sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Seres extraordinários


Há um vácuo na minha formação que me impede de compreender em sua totalidade algumas notícias que me atingem como punhaladas ao abrir um jornal ou acessar a internet. Nunca li nenhuma obra de Freud, Jung, Lacan ou algum outro teórico essencial da psicologia e de sua corrente principal, a psicanálise. Mas é provável que, mesmo conhecendo a fundo conceitos como superego ou Complexo de Édipo, restasse em mim apenas o pasmo ignorante de um leigo, o espanto primordial de um idiota ao saber que um pai se arremessou junto com o filho de dois anos do alto de um prédio de 18 andares, por não aceitar o fim do relacionamento com a mãe do garoto. Ou que um homem-bomba deu cabo de si mesmo e de dezenas de pessoas, todas elas do seu próprio povo e muitas delas crianças e mulheres, num mercado lotado no norte do Paquistão.

São episódios completamente diferentes, com pretextos radicalmente diversos. Mas ambos encerram uma questão que vai além da barbárie em estado bruto. Afinal, seus protagonistas não apenas mataram, mas também morreram intencionalmente na ação. Como entender isso? Que motivações são capazes de promover atitudes tão brutais? A meu ver, fanatismo ou desespero não dão conta dessas questões. Mais do que a banalização dos assassinatos, estamos assistindo também à banalização dos suicídios. Mata-se e morre-se pelos motivos mais esdrúxulos, sobretudo os ligados a uma radical distorção do conceito de fé ou à incapacidade de se viver sem aquele que se ama.

Na condição de um semi-analfabeto em psicologia, recorro então aos romances, que ao longo dos séculos nos ensinaram muito sobre a alma humana, e logo me vêm à mente dois livros que não falam propriamente sobre suicidas assassinos, mas desvelam em parte a psique do criminoso. Para Raskolnikov, personagem principal de Crime e Castigo, existem duas categorias de seres humanos: os ordinários, que devem respeitar as leis e viver na obediência, e os extraordinários, ou gênios da raça, aqueles que podem até cometer um crime se sua consciência assim determinar. Alçado por si mesmo à segunda categoria, ele comete o seu crime, e passa o resto dos dias corroído pelo remorso (daí que, mais do que propriamente um romance sobre crime ou castigo, Dostoievski criou um romance sobre a culpa).

Albert Camus também se embrenha nos desvãos escuros de um assassino, Mersault, cuja absoluta indiferença em relação à própria existência e a tudo que a rodeia acaba por levá-lo à pena de morte. Em O Estrangeiro, o ato de matar também é cometido quase como num surto, num momento de catarse, embora não exista a perda completa da lucidez. Tanto Raskolnikov quanto Mersault sabiam exatamente o que estavam fazendo, por mais que a intensidade da luz do sol ou uma teoria cretina de superioridade intelectual pudesse isentá-los de responsabilidade.

É possível fazer um paralelo entre a teoria de Raskolnikov e os homens-bombas arregimentados pelo fundamentalismo islâmico (embora neste último caso estejamos diante de crimes sem castigo, já que o criminoso vai embora junto com as vítimas). Em suas cabeças carcomidas pelo fanatismo, não seriam eles seres extraordinários, dotados de um poder celestial que os habilita a matar centenas de congêneres ordinários em função de uma causa maior? É provável que sim. Mas que causa é essa? Que fim justifica meios tão abjetos? Sinceramente, não sei. O próprio Camus disse que o suicídio é a grande questão filosófica do nosso tempo, ponderando que “decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia”. É uma teoria válida, obviamente, mas possivelmente defasada. Talvez a grande questão filosófica nestes tempos sombrios em que vivemos seja decidir não apenas se a própria vida, mas também – e principalmente – a vida alheia merece ser vivida. Em muitos casos, um suicídio é compreensível: a perda de quem amamos muito, uma doença terminal que nos fará sofrer fisicamente, um surto depressivo. Já um suicídio acompanhado de um ou muitos homicídios é injustificável, não só moralmente, mas também psicologicamente. A não ser que os livros que nunca li tenham uma resposta para tanta estupidez.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Flores em vida


Numa de suas muitas canções repletas de singela sabedoria, Nelson Cavaquinho recusava de forma categórica homenagens póstumas. E pedia: “Me dê as flores em vida, um carinho, a mão amiga, para aliviar meus ais. Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais”. Lembrei dessa canção de Cavaquinho ao rever ontem à noite os minutos finais de Buena Vista Social Club, filme que recupera do oblívio um grupo de artistas de talento e trajetória singulares. É comovente observar aqueles velhinhos cubanos alcançando a glória tardia no Carnegie Hall, em Nova York, após décadas de ostracismo e subempregos, durante as quais guardaram em suas mentes e gavetas um apogeu perdido.
Vê-los ali tocando, se divertindo e se emocionando nos faz pensar na montanha russa que os arrebatou num período de suas vidas em que já se preparavam para deixar o mundo anonimamente, com a cabeça no travesseiro e o terno surrado devidamente engomado. É fato que Ibrahim Ferrer, Ruben González, Compay Segundo e Pio Leyva, entre outros dos quais não me recordo os nomes, já estão mortos. Mas é fato, também, que ao contrário da maioria de nós, anônimos errantes deste planeta, eles receberam as flores em vida. Basta prestar atenção no semblante silencioso de Ibrahim Ferrer, ao contemplar profundamente comovido a platéia do Carnegie Hall, para vislumbrar ali uma epifania, e provavelmente uma valorosa sensação de missão cumprida.
É bem provável que, se não fosse por iniciativa de Wim Wenders e Ry Cooder, todos eles teriam permanecido obscuros, lembrados apenas por alguns sobreviventes de uma geração que conheceu a Cuba pré-revolucionária, com suas casas de espetáculos, cassinos e clubes de bailes. É como se tivessem vivido todo esse tempo apenas aguardando inconscientemente a chegada de Cooder e seu filho à ilha, como uma tumba egípcia (a comparação é de mau gosto, reconheço, mas adequada neste caso) escondida numa pirâmide aguarda milênios a chegada de um arqueólogo. Um acaso monumental em suma, que permitiu a eles imprimir, merecidamente, as digitais na máquina do mundo. O resultado desse acaso é que hoje você se depara com o rosto sorridente e maroto de Compay em qualquer megastore que se preze, assim como encontra milhares de referências a Ferrer no Google ou pode baixar discos de González em sites de compartilhamento de arquivos.
E agora, enquanto penso nos velhinhos do Buena Vista, acabo pensando também nos artistas sem nome – homens e mulheres, vivos ou mortos – que não conseguiram ser pinçados da massa amorfa que compõe a escória humana. Por que uns e não outros? Não duvido que para cada Compay Segundo ou Ibrahim Ferrer há muitos tipos igualmente talentosos perambulando por vielas de cidades como Havana, Kinshasa, Lisboa, Pequim ou Rio de Janeiro. E então volto a pensar em Cavaquinho, que morreu pobre e bêbado, mas famoso. E também em Cartola, redescoberto já velho enquanto trabalhava como um improvável flanelinha no centro do Rio. Enfim, fico aqui pensando em toda essa gente que, por um espasmo do destino, alcançou a eternidade a despeito de todo e qualquer prognóstico contrário.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Disparates


Às vezes me chega às mãos alguma edição passada da revista Veja, e costumo folheá-la de trás para frente, para conferir as críticas de cinema e uma ou outra matéria sobre literatura. No meio delas, encontro as colunas de Diogo Mainardi. Habitualmente, seu texto me provoca um ligeiro sorriso ou um pouco de tédio. Mas de vez em quando me espanta a maneira como ele – assim como outro colunista, Reinaldo Azevedo – personifica o reacionarismo sem escrúpulos da publicação para a qual escreve. Há muito tempo a Veja deixou de ser uma revista séria. Basta dar uma olhada nas pautas para entrever, entre as matérias culturais ou comportamentais, um veículo para desancar desafetos ou desqualificar tudo e todos que estejam direta ou indiretamente relacionados ao que se convencionou chamar de esquerda. Não que a esquerda seja um território habitado por vestais (não é) ou que as ideologias a ela ligadas sejam uma solução para as mazelas da civilização (o comunismo provou em definitivo que não são). E, como contraponto, vale lembrar que uma revista como a Caros Amigos, situada no espectro oposto da Veja, utiliza os mesmos artifícios e atinge os mesmos resultados risíveis.

Mas não queria falar da Veja. Voltando a Mainardi, li outro dia uma coluna antiga, de julho, na qual ele falava das impressões da escritora irlandesa Edna O’Brien sobre a sua viagem a Paraty para participar da Flip, onde participou de encontros com outros autores, incluindo aí Chico Buarque e Milton Hatoum. Edna detestou os dois, achou-os arrogantes e com pouca erudição. Daí Mainardi conclui: “Chico Buarque é o buzinador das letras: fon-fon. Ele está para a literatura assim como Dilma Rousseff está para as teses de mestrado. Ou assim como José Sarney está para Agaciel Maia”. Nunca li um livro de Chico Buarque. Das adaptações de seus romances para o cinema, vi apenas Estorvo, de Ruy Guerra, um filme que beira o insuportável. Não acredito que seja um grande escritor, e não pretendo conferir, embora pense que é impossível seccionar em compartimentos estanques a obra de um artista, mesmo que atue em frentes opostas (ou seriam complementares?). Por tudo isso, penso cá comigo: não seria um exagero tecer comparações tão esdrúxulas para afirmar que Chico Buarque é um embuste, uma fraude sem substância a enganar milhares de leitores ingênuos? Claro que é um exagero, que por sua vez embute uma necessidade imperiosa de nadar contra a maré, de desafinar o coro dos contentes. Mas o que dizer de um articulista que define como “basbaque” o estilo de Luis Fernando Verissimo? Mainardi é um dos muitos herdeiros de Paulo Francis que parecem não ter apreendido a essência do mestre. Já escrevi aqui no blog que Francis entrou para a história da imprensa brasileira não pela tendência a emitir de tempos em tempos opiniões descabidas e preconceituosas que minavam sua credibilidade. Mas sim por ter sido capaz de abordar temas espinhosos com um coloquialismo e uma autenticidade sedutores, além de ter escrito dois livros de memórias magníficos (O Afeto que se Encerra e Trinta Anos Esta Noite).

Mainardi tem de Francis o seu pior. Polemiza usando como armas argumentos imprecisos e sem fundamento, apesar da sua inegável erudição. É que talvez lhe falte o talento que sobrava no outro. Ironia sem substância acaba se resumindo a leviandade. Tenho em casa um de seus romances, Malthus, que li até a metade. Fraco. De qualquer modo, o que me incomoda em seus artigos não é o que ele publica, e sim o discurso das entrelinhas. Mainardi, me parece, não quer atingir Chico Buarque por aquilo que ele escreve, mas pelo que pensa: o autor de A Banda defende entre outras coisas o regime castrista de Cuba – algo abominável para Mainardi, e para mim também. Daí a chamá-lo de “buzinador das letras”? Para quem cresceu ouvindo Chico cantar – e ainda criança descortinava, mesmo que superficialmente, os sentimentos dilacerantes ocultos nos versos de Pedaço de Mim e Angélica –, esse epíteto soa como um mero disparate.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Das barricadas ao puritanismo


Outro dia, como sempre gosto de fazer nos finais de noite, fiquei conversando com minha filha até ela dormir. Falávamos, entre outras coisas, dos seus amigos e amigas de escola, e ela me contou, usando suas palavras, que há um muro invisível separando meninos e meninas, com algumas exceções. Sua justificativa para isso foi certeira: “Os meninos só fazem correr, brigar e xingar”. É claro que nos próximos anos os hormônios em profusão e as mudanças de comportamento farão com que os dois sexos, para meu desespero de pai, venham a se aproximar. Mas a afirmação de minha filha deixa claro – e aí entra uma questão bem mais grave do que um tolo ciúme paterno – que há uma mudança em curso no comportamento dos meninos e adolescentes brasileiros.

O ambiente juvenil é e sempre foi violento, um lugar hostil para almas sensíveis ou corpos franzinos, e não é fácil sobreviver a ele sem seqüelas. Mas nunca vi tamanha agressividade como tenho observado nos últimos tempos. Algo que se pode confirmar numa pesquisa recente, na qual, se não me engano, 87% das adolescentes entrevistadas relataram ter sofrido agressões de seus namorados, que vão de tapas no rosto a título de “brincadeira” até socos movidos por ciúme. É um número por si só estarrecedor, mas que desvela problemas ainda mais sérios, como desagregação familiar causada por alcoolismo, violência doméstica, abusos sexuais e aniquilamento sistemático de preceitos éticos e morais básicos.

O resultado de tudo isso é uma terra devastada, onde um jovem mata a ex-namorada de 15 anos com um tiro na cabeça. A justificativa? Não conseguia viver sem ela. Ou onde um grupo de rapazes voltando da farra espanca uma moça num ponto de ônibus por diversão. A justificativa? Pensavam que era “uma puta”. E desde quando uma puta merece ou precisa ser espancada? Só um cenário assim poderia desaguar naquele episódio da garota que, por chegar para a aula na faculdade usando um microvestido, foi agredida, xingada e quase estuprada por 700 alunos ensandecidos. A justificativa? A roupa não era adequada. E qual roupa seria adequada? Uma burca? De onde veio esse neo-puritanismo repentino praticado por gente com uma idade que, em outros tempos, levantava barricadas, saía as ruas contra ditaduras e queria mudar o mundo? Ao que parece, a herança dos anos 60 foi totalmente pulverizada. Por onde andam Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Allen Ginsberg, Bob Dylan e aquele bando de ripongas pelados que praticava o amor livre e pregava a igualdade entre os sexos? Sumiram sem deixar marcas no nosso país tropical abençoado por Deus. Ou seja: voamos sem escalas do conservadorismo dos anos 50 para o puritanismo estulto e sexista dos anos 2000. E, como sempre, não aprendemos nada com o passado.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Uma rajada de balas


Durante muito tempo ouvimos dizer que as cinematografias do Brasil e dos Estados Unidos reproduziam na tela as obsessões de suas respectivas sociedades. Enquanto a América dissecava a violência, nós nos dedicávamos a glorificar a safadeza. Enquanto eles tinham Dirty Harry, Bonnie & Clyde e aqueles impiedosos desejos de matar do Charles Bronson (depois substituído por Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Jean-Claude Van Damme), a gente se deliciava com as estripulias inconseqüentes de Vadinho em Dona Flor e seus Dois Maridos, a ninfomania traumática de Sonia Braga em A Dama do Lotação ou o liberou geral de Rio Babilônia. Um tempo bom, sem dúvida. Mas um tempo que acabou.

Hoje a realidade é outra, e o Brasil que se vê na tela reflete o Brasil que se vê nos jornais e na rua. Cultuamos a violência com um grau de brutalidade que nem o discurso fascista de Tropa de Elite ou a radiografia certeira de Cidade de Deus são capazes de dar conta – e suponho que nem Salve Geral, recém-indicado a uma vaga no Oscar, também seja. Há milhares de Capitães Nascimentos espalhados pelas grandes cidades, mais ou menos corruptos, mais ou menos truculentos. Assim como há milhares de Zé Pequenos promovendo execuções em massa nas favelas, dando forma a um cenário tosco, sem resquícios de um certo romantismo que em outros tempos embalava produções como Pixote ou Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. Não há mais causas ou conseqüências, apenas o ato em si, abjeto e sem sentido.

