domingo, 14 de dezembro de 2008

As estrelas são as lâmpadas da minha casa


Viajar sempre me foi uma necessidade, embora a essência do que seja viajar tenha mudado com o passar do tempo. A ânsia por desbravar o desconhecido e se embriagar de tudo que ele oferece foi substituída por uma curiosidade sensorial pela cultura alheia: sua culinária, seus cheiros, suas sonoridades, seu colorido ou a ausência dele. Já vai longe o tempo em que, influenciado por Kerouac, escrevia coisas como “As estrelas são as lâmpadas da minha casa” ou “A felicidade está contida no vento frio das auto-estradas”. Mas esse tempo, posso dizer, foi fundamental para a minha formação. Durante um período, adorei passar horas infindáveis dentro de ônibus sujos e lentos, vendo o sol indo embora na estrada, os velhos andando pela margem em meio ao nada, os casebres sem cor com crianças brincando ao longe.

Conheci parte do Rio Grande do Sul de carona com uma mulher que até hoje é minha melhor amiga. Travei conhecimento com caminhoneiros bem-humorados e bondosos, dotados de uma febre de vida difícil de encontrar no meu cotidiano. E tinha o vento gelado, que de certa forma me levava. Conheci pessoas interessantes, li muito enquanto as horas escorriam numa lentidão impressionante e, principalmente, me confrontei com meus medos, saindo invariavelmente mais forte e maduro dessas viagens. A solidão da estrada encerra uma melancolia que pode ser nociva, sobretudo se você estiver fragilizado emocionalmente ou fisicamente, como eu estava numa dessas peregrinações rumo ao sul. Completamente sozinho em cidades como Cabo Frio, Curitiba ou São Mateus em noites de inverno rigoroso (ao menos para mim), eu me vi falando comigo mesmo e retrucando o que acabara de dizer. Quando cheguei a Florianópolis o dinheiro estava quase acabando. Mesmo assim comprei um livro de Salinger e me vi só com umas migalhas para a viagem de ônibus até Porto Alegre. Senti fome no caminho e não tinha dinheiro para comer um pastel que, da vitrine, me parecia delicioso. Foi deprimente.

Mas o saldo disso tudo é positivo. Ainda hoje cultivo o desejo de conhecer pessoas e lugares distantes, embora saiba que dificilmente irei ao Tibet, ou ao Quênia, ou a alguma cidadezinha perdida em alguma parte do globo onde encontraria o sentido da existência. Ou não? Desistir antecipadamente dos nossos sonhos é a pior alternativa. Às vezes, na noite alta, sinto um vento frio batendo no rosto, mesmo com a janela fechada. É o velho desejo me chamando para dar uma volta.

2 comentários:

Marcos Carneiro disse...

O texto todo esta muito bom, mas essa frase é genial: “As estrelas são as lâmpadas da minha casa”.

Tb adoro viajar (existe alguem q nao gosta?), independente do meio de transporte (da bicicleta ao aviao) ou das acomodaçoes (da apertada barraca de camping aos amplos bangalos de luxo).

Desde pequeno adquirir esse habito e se um dia ficar rico nao quererei fazendas ou lanchas, só o mundo.

Sidóbia disse...

Paulo,
"viajar não para chegar, mas para viver enquanto se está viajando..."conhecer pessoas, as quais jamais veremos novamante, mas que algo sempre deixam, uma palavra, uma história, marcas de um lugar..As maiores lembranças acontecem nos casos que vc escreve...gostei muito do que vc escreveu! Sucesso!!!