terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Arquivo - O fascínio da queda


O fascínio da queda

‘24 contos de Scott Fitzgerald’ é uma ótima introdução à voz maior dos “anos loucos”

Paulo Sales

Ninguém cantou a Era do Jazz, a deliciosa permissividade e o hedonismo irrefreável da juventude dos loucos anos 20 como Francis Scott Fitzgerald. Em seus romances e contos, o escritor norte-americano se dedicou compulsivamente a retratar um tempo no qual a prosperidade econômica e a paz mundial do entreguerras produziram um período deliciosamente frívolo, que acabou sucumbindo ao crack da bolsa de Nova York, em 1929, seguido da ascensão do nazifascismo. Restaram as páginas de Scott, testemunhos desnudos e sinceros de uma geração perdida.
Lançado pela Companhia das Letras com impecável tradução de Ruy Castro, 24 contos de F. Scott Fitzgerald é uma ótima iniciação à obra do criador de O grande Gatsby. Trata-se de uma reunião de textos publicados originalmente em revistas prestigiadas como Esquire e Saturday Evening Post. Eles abarcam um longo período que vai de 1920, ano da publicação de Este lado do paraíso (seu livro de estréia e maior sucesso da carreira), até 1940, ano da morte do escritor, aos 44 anos, vítima de ataque cardíaco em decorrência do alcoolismo (ele amava o gim mais do que qualquer outra substância em estado líquido disponível no planeta).
Foram os contos que sustentaram o escritor e sua vida desregrada quando seus romances começaram a encalhar nas livrarias e o trabalho como roteirista em Hollywood fracassou. Fitzgerald dedica um olhar entre afetuoso e mordaz aos ricos e bem-nascidos. Aquela gente que estudou em Yale ou Harvard e pertence a famílias com mais de duas décadas de tradição, bons modos e alguns milhões de dólares na conta bancária. O afeto faz sentido: seus personagens são invariavelmente jovens que têm o mundo solidamente instalado sob os pés e mesmo assim desabam em desilusões irremediáveis.
Não há finais felizes nos contos de Fitzgerald. Do mesmo modo que o próprio criador na vida real, o destino de suas criaturas é sempre a queda. Os contos são longos, caudalosos e atulhados de desencanto, lirismo e precisão estilística. Há obras-primas inquestionáveis, como O menino rico (o mais belo entre todos), “A coisa sensata”, O amor à noite e A escada de Jacob. Eles são o veículo ideal para Fitzgerald destilar frases definitivas. Aqui vão duas, para deleite do leitor: “Aos 18 anos, nossas convicções são colinas de onde contemplamos o horizonte; aos 45, são cavernas em que nos escondemos”. “Há todas as espécies de amor neste mundo, exceto o mesmo amor duas vezes”.
É por aforismos como esses que Fitzgerald permanece aceso em nossas mentes, passados mais de 60 anos da sua morte. E eles se sucedem ao longo das narrativas, ambientadas em locais como Nova York, Antibes, Paris e outros locais que também foram palco das aventuras do autor e de sua mulher, a insana Zelda Sayre. Se alguns contos estão longe de ser irretocáveis – caso, principalmente, de O diamante do tamanho do Ritz, que tem um pé no realismo fantástico – o conjunto da obra revela um autor seguro do próprio talento e com pleno domínio da narrativa curta.
Os 24 contos de F. Scott Fitzgerald são um aperitivo para o leitor se encontrar posteriormente com a essência da sua obra. É importante passar pela vida levando na bagagem o fascínio de livros como Suave é a noite e Belos e malditos. Eles ajudam a compreender algumas nuances da humanidade que só os grandes artistas são capazes de perceber. Junto com Ernest Hemingway, William Faulkner e Gertrude Stein, o simpático beberrão Scott ajudou a transformar a literatura norte-americana na mais poderosa do século XX. Pena que o declínio o tenha levado tão cedo.

* publicado originalmente no Correio da Bahia

2 comentários:

João disse...

Paulo,
poderia me enviar artigo seu a respeito de "Enquanto agonizo"? Estou estudando Faulkner para o mestrado e recebi excelentes recomendações desse ensaio, mas não o encontro em lugar nenhum.
Grande abraço!
João Peçanha.
joaoluizpecanhacouto@gmail.com

Nina disse...

Excelente sua matéria, parabéns!

Faz jus ao talento do meu escritor preferido!

bj