Por mais que o cinema brasileiro contemporâneo tente reproduzir a realidade de forma verossímil, falta desvelar o principal – que talvez apenas Sergio Bianchi, em seus delírios niilistas, tenha percebido: o estado de coisas em frangalhos que presenciamos todos os dias é resultado direto das atitudes e posições equivocadas que tomamos ao longo de décadas. Um exemplo prático: tivemos, há cerca de quatro anos, a oportunidade de desarmar a população, mas optamos por manter os cidadãos de bem com armas em casa, no carro e na cintura. O resultado está aí, bem à nossa frente: os tais cidadãos de bem matam por quase nada em discussões de trânsito ou brigas de bar, por não aceitarem fechadas, buzinas ou olhares indiscretos em direção a seus pares. É uma gente estúpida e amoral, que cultua fuzis AR-15 e submetralhadoras Uzi, vibra com os combates do UFC e venera carros tunados. Traficantes e policiais são de certa forma espelhos dessa gente, com suas rajadas de balas que matam mulheres e bebês e transformam o cotidiano de gente comum num filme de terror B, sem final feliz ou morte do vilão.

sábado, 24 de outubro de 2009

Cem páginas de solidão


Escrever é uma forma de renúncia. Com raras exceções, um autor necessita – além de talento, concentração e disposição para o trabalho – da mais vasta solidão para se embrenhar nos desvãos da própria mente e voltar à tona com quilos de palavras meticulosamente enfileiradas. Como numa pesca submarina, ou melhor, como num sono profundo, no qual a permanência prolongada na zona abissal do inconsciente é responsável pelos sonhos e pesadelos mais complexos e devastadores. Um mundo arrebatador, sem dúvida, mas a que custo? O que a solidão oferece ela tira em dobro, e sabemos que a solidão vai mudando de sabor e textura à medida que envelhecemos. Num dos meus momentos de maior solidão – justamente o momento em que cheguei mais próximo de me tornar um escritor – pus na boca do personagem de um romance inacabado a seguinte observação: “Solidão é uma praga. Quando a gente é jovem, ainda acha que ela tem um sabor agridoce. A partir dos trinta a solidão se torna amarga. Aos sessenta, que é o meu caso, o gosto é pior que o de cocô”. A frase é dita por um escritor bissexto e recluso ao principal personagem do livro, um jovem jornalista que trabalha na editoria de cultura do maior jornal de São Paulo e aspira se tornar um novo Scott Fitzgerald.
Esse livro, que se chama Puppy, começou a ser escrito entre agosto e outubro de 2002, e nunca consegui terminá-lo. Ele tomou forma quando passei quatro meses em Fortaleza, trabalhando na campanha política de um dos candidatos a governador do Ceará. Fui sozinho, deixando minha mulher e minha filha em Salvador, e nos últimos dois meses praticamente não havia mais trabalho. Tinha que ficar de sobreaviso caso meus serviços – era uma espécie de repórter investigativo que fuçava os podres dos adversários – fossem novamente requisitados, o que se tornou cada vez mais raro. Sozinho num flat que ficava de frente para a praia de Mucuripe, no 12º andar, eu passei a me dedicar à construção do Puppy (o título é uma homenagem ao barzinho que considerava meu paraíso particular quando morava em São Paulo, e onde tinha cadeira cativa e uma cerveja invariavelmente gelada à minha frente). Tinha basicamente tudo de que precisava em mãos para me tornar eu mesmo um novo Scott Fitzgerald (exceto o seu talento, obviamente): notebook, cigarros – que comprava a qualquer hora da madrugada na barraca de praia à frente do edifício –, uísque e uma solidão avassaladora, acentuada pela saudade. Costumava começar lá pelas 10 da noite e trabalhava até cinco, seis da manhã. Uma vez fui até as onze horas sem parar. Posso dizer que era uma experiência agradável ficar na varanda escrevendo e de vez em quando desviar a vista para observar os madrugadores caminhando no calçadão, o céu se impregnar pouco a pouco das cores do novo dia e as velas do Mucuripe, ancoradas ali na frente, protegidas por uma barra, saírem para pescar, levando suas mágoas para as águas fundas do mar. Em dois meses, cheguei às cento e dez páginas do Puppy, um romance de arquitetura um pouquinho complicada, pois precisava dar conta de quatro personagens, todos eles com voz em terceira pessoa, mesclando fluxos de consciência com sutis observações do narrador. Em maior ou menor medida, Matheus, Renato, Bóris e Daniel eram inspirados em colegas da faculdade de jornalismo da Cásper Líbero e, principalmente, em mim mesmo. Apesar de ficção, havia muito conteúdo autobiográfico ali, o que representava um desafio adicional: até onde a ficção deveria ser sobrepujada pela realidade? A tendência era invariavelmente apelar para a narrativa memorialística, deixando de lado a criação propriamente dita.
Mas, enfim, o fato é que passados os dias em Fortaleza, voltei ao convívio da minha família e consegui retomar o trabalho no jornal, de onde só fui sair em 2007, e um ano depois entrei na agência de propaganda onde estou hoje. Infelizmente, não consegui retomar o Puppy, por mais que tenha escrito um ou dois capítulos, depois perdidos quando meu computador quebrou. Algo ficou pelo caminho, e não me senti disposto a voltar aos dias de solidão. Seria um custo alto demais a pagar pela conclusão do romance, que está aqui arquivado há sete anos, esperando ser retomado. Quem sabe um dia, quando minha filha deixar de entrar no meu gabinete para conversar comigo e interromper meus textos ou minha leitura, me enchendo de uma alegria terna e silenciosa, eu volte e finalmente o conclua. De vez em quando, releio alguns trechos, mexo em outros e no geral aprecio o que tem ali, embora saiba que se trata ainda de um trabalho em progresso, um prédio sem acabamento e com tijolos faltando, muito longe da entrega das chaves.

sábado, 17 de outubro de 2009

A incompletude do desejo


Ao amor – e, por conseqüência, à felicidade – não é dada a possibilidade de ser vivido em plenitude. Em Desejo e Perigo, como antes em O Segredo de Brokeback Mountain, Ang Lee enxerga as relações humanas como engrenagens defeituosas, formadas por peças que não se encaixam umas nas outras. Ou talvez como avassaladoras forças da natureza situadas em campos opostos e contidas por uma barreira sólida e intransponível. Na relação entre Ennis Del Mar e Jack Twist, a incompletude do amor se dava pela incapacidade de superar o preconceito – não apenas de uma sociedade reacionária e brutalizada, mas também do próprio íntimo. Em Desejo e Perigo, a barreira é a história, a caudalosa história da civilização, que traga qualquer individualidade e une e separa o senhor Yee e a jovem Wong, durante a ocupação japonesa na China, na Segunda Guerra Mundial. Yee faz parte do alto escalão do poder colaboracionista, que tem como principal função reprimir focos de rebelião contra os invasores e matar sem compaixão compatriotas envolvidos na luta armada. Um canalha, em suma, mas também um peixe grande, que deverá ser pescado pela espiã Wong, integrante de um grupo de estudantes ligados ao movimento subversivo.
Essa é a grande história. A pequena, que realmente interessa a Ang Lee, é a do desejo arrebatador, que vem antes do amor e é seu principal combustível. Yee e Wong estão em lados contrários no espectro político, mas quando se juntam são carne em brasa. Para ele, o sexo é uma espécie de libertação. Penetrar, praticamente violentando a amante, arrancando dela sangue e gritos, faz com que se sinta vivo e deixe por um breve tempo o lamaçal cotidiano no qual está permanentemente imerso. Não há alma em Yee, talvez apenas um espírito retorcido, esmagado pela brutalidade, mas que renasce com a chegada de Wong. Para ela, o sexo é um abismo, mas igualmente libertação: da rotina sem perspectivas, da ausência paterna, do olhar niilista sobre a vida. Louis Malle também já havia tratado da insanidade do desejo em Perdas e Danos, e Bertolucci tangenciou o assunto em O último Tango em Paris. Em todos, fica a certeza da incompletude. Não há futuro possível para Yee e Wong, para além das convenções sociais. São inimigos, e se ele a destrói fisicamente, ela corrói os resquícios de espírito que ainda se manifestavam nele. A chama se extingue. Dali por diante, Yee não será mais capaz de se emocionar com uma canção de amor entoada para ele pela mulher amada, nem de esboçar ternura ao vê-la colocando um diamante no dedo. Será um homem oco, cujo único propósito será matar, matar e matar. Até a grande história se voltar novamente contra ele, com a derrota japonesa e o fim da grande guerra.

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Desejo e Perigo não seria o magnífico filme que é sem seus protagonistas. Conhecia Tony Leung de Amor à flor da pele, Herói e outros trabalhos, e já tinha me dado conta de que é um ator na acepção clássica do termo. Mas Yee é uma construção soberba, e seria um reducionismo atroz defini-lo como um vilão. Há uma espantosa diversidade de sentimentos – terríveis e sublimes em igual medida – latejando por debaixo do seu olhar, como que pedindo para sair. Já Wei Tang – uma veterana em seu longa de estréia – dialoga de igual para igual com Leung, fazendo com que a escalada de Wong da inocência ao desalento comova e se insira de forma permanente em nossa memória. Regendo os dois, um diretor que merece respeito e admiração.

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Segue abaixo crítica de O segredo de Brokeback Mountain publicada no Correio da Bahia na época do lançamento do filme:

Um estudo sobre a infelicidade

Ang Lee imerge no amor impossível entre dois cowboys em ‘O segredo de Brokeback Mountain’

Paulo Sales

Há uma cena que simboliza de forma exemplar o sofrimento vivido pelos homens de O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, EUA, 2005). É quando Jack Twist (Jake Gyllenhaal) sugere a Ennis Del Mar (Heath Ledger) que eles poderiam ser felizes juntos, tocando a vida num rancho cheio de animais. Só os dois. Ennis rebate. Diz ser impossível. E lembra que, quando criança, foi levado pelo pai para ver um sujeito ser morto de forma violenta por ser homossexual e morar com o companheiro num rancho. Por fim, diz ao amante que não há muito o que fazer, que eles precisam continuar se encontrando secretamente, enquanto suas vidas desmoronam.

Quando esse encontro acontece, já na metade final da narrativa, Ennis e Jack são homens de meia-idade, casados e com filhos. Apaixonaram-se muito antes, ainda jovens, quando pastoreavam ovelhas na montanha Brokeback. Ao idílio inicial se seguiram a separação, os casamentos e as vidas em paralelo, intercaladas por encontros furtivos. Mais do que um romance gay ambientado no coração da América rural dos anos 60, o filme de Ang Lee é um estudo sobre a infelicidade. Ou, para ser mais preciso, sobre a impossibilidade do ser humano de encontrar, na sua curta passagem pela Terra, momentos que signifiquem algo além do nascer, crescer, envelhecer e ir embora.

Lançado inicialmente em poucas salas nos Estados Unidos, O segredo de Brokeback Mountain foi aos poucos conquistando o público, inclusive nos bolsões mais conservadores do país, a mesma região onde a trama é ambientada. Há uma provável razão para esse êxito: o filme é profundamente americano. Nele, se revela a América da música country, dos rodeios, da vastidão e das belas paisagens solitárias, desbravadas por homens rudes e mulheres submissas.

Não há espaço para o amor de Ennis e Jack nesse lugar. Um amor que se manifesta fisicamente, como na primeira separação, quando o personagem de Ledger se contorce de dor nas entranhas e esmurra uma parede por não conseguir reprimi-la. Marcados por uma infância de carências afetivas e materiais, ambos se vêem obrigados a construir uma imagem de masculinidade e autonomia que se torna insustentável com o passar dos anos. Casado com Alma (Michelle Williams, mulher do ator também na vida real) e pai de duas filhas, Ennis tem seu segredo logo descoberto pela esposa, que demonstra imensa dificuldade em lidar com a situação, agravada pelas dificuldades financeiras do casal.

Jack teve um pouco mais de sorte, ao menos no aspecto econômico, ao se casar com a filha de um homem rico e arrogante, que o trata como um serviçal. Fracassou como cowboy de rodeio e seu casamento é também um malogro, embora não tanto quanto o do amante. Mas, à medida que os dois precisam lidar com a própria homossexualidade, incluindo explosões de virilidade sempre que são feridos, fica evidente o quanto são frágeis. Sufocados por um amor que não ousa dizer o nome, para usar as palavras de Oscar Wilde, Ennis e Jack acabam confinados à amargura e ao desalento.

O afeto é a principal argamassa utilizada por Ang Lee para edificar sua história, baseada em conto da norte-americana E. Annie Proulx. Seu olhar sobre os conflitos vividos pelos cowboys é invariavelmente revestido de ternura e compreensão. Com esses elementos, o cineasta taiwanês subverte a mitologia criada ao longo de décadas em torno do western, assentada na bravura, na vingança e na lavagem da honra com as próprias mãos. Mesmo ambientado na segunda metade do século 20, quando a revolução sexual promovida pelo movimento hippie começava a invadir as grandes cidades da América, O segredo de Brokeback Mountain é embebido da atmosfera do gênero que celebrizou John Wayne. O país que se vê no filme está bem mais próximo dos tempos da conquista do oeste selvagem que do psicodelismo dos centros urbanos.

Parte dessa atmosfera se deve à soberba fotografia de Rodrigo Prieto, que capta as majestosas paisagens do Canadá, onde o longa foi rodado (substituindo o Wyoming original). Jake Gyllenhaal está impecável. Totalmente amparada no olhar, sua atuação é tão intensa que eclipsa o trabalho de Ledger. Este recorreu a uma interpretação de caráter naturalista, popularizada pelo lendário Actor’s Studio, a mais conceituada escola para atores dos EUA. É impossível não perceber semelhanças com o trabalho de Marlon Brando (principal cria da entidade fundada por Elia Kazan) em O poderoso chefão, sobretudo na fala engasgada. Mas com a diferença de que o discípulo dificilmente atingirá a estatura do mestre.

O tema da homossexualidade já havia sido tratado por Ang Lee - com o mesmo grau de sutileza, embora de forma mais amena - em O banquete de casamento. Outros filmes do diretor, como Razão e sensibilidade, Tempestade de gelo e mesmo um trabalho de entretenimento como Hulk, também imergiam, em maior ou menor medida, na inadequação dos personagens ao meio em que viviam. Mas O segredo de Brokeback Mountain vai mais longe. A frustração, o desnorteio e a desesperança de Ennis e Jack produzem um travo amargo. Principalmente porque deixam claro que na vida, ao contrário do que se pode pensar em instantes de felicidade passageira, não existe espaço para a redenção.


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Receita para fazer um vilão


Acabo de ler uma reportagem que relata os crimes de Hildebrando Pascoal, aquele sujeito que lá no Acre tinha o costume de se armar de uma motosserra para dar cabo de seus desafetos ou qualquer um que cruzasse indevidamente o seu caminho. A trajetória de Hildebrando é exemplar: nos anos 80, ele comandou um grupo de extermínio responsável por mais de 60 assassinatos no estado – foi nessa época que se diplomou com louvor no curso de operador de motosserra – e pouco depois já manejava seus tentáculos por todo o poder público acreano, além de diversificar seus negócios com o tráfico de drogas. Isso antes de ser eleito deputado federal, o que acabou coroando uma carreira em franca ascensão. Mas depois de todo auge vem a derrocada: hoje ele está preso, e a soma de suas penas chega a 106 anos. Entre tantos crimes, o mais conhecido foi o assassinato de um homem inocente e de seu filho de 13 anos. Repito: 13 anos. Para isso, utilizou seu instrumento favorito, com o qual amputou braços, pernas e pênis. Não foi tudo: o homem ainda teve os olhos arrancados e um prego enfiado na testa, antes de receber no mínimo quatro tiros na cabeça. Sua viúva, que testemunhou contra Hildebrando no Tribunal do Júri do Acre, vive escondida com os outros filhos do casal em paradeiro desconhecido, após ter fugido apavorada de Rio Branco. Não reproduzo esses detalhes por prazer mórbido, mas para tentar exorcizar o sentimento de impotência e indignação que me toma como uma febre. E, também, para repensar minhas convicções e dividi-las com quem lê este texto. Afinal, o que merece um homem assim? Devemos nos igualar ao nobre deputado Hildebrando e cortá-lo em pedacinhos? Matá-lo com instrumentos perfurocortantes em meio a um discurso verborrágico, como um personagem de Tarantino? Deixar que apodreça na cadeia? Ou aceitar passivamente que no Brasil as leis só permitem a um condenado passar no máximo três décadas encarcerado? Deixo com vocês.
O que mais me intriga em casos como o de Hildebrando Paschoal é de que forma pessoas como ele – estúpidas, embrutecidas e intrinsecamente más – conseguem acumular tamanho poder, afora o fato de exercerem o terror em escala industrial como estratégia de intimidação. A verdade é que o mal seduz e inebria, e a trajetória humana sobre a Terra está aí para comprovar isso. Ou que outra justificativa haveria para que milhões de seres humanos aceitassem passivamente que um homem, apenas um, ordenasse e pusesse em prática um genocídio? Com sua motosserra covarde, Hildebrando é apenas uma piabinha no oceano habitado por grandes vilões da civilização, que tem em Hitler o mais corpulento dos leviatãs que já singraram esses mares. Hitler, porém, não está sozinho. Nem preciso ir até a estante e consultar um livro intitulado Tiranos para citar de cor nomes como Pol Pot, Pinochet, Stálin, Milosevic, Hussein e Idi Amin, para ficar apenas no século 20 e nos mais altos postos de comando. Como eles chegaram a tanto? E, numa escala reduzida (não de perversidade, obviamente), como Hildebrando pôde chegar a tanto, mesmo matando, torturando, aterrorizando e intimidando tanta gente? Ou seria exatamente por isso que ele chegou a tanto? Não há um padrão, um molde preciso para o êxito do mal, embora a apatia, a indiferença e o medo sejam talvez os principais ingredientes dessa receita – ingredientes fartos na maior parte do mundo, vale ressaltar. Enfim, as perguntas que me faço a cada dia, a cada novo fato repulsivo que salta dos jornais e das telas de computador, são sempre as mesmas. De onde vem o mal? Qual é a sua natureza? Como ele se processa em nossos corações e mentes? Que tipo de centelha permite que ele deixe o estado latente e se manifeste? Por que é tão poderoso? Penso que nem Hildebrando, no exato momento do abate de inocentes, seria capaz de respondê-las.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Companheiros de geração


Cazuza tinha 32 anos quando morreu, em 1990. Eu estava com vinte na época, e ter 32 anos me parecia algo remoto, como um ponto vagamente luminoso no céu escuro. Renato Russo morreu em 1996, aos 36 anos. Eu estava com 26 e, mesmo nessa época, ter 36 anos me parecia algo distante, como um lampejo do que queríamos ser quando éramos adolescentes. Mas agora, ao ler o texto de um amigo sobre John Lennon, me dei conta de que ele morreu aos 40 anos. E esse número não me remeteu a um ponto vagamente luminoso ou mesmo a um lampejo do passado. Lennon morreu com a idade que terei daqui a quatro meses. Percebo então, com a clarividência dos ignorantes, o quanto somos novos, por mais que o relógio insista em dizer a cada segundo, como num filme de Mario Peixoto: “Menos um, menos um, menos um”. Quase três décadas após sua morte, nos tornamos enfim, Lennon e eu, companheiros de geração. Enquanto eu dei a sorte de caminhar sem olhar para trás, as quatro balas que se alojaram em seu corpo fizeram dele uma estátua de sal, como na maldição divina imposta à mulher de Ló, que se virou para contemplar a Sodoma destruída.

