sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O princípio do mundo



Você pode passar pela infância, pela adolescência e chegar à idade adulta ouvindo as canções praieiras de Dorival Caymmi sem nunca se dar conta do que elas encerram. Descobrir Caymmi é diferente de ouvir Caymmi. É como se deparar com algo que parece existir desde o princípio do mundo. É se confrontar com o medo primordial diante de uma coisa muito maior do que nós. No caso de Caymmi, essa coisa é o mar. Trágico, capaz de oprimir e seduzir na mesma medida quem se alimenta dele.

Não existe algo mais terno e doloroso do que se deixar levar por aquele som gutural, saído do centro da terra, entoando "o bem do mar é o mar é o mar que carrega com a gente pra gente pescar", acompanhado por cordas graves que disparam notas econômicas maturadas por séculos de salitre e ócio e assobios que acalmam e assombram. Caymmi é eterno porque não existe nem antes nem depois dele. Sua música é uma ilha sem contato com o continente superpovoado da música popular brasileira. Uma ilha selvagem, mas que merece ser desbravada.

Um comentário:

Marcos Carneiro disse...

Esse texto qnd bate na cachola é bonito, é bonito...