, já com o planeta gigante se aproximando inexoravelmente, o que se vê é um microcosmo da humanidade encerrado num casarão isolado, à espera da morte ou de uma improvável redenção. Em dado momento, Claire (uma das duas principais personagens femininas, ao lado de Justine) se lamenta: “Mas meu filho não vai ter onde crescer”. É uma afirmação puramente egocêntrica, que não dá a medida do que a espera. Não é apenas um lugar onde o filho poderia crescer que será eliminado, mas sim o próprio significado das palavras “filho”, “onde” e “crescer”.

A destruição da Terra representaria, portanto, um fim absoluto. Não o meu ou o seu fim, mas o fim de toda uma concepção de existência, que gerou romances, sinfonias, enciclopédias, cidades e sonhos, mas também genocídios, massacres e muitas outras variações da barbárie (afinal, como diria Justine, “a terra é má”). Mas ainda estou sendo por demais antropocêntrico na minha avaliação: a Terra, ao longo de sua história, gerou muito mais maravilhas do que apenas a humanidade, que habita o seu epílogo. E quanto ao que veio antes de nós? E a saga dos seres unicelulares se reproduzindo e se perpetuando em ambientes inóspitos? E as sequóias desafiando a eternidade com seus dois mil anos de vida? E os próprios dinossauros, com a força bruta que os tornava invencíveis, como às vezes nós, humanos, julgamos ser? Seria, de qualquer forma, um fim melancólico e até injusto. Bem ou mal, mesmo com todo o caos e toda a violência, nosso planeta representa uma centelha de inquietação. Um clarão de som e fúria, em meio à monotonia eterna e escura de um universo que se expande em direção ao nada. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Lugar acolhedor




Não lembro quem escreveu que nunca devemos voltar aos lugares onde fomos muito felizes. Correríamos o risco, dessa forma, de dissolver uma valorosa sensação de nostalgia, encerrada em algum canto do nosso imaginário, que tem como matérias-primas um vago sentimento de felicidade e imagens devidamente enevoadas pelo tempo. Acredito que deve existir algo semelhante em relação aos livros que lemos e amamos, e que guardamos na memória como pequenos diamantes de celulose. Eles seriam, portanto, muito mais do que um volume esquecido na estante. Talvez algo como um território acolhedor, que visitamos há muito tempo e que deixou em nós lembranças imperecíveis, como instantâneos de uma época bem-vivida.

Tudo isso me veio à mente hoje, após uma amiga comentar no Facebook que se sentia uma personagem de Cem Anos de Solidão, por conta das chuvas torrenciais que não abandonam Salvador (numa alusão aos anos de chuva ininterrupta que assolaram Macondo na obra de Gabriel García Márquez). Sim, Cem Anos de Solidão. Difícil encontrar outro romance que personifique melhor a imagem de um lugar acolhedor. Ele é muito mais do que um livro, assim como Macondo é mais do que uma cidade e José Arcádio, Ursula Iguarán, Remédios, Amaranta, Rebeca, Pilar Ternera e Aureliano Buendía (os tantos que habitam aquelas páginas) são mais do que personagens.

Lembro de ter lido o livro de Gabo pela primeira vez aos 15 anos, logo depois de abandonar com tristeza O Amor nos Tempos do Cólera, outra obra inesquecível do colombiano. Voltei a ele umas duas ou três vezes em um espaço relativamente curto de tempo. O certo é que há uns 20 anos não volto lá. A edição que tenho, muito simples e com as páginas quase amarronzadas pelo tempo e o manuseio, só é tocada quando preciso rearrumar minha estante para a inclusão de novos volumes. Um tesouro velho e esquecido, pelo qual pouquíssimas pessoas pagariam mais do que um ou dois reais. Mas nem por isso um tesouro menor. Não esqueço jamais o parágrafo inicial: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía se lembraria do dia em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Não deve ser exatamente desse jeito, mas é algo assim.