Lembro de uma cena em Antes do Amanhecer que até hoje me comove: é quando Céline está com Jesse num cemitério em Viena que ela havia visitado quando criança, e lá vê o túmulo de uma garota morta aos 13 anos. Enquanto Céline chegou aos 20, a garotinha permanece com 13. Ou seja: algo muito precioso lhe foi roubado. Como foi roubado de Lennon quando Mark Chapman descarregou o revólver em cima dele. Já escrevi aqui no blog uma bela frase de Scott Fitzgerald, na qual ele diz: “Aos 18 anos, nossas convicções são colinas de onde contemplamos o horizonte; aos 45, são cavernas em que nos escondemos”. Bem, vou fazer 40 anos, e ainda não me vejo encerrado numa caverna, embora as minhas convicções estejam em grande parte sedimentadas de forma definitiva num maciço geológico. Duvido que tenha sido diferente com Lennon. Em dezembro de 1980, pouco antes de se virar para atender ao chamado do seu assassino, o mundo devia se apresentar para ele como um sofisticado e bem equipado laboratório de experiências existenciais. Ou, para ser mais direto, um lugar do qual ele não gostaria de se despedir tão, mas tão cedo.

sábado, 3 de outubro de 2009

Plenitude

A lua gorda e branca banhando o meu corpo, a rede e a varanda neste início de noite. O vento frio nos meus pés e no meu peito. Um avião passando com luzes vermelhas e azuis. A lembrança de um período particularmente feliz da minha vida. E a voz de anjo de Teresa Salgueiro cantando: “Eu tenho um amor bem escondido, num sonho que nem sei contar, e guardarei sempre comigo”.

“À vida falta uma porta”


É possível entender a morte como uma conseqüência da vida. Um curso tão natural quanto o do rio que deságua numa cachoeira ou no mar, se perdendo a partir daí. Essa passagem compulsória que todos fazemos de um estágio para o outro – um plano superior para a maioria, o nada para uns poucos – é tratada com placidez e a delicadeza inerente aos orientais em A Partida. Não que o filme de Yojiro Takita descarte a catarse que acompanha o dramático ritual de despedida entre os que ficam e os que vão. Ela está lá, claro, mas não se constitui num estorvo, e sim num processo de autoconhecimento e descoberta de sentimentos obscuros, trancados há muito tempo em algum canto de nós. O deparar-se com a morte se torna, enfim, uma espécie de compreensão silenciosa da condição humana, e é legítimo pensar a vida como uma epopéia particular com início, meio e fim.

Mas, então, o que pensar quando a epopéia não se completa? Quando a vida é abruptamente retirada de um corpo ainda em formação e não preparado, portanto, para o fim? Toda a harmonia que poderia existir se pulveriza quando há uma ruptura no curso natural das coisas. Ao ler nos jornais tantos casos de assassinatos, muitos deles envolvendo crianças como o bebê baleado em Osasco, sinto um irreprimível sentimento de vazio, de ignorância em relação à minha condição de ser vivo. Como um improvável Silvio Brito eu grito em silêncio: pare o mundo que eu quero descer. Olho o meu corpo, as mãos que escrevem este texto, as veias sob a tênue camada de pele, os pelos, a respiração, a textura do rosto. Está tudo aqui, mas um dia vai sumir, junto com a minha consciência. Como entender e, principalmente, aceitar isso? Afinal, eu não sou um rio.

Ferreira Gullar já escreveu que “não há soluço maior que despedir-se da vida”. É o nosso choro mudo, nossa revolta derradeira. Gullar diz muito mais. Diz que “à vida falta uma porta” ou que “onde a vida cessou começa o abismo”. Muito mais velho e sábio do que eu, ele tateia da mesma forma no escuro, buscando uma explicação, ínfima que seja, para a tragédia de se extinguir. E – talvez por ignorância ou pela incapacidade de pensar como um oriental – ele também não consegue enxergar beleza na ausência.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bonzinhos e maldosos


Nada como uma sociedade reacionária e estulta para permitir o florescimento de anomalias comportamentais e culturais. No caso específico da nossa era, uma dessas anomalias é a disseminação do politicamente correto. Vivemos uma avalanche de conservadorismo e pretenso bom-mocismo, e é nesse território pálido e amorfo – e, por isso mesmo, confortável – que germina o excesso de pudor, minando o surgimento e o intercâmbio de pensamentos originais e radicais – no bom sentido, é claro. Philip Roth reflete sobre isso de forma aguda em A Marca Humana, sobre um professor decano de uma universidade tradicional americana que é demitido após se referir a dois alunos faltosos como “spooks”, termo que em inglês significa tanto “fantasmas” quanto “negros”. Um detalhe: ele não sabia que os alunos eram negros nem que a expressão tinha esse segundo significado.

Mas não queria ficar aqui apenas condenando o politicamente correto, e gostaria de tentar entender o processo que levou à sua proliferação. Deve-se, antes de tudo, tratá-lo como um legado amargo do século 20 – e, em menor medida, dos que vieram antes dele. Por mais hipócrita que seja, todo esse cuidado no trato com a diferença e as minorias talvez seja uma pedido inconsciente de desculpas. Ou seja, tentamos reparar com eufemismos o que fizemos com balas. É difícil concordar com a prática de evitar ou censurar expressões como “humor negro” ou “judiar” para não ferir suscetibilidades das etnias a que elas remotamente se referem. Mas, de certa forma, essa prática não é compreensível?

Por outro lado, a aversão ao politicamente correto vem provocando um efeito colateral igualmente indesejável: apreciar tudo que vai de encontro a ele. Como se ser politicamente incorreto – incluindo aí emitir opiniões racistas, sexistas ou puramente polêmicas, mesmo que vazias – fosse um antídoto para a mesmice, um comportamento de guerrilha contra o status quo. Esta semana, li no blog do repórter Geneton Moraes Neto uma entrevista com o historiador Paul Johnson, na qual ele desfila uma sucessão de sandices sobre tudo quanto é assunto, de religião a arte moderna. Ao ler os comentários dos leitores, vi que quase todos saudavam Johnson como o legítimo combatente de uma cruzada contra o politicamente correto. E por quê? Porque ele disse, entre outras coisas, que Picasso foi um artista medíocre por ter sido stalinista, e que sua obra não tinha um propósito moral, como toda arte deve ter. Mas por que toda arte deve ter um propósito moral? Um propósito estético certamente, mas um propósito moral?

Engraçado que o blog traçou um paralelo entre Johnson e o finado jornalista Paulo Francis, pela forma como ambos expressam suas opiniões polêmicas de forma destemida, enfrentando a tudo e a todos. Bobagem. Francis foi um excelente articulista, capaz de tratar de temas espinhosos com um coloquialismo sedutor, e também um memorialista arguto e sensível, como se pode comprovar em O Afeto que se Encerra e Trinta Anos Esta Noite, dois livraços. Isso era o que ele tinha de melhor (o que é muito), e não a tendência a emitir de tempos em tempos opiniões descabidas e preconceituosas que minavam sua credibilidade. Vejo uma coisa parecida na forma como alguns cronistas saudam um filme como Brüno, de Sacha Baron Cohen, que seria um petardo contra o politicamente correto. Petardo? Qual o valor prático de fazer piadinhas gratuitas sobre autismo e discriminação racial? O pior é que o filme ainda é chato, bobo e extemporâneo – o pessoal do Planeta Diário e da Casseta Popular fazia o mesmo com mais competência vinte anos atrás. Enfim, para ter incorreção é preciso ter substância, ou ficamos apenas na vala comum da ofensa gratuita.

sábado, 26 de setembro de 2009

Devoção


Aos 16 anos eu ansiava por inconformismo. Buscava nos livros algo que referendasse intelectualmente o meu pendor incipiente pelo discurso de igualitarismo do mundo em vermelho – mundo que se esfacelaria de vez um punhado de anos mais tarde, levando a reboque minhas tolas aspirações. Foi por essa época e com esse objetivo que encontrei Bertolt Brecht. Não o dramaturgo, mas sim o poeta, que acabou camuflado pelo êxito de peças como A Ópera dos Três Vinténs e O Círculo de Giz Caucasiano. Brecht foi uma revelação para aquela mente adolescente. E o curioso é que não foram seus poemas engajados que me pescaram, mas os outros, aqueles poucos que habitam o início e o fim de uma alentada antologia lançada pela Brasiliense, que abarcava os anos de 1913 a 1956, quando ele partiu para seu exílio derradeiro. Esses versos eram arrebatadores, atulhados de lirismo e movidos por um senso de justiça muitas vezes ingênuo – como o meu de então. Passei a escrever como Brecht (o que percebo nitidamente quando releio meus poeminhas de juventude) e falava dele para meus amigos com um entusiasmo religioso.

Engraçado como quase esqueci tudo isso. Durante muito tempo, o máximo que li do livro foi sua lombada, ao me deparar acidentalmente com ele enquanto procurava outro volume na área dedicada à poesia. Até que na semana passada resolvi tirá-lo do abandono e dar uma folheada carinhosa nele – agora com as páginas empalidecidas e empoeiradas – como se fosse um velho álbum de retratos. E por incrível que pareça, consegui enxergar a mim mesmo, aos 16 anos, enquanto consumia as páginas com um misto de espanto e revelação. Novamente, passei ao largo dos poemas com títulos grandiloqüentes – “Quando o Pintor Fala Sobre a Paz Através dos Auto-Falantes”, “Trezentos Cules Assassinados Depõem a uma Internacional”, “Perguntas de um Trabalhador que Lê” – e me fixei no resto:

“Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!”
(“A Minha Mãe”)

Ou

“Agora minha mãe morreu, ontem no fim de tarde,
dia 1º de maio! Não é mais possível arranhá-la com as
unhas.”
(“Canção de Minha Mãe”)

Ou

“Numa noite fria, nessa terra crua
Cada qual leva a morte que é sua.
Cada homem certamente amou a vida
Coberto por palmos de terra batida.”
(“Da Amabilidade do Mundo”)

Mas mesmo entre os poemas ditos revolucionários existem coisas lindas. Como A Despedida, por exemplo:

“Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
Permanente amizade.
Todo o resto
Seria amargo demais.”

Reconheço que não há, nem nos trechos acima nem em nenhum outro poema do livro, um grande verso. Brecht não foi um Eliot, muito menos um Pound. Sua poesia não é ourivesaria e nem pretende ser. Mais do que lapidar versos, seu objetivo sempre foi lapidar consciências, e talvez por isso tenha sido tão importante num período crucial da minha vida. Passados mais de vinte anos, deixei de lado conceitos como mais-valia, dialética e materialismo científico (se é que algum dia realmente os levei a sério ou os entendi direito). Mas, felizmente, não deixei de lado a capacidade de me assombrar, de sentir uma navalha cruzando meu coração ao ler um verso como “Sabemos que somos fugazes. E depois nada virá, somente poesia”.

Agora os poemas de Brecht voltarão à estante. Para, quem sabe, daqui a vinte anos eu me deparar com uma nova epifania.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Onde estará Maurício Ribeiro?


Você está dormindo sossegado com sua mulher em seu quarto. Quem sabe sonhando com uma promoção no emprego ou uma praia deserta, sentindo inconscientemente a maciez do travesseiro no rosto e o conforto do colchão king-size recém-comprado suportando bem o peso do seu corpo. Lá pelas cinco e meia da manhã, o dia começando a dar as caras, vocês acordam sobressaltados ao ouvirem a porta do quarto ser arrombada. Em seguida, entram vários homens armados com pistolas e metralhadoras que passam a ameaçá-los violentamente, perguntando por um tal de Maurício Ribeiro. Você conhece algum Maurício Ribeiro? Nem eu. Assim como um casal que mora no Bairro no Paz (uma das muitas favelas de Salvador dominadas pelo narcotráfico) também não conhece. Mas, ao contrário de mim e de você, que acordamos hoje com uma preguiça gostosa e levantamos para trabalhar, esse casal teve realmente a casa e o quarto arrombados por um grupo de homens truculentos, que perguntavam a todo instante sobre o tal Maurício Ribeiro. Com um detalhe: esses homens, devidamente uniformizados, estavam ali numa missão chancelada pela Secretaria de Segurança Pública. Não eram ladrões ou traficantes.

O que aconteceu com esse casal, que não quis se identificar ao dar seu depoimento para a repórter de um jornal local, desvela um pouco – mas só um pouco – da guerra civil de proporção quase africana em que vivemos. Uma guerra na qual as trincheiras são os amontoados de casas com tijolos aparentes que insistem em aparecer em todos os cantos da cidade. "Nunca fomos assaltados no bairro e somos vítimas de uma violência cometida pela própria polícia", desabafa a moça que teve a casa invadida, dando a deixa para a gente se perguntar: é justo viver assim? Ou melhor, é humano viver assim? Que inversão de valores é capaz de produzir tamanho disparate? Mesmo levando em conta que policiais vivem um cotidiano permeado por situações-limite, são mal pagos, mal aparelhados, mal treinados e malvistos pela população, como entender um procedimento assim, ainda mais em se tratando de uma regra, não de uma exceção?

Quando isso acontece os valores se pulverizam. Se aos olhos de um menino da favela o policial é o bandido, então sua visão de mundo se distorce, e não há senso de justiça plausível, a não ser o da bala disparada, não importando em qual corpo ela venha a se instalar. Numa realidade assim, a tragédia de ser pobre não é ter que se virar diariamente para pagar a conta do mercadinho, arrumar emprego ou conseguir um teto. É ter que negar o tempo todo, para si mesmo e para os outros, que ele não é um bandido. Pobreza não é sinônimo de má índole, embora, num lugar onde elas andam geograficamente irmanadas, seja cômodo pensar assim. Ao menos facilita a vida de quem vai invadir a favela à procura de traficantes. Enfim, é nessa cidade que vivemos. Uma cidade que se assemelha a um gigantesco depósito de pólvora a céu aberto. E – basta lembrar do que aconteceu em Santo André na manhã de ontem – a gente sabe bem o que pode acontecer quando se estoca muita pólvora num só lugar.

domingo, 20 de setembro de 2009

Devastação


O que se vê em Lóki é basicamente uma trajetória clássica de ascensão e derrocada, seguida de um tardio esboço de redenção. Mas o que mais me impressionou no documentário de Paulo Henrique Fontenelle, a que só fui assistir ontem, foi a forma brutal e abrupta com que a juventude se viu extirpada da vida de Arnaldo Baptista. As imagens são dilacerantes: primeiro o garoto expansivo, brincalhão e curioso, novo e ingênuo demais para enfrentar as engrenagens que movem o meio musical e incapaz de abarcar as contradições da época em que vivia – no caso, a de um país assolado pela truculência. E depois, quando o fim do relacionamento com Rita Lee e o mergulho estúpido no ácido lisérgico fulminaram a sua inocência, um rapaz ainda novo demais, só que agora devastado pela tristeza e tragado pela insanidade.
A cisão entre esses dois Arnaldos, separados por um curtíssimo espaço de tempo (embora semelhante a uma pequena eternidade), é o cerne do filme. Ninguém prossegue incólume após perder a juventude de uma hora para outra. Precisamos de um processo lento e contínuo, no qual as experiências dos primeiros anos vão sendo sedimentadas pouco a pouco, nos permitindo abraçar com clareza e alguma resignação as desilusões, perdas e descobertas que acompanham a chegada da maturidade. No seu caso, a perda instantânea da juventude ainda o privou da pessoa que amava e, de quebra, da lucidez, num processo que talvez se assemelhe à sensação de ficar paralítico ou cego após um acidente. É muito, enfim. Sua obra – que considero superestimada – reflete dramaticamente essa mudança. Aquelas canções ao piano, de uma tristeza comovente, deixam evidente que o passado não tinha se tornado passado. Estava ali a assombrá-lo permanentemente, como um sonho que não acaba nem arrefece. É possível que o passar dos anos – a queda, o coma e em seguida a abnegação de uma pessoa capaz de amá-lo incondicionalmente – tenha acabado por formar uma fina camada de cicatrização. Mas a ferida está lá. Basta olhar para o seu rosto e ouvir a sua voz para perceber isso.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Eu não te amo, meu Brasil


O nacionalismo é um conceito que não me agrada. Não compartilho da exaltação à nossa pretensa superioridade nos âmbitos esportivo, cultural ou de belezas naturais, tão disseminada na nossa classe média, e sempre tenho um pé atrás com manifestações tolas e difusas de patriotismo. Afinal, a gente sabe muito bem até onde pode ir uma nação que pratica o ufanismo e a xenofobia. Dois textos que li recentemente no blog de um amigo (http://verbotransitivo.blogspot.com) me fizeram pensar um pouco nessa espécie de nacionalismo que uma grande parcela dos brasileiros faz questão de explicitar em certas ocasiões. Um deles condena a torcida burra para que a seleção da Argentina fique de fora da próxima Copa do Mundo, o que pode realmente acontecer. Criamos, sobretudo ao longo dos últimos 20 anos, uma percepção distorcida sobre o caráter e a personalidade dos nossos vizinhos – invariavelmente estereotipados como malandros, milongueiros e desleais –, acentuada pela forma como o principal narrador da principal rede de televisão do país lança mão de um maniqueísmo imbecil para forjar a uma pretensa rivalidade entre nós e eles. Uma bobagem, em suma. Quando estive em Buenos Aires, os argentinos me pareceram corteses e simpáticos, inclusive quando falavam de futebol, que eles entendem e praticam tão bem quanto nós. Mas é aquela velha história: entre o fato e a lenda, imprima-se a lenda.
O outro texto que li reproduz e analisa a coluna do jornalista Mauricio Stycer no Portal do iG (http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/), e versa sobre o comportamento do público num show, em São Paulo, da banda Beirut, que havia feito uma versão descontraída da musica O Leãozinho, de Caetano Veloso. Pelo pouco que ouvi, essa banda me parece um sopro de vitalidade em meio ao modorrento cenário pop contemporâneo, com uma mistura inusitada e divertida de influências musicais do Leste Europeu e do México. Mas sabe o que o público queria ouvir de qualquer jeito, e pedia o tempo todo para que a banda tocasse? O Leãozinho, é claro. Com a palavra, Stycer: “Não canso de me espantar com esse comportamento. Por que alguém vai a um show de um artista estrangeiro e passa 60 minutos pedindo para ele cantar 'Leãozinho'? Por que o público fica tão feliz de ver o músico repetir algumas palavras que decorou em português? Qual é a graça de ver um estrangeiro 'abraçar' a bandeira do Brasil?
O próprio Ricardo, autor do blog, prossegue: “O que dizer de um país que precisa ver um gringo enaltecer contra a vontade a arte local? Não é nem necessidade, é compulsão.”
Acrescento que esse comportamento revela, por outro lado, uma escassez tremenda de espelhos. Não temos em quem nos mirar, e talvez por isso sentimos essa necessidade de enaltecer o que teoricamente temos de mais valoroso. Mas por que precisamos manifestar toda essa paixão por um país que nos dá tão pouco? Não sinto qualquer orgulho quando vejo um esportista brasileiro ganhar uma medalha ou um torneio, seja no vôlei de praia, no tênis ou no atletismo, embora não desmereça essas conquistas. A verdade é que pouco me importa que nação aquele atleta representa. Outro dia, a revista Veja estampou a seguinte manchete para falar da conquista do nadador César Cielo no mundial de natação: “Enfim, um herói”. Um vencedor? Sem dúvida. Um candidato a ídolo? Provavelmente. Mas herói? Estamos tão mal assim? Ou estamos apenas nos mirando nos espelhos errados? Pensando bem, temos, sim, heróis, mas eles são outros. Heróis trágicos, como um Euclides da Cunha, por exemplo, que se embrenhou no Brasil profundo para tentar entendê-lo, deixando, mesmo que precocemente, uma obra maiúscula. Ou heróis anônimos, como um taxista que presenciou um rapaz ser assassinado por uma BMW que avançou o sinal vermelho a 150 km/h e foi atrás dela, anotando a placa e denunciando o fato à polícia, que prendeu e soltou o assassino após o pagamento da fiança. A justificativa do taxista: “Fiz o que fiz para poder continuar vivendo sem ter do que me envergonhar perante meus três filhos”. Simples assim. Como ele, tem muita gente de carne, ossos, nervos e dignidade praticando atos silenciosos de heroísmo país afora. Mas esses são espelhos turvos, opacos, sem brilho, e não queremos nos ver refletidos neles.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Mergulho na zona cinzenta



“Eu tinha esperança de que aquele marco de estupidez fosse o fundo do poço em termos de violência, e que se tomasse consciência de que existem outros caminhos. O que a gente vê é que foi um marco para a banalização da violência.”

Ivan Fairbanks Barbosa, pai de um dos brasileiros mortos no ataque ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001.


Três anos antes dos atentados que destruíram o World Trade Center, eu subi ao topo de uma daquelas torres, não lembro agora qual. Soprava um vento frio de outono e a visibilidade era um pouco turva, mas dava para ver, descortinados à minha frente, o mar de prédios de Manhattan lá embaixo, como numa maquete, e as pontes que ligam a ilha ao Brooklyn e ao continente. Era uma construção maciça, retangular, sem a elegância esguia do Empire State, mas mesmo assim um portento de aço, vidro e concreto. Aquilo definitivamente não tinha sido feito para cair. Naqueles dias, não existia medo em Nova York. Afinal, não tínhamos chegado ainda ao novo século e vivíamos num limbo pós-século 20, encerrado prematuramente em 1991, segundo Eric Hobsbawm, com o esfacelamento da União Soviética. Nada, nem as apocalípticas e hiper-realistas previsões dos filmes-catástrofe de Roland Emmerich, poderia levar a crer que o mundo entraria de modo tão brutal no século 21, como de fato entrou no dia 11 de setembro de 2001.

Talvez por tudo isso – pelo inesperado de um ato terrorista daquelas proporções, pela solidez inconteste (embora ilusória) daqueles prédios, pela imagem aterradora dos aviões mergulhando nos paredões –, esses atentados até hoje provocam tamanha perplexidade. Passados oito anos, como reprimir o pasmo frente à nova geopolítica da barbárie que se desenhou para além da fumaça das torres desabando e concebendo um imenso caixão coletivo, onde foram enterrados milhares de seres humanos? Lembro bem da minha reação ao ver as primeiras imagens, que pareciam uma animação grosseira em 3D: “É claro que os prédios não caíram, aqueles prédios não caem”. Ainda hoje penso nas pessoas atemorizadas dentro dos aviões que sobrevoavam Manhattan. Algumas até devem ter pensado: “Bem, eles vão descer no JFK ou em Newark e exigir alguma coisa em troca de nossa libertação. Mais ou cedo ou mais tarde isso termina”.

Numa entrevista a que assisti hoje na TV UOL, o diretor teatral Gerald Thomas, que presenciou os ataques, define a Nova York pós-atentados como “uma cidade amputada”. Não voltei mais lá, infelizmente, mas acredito que seja uma metáfora adequada. Impossível para os habitantes não sentir na carne aquela perda, algo muito próximo, talvez, do incômodo que os amputados sentem na perna que não têm mais. E o que parecia o fundo do poço, como imaginou Ivan Fairbanks Barbosa no depoimento reproduzido no início deste texto (também retirado da matéria da TV UOL), se constituiu na aurora de uma nova era. Um período de desrazão, estultice e violência exacerbada de parte a parte. Firmou-se assim, a partir de setembro de 2001, um suposto embate entre civilização e barbárie, que mobilizou intelectuais, escritores, políticos e outras personalidades, cada um marcando terreno com sua urina ideológica. O problema é que neste caso, ao contrário da contenda envolvendo Eixo e Aliados na Segunda Guerra, não existe um lado escuro da força. Civilização e barbárie não ocupam lados opostos, até porque há mais semelhanças que diferenças entre as ações de George W. Bush e as de Osama Bin Laden. Ambos freqüentam uma zona cinzenta habitada por interesses escusos, fanatismo, paranóia, desprezo pelo outro e exploração da ignorância. Um território refratário a boas intenções ou atos heróicos, habitado exclusivamente pela covardia.

A conseqüência, de qualquer forma, é que nunca ocidente e oriente estiveram em planos tão opostos. Nem mesmo na Guerra Fria havia menosprezo mútuo tão intenso. Os americanos odiavam os comunistas russos – e vice-versa – por serem comunistas, não por serem russos. Hoje o ódio recíproco é antes de tudo étnico. Uma categoria de ódio muito mais difícil de ser extirpada dos corações e mentes envolvidos. É fato, também, que os norte-americanos reagiram com uma ira que beirou a insanidade, apesar de terem razões justas, como haviam feito na Segunda Guerra com os japoneses (ninguém me convence de que as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram uma decisão militar racional para pôr fim à guerra e evitar mais mortes. Aquilo foi uma vingança desproporcional ao ataque de Pearl Harbor).

O chato de tudo isso é que o mundo ficou mais perigoso. Viajar para a Europa e os EUA virou um suplício. Ser estrangeiro nesses lugares também, principalmente se você carrega feições ou sobrenomes suspeitos. Se já eram quase insuportáveis no passado, países como Iraque, Irã, Israel, Afeganistão e Líbano ficaram ainda piores, e não há sinal de melhora no horizonte. Um alento, se é que se pode chamar assim, é que o ocidente parece disposto a dialogar, afinal Bush e sua corja foram tardiamente banidos da Casa Branca e no lugar deles entrou um homem ao que parece decente e de pensamento pluralista. No oriente, porém, o sectarismo belicista e a intolerância permanecem. São chagas milenares, recentemente despertadas, e não vai ser fácil encontrar a canção de ninar que as faça dormir de novo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sobre homens e trilobites


Certa vez, li numa matéria que se fosse possível condensar a idade da Terra – aproximadamente 4,5 bilhões de anos – em apenas um dia, a espécie humana teria direito a quatro minutos de existência. Ou seja, nós surgimos como espécie só nos quatro últimos minutos de vida da Terra. Mais precisamente, às 23h56. Antes disso, nada. Somente répteis gigantes (os dinossauros teriam vivido cerca de uma hora de todo esse tempo), preguiças enormes, tubarões e vegetação maciça. E mesmo assim só lá no fim da noite, se não levarmos em conta os trilobites e microorganismos – nossos tataravós – que, com seu pioneirismo, deram início a tudo isso que está aí. Na maior parte do tempo, o planeta foi só uma cobaia de si mesmo: eras glaciais, vulcões em profusão, aquecimentos globais poderosos, maremotos e tempestades de meteoritos que castigavam nossa superfície. Em vez dos cinco continentes, um só: Pangéia. Em vez de cidades, trânsito e poluição, paisagens desoladas lentamente substituídas por belezas naturais arrebatadoras.
Mas onde quero chegar com esse papo de quem acabou de ler uma Superinteressante? Não sei. Talvez a uma resposta para questionamentos bem mais triviais e menos grandiosos que a idade da Terra ou a origem da vida. É possível, por exemplo, que o nosso – relativamente – pouco tempo no planeta explique em parte o que fazemos com ele. Ou o que fazemos às outras espécies, animais e vegetais. Ou, principalmente, o que fazemos a nós mesmos. Com um pouco de curiosidade e um tantinho mais de educação formal, é possível chegar às informações que elenquei acima. Informações superficiais, sem dúvida, mas suficientes para permitir que nos confrontemos com o abismo da nossa própria existência, com todas as suas limitações e contradições. Por que então optamos, muitas vezes de forma deliberada, pela ignorância? Somos seres complexos, biologicamente e intelectualmente falando, mas optamos por nos comportar como... trilobites.
É provável que a maciça maioria da população humana desconheça quase por completo o fato de que, geologicamente falando, estamos há pouquíssimo tempo no planeta. Ou de que somos fruto do acaso ou mesmo de que morremos como formigas, num simples estalo, sem que até hoje algum cientista tenha conseguido reanimar sequer o mais primitivo dos animais quando ele suspira pela última vez. O tamanho da nossa insignificância ainda é imensurável para muita gente. Erramos como nômades e nos reproduzimos como coelhos, reféns de seitas difusas, crendo por comodismo na possibilidade impalpável da vida eterna, aguardando uma redenção que não chega. E, talvez por acreditarmos nessa redenção, permanecemos confortavelmente alheios ao que nos cerca. Não sabemos, para além dos clichês, o que significa aquecimento global ou efeito estufa, nem sequer entendemos por que tanta celeuma por causa de uma florestinha dizimada ou um macaquinho extinto.
Se não me engano, foi Mario Quintana quem escreveu uma anedota genial, na qual dizia: o homem vem do macaco, e pelo comportamento de certos homens, percebe-se que alguns ainda estão vindo. Involuntariamente, é possível que ele tenha encontrado a chave que desvenda o nosso percurso. Ainda estamos nos desvencilhando do homem primitivo que persiste em nós, e isso leva tempo. Somos uma espécie em franca evolução biológica, embora nada indique que exista também uma evolução intelectual, moral e comportamental em curso. Pode ser que daqui a alguns séculos não tenhamos mais apêndice, mas é justo supor que permaneça em nós o instinto atávico de destruir. É possível que ele faça parte do nosso código genético, como o pendor por ruminar faz parte dos bois e a predileção por dilacerar faz parte dos felinos. Sendo assim, os poucos que reprovam a destruição em massa seriam na verdade genes recessivos. Uma pequena multidão de albinos e canhotos a postergar, com seus discursos ecochatos, a nossa missão primeva na Terra: tornar o planeta tão inabitável quanto era há 4,5 bilhões de anos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

“A minha alucinação é suportar o dia-a-dia”


É bem provável que nem Belchior, muito menos Vanusa, tenham apreciado a forma como deixaram esta semana o incômodo território do ostracismo para voltar ao centro dos holofotes. Ao contrário de outras pessoas, fiquei constrangido ao ver as imagens que mostram a cantora, aparentemente embriagada, tentando agarrar inutilmente a melodia e a intrincada letra do hino nacional num evento da Assembléia Legislativa de São Paulo. Ela alegou mais tarde que um remédio para labirintite provocou a confusão mental responsável pela execução desastrada, que teria repercussão bem menor caso não estivéssemos em plena era do You Tube. Lembro vagamente de Vanusa no auge da fama (ou de algo próximo disso) cantando Paralelas, sucesso de autoria justamente do outro personagem da semana.

Supostamente desaparecido há dois anos, como noticiou uma reportagem do Fantástico na semana passada, Belchior reapareceu ontem em cadeia nacional numa pousada no Uruguai, onde está vivendo com a mulher. Seu sumiço, comentado invariavelmente em tom jocoso, suscitou uma série de brincadeiras, incluindo montagens de Photoshop na internet e piadinhas infames, mas não lembro de ter visto em nenhum lugar qualquer informação relevante sobre a sua obra. Uma obra que acima de tudo merecia mais atenção e respeito, por mais que o tempo e a decadência artística a tenham esmaecido a ponto de torná-la um ponto obscuro nesta primeira década do século 21.

Comecei a gostar de Belchior na adolescência, influenciado por meu irmão mais velho, que vivia comprando seus discos. Era uma espécie de bardo ligeiramente exótico, com voz fanhosa e bigodão de mariachi, mas nem por isso um bardo menos talentoso. Seus versos, lá pelo final dos anos 70, eram precisos e inspirados, com forte acento social, que faziam lembrar o Dylan acústico de Mr. Tambourine Man e The times they’re a-changin’. Para comprovar, basta lembrar de frases como: “A minha alucinação é suportar o dia-a-dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais”. Ou: “Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração”. Ou ainda: “Como uma metrópole o meu coração não pode parar. Mas também não pode sangrar eternamente”. Ou muitos, muitos e muitos outros versos que denotavam uma erudição rara e uma sensibilidade sem meio-termo.

Belchior era fruto de tempos duros, de uma época de contestação num país rude e belo, que ainda transitava entre o arcaico e o moderno, mais ou menos como vimos em Bye bye Brasil, de Cacá Diegues. E, acima de qualquer coisa, era um artista comprometido com a realidade desse país, que retratava com agudeza em suas canções. Talvez por isso, sua reaparição, nesta era de culto à mediocridade em que vivemos, só pudesse se dar como de fato se deu: com uma reportagem engraçadinha e recheada de frivolidades num programa engraçadinho e recheado de frivolidades como o Fantástico.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Contraponto


A indignação é inimiga da sensatez. Não são raras as vezes em que vociferamos, saliva escorrendo pelo queixo, contra o absurdo de um crime ou a desfaçatez de um político que acabamos de ver na televisão ou ler no jornal. Opiniões coléricas são quase sempre desatinadas. Por isso é sempre bom deixar a poeira baixar e, de vez em quando, recorrer a pontos de vista mais lúcidos e serenos, muitas vezes diametralmente opostos aos nossos, para que possamos resgatar nossa própria lucidez e serenidade.

Eu mesmo me vi tomado pela indignação ao saber da libertação do terrorista líbio Abdelbaset Ali Mohmed Al Megrahi, responsável pela explosão de um avião na Escócia em 1988, que causou a morte de 270 pessoas – todos os passageiros e tripulantes mais onze em terra. Sujeito abjeto, Megrahi foi recebido com festa na Líbia, para desespero de Barack Obama e dos parentes das vítimas, quase todos britânicos e norte-americanos. O tribunal escocês alegou motivos humanitários – “razões de compaixão”, para ser mais preciso – para libertar o terrorista, que havia sido condenado a prisão perpétua, mas sofre de um câncer em estágio avançado na próstata, que provavelmente o matará em questão de meses.

Qual foi a minha primeira reação? Condenar, obviamente, a decisão da corte escocesa. Por que dar a um assassino em série o prazer de ser aclamado por uma multidão de compatriotas no seu país de origem, enquanto pais, mães, filhos e netos foram destituídos das pessoas que amavam? Encontrei a resposta para esta pergunta no blog Diário do Centro do Mundo (http://colunas.epoca.globo.com/pelomundo), do jornalista Paulo Nogueira, correspondente da revista Época em Londres. Com a serenidade dos sensatos, ele foi certeiro ao analisar a questão, como nos trechos abaixo:

Mas, indo à essência do caso, o governo escocês tem um ponto que me recordou a lógica de Churchill diante da tortura na Segunda Guerra Mundial. Como os inimigos torturavam, alguém sugeriu a Churchill que os britânicos fizessem o mesmo. Ele disse que era um erro se igualar a quem pratica barbaridades.”.

“A civilização deve ganhar da barbárie não pela imitação, e sim pelo contraponto.”

“Razões de Compaixão’, num caso tão dramático, foi um momento fugaz de triunfo da elevação humana sobre a selvageria, da civilização sobre o terror - ainda que possa ter parecido o contrário.”

São argumentos que enriquecem nossos questionamentos e nos fazem repensar nossas convicções, mesmo que não concordemos inteiramente com eles, como eu não concordo. Mas, se algum dia vencermos a barbárie – e não me refiro apenas à barbárie de gênese fundamentalista, mas à nossa barbárie cotidiana –, será certamente porque a colocaremos no lugar que lhe é devido. Não iremos nos bestializar, aderir ao confronto estúpido, ressuscitar o olho por olho, dente por dente. Mesmo sendo filosoficamente a favor da pena da morte, sou contrário à sua aplicação, sobretudo em países marcadamente desiguais, injustos e dados a confissões sob tortura, como o Brasil. Mesmo acreditando que quem nos priva deliberadamente do nosso único bem merece ser privado do seu, não creio que essa privação proporcionará aos nossos descendentes uma civilização menos truculenta. Como sugere Paulo Nogueira, temos que nos contrapor, e não nos igualar à barbárie, por mais que essa escolha possa parecer inócua e covarde à primeira vista.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Minha redenção


Acredito que com o passar do tempo é possível reconstituir o cordão umbilical entre a criança e a mãe, perdido logo após o nascimento. Um cordão imaginário, mas nem por isso menos resistente, capaz de vincular não só filho e mãe, mas também filha e pai. Como se fossem movimentos distintos de uma mesma sinfonia, unidos pelo todo e separados apenas na aparência. Nem sempre esse cordão se desenvolve suficientemente, e em alguns casos sequer se desenvolve.