O fato é que hoje senti muita vontade de voltar a esse lugar onde fui muito feliz. Rever, agora com os olhos de homem maduro (ou nem tanto), toda aquela gente que eu adorava. Mas tenho receio de romper a tímida membrana de nostalgia que o envolve e me decepcionar com o reencontro. Perceber que os personagens envelheceram mal, tornaram-se imperfeitos – ou serão eles que enxergarão em mim um estranho, intruso em território explorado um dia por um outro leitor, muito parecido comigo, mas sem a mesma capacidade de vivenciar o delírio silencioso? Não sei. Talvez seja mesmo melhor deixá-los em paz, dormindo serenamente naquela cidade de papel amarronzado, imprensados entre outros livros do homem que os criou.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Indignados"




Nos últimos dias, o assunto mais citado na imprensa e nas redes sociais foi o câncer de Lula. Talvez nem pela doença em si, mas sim pelos comentários irados, preconceituosos e consequentemente estapafúrdios que proliferaram como um tumor maligno por vários territórios da tal aldeia global a que chamam de internet. Um dos territórios mais afetados foi a coluna de Gilberto Dimenstein na Folha de S.Paulo. Tanto que ele resolveu escrever um novo texto, dias depois do primeiro, para se manifestar: "Senti um misto de vergonha e enjoo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula. Fossem apenas algumas dezenas, não me daria o trabalho de comentar. O fato é que foi uma enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano. Pode sinalizar algo mais profundo."

O mais grave nessa doença virtual - mais até do que os ataques a Lula e ao que ele representa - é a capacidade que uma parcela significativa da população possui de escolher sempre os alvos mais disparatados para a sua indignação. São milhares de pessoas gastando seu tempo para vociferar virtualmente contra um ex-presidente, assim como vociferam (invariavelmente em letras maiúsculas e invariavelmente em português trôpego) contra um participante de reality show, uma prova anulada do Enem ou um juiz que prejudicou seu time. O ódio se materializa em ofensas estúpidas a jornalistas, que agora possuem um canal direto com seus "leitores".

O que mais me intriga nisso tudo é: por que esse ódio indignado nunca se lança com a mesma virulência contra assuntos muito mais graves? Estou me referindo a um fato que considero gravíssimo, e que pelo jeito não sensibilizou as manadas de indignados virtuais: Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio de Janeiro pelo PSOL, está deixando o país após sofrer sérias ameaças de grupos de extermínio. Para quem não sabe (eu não sabia), Freixo presidiu a CPI das Milícias na Assembléia Legislativa do Rio, que indiciou mais de 200 policiais e políticos ligados diretamente ao esquema de extorsão, assassinatos e tudo aquilo que eu e mais 12 milhões de pessoas vimos em Tropa de Elite 2. Não por acaso, Freixo foi consultor do filme de José Padilha. Sua partida para lugar incerto é fruto de algo dolorosamente banal: ele não confia em quem tem a obrigação de protegê-lo. Daí ter aceitado um convite da Anistia Internacional para passar um tempo na Europa com a família. Marcelo não é bobo. Sabe o que acontece com quem se levanta contra o poderio das milícias no Rio.

A juíza Patrícia Acioli, que pôs um montão de gente barra pesada na cadeia, foi assassinada há apenas dois meses quando chegava em casa. Patricia não tinha proteção, carro blindado ou qualquer obstáculo à ação dos executores que, agora se sabe, são policiais militares: o tenente Daniel dos Santos Benitez Lopes e os cabos Sérgio Costa Junior e Jefferson de Araújo Miranda. Sim, policiais militares. Algo tão corriqueiro que sequer nos damos conta do quanto é absurdo e inadmissível. Marcelo Freixo e Patrícia Acioli iniciaram uma luta contra um inimigo praticamente invencível. Afinal, policiais foram criados para nos proteger, e sabem como a engrenagem funciona - e quando não deve funcionar. Aliados a políticos e a apresentadores de programas sensacionalistas na tevê, eles se tornam onipresentes, onipotentes e oniscientes.

Com tudo isso posto, onde entra a tal indignação dos brasileiros? É tão inflamada a torcida para que o carcinoma na laringe do ex-presidente ganhe a dimensão de metástase que não há saliva suficiente para ser derramada num hipotético protesto contra os superpoderes de uma bandidagem sem freios. Estulta, arrogante e truculenta, uma horda numericamente expressiva de brasileiros se engaja em causas equivocadas, derramando pelos becos do mundo virtual sua concepção de vida tosca, sua aversão à vida em sociedade, sua sordidez bairrista e demófoba. Estamos nos apequenando como sociedade e como nação, batendo recordes de mortes no trânsito e assistindo com certa conivência as cidades se brutalizarem. Enquanto isso, quem pode fazer a diferença precisa escolher entre o cemitério e o aeroporto, rumo ao exílio. Ou às vezes nem isso, como provam os 21 disparos que fizeram com que a juíza Patrícia só pudesse optar pela primeira alternativa.