Nos nove anos em que estou junto com minha filha, completados hoje, formou-se entre nós um cordão espesso, constituído de uma matéria sólida, imune a brigas ou castigos. Chamar essa matéria de amor seria reduzir a sua complexidade, embora este seja o sentimento predominante. Existe algo além, talvez um respeito recíproco ou quem sabe uma fervorosa admiração pela pessoa que ela está se tornando. Altruísmo é artigo raro nas sociedades atuais, e mais ainda em crianças, naturalmente competitivas e naturalmente narcisistas. Pois essa talvez seja a característica mais marcante da sua personalidade, traduzida na preocupação genuína com a família e as amigas e no comovente afeto por cães vadios.

Em mais de uma ocasião ela disse que, se ganhasse muito dinheiro num prêmio da loteria, construiria um albergue para esses cães. Uma vez, na pracinha onde levávamos nossa cachorrinha que não temos mais para passear e brincar com outros bichos, ela não aceitou que um cachorrão vira-lata, soturno e tristemente solitário, fosse tangido pelos donos dos animais de raça, dos quais tentava se aproximar. Ela me perguntou, chorando: “Pai, por que estão fazendo isso, por que não deixam ele brincar com os outros?”. Respondi meio sem jeito, dizendo que era porque não estava vacinado ou outra bobagem qualquer. Ela não aceitou, pegou nossa cachorrinha e levou até o cachorrão. Fez carinho nele, falou com ele. Percebi, emocionado, que estava diante de um ser humano especial.

Seu altruísmo e sua compaixão se manifestam também nas rodas de amigas, onde ela sempre compartilha seus brinquedos, ao contrário das outras garotas. Nunca a forçamos a fazer isso, apenas estimulamos. Faz parte do seu caráter de garota ainda longe da adolescência, mas em alguns momentos madura o suficiente para me mostrar que estou cometendo uma injustiça ou fazendo uma escolha equivocada. Quando ela nasceu, escrevi um poema em que dizia que ela me redimia, conferindo eternidade à minha finitude. Gosto de saber que permanecerei no mundo de maneira tão plena.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A ovelha negra da família


Uma trajetória que desde lá atrás, ainda nos seringais do Acre, foi pautada pela coerência – política, ideológica e ética – não podia ter um de seus capítulos cruciais encerrado de forma diferente. Marina Silva não deixa o PT após 30 anos porque ansiava por mais visibilidade ou porque as disputas internas e pressões externas a tiraram do Ministério do Meio Ambiente. Marina deixa o PT porque não se enxerga mais nele, não se vê refletida naqueles homens que envelheceram mal, tornaram-se patéticos arremedos de si mesmos e não têm mais o que oferecer à sociedade. Com sua luta delicada e silenciosa – mas inapelavelmente determinada – por um país menos desigual e mais sustentável, a senadora dá prosseguimento a uma saga admirável de superação e ferrenha dedicação aos próprios princípios, iniciada quando deixou o seringal e a família paupérrima ainda adolescente, analfabeta e doente, para enfrentar a vida em Rio Branco. Se vai ser candidata a presidente é outra história. E talvez um projeto de tamanha envergadura – no qual as concessões e os malabarismos morais se tornam rotina – não seja mesmo adequado ao seu jeito sincero de fazer política. Tanto no aspecto frágil quanto na perseverança, Marina me lembra outro excepcional político lá do norte, o já falecido Jefferson Peres. Pessoas como eles dois, se multiplicadas, poderiam fazer um bem danado ao país. Mas a política, no Brasil, é quase sem exceção uma atividade de escroques, em torno dos quais orbita uma legião de vassalos pouco afeitos ao trabalho. Em suma: um ambiente impróprio para pessoas altruístas, vistas quase sempre como ovelhas negras ou aberrações descabidas. A nossa sorte, se é que podemos falar assim, é que Marina sempre soube transitar por ambientes hostis sem se ferir.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Fundamentalismo à brasileira


Pouco me importa essa briga de pitbulls eletrônicos envolvendo a Rede Globo e a Record de Edir Macedo. Mas é inegável que ela levanta uma questão crucial à nossa sociedade, jogando luz novamente às atividades do auto-intitulado bispo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus, mais uma vez envolvido em acusações de enriquecimento ilícito. Enriquecimento óbvio, diga-se, que maltrata nossa inteligência e mina os bolsos raquíticos dos que pagam dízimo. O que incomoda nessa história toda é que, mesmo depois de tudo que já foi dito e visto, ainda existam pessoas capazes de entregar dinheiro de mão beijada a esses ícones neo-pentecostais de paletós cafonas e propensão para o histrionismo. Há mais ou menos uns 10 anos, se não me engano, a própria Globo – que não é nenhuma vestal nessa história – já havia divulgado imagens de Macedo e seu grupo comemorando uma polpuda arrecadação dominical com sorrisos safados e trenzinhos esdrúxulos. Estava lá, para todos verem. Sem montagem ou distorção de contexto. Todos assistiram àquela involuntária confissão de culpa em horário nobre, assim como viram a bispa Sonia e o seu marido, da Renascer em Cristo, serem presos com uma fortuna em dinheiro vivo não declarada ao chegarem aos Estados Unidos. Todos, incluídos aí os adeptos dessas seitas, que viram muito bem para quem dão seu dinheiro, um dinheiro suado, amarfanhado, que faz uma falta danada na hora de pagar a luz, o gás ou o mercadinho fiado. Se optam por acreditar nos argumentos estapafúrdios dos seus líderes espirituais e continuam levantando as mãozinhas para o céu é outra história.

Mas não dá para aceitar passivamente essa extorsão consentida que dezenas de religiões praticam abertamente no país, estendendo seus tentáculos até o Congresso e praticando uma caça às bruxas contra os cultos de origem africana. Não dá para aceitar passivamente que tenhamos no Brasil, em plena aurora do século 21, seres humanos quase tão aprisionados ao fanatismo quanto a massa islâmica que aceita e alimenta o fundamentalismo no Oriente Médio. Obscurantismo ainda é moeda forte, seja lá ou aqui, ou não seria possível construir um império como a Record ou escandalosos templos kitsch de louvor à vulgaridade como os que vemos em todas as grandes cidades do país. Nossa vantagem em relação a eles é que aqui o rebanho serve apenas para ser achacado, em vez de ser recrutado para missões suicidas. Ao menos por enquanto, eu espero.

domingo, 16 de agosto de 2009

Oráculos


Alguns homens sobrevivem à própria morte. Permanecem na Terra por tanto tempo, tendo acumulado tantas experiências e reminiscências, que se convertem em oráculos do seu tempo. Desde que venha acompanhada de uma produção intelectual intensa e fértil e de condições dignas de saúde, a longevidade é uma bela dádiva. Apesar dos seus efeitos colaterais: a perda de quase todos os que conhecemos, a sensação de vácuo existencial trazida pela aposentadoria e pelo fato de que a maciça maioria dos seres humanos vivos é bem mais nova do que você, as mudanças nos costumes, o sentimento de inadequação diante de um mundo que se transforma como extrema ferocidade. E, acima de tudo, a longa convivência com a própria velhice e tudo que vem com ela a tiracolo: doenças cardíacas, senilidade, raciocínio embotado. Por tudo isso, admiro profundamente pessoas como o bibliófilo José Mindlin, o arquiteto Oscar Niemeyer ou o cineasta português Manoel de Oliveira, que diariamente aplicam dribles certeiros na morte e continuam produzindo em escala industrial.
Ernesto Sabato é outro desses grandes homens do nosso tempo. Seu principal romance, Sobre Heróis e Tumbas, está incluído no rol dos grandes livros que tive a honra de conhecer. E ontem concluí A Resistência, um livro de ensaios em forma de cartas ao leitor, sugestão de um amigo que conhece do riscado (http://verbotransitivo.blogspot.com/). Mas este não me agradou muito, sobretudo pelas reflexões ingênuas e saudosistas que perpassam todo o livro e enfraquecem o seu discurso. De qualquer modo, seu humanismo me comove. Um humanismo atávico, orgânico, secular, arraigado há muito tempo em sua visão de mundo. E Sabato vê um mundo sombrio neste início de século. Um mundo prestes a desmoronar e dar lugar a outro, que o seu fiapo de otimismo acredita que poderá ser um mundo melhor.
Mas o que me marcou em A Resistência não foi nada disso. Foram aqueles pequenos parágrafos confessionais nas duas derradeiras páginas do livro, nos quais ele reflete sobre a própria longevidade e o outro lado dessa moeda: o fim, há tanto tempo esperado que é quase como um velho conhecido. Valeu a pena chegar até essas páginas e poder ler coisas como as que seguem abaixo:

“Algumas vezes na vida senti que corria perigo e podia morrer. E, no entanto, aquele sentimento de morte em nada se parece com este que vivo agora. Então ela teria sido parte das minhas lutas ou de alguma outra circunstância: um fracasso dos meus projetos. Eu poderia ter morrido inesperadamente, e não teria sido como agora, quando a morte vai tomando conta de mim aos poucos, quando sou eu quem se inclina a ela.”

“Há dias em que me invade a tristeza de morrer e, como se fosse possível enganar a morte, corro a me entrincheirar em meu estúdio e me ponho a pintar com frenesi, ciente de que ela não me arrebatará a vida enquanto houver uma obra inacabada entre minhas mãos. Como se a morte pudesse entender as minhas razões.”

“Antigamente a morte era para mim a prova da crueldade da existência. O fato que diminuía e até ridicularizava minhas prometéicas lutas cotidianas. O atroz. Então eu costumava dizer que, para me levarem até a morte, precisariam do auxílio da força pública. Era assim que eu exprimia minha decisão de lutar até o final, de não me entregar jamais. Mas agora a morte se avizinha, sua proximidade me irradiou uma compreensão que nunca tive; neste entardecer de verão, a história do vivido está à minha frente como que posta em minhas mãos, e às vezes um tempo que eu julgava desperdiçado se mostra com mais luz que outro, que eu tinha por sublime”.

A Resistência foi lançado originalmente em 2000. Ou seja, nove anos depois de escrever esses textos, Sabato continua por aqui, sem dúvida surpreso com a generosidade da dita cuja para com ele. Não deixa de ser curioso que, mesmo tendo vivido tanto tempo, ele ainda reflita sobre o fim com perplexidade e torpor semelhantes às de um homem de 20 ou 40 anos, só que com muito mais sabedoria e dignidade. Afinal, como ele mesmo diz, a morte é a prova da crueldade da existência. Seja ela longeva ou curta como um sopro.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Excrementos


“Para certos políticos brasileiros, a vida pública é a continuação da privada.”
Aparício Torelly, o Barão de Itararé

Assim como bairros, ruas e cidades, certas pessoas também deveriam passar por um processo de saneamento básico. E não me refiro apenas àquelas que se despojam dos próprios dejetos em público, sejam eles líquidos ou sólidos, sejam elas pobres, ricas ou remediadas. Falo desses indivíduos de moral enviesada, que habitam e representam instituições falidas. Indivíduos cujo esgoto é lançado em forma de discursos e argumentos construídos sobre o terreno arenoso das platitudes e do cinismo. Nessa República do 171, senadores se irmanam para manter abertamente seus achaques, enquanto o presidente da República, cada vez mais adepto do compadrio, da passividade e dos panos quentes a qualquer custo, macula a própria biografia – já um tanto esmaecida pelo mau uso – ao abraçar e defender publicamente dois dos políticos mais torpes da nossa história recente.
Dirão que fazer política é isso mesmo, é sujar as mãos. Mas não seria o caso de se optar por fazer o oposto, até por uma medida de higiene em tempos de gripe suína? De simplesmente dizer: “Com essa laia eu não me misturo”? Não. Todos os gatos são pardos nessa Brasília que se tornou um vaso sanitário de grandes proporções com a descarga quebrada. Quem resta? Ou melhor, o que resta? O voto nulo? O ceticismo absoluto? O despudor e a apatia? Já cheguei a achar que os políticos eram o espelho da sociedade. Mas não, a sociedade é que é o espelho dos políticos. Se assistimos todos os dias a esses caras comendo nossa marmita, por que faríamos diferente? Vamos nos locupletar e dane-se o resto (no caso, o andar de baixo, que não tem como se locupletar). É um raciocínio simplório, mas compreendo quem pensa assim. O que fica cada vez mais claro nisso tudo é que é o Brasil quem precisa de saneamento básico. Um saneamento completo e eficiente, capaz de extinguir o esgoto a céu aberto através de tubulações sólidas e firmes, por onde possam passar urina, fezes, deputados, senadores e outras modalidades de excrementos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A perplexidade é um animal em extinção


Quando vejo mais um seqüestro-relâmpago terminar não como um seqüestro-relâmpago, mas com um assassinato – no caso, o de uma mulher de 39 anos –, fico me sentindo como aquele xerife vivido por Tommy Lee Jones em Onde os Fracos Não Têm Vez. Como ele, não consigo reprimir a perplexidade frente ao avanço irrefreável da barbárie sobre o frágil território da civilização. Olho para minha cidade e não a reconheço. Sequer consigo refletir sobre esse avanço, ou sobre o fato de que uma criança de um ano e meio está órfã de mãe por obra não da natureza, mas da estupidez humana. Muito menos me sinto capaz de julgar sumariamente os assassinos, conjeturar sobre o que deveria ser feito com eles (que sequer sei quem ou quantos são): se uma tortura sádica seguida de um tiro na nuca ou 30 anos mofando numa penitenciária com superlotação. Fico apenas paralisado pelo pasmo, emudecido pela exaustão. E com a certeza de que a guerra foi declarada. Parafraseando o título original do filme dos Coen, sou um velho de 39 anos vivendo num país que não me quer, habitado por pessoas que não me entendem. Como o xerife de olhar cansado que Jones personifica tão bem, sinto como se estivesse de saída, prestes a dar lugar a uma nova geração devidamente vacinada contra a violência. Ou melhor: contra a perplexidade.

domingo, 2 de agosto de 2009

Rituais de despedida



Esta semana entrei no elevador de um consultório médico com minha filha para levá-la ao dentista. Junto com a gente, entraram também um senhor numa cadeira de rodas com a mulher e um ajudante. Vi de relance que havia uma cicatriz na fronte do senhor, parcialmente encoberta pelo cabelo, e percebi que ele falava com dificuldade com o rapaz, de um jeito quase inaudível. Vi também quando ele deu a mão a minha filha, esboçando para ela um sorriso. Minha filha sorriu de volta e pegou na mão dele. Então a porta do elevador se abriu e eles saíram. Mas de certa forma aquele homem doente continuou ali, ao me fazer voltar alguns anos e lembrar do meu pai também doente, agonizando lentamente enquanto um câncer se alastrava por seu cérebro. Ambos tinham os cabelos surpreendentemente pretos para a idade e ambos exalavam uma simpatia natural, ocultada em parte pela sisudez. Meu pai foi embora há quase seis anos e aquele homem não deve demorar muito para também dar adeus ao mundo. Um dia será a minha vez, mas espero não passar por um ritual de despedida tão doloroso quanto o deles. Espero me manter longe dos consultórios médicos com sua indiferença e seus prognósticos sombrios, das salas de cirurgia, dos tratamentos invasivos e dolorosos, das visitas às salas de quimioterapia, onde partilhamos nossa desgraça, do balanço final que fazemos silenciosamente e que invariavelmente pende contra nós, das visitas que não desejamos, das lágrimas dos que nos amam observando nossa decrepitude, da solidão atroz. Espero, enfim, ir num suspiro tranqüilo, deitado e sem dor, e já tão velho que poucos dêem por minha falta.
Admiro gente que luta com determinação, dignidade e coragem contra uma doença, como faz o vice-presidente José Alencar, que já passou por 15 cirurgias e mesmo assim o câncer permanece, inarredável como um cravo no ouvido. É claro que ele não vê assim, mas sua vida neste momento se resume apenas a um duelo injusto e contínuo com a morte, como se ele fosse o touro e ela, o toureiro que vai minando lentamente suas energias ao fincar espadas no seu lombo. Sabemos como isso termina, embora uma vez na vida o touro leve a melhor. Mas aí sempre aparece outro toureiro para dar cabo dele. Em resumo: não temos escolha. Em Homem Comum, Philip Roth narra esse processo de inevitável declínio com uma lucidez implacável. Cada resultado ruim num exame implica um desânimo, uma sensação de impotência que não cessa até atingirmos a inconsciência, embora vez por outra pipoquem espasmos de entusiasmo. Como demonstra Roth ao final do livro: “Ele perdeu a consciência, sentindo-se longe de estar derrubado, de estar condenado, ansioso para realizar-se mais uma vez, e no entanto nunca mais despertou. Parada cardíaca. Deixou de ser, libertou-se do ser sem sequer se dar conta disso. Tal como ele temia desde o início”.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Talentos invisíveis


Vim para o trabalho ouvindo um disco que adoro: Thelonious Monk at the Blackhawk. Gravação ao vivo, cheia de ruídos de gente conversando, mas que é, junto com Straight no chaser, o meu álbum preferido de Monk. Fiquei prestando atenção nos solos ferinos e metálicos de Charlie Rouse. Solos precisos, vívidos, sem arestas. Principal parceiro de Monk, o saxofonista é um desses casos muito comuns no jazz de artistas talentosíssimos que não alcançam a notoriedade merecida. Rouse lançou discos excepcionais em carreira solo, como Unsung Hero e Takin’ Care of Business, mas nunca figura nessas listas de grandes gênios do gênero. De todos os saxofonistas que trabalharam com Thelonious – Coltrane e Sonny Rollins incluídos –, ele foi o que melhor entendeu as intrincadas estruturas harmônicas do mestre do piano percussivo. Seu solo em Round Midnight, que acabei de ouvir em meio a um congestionamento, me comove profundamente. Como me comovem suas intervenções em Japanese Folk Song e Locomotive, ambas do Straight no Chaser. Mas quase ninguém, fora do restrito círculo de iniciados em jazz, conhece Charlie Rouse, ou apenas se referem a ele como “o sujeito que tocava com Monk”. É o mesmo caso de outros caras maravilhosos mas invisíveis, como Louis Smith (trompetista virtuoso, da escola de Clifford Brown, que tocou com Horace Silver) ou Zoot Sims (um dos ídolos de Luis Fernando Verissimo e criador de ao menos dois discos essenciais: Suddenly it’s Spring e Zoot Sims and The Gershwin Brothers). Mesmo Paul Desmond, o genial sax alto do grupo de Dave Brubeck, não alcançou o prestígio que seu talento exigia. Desmond dizia que gostaria de soar como um dry martini. Ou seja: algo capaz de mesclar contemplação com amargura (se é que essa minha definição de um dry martini pode ser levada a sério). Basta ouvirmos Take Five ou Samba Cantina para constatar que ele conseguiu.

sábado, 25 de julho de 2009

O tempo passou na janela


Toda vez que leio sobre os quarenta anos da chegada do homem à Lua penso na frustração de Michael Collins. Um dos três tripulantes da Apollo 11, ele foi o único que não desceu nem andou pelo satélite, como fizeram Neil Armstrong e Edwin Aldrin. Aprisionado em sua cápsula que circulava a órbita lunar, o astronauta não teve a oportunidade de dar o pequeno passo para o homem, mas o grande salto para a humanidade que celebrizou o colega, elevado à condição de herói de uma geração. Armstrong era amado, Aldrin era querido e Collins... bem, Collins também esteve lá, não é mesmo? Mas, para ser franco, é como se não tivesse estado. Imagino Collins lá do alto, sozinho como um menino posto de castigo pela mãe, vendo pela janela seus amiguinhos se divertirem. Ele não deixou suas pegadas no solo lunar, não pulou feito um moleque com kichute aproveitando a ausência de gravidade, não tirou fotos na imensidão branca para guardar de recordação. É como se ele fosse apenas uma testemunha ocular, e não o protagonista de um grande feito. Claro que sua presença ali era fundamental para que os outros dois pudessem ser resgatados, e o que faço aqui é apenas uma digressão sobre os nossos desejos inconclusos. De qualquer modo, deve ter batido uma melancolia danada, embora ele vá negar isso até a morte. Collins nunca mais voltou à Lua, assim como Armstrong e Aldrin. Não precisava: a história já o tinha abraçado, embora num papel secundário.

***

Acredito que não apenas pessoas, mas também nações acabam vendo a história passar na sua frente sem que consigam se agarrar a ela. Assim como Collins, o Brasil teve a sua grande oportunidade. Foi lá pelo final dos anos 50, quando o país parecia viver um caso de amor com seus habitantes. Tínhamos a Bossa Nova, éramos o celeiro do mundo e nos sentíamos predestinados a ser o país do futuro. De certa forma, o conceito de welfare state (pleno emprego, prosperidade econômica, políticas de bem-estar social) aplicado nos países desenvolvidos respingava por aqui, embora embalado com traços de populismo e demagogia. Mas, também como Collins, vimos o futuro chegar pela janelinha da espaçonave sem que nos tornássemos o seu timoneiro, ou pelo menos um dos. Cinqüenta anos depois, o país do futuro ficou no passado, enquanto uma ditadura incompetente e obtusa jogava por terra todas as nossas aspirações, seguida de presidentes ineficazes e adeptos dos panos quentes. Assim como as outras metrópoles do país, o Rio, aquela cidade linda onde Leila Diniz tomava banho de mar com a barriga prenhe à mostra, virou um festival de carnificina. A pobreza quadruplicou, e uma massa de miseráveis erra pelas cidades, refém da violência e do crack, enquanto os mais abonados se endividam ou se corrompem, ratificando a afirmação que uma vez o cineasta Silvio Tendler me fez, de que “os pobres não têm direitos, e a classe média não quer direitos, só privilégios”. Somos hoje emergentes, ao lado da Índia, uma nação que praticamente inexistia quando Tom, Vinicius e João esboçavam suas inquietações estéticas. Ou seja: a história nos abraçou, embora num papel secundário.

Preto no branco


Outro dia, numa mesa de bar, tive com uma amiga dos tempos de jornal uma discussão acalorada – como devem ser as discussões em mesas de bar, desde que terminem com um abraço e algumas saideiras, como esta terminou. Falávamos sobre as diferenças na evolução das relações entre brancos e negros nos Estados Unidos e no Brasil. No primeiro, o recrudescimento das tensões raciais nascidas após a Guerra da Secessão provocou violentos embates e a exacerbação do preconceito, personificada na formação da Ku Klux Klan, que tinha o costume de enforcar negros ou queimar igrejas cheias de homens, mulheres e crianças de cor (e basta ouvir Billie Holiday cantando Strange Fruit para sentir um décimo da dor que tudo isso causou). O Brasil não chegou a tanto. Nossa índole cordial, latina e acomodada produziu um racismo mais ameno, embora apenas na aparência. Já escrevi neste blog que nunca precisamos ter uma Rosa Parks, aquela moça que se recusou a ir para o banco de trás reservado aos negros nos anos 50, dando início a uma nova era no combate à discriminação racial. Não precisamos porque aqui as negras não eram proibidas de freqüentar a parte da frente dos ônibus, mas não o faziam ou porque não tinham dinheiro ou porque tinham vergonha. Aqui a dissimulação sempre foi a regra. O não-dito, como também já havia escrito. Deu no que deu: hoje os EUA têm um presidente negro e lida muito melhor com o preconceito do que o Brasil, onde o homicídio é a principal causa de morte de negros jovens (ou seja, perdemos mais essa guerra). Nisso, eu e minha amiga – que é negra e tem perfeita consciência do que isso representa no outrora país cordial – concordamos. Mas discordamos num ponto crucial. Para mim, viver na América do início do século 20 era infinitamente pior do que viver aqui, mesmo com toda dissimulação. Afinal, no Brasil não havia uma organização perseguindo e matando de forma sistemática uma raça. Disse isso, e ela arrematou: e você por acaso é preto para entender o nosso sofrimento?
Foi então que levei um choque e percebi o abismo que ainda separa brancos e negros neste país. Mas depois de um tempo fiquei pensando: eu preciso mesmo ser preto para sentir uma dor avassaladora quando leio que um garotinho de pele escura que brincava na frente de casa foi morto por policiais que chegaram numa favela atirando a esmo? Não, não preciso. Esse fato doeu em mim por dias, e ainda hoje sinto um aperto no coração quando lembro dele. Assim como lembro, com um pesar que não cessa, de bebês bósnios partidos ao meio pela insânia sérvia a serviço de Milosevic, 15 anos atrás. Ou quando leio sobre toda aquela gente morta nos campos de concentração pela insânia alemã a serviço de Hitler, quando nem era nascido. Não, não preciso ser preto, ou bósnio, ou judeu, para sentir na carne o mal que o homem faz a si mesmo e a outras espécies vivas. Nenhuma raça tem exclusividade da dor, até porque – ao menos para mim – formamos uma única raça, essa que há alguns milhares de anos perambula de forma errática pelos quatro cantos do mundo, produzindo destruição, mas também beleza.

Erosão


Não lembro quem disse que o tempo é a matéria-prima da qual somos feitos, mas concordo com ele. Os sulcos, sinais e cabelos brancos que ostentamos no rosto e no corpo nascem da exposição contínua às intempéries, assim como as rochas são esculpidas pela ação do vento, do sol e das chuvas. Com uma diferença: em nós, as intempéries são internas. Brotam de dentro para fora, e com o passar dos anos as erosões em nossa mente se propagam como metástases, atingindo o invólucro. É inevitável, embora varie de pessoa para pessoa. Por isso não nos reconhecemos nas fotos antigas, naqueles sorrisos de uma malícia inocente ou no olhar sério que valida uma tomada de posição. Folheio meu álbum de viagens de vinte anos atrás e minhas lembranças me levam até lá, àquele momento que guardei para a posteridade – uma posteridade fugaz, diga-se. Mas onde está o homem que sou hoje naquele rapaz de olhar impetuoso, franco e ligeiramente arrogante, que escrevia poemas e romances hoje tão distantes de mim? Não está, embora um seja fruto do outro, e eu admire profundamente aquele rapaz que me olha como se esperasse ansiosamente esse encontro com o futuro. Então vejo que o tempo é mesmo uma matéria-prima aquosa, fluida, que se adéqua progressivamente ao manuseio do destino. São nossas escolhas, mas principalmente o nosso embate contra o acaso, que nos transportam para o presente. Se não ficamos pelo caminho, tragados por um acidente ou devastados por uma doença, devemos isso a ele, assim como devemos as frustrações, perdas e pequenas vitórias que ele nos oferece. Sendo assim, o que restará de mim, desse eu que escreve este texto aqui neste blog, daqui a vinte anos? Claro que somos basicamente um acúmulo de experiências, que se acomodam em camadas sobrepostas, mas imagino que o português claro que utilizo agora para dar vazão a esses questionamentos soará como sânscrito para aquele homem velho. E que as minhas fotos de hoje provocarão apenas ligeiras cócegas na sua mente.

domingo, 19 de julho de 2009

Moto-perpétuo


Com um atraso de alguns anos, acabei de assistir a Machuca, um filme chileno dirigido por Andrés Wood. Um filme chileno que trata de uma chaga chilena – a permanência da desigualdade – assim como poderia tratar de uma chaga brasileira, argentina, angolana, chinesa, mexicana, haitiana ou filipina. E, como já aconteceu e voltará a acontecer muitas vezes no decorrer da minha existência, a minha cabeça se embaralha, dá um nó cego, num vai e vem que não se extingue nunca, por mais que o tempo passe e eu pense que alguma coisa anda para frente, em vez de se reproduzir ao infinito, como um moto-perpétuo. Por que tenho que fazer aos 39 anos a mesma pergunta que me fazia aos 20? Por que, depois de 10 mil anos ou mais do que se convencionou chamar de civilização, a humanidade ainda é capaz de perpetuar a pobreza? De manter em realidades só na aparência estanques gente que tem muito e gente que tem nada? Por que – e reconheço nesses questionamentos uma gigantesca e inútil ingenuidade – a injustiça permanece sendo o motor da nossa evolução como espécie? A resposta não está nos discursos de esquerda e muito menos nos de direita, ou sequer está soprando no vento, como Dylan nos fazia crer. Nem com Marx, nem contra Marx, como diz um livro de Norberto Bobbio que tenho aqui na estante (e que não li). Para ser franco, não acredito que exista resposta, ou ao menos uma resposta alentadora, algo que nos possa conduzir a um destino além da estupidez, onde regimes autoritários ou pretensamente democráticos (se levarmos ao pé da letra a origem da palavra democracia) levam a reboque milhões de pessoas, jogando-as numa vala comum na qual o horizonte é só um borrão espesso e refratário à lucidez e à felicidade. Continuamos quase tão perdidos quanto os egípcios do tempo da servidão coletiva ou dos humanistas gregos. Em que avançamos? Na tecnologia certamente. No domínio da agricultura, da pecuária, das vacinas que evitam epidemias. Mas por que, quarenta anos após a chegada do homem à lua, uma façanha e tanto do desenvolvimento humano, não chegamos à cura da indigência?
É claro que em Machuca o diretor toma partido. Escolhe o lado de Allende, mesmo mostrando que a vida sob o seu governo era um caos, onde faltavam produtos básicos e onde a miséria permanecia incólume, ali nos guetos de pobreza extrema. De qualquer modo, como escolher o outro lado? O que se vê ao final do filme não é uma invasão de seres alienígenas prontos para destruir Santiago, como se poderia esperar de um filme de Roland Emmerich ou Michael Bay. É uma amostra edulcorada da realidade (porque perante a realidade a ficção será sempre edulcorada), aquela mesma que fez da tortura e do assassinato coletivo os combustíveis primordiais do regime de Pinochet. Uma realidade de olhos arrancados, vaginas invadidas por ratos vivos e seres humanos jogados do alto de aviões. A economia melhorou? Com o perdão da palavra, foda-se a economia. Estamos falando de vidas destruídas, durante ou muito depois do golpe. Mas Machuca vai mais longe. Vai ao âmago da nossa desgraça. É quando o garoto rico diz a um soldado, no meio de uma matança na favela: “Olhe pra mim, eu não pertenço a isso”, e o soldado vê que se trata de um garoto de traços anglo-saxões, com tênis Adidas no pé. Não, ele não pertence a isso. No caso, o extermínio de pobres vagamente ligados à esquerda comunista, incluindo aí o seu amigo que dá nome ao filme. Claro que ele não pertence a isso, assim como eu, que bebo meu vinho português num cômodo confortável numa noite chuvosa, e provavelmente você que lê isso agora. Então o que fazer? Como ir além de um texto pretensamente indignado? De que forma devo, ou devemos, agir para evitar essa barbárie que se instala e sempre se instalou diante de nós? Não sei. Sinto um travo amargo, um misto de revolta e impotência que sei que será atenuado quando for dormir, embriagado e de barriga cheia, e que amanhã é um outro dia. Não é, como diria Renato Russo. Sei apenas que daqui a vinte anos – ou a quarenta ou sessenta, se chegar até lá – vou continuar me fazendo a mesma pergunta. E, obviamente, vou continuar sem resposta.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Da cama para o mundo


Pelo menos uma vez por semana recebo e-mails de conteúdo pornográfico. É uma corrente virtual que não cessa. Outro dia foi uma seqüência protagonizada por uma participante do Big Brother. Ontem foi a vez das cenas da vereadora de São Paulo, cuja vida virou pelo avesso com a disseminação das imagens toscas em que aparece abocanhando um pênis e sorrindo para a câmera. É praticamente o que vemos durante os quarenta e poucos segundos de duração do vídeo. Terminei de ver, apaguei a mensagem e senti um tédio danado. Lembrei de imediato de um conto de Roberto Bolaño em que ele fala da “tristeza dos caralhos”, ou melhor, da “tristeza dessas pirocas monumentais na vastidão e na desolação deste continente”. Você termina de assistir e tem a impressão de que aquilo não reverbera, não provoca reações significativas no seu córtex cerebral. Mais ou menos como eu me senti aos 13 anos, após a primeira e entusiasmante meia-hora de exibição de Garganta Profunda, o primeiro pornô a que assisti, num cinema vagabundo de Aracaju. A repetição gera o fastio.

Embora não me negue o prazer de contemplar fotos de mulheres nuas, no geral me cansa essa propagação maciça de voyeurismo pela internet. Essa necessidade cada vez mais premente em homens e mulheres de acrescentar uma dose farta de exibicionismo ao sexo, sobretudo o casual. Mais do que nunca, numa espécie de pulverização da intimidade, o prazer acontece não no momento do orgasmo, mas depois: dias, semanas, meses ou – no caso da vereadora – anos. Como se, ao gravar aquelas imagens, fosse possível perpetuar o prazer e passá-lo de mão em mão. Além, obviamente, de permitir o surgimento de novos Casanovas. Hoje, a cereja do bolo não está na relação sexual em si, mas na quantidade de pessoas que presenciam essa relação à distância. Que nem aquela piada em que o cara transa com a Sharon Stone numa ilha deserta e depois de um tempo, já meio de saco cheio, pede a ela que se fantasie de homem só para ele chegar e dizer: “Rapaz, você não sabe quem eu tô comendo”.

Mas não é só isso. Em alguns e-mails, junto com as imagens, recebo informações sobre a mulher que se despe para a câmera: é recepcionista da clínica tal na cidade tal ou trabalha na agência tal do banco tal. É como se fosse preciso buscar algum tipo de legitimidade naquelas imagens. Como se, ao saber que se trata de uma moça comum, gente como a gente, alguma fagulha despertasse em nós a libido refreada pelo excesso de ócio ou de trabalho. Não basta mais ver vídeos ou fotos estrelados por quem sobrevive da indústria do sexo (indústria que, como as demais gigantes do entretenimento, deve ter perdido parte do poder e do faturamento com a chegada da internet). É preciso conferir a vida como ela é. Pescar na rede imagens gravadas por celulares mostrando bocas, picas e bucetas anônimos em ação, ou de preferência saber que eles pertencem a alguém com nome, sobrenome, carteira de trabalho e CPF. E assim vamos nos abobalhando, ávidos por sexo a qualquer preço (incluindo aí a humilhação alheia) e entediados ao extremo, como viciados recém-libertos do efeito da droga. Até que a caixa de entrada volte a se encher e nos faça gozar de novo com o pau dos outros.

domingo, 12 de julho de 2009

Sobre algozes e vítimas


Muitas reflexões proliferam à medida que avançamos na narrativa de O Leitor. Uma delas, talvez a mais importante, é a disseminação quase trivial do mal, traduzida na cumplicidade coletiva que silenciosamente permitiu o genocídio dos judeus na Segunda Guerra – e que tem na figura de Hanna Schmitz um arquétipo perfeito. Sua ignorância – o analfabetismo, o raciocínio tosco – não serve de desculpa ou explicação para o que fez, como bem nota, ao final do filme, a senhora que sobreviveu ao campo de concentração no qual ela serviu de guarda. Mas de certa forma projeta um olhar menos maniqueísta e mais complexo sobre a insânia nazista. Afinal, Hannah não estava sozinha naquela barca que afundou levando junto 200 milhões de pessoas.

Mas o que há de mais pungente no longa de Stephen Daldry é o mal, perene e profundamente arraigado, que ela causa no jovem Michael, e que será determinante para que ele se converta no tipo sorumbático e infeliz que se tornou na vida adulta. Pois, vale lembrar, Michael esteve cara a cara, língua a língua, sexo a sexo com uma aberração – e essa aberração não lhe pareceu nem um pouco torpe, suja ou degradante. Hannah ensinou a Michael o sexo e o amor, assim como lhe mostraria mais tarde que rosto têm a repulsa e o horror. Nada, porém, que extirpasse dele a índole compassiva, explicitada na belíssima seqüência em que grava as fitas com o conteúdo dos romances que lia para ela na juventude. Um ato tão bonito e puro que por vezes oculta o aspecto sombrio da relação entre os dois e o seu diálogo com a História com H maiúsculo. Entra aí, como um parêntese, o poder avassalador da arte. A sua capacidade de, em determinados momentos, permitir um vislumbre ainda que vago da nossa grandeza e, paralelamente, da nossa insignificância. Ao colocar as fitas Basf no gravador portátil, ali no seu quarto solitário de prisão, Hannah imerge num universo paralelo refratário à culpa e ao castigo. Um mundo que ela compartilha à distância com o “menino”, e no qual se sente menos vazia. Porque em Hannah o vazio é abismal.

Quando no finalzinho um Michael já envelhecido leva a filha para conhecer o túmulo da antiga amante, e conta a ela não uma das, mas a única história da sua vida, mesmo aí há uma hesitação, um travo que o impede momentaneamente de se expressar (travo que fica ainda mais acentuado quando se tem um ator excepcional como Ralph Fiennes para traduzi-lo em olhar e silêncio). É que ali, diante da lápide, não está um velho. Mas sim um adolescente, ingênuo e desnorteado como são todos os adolescentes, tentando abarcar numa única mente coisas que não se misturam (ou não devem se misturar), todas elas em doses colossais. Coisas incompreensíveis como amor, ignorância e maldade. Porque, como diria Borges, a máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade dos homens.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Meu pequeno purgatório


Cheguei a colocar o título no post: Anoitece sobre Tegucigalpa. E em seguida exprimi minhas impressões sobre o golpe em Honduras, manifestando minha indignação em alguns trechos, lamentando em outros o nosso fatalismo, a sina inescapável da América Latina, com seus caudilhos e tipos soturnos ostentando insígnias desimportantes. E concluí que, no caso de Honduras, a história não se repetiu como farsa, e sim novamente como tragédia. E que o já frágil argumento usado pela junta militar para justificar a derrubada do presidente caiu de vez por terra no aeroporto de Tegucigalpa, ao lado de corpos de civis e cápsulas de balas de fuzil.

Escrevi o texto inteiro, reli e me preparava para postá-lo quando parei um pouco para pensar: hoje mesmo, na grande imprensa ou fora dela, vou encontrar análises sobre o assunto muito mais embasadas, com muito mais conhecimento de causa e provavelmente embaladas por textos mais precisos e inspirados do que o meu. A partir daí, comecei a questionar o meu texto, a necessidade de escrevê-lo e até mesmo o verdadeiro sentido deste blog. Por que e para quem escrevo? Uma amiga me disse certa vez que escrevo para mim mesmo, o que é verdade. Mas, se fosse apenas isso, por que disponibilizaria um conteúdo tão pessoal para qualquer pessoa que entre no Google e, por uma associação de palavras, encontre o endereço em meio ao denso emaranhado de informação que povoa a web?

Há, evidentemente, uma inclinação narcisista em criar um blog e provê-lo duas ou três vezes por semana de novos textos em primeira pessoa, a maioria escrita com certo apuro estético, evitando opiniões derivativas e buscando ponderações inusitadas ou ângulos inesperados para determinado assunto. Sei que tenho um número pequeno de leitores freqüentes, entre 15 e 20, acredito, a maioria formada por pessoas que conheço. E outros ocasionais, que de vez em quando digitam o endereço e fuçam o que ando escrevendo. Alguns comentam os posts, outros mandam e-mails, os demais optam pelo silêncio ou a indiferença. Como todos eles, não faço idéia sobre qual é o rumo deste blog. Numa analogia automobilística, ele seria menos um carro de passeio e mais um táxi. Ou seja: seu itinerário não é ditado pelo condutor, e sim pelos passageiros (no caso, os temas que surgem na minha cabeça e às vezes me impedem de dormir sossegado). Sei apenas que o blog é guiado por motivações muito breves, e se passar o dia posso não palpitar mais sobre determinado assunto, como já fiz algumas vezes, deixando o esboço morrer de inanição em algum documento do Word. Também me desobrigo de comentar tudo que ouço, leio ou assisto, a não ser quando me comove ou incomoda. Não quero, aqui, exercitar a arte da crítica, mas sim usar obras de arte ou da realidade como fagulhas capazes de detonar barris de pólvora escondidos nalgum canto da mente, criando clarões que lancem luz sobre o meu jeito, por vezes contraditório, outras vezes insensato, de olhar e pensar a condição humana. Em seis meses de blog, este é um balanço um tanto confuso do que já fiz e do que ainda quero fazer neste pequeno purgatório. Sei apenas que adoro escrever aqui, e espero que os meus parcos leitores compartilhem, em maior ou menor medida, desse prazer.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Indóceis embora inúteis?


Em um trecho de A verdade das mentiras, Mario Vargas Llosa afirma que a literatura é “alimento de espíritos indóceis”. Ou seja: seríamos, os fascinados pelo delírio silencioso das letras, seres incapazes de habitar o conformismo ou habituar-se à mediocridade. Llosa diz mais. Diz que a literatura é essencial para evitar que uma sociedade “seja condenada a se barbarizar espiritualmente e a comprometer sua liberdade”. É uma pena, portanto, que sejamos tão poucos.

Mas, e se fôssemos muitos? Seria diferente? Tenho cá minhas dúvidas. Somos tão pouco afeitos a transformar o mundo para além das nossas confortáveis trincheiras virtuais ou impressas que não sei até que ponto conseguiríamos reproduzir na prática o que elucubramos na teoria. Qual é verdadeiramente o papel dos que se dedicam a pensar? Ou melhor: pensar é também uma forma de agir? Esses questionamentos me vêm à tona quando penso na inocuidade das nossas boas intenções. Sinceramente, não acredito que os amantes do conhecimento sejam capazes de evitar que uma sociedade se barbarize, seja espiritualmente ou no aspecto material. Afinal, a barbárie está aí, por todo lado, a nos assombrar. Tudo isso é uma ducha fria naquela afirmação de Monteiro Lobato, para quem um país se faz com homens e livros. Infelizmente, a argamassa que deu forma à maioria das nações é constituída de homens e armas.

Por outro lado, alimentar-se de cultura tem um lado francamente positivo, também abordado por Vargas Llosa: a luta silenciosa pela liberdade. É através dela que a aventura humana pela Terra ganha significado, embora ainda impreciso. Quando imergimos na leitura e passamos a olhar retrospectivamente o mundo, conseguimos vislumbrar a trajetória de sangue e dominação que marcou os últimos dez milênios e, consequentemente, criar empecilhos à sua repetição nos próximos dez. Se conseguiremos é outra história. Mas quem sabe, espíritos indômitos que somos, um dia a nossa guerra silenciosa, feita de alumbramentos solitários, correspondências virtuais e animadas conversas de botequim, trará resultados mais alentadores que a indiferença da maioria.

domingo, 28 de junho de 2009

Enfermidades


Assim como as pessoas, algumas sociedades também padecem, de tempos em tempos, de certas enfermidades. Em momentos específicos da história, é possível perceber uma espécie de Alzheimer coletivo: surtos de amnésia que em maior ou menor medida deságuam progressivamente no aniquilamento das convenções morais ou princípios éticos existentes. É como se vivêssemos num breu espesso, refratário ao aprendizado do passado, que ali fica reduzido a uma quase imperceptível mancha de luz na consciência. Outros momentos de nossa passagem pelo planeta se caracterizam por uma esclerose múltipla em grande escala. Não perdemos a consciência ou a lucidez, mas ficamos impossibilitados de reagir a estímulos, como se nossos braços e pernas imaginários estivessem incapacitados para entrar em luta corporal ou fugir o mais rápido possível da barbárie.

Tanto o Alzheimer quanto a esclerose múltipla puderam ser diagnosticados, por exemplo, na década de 1930, quando os Estados europeus de inspiração iluminista, civilizados (em termos) e sofisticados (idem), assistiram inertes embora conscientes à ascensão do nazi-fascismo, esta sim uma manifestação aguda de Alzheimer. O resultado, todos sabem, foi uma guerra entre a lucidez e a insânia que deu cabo de 200 milhões de vidas. Para nossa sorte, a primeira saiu vitoriosa (novamente em termos, já que a lucidez de antes deu lugar a insânia da Guerra Fria e das guerras quentes no Vietnã, Afeganistão, Coréia e outros quintais da dupla EUA-URSS). Bem ou mal, porém, as décadas de 50 a 70 presenciaram um esboço ainda que impreciso de um mundo melhor, ao menos nos Welfare States, ou Estados de Bem-Estar. Mesmo o Brasil do período dava sinais de que cumpriria a profecia de país do futuro formulada por Stefan Zweig, jogando por terra a crença do general De Gaulle de que não era um país sério.

Há muito pouco, quase nada, desse Brasil nos dias de hoje, assim como a esclerose múltipla deixou de assolar as sociedades atuais (já que nossa lucidez foi parar não se sabe em que nação escandinava). Por outro lado, padecemos de uma pandemia de Alzheimer, seja na Rússia, na África, no Oriente Médio ou nos EUA pré-Obama. Caminhamos, mas não sabemos para onde, cercados por terroristas suicidas, líderes abjetos e uma massa amorfa de ignorantes. Sobrevivemos como náufragos lutando contra rochedos pontiagudos, de um lado, e tubarões, do outro – ou seja, permanecemos reféns da velha máxima do “se ficar o bicho pega...”. Por mais que (e aí volto especificamente ao cenário brasileiro) os indicadores econômicos e sociais apontem para uma ligeira evolução, o que vemos é um país cindido entre ricos estultos e indiferentes e pobres bestializados e entregues a um arremedo de hedonismo sem fim. Só uma realidade assim poderia fabricar pais que jogam filhos pela janela, redes virtuais que propagam de forma natural o abuso sexual de crianças ou mesmo rapazes que arrastam um carro com um menino pendurado do lado de fora. Nessa terra de ninguém, o conceito de nação se pulveriza, como neurônios morrendo pouco a pouco num cérebro doente. E o que resta são os despojos de um passado promissor, borrados, apagados e inúteis.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Escapismo


Estava aqui pensando em tecer alguma analogia que fosse capaz de mensurar toda a sordidez que devasta a sociedade brasileira, tendo a classe política como ponto de partida – e possivelmente de chegada. Pensando na excrescência que é a figura de José Sarney, com seu bando de parentes espalhados por gabinetes alheios, seus discursos abjetos de falsa indignação e sua trajetória banal de homem público. Pensando também nas décadas de coronelismo estulto que levaram um estado miserável como o seu à derrocada quase irreversível. Derrocada que ele contesta, em artigo para a Folha de S.Paulo, comparando os indicadores sociais e econômicos desse estado aos das favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo, enxergando nisso – pasmem – algo de positivo.
Pensava, ainda, em como a corrupção se alastrou de tal maneira no nosso cotidiano, fazendo com que tudo ao entorno pareça maculado por uma ética excessivamente maleável, que nos permite, por exemplo, pagar propinas a esses criminosos que habitam os cartórios, amparados pelo conceito deturpado de funcionalismo público. Ou assistir novamente – esboçando apenas um resmungo exausto de quem trabalhou o dia inteiro – a mais um vídeo feito com câmera escondida, agora flagrando funcionários da Prefeitura de Curitiba ou algo assim recebendo dinheiro e sorrindo ao fazer piada com o 171, número do artigo penal que caracteriza o estelionato. Escroques petulantes, arrivistas e intelectualmente toscos, semelhantes aos que, ocultos sob a vaga definição de cidadãos de bem, encontramos de vez em quando em filas de bancos ou congestionamentos de trânsito. E, como resultado de todas essas notícias que nos bombardeiam como Napalm no Vietnã, brotam os questionamentos inevitáveis: o que fizemos de nós? O que vai ser de um país onde até a dissimulação deixou de existir para dar lugar ao despudor generalizado? Onde foi parar o que restava de cordialidade em nossas relações sociais hoje tão esgarçadas? Por que somos incapazes de mitigar o fosso social que arrasta nossas perspectivas de futuro rumo ao século 19?
Estava aqui pensando nisso tudo sem encontrar uma analogia minimamente adequada a tamanha aberração. Mas então escutei o Stradivarius 1713 de Joshua Bell desferir as primeiras notas da melodia da Serenade, de Schubert. E me senti invadido por uma melancolia estranha e, tal qual um leopardo de Borges, por uma obscura resignação e uma valorosa ignorância, que só as coisas que me emocionam profundamente são capazes de provocar. E, de olhos fechados e com embriões de lágrimas se formando neles, imaginei ingenuamente uma espécie de redenção vindoura para a humanidade, apesar de gente como José Sarney e seus marimbondos de fogo e todos esses que aí estão atravancando o nosso caminho. E acreditando que, como nos versos de Quintana, um dia eles passarão, nós passarinhos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Nós só precisamos ir


Às vezes me pergunto por que a insatisfação com o lugar onde vivemos afeta tantas pessoas. O que queremos, afinal? Uma cidadezinha encravada nos Alpes suíços ou aos pés dos Pireneus? Uma casinha em frente à Lagoa da Conceição, em Florianópolis, ou numa vila mediterrânea, onde possamos sair de sandália para pescar ou navegar? Um apartamento no centro nervoso de Nova York, Paris ou São Paulo, perto de museus, lojas, parques, bares, restaurantes e muita gente? Penso que, por mais que cada um desses lugares (escolhi alguns que poderiam ser particularmente atraentes para mim) possua atrativos e vantagens inegáveis, sempre vai haver um vácuo, algo que produza em nós uma nostalgia melancólica do lugar de onde viemos e que abandonamos.
Li recentemente uma entrevista com a cantora Cassandra Wilson, na qual ela dizia que tinha o sonho de conhecer duas cidades do mundo: Havana e Salvador. Fiquei intimamente lisonjeado ao saber que moro num lugar onde uma das grandes cantoras contemporâneas de jazz (e não só ela) adoraria pôr os pés. Por que, então, sinto desejo de escapar daqui e dar adeus ao trânsito truculento, à violência desmedida e à miséria atávica? Por que, afinal, acredito que em algum outro lugar remoto eu posso ser mais feliz do que na cidade onde nasci? Não faço idéia nem mesmo se existe esse lugar, esteja ele nesta relação acima ou em qualquer outro canto.
Outro dia, meu melhor amigo, que mora com a família numa cidade pequena, acolhedora e segura do estado americano de Wisconsin, me confessou que anseia por um pouco de latinidade. Em outras palavras, por relações humanas menos gélidas, culinárias com mais tempero e temperaturas menos inóspitas. É um desejo simples e pueril, e talvez por isso altamente valoroso, como o daquela canção recentemente apropriada pela torcida do Flamengo para se referir ao filho pródigo Adriano: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”. E olha que no caso do meu amigo ir a São Francisco, Havaí, Big Sur ou Boston é como, para mim, ir ao Rio ou a Porto Alegre. Já um colega de trabalho, baiano que voltou a Salvador após vários anos morando em São Paulo, não conseguiu se readaptar à cidade e aceitou uma proposta para ir viver em Brasília. Como eles, há uma multidão desejando experimentar outros mundos que não o seu.
No meu caso, o que existe é o anseio de morar em outro país, de preferência europeu, de onde possa partir rumo aos extremos do continente e voltar para casa sem precisar enfrentar um vôo de 12 horas acima do Atlântico. Morar mesmo, apreciar a descoberta de uma comida desconhecida, me comunicar diariamente em outra língua, conhecer paisagens e pessoas estranhas, enfim, viver em constante estado de alumbramento e poder compartilhar esse alumbramento com minha filha. Se serei feliz lá? Quem sabe. Talvez até seja acometido pelo velho banzo que minava as forças dos escravos arrancados da África, pois é bem provável que corra em meu sangue um pouco desse sangue dos deserdados. Em On The Road, Jack Kerouac – ou melhor, seu alter ego Sal Paradise – afirmou que ele e seus amigos de estrada desempenhavam a única função nobre da sua época: mover-se. Não sei se essa é a única função nobre de uma época, qualquer que seja ela, mas certamente é uma delas, porque a necessidade de movimento permanece acesa em muitos de nós, 52 anos após a publicação do romance.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Meu rol de lacunas


Num poema chamado Limite, Jorge Luis Borges manifestava assim o seu lamento sobre a passagem do tempo: "Entre os livros da minha biblioteca (posso vê-los agora), há um que não mais abrirei". Fico imaginando, enquanto termino de ler esta sublime reflexão sobre a brevidade da vida, as formas e as cores desse livro sem nome, repousando em alguma prateleira perdida daquele labirinto de papel que deve ter sido a biblioteca de um homem que dedicou a vida a consumir palavras – e a trazê-las de volta à tona com esplêndida maestria. Poderia ser uma antologia de poemas de Paul Verlaine, já que no mesmo poema Borges diz: "Há uma linha de Verlaine que não voltarei a lembrar". Mas poderia ser qualquer outra obra perdida naquela vastidão.
De minha parte, há livros de Borges que nunca lerei, assim como há obras-primas que jamais passarão pelas minhas mãos ou ocuparão um cantinho de nobreza no meu coração. Obras que mudariam radicalmente a minha visão de mundo ou trariam um novo alento às minhas noites de insônia. Pensando nelas, cheguei a esboçar uma lista dos livros preferidos que nunca li (ou que ainda não li). Ou melhor: um rol de lacunas imperdoáveis, que deixaria à mostra a minha erudição capenga. Entrariam na relação, por exemplo, os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, que venho colecionando com afinco desde que a auto-intitulada “edição definitiva” da editora Globo chegou às livrarias. Sempre disse a mim mesmo que se tratava de uma obra para ser lida aos 40 anos, por isso fui adiando, mas agora 2010 se aproxima e me empurra incessantemente rumo à quarta década da minha existência. Poderia incluir, também, Ulisses, que comecei a ler, mas parei por falta de tempo, para usar a mais injustificável das desculpas. Ou tantos que aguardam pacientemente o instante em que serão (se é que serão) retirados da prateleira e depositados carinhosamente no criado-mudo: Dom Quixote (Cervantes), Macbeth (Shakespeare), Submundo (DeLillo), Luz em Agosto (Faulkner), Os Irmãos Karamazov (Dostoievski), Estranhos Embora Íntimos (Fitzgerald), Extinção (Bernhard), Os Thibaut (Martin Du-Gard) e mais livros de Lispector, Vargas Llosa, Kerouac (os quatro ou cinco em inglês que possuo), Mallamud, Pynchon e muitos, muitos, muitos outros, cuja ausência deixa entrever certa indigência intelectual. Por outro lado, ainda tenho tempo (espero) e todos eles ao alcance da mão ou de um banquinho, é só pegar. Como peguei recentemente Soldados de Salamina (Cercas), A morte de Ivan Ilitch (Tolstoi), O Grande Bazar Ferroviário (Theroux) e a Antologia Pessoal de Borges, que deu origem a toda essa conversa. No caso de Soldados..., o interesse por Javier Cercas fez com que comprasse outro livro dele, A Velocidade da Luz, que já li e também gostei, embora tenha identificado certa repetição de fórmulas. E por aí vai, um puxando o outro, como peças de dominó caindo em seqüência. E, quem sabe, aos poucos alguns integrantes desse rol de lacunas mudem de lado, e passem a fazer parte do rol de paixões, que não são poucas. Mas elas ficam para um próximo post.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Transcendência


Mesmo sendo essencialmente sensorial (como de resto é o ato de ouvir música), o jazz é também uma experiência intelectual sobre a qual você pode teorizar e racionalizar. Com um pouco de atenção, é perfeitamente possível a quem não domina música apreender a sobreposição de notas em Oscar Peterson ou diferentes camadas de som aninhadas nos solos de Coltrane, e é esse conhecimento progressivo – aliado à riqueza histórica dos seus artistas e suas vertentes – que nos conquista e nos faz amar o gênero, como amamos um autor à medida que consumimos e apreciamos os seus livros. Numa canção de MPB, a presença da letra também nos mantém despertos e distantes de um hipotético transe.
Mas na musica clássica, não. Nela – provavelmente por não dispor do conhecimento técnico necessário a uma audição plena –, a melodia me atravessa sem barreiras ou interferências, e é o sentimento em estado bruto que se insere diretamente em meu córtex cerebral. Quando escuto Glenn Gould (e ouvi-lo é uma experiência arrebatadora), percebo que As Variações Goldberg de Bach - tanto a ensandecida versão de 1955 quanto a contemplativa de 1981 - são um portento de técnica e entrega física e mental por parte do músico, mas o que chega até mim é sobretudo a sensação de transcendência que elas provocam. Por eu não reconhecer contrapontos, fugas e cromatismos em sua execução, Gould soa para mim como uma apologia ao suicídio nos ouvidos de um fanático islâmico: é como uma epifania que nos pega desprevenidos, simples assim.
O curioso é que não aprecio tanto as grandes orquestras, com sua grandiloqüência, suas variações drásticas de volume e, de certa forma, sua impessoalidade. Prefiro os músicos em pequenos conjuntos, como quartetos de cordas e orquestras de câmara, ou desacompanhados. Me emociona ouvir Nelson Freire movimentando as teclas como se usasse um pincel em vez de dedos ao tocar Chopin. Ou Itzhak Perlmann concebendo, ao recriar Beethoven, uma tessitura que me faz lembrar uma criança caminhando sobre um tapete felpudo. Ou Yo-Yo Ma e Jacqueline Du Pre transformando violoncelos em instrumentos de adoração celestial. Com eles, e mais um vinho ou um charuto no escuro, me transporto confortavelmente rumo a outras regiões da Via-Láctea.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Os canalhas merecem a salvação?


Toda a celeuma envolvendo o filme (que não vi) sobre a carreira vertiginosa de Wilson Simonal, abruptamente transmutada em queda livre, me trouxe à tona uma questão que considero crucial nas discussões sobre a relação entre arte, cultura e sociedade: um grande artista merece ser preservado, mesmo tendo sido um ser humano abjeto? Ou melhor: deve-se ao menos preservar a sua obra, ou até ela merece ser relegada ao esquecimento? Não me refiro a Simonal, até porque mal ouvi suas canções e só conheço a sua história superficialmente. Mas as posições extremadas envolvendo o seu caso dão pano para manga, assim como deram em outros tempos a simpatia de Herbert Von Karajan pelo fascismo ou as supostas delações de Elia Kazan durante a caça às bruxas do Macarthismo, só para citar dois exemplos. Jânio de Freitas foi ferino em sua coluna, dizendo que faltou uma palavra no título do filme, que deveria se chamar Ninguém Sabe o (Dedo) Duro que Dei. Paulo Vanzolini foi mais longe: revelou que Simonal se gabava de ter delatado conhecidos do meio artístico. Mas, pelo que tenho lido, o longa de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal busca uma espécie de reparação póstuma, tentando esclarecer pontos obscuros dessa história e relativizar o linchamento moral de que o cantor foi vítima. Não tenho opinião formada sobre o caso, embora ache estranho aquele episódio da tortura do seu ex-contador por um segurança ligado ao Dops. Minha impressão, olhando de longe, é de que Simonal não era lá flor que se cheire, embora não necessariamente um delator profissional.
Mas não queria falar de Simonal, e sim de outro personagem sobre o qual recaíram acusações muito mais graves, sendo que estas, sim, foram comprovadas e publicamente assumidas. Falo de Louis-Ferdinand Céline, aquele tipo asqueroso que escreveu panfletos ignominiosos pregando o extermínio dos judeus pelos alemães durante a Segunda Guerra. Céline seria um desses tipos facilmente esquecíveis, ou lembrados apenas por sua torpeza, caso não tivesse entrado para a história da literatura com Viagem ao Fim da Noite. Não falo dos seus outros romances porque não os li, mas Viagem é um dos mais virulentos petardos já escritos sobre a estupidez humana, e só ele bastaria para colocar o autor no panteão da literatura francesa do século 20, ao “emporcalhar” o idioma de Proust e Flaubert com desvarios estéticos e palavras arrancadas do cotidiano da plebe. Nele, Céline mostrava ao mundo um pouco do que ele mesmo viria a ser anos depois (o livro é de 1932): um homem sem moral, paranóico e sujo, completamente despido de compaixão. A questão é: esse homem merece o esquecimento? Sinceramente, não sei. Seis milhões de pessoas, quase todas civis, morreram por causa da ação (não se trata, neste caso, de simples inação, mas sim de engajamento mesmo) de pessoas como ele. O que uma mãe judia presa num campo de extermínio junto com os filhos teria dito sobre isso? A arte justifica o mal? Claro que não, nada o justifica. Mas então, o que fazer? Queimar todos os exemplares de Viagem ao Fim da Noite, de Morte a Crédito (que dormita na minha estante há mais de 10 anos), de Norte e de todos os outros romances de Louis-Ferdinand? Colocá-los num índex semelhante ao da Inquisição? Não precisamos disso. Tenho nojo de Céline, mas agradeço ao mundo de hoje por ter me dado a oportunidade de ler sua obra maior e admirá-la, mesmo sabendo que foi escrita por um canalha.

Segue abaixo um texto publicado em 2001 (quando se completaram 40 anos da sua morte), no qual acho que fui muito mais complacente com ele do que seria hoje. O tempo nos leva muitas coisas. A tolerância à estupidez é uma delas.


Arquivo - Ascensão e derrocada de um gênio repulsivo

Aversão e admiração ainda convivem em Céline, morto no ostracismo há 40 anos

Paulo Sales

Asco e fascínio, degradação e genialidade. A ambigüidade é a impressão que se eleva quando o nome Louis-Ferdinand Céline é entoado. Ser humano abjeto, preconceituoso, pleno do ódio mais torpe, ele não pode ser esquecido. Sua obra permanece – o texto tortuoso, árido – fincada na literatura francesa e mundial do século 20. Quarenta anos após sua morte, Céline ainda desperta doses equivalentes de repulsa e admiração.
O criador do sublime Viagem ao Fim da Noite (editado no Brasil pela Companhia das Letras) é o mesmo homem que exigiu dos nazistas o extermínio do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e essa faceta tenebrosa não pode ser menosprezada. Céline não deve ser comparado, por exemplo, a escritores como John Steinbeck e Ezra Pound, que assumiram posições eticamente discutíveis em determinados momentos das suas vidas. Ele foi muito além: escreveu uma série de três panfletos pregando o ódio racial e acusando os judeus de responsáveis pela falência social da França.
Por que então falar dele, em vez de desterrá-lo ao limbo? Porque, por pior que tenha sido como homem, Céline foi um revolucionário das letras francesas, um escritor poderoso, capaz de subverter tudo que até então era considerado genial. Quando surgiu, aos 38 anos, em 1932, com o lançamento de Viagem ao Fim da Noite, Marcel Proust (principalmente) e André Gide eram os ícones estabelecidos na literatura francesa. Escreviam textos edificados sobre o alicerce clássico, herdeiros das frases elaboradas de Honoré de Balzac.
Céline trouxe a imundície, a pontuação irregular, a escória do mundo. Sua matéria-prima era a amargura, a misantropia, a covardia como único motor. Viagem... é um livro doloroso, escrito por um médico de gente humilde, ex-soldado da Primeira Guerra (de onde saiu com graves ferimentos), que já havia perambulado pela África colonial e pela América marcada pelas desigualdades sociais. Enfim, um ser humano acostumado aos dejetos.
Contando a história – com toques autobiográficos – de Ferdinand Bardamu, um sujeito pusilânime, acossado pela maldade e a ignorância da humanidade, o livro conferiu notoriedade imediata ao escritor e reações extremadas por parte da crítica francesa. Vendeu 100 mil exemplares em apenas um ano e foi traduzido para diversos países da Europa, tornando-se uma espécie de representante literário das facções de esquerda. Vale salientar que, à época, o continente passava por convulsões ideológicas, e o comunismo disputava espaço com o nazismo então incipiente.
Mesmo sendo o principal candidato ao Prêmio Goncourt, o mais representativo das letras francesas, o livro não se sagrou vencedor. Os jurados se negaram a conceder uma condecoração tão importante a uma obra repleta de palavrões e opiniões polêmicas, vistas pela ótica do proletariado, dos bêbados, do lado oculto da França.
Um trecho, quase ao final do livro, é emblemático: “Lá bem longe era o mar. Mas eu não tinha mais nada o que imaginar eu sobre ele o mar agora. Tinha outra coisa para fazer. Por mais que eu tentasse me perder para não mais me encontrar diante da minha vida, eu simplesmente a encontrava por todo lado. Voltava a mim mesmo. Minha vagabundagem, a minha, estava terminada. Para mim chega!... O mundo estava fechado! Ao fim é que tínhamos chegado, nós!... Como na festa!... Sentir tristeza não é tudo, seria preciso poder recomeçar a música, ir procurar mais tristeza... Mas para mim basta!... É a juventude que pedimos assim como quem não quer nada... com a maior desfaçatez!...”
A Viagem... se seguiu Morte a Crédito (1936, Nova Fronteira), desprezado pela crítica. No ano seguinte, Céline deu início à própria derrocada. Publicou os tais panfletos anti-semitas e, com a eclosão da guerra, passou a defender abertamente a Alemanha. Tornou-se refém de uma perseguição ideológica veemente. No mais famoso desses textos, Bagatelles pour un Massacre, argumentou que o comunismo de Marx, Engels e Trotski, todos judeus, era na verdade um amplo complô do povo semita para dominar o mundo. A genialidade cedia lugar ao delírio.
Pouco antes do fim da guerra, em 1944, o escritor saiu escorraçado da França para, junto com a mulher Lucette e o gato Bébert, pedir asilo à Dinamarca. Com isso, escapou dos tribunais de guerra e do pelotão de fuzilamento, mas passou um ano e meio numa prisão em Copenhagen. Voltou ao país natal em 1951, doente e em situação financeira lamentável. Seus novos livros, Norte e Rigodon entre eles, tornaram-se fracassos estrondosos. Voltou a exercer a medicina, sem sucesso. Em 1º de julho de 1961, aos 67 anos, foi colhido por uma congestão cerebral. Menos de 30 pessoas acompanharam o funeral.
Nascido Louis-Ferdidand Destouches (Céline era o nome de sua avó materna e madrinha), em 27 de maio de 1894, o escritor certamente ficaria surpreso com o valor pago pelos originais de Viagem ao Fim da Noite, leiloado há dois meses na França: 12 milhões de Francos. Um recorde, superado apenas pelos originais de On The Road, de Jack Kerouac (vendido por 15 milhões de Francos). Céline Secret, testemunho fiel do homem e autor, está sendo publicado em Paris pela viúva Lucette, ainda lúcida aos 87 anos.
Céline é reverenciado por escritores do quilate de Henry Miller (que reescreveu Trópico de Câncer após ler Viagem...), Charles Bukowski e Philip Roth, dentre outros. Roth, judeu e maior escritor norte-americano vivo, assim se refere ao romancista: “Na França, meu Proust é Céline! Mesmo se seu anti-semitismo o torna um ser abjeto, intolerável, trata-se de um grande escritor – para lê-lo, porém, devo deixar em suspenso minha consciência judaica. Céline é um grande libertador: sinto-me chamado por sua voz”.

* Publicado originalmente no Correio da Bahia

sábado, 6 de junho de 2009

Até o outro lado


Em Depois da Vida, Hirokazu Kore-Eda constrói uma fábula insólita, ambientada numa espécie de ante-sala do paraíso. Uma pensão de instalações espartanas, para onde são encaminhadas as pessoas que acabam de morrer. Lá, elas contam com a ajuda de outros mortos, seus guias espirituais, para escolher uma única recordação que vai acompanhá-las por toda a eternidade – o resto será esquecido. Após selecionada, a lembrança é reproduzida de forma meio tosca, mas eficiente, através de artifícios simples como, por exemplo, um velho ventilador que simula uma brisa sentida décadas antes na cabine de um avião. E só então, munidas dessas reminiscências solitárias, partem rumo ao paraíso.
Como eu, muitos dos que assistiram ao filme devem ter feito o mesmo questionamento e fuçado durante algum tempo os arquivos mortos da memória: que lembrança eleger – em detrimento de todas as outras de uma existência que, no meu caso, conta hoje exatos 39 anos, quatro meses e dois dias – para nos acompanhar até o Éden? Um Éden que, imagino, deva ser um breu espesso e mudo, despido de pensamentos, sonhos ou reviravoltas dramáticas. O calor da minha mãe me protegendo? O arrebatador prazer da aventura ao sentir o vento gelado numa estrada? O delírio silencioso de um livro lido? O delírio exasperador de um livro escrito? A barriga estufada de minha mulher prenhe? O primeiro encontro com minha filha? O último encontro com meu pai? Bem, ficaria de bom grado com uma noite que passei junto com todos eles: meu pai, minha filha, minha mãe e minha mulher, ocorrida em janeiro de 2003, numa casa de praia que não era nossa, mas na qual nos sentimos intimamente em casa. Uma noite em que andei na areia, me assombrando com a bola branca e imensa, bebi vinho e comi uma pasta feita de sardinha, cebola, azeite e pimenta com pedaços de pão. Uma noite em que tudo se bastou, e na qual a sensação de felicidade, fugaz por natureza, pareceu se prolongar indefinidamente. Uma noite ideal para ser levada até o outro lado do paraíso.
Mas, pensando também no filme, fiquei a imaginar os mortos do vôo da Air France chegando em massa à pensão fantasiada por Kore-Eda, recém-saídos do desespero de uma queda vertiginosa, a qual não se sabe ainda como se deu. Por mais que tente reprimir, acabo voltando invariavelmente ao ponto crucial: o que todos aqueles 228 seres humanos sentiram naqueles minutos ou segundos em que se viram no ermo escuro de uma noite de tempestade, longe de tudo – dos pais, dos amantes, das casas, da vida e até mesmo de um pedaço de terra onde cair. Fico me perguntando que tipo de recordação poderia ter o bebê que estava entre eles, se sua existência se resumiu a pouco mais que dormir, mamar e descobrir as paredes, cobertores e rostos familiares que constituíam o seu mundo. Talvez apenas uma obscura sensação de aconchego, ali mesmo até, no colo da mãe. Tomara. Ou melhor: tanto faz. O fato é que não consigo represar um grito emudecido, um lamento – resignado e inútil, eu sei – por nossa estadia na Terra ser capaz de produzir injustiças tão profundas.

sábado, 30 de maio de 2009

Antecedentes criminais


É óbvio que o Brasil não detém o monopólio das tragédias. Diria até que, apesar das nossas desditas cotidianas, há povos mais desafortunados ao redor do mundo, que parecem viver em estado crônico de sofrimento. Existe, porém, uma modalidade de tragédia na qual somos hegemônicos em nível mundial: as tragédias anunciadas. Nesse quesito, somos tão imbatíveis quanto o escrete canarinho da Copa de 70. Governos se abancam, governos se despedem, e continuamos a nos deparar melancolicamente com desastres perfeitamente evitáveis, como o que aconteceu esta semana no Piauí. A frágil barragem que segurava a fúria de uma correnteza brutal estava prestes a romper, como percebeu um morador da região – leigo em engenharia, porém pós-graduado em matéria de sofrer – mas nenhuma medida foi tomada para retirar as pessoas que estavam lá. Ontem assisti a uma entrevista (gravada antes do episódio) do engenheiro responsável pelo laudo que considerava a barragem absolutamente segura. Ele afirmou de forma enfática ao interlocutor que o concreto não se romperia, e ignorou os apelos de um bombeiro que havia sugerido a retirada dos moradores. Deu no que deu. Não seria o caso, portanto, de as famílias dos mortos entrarem com um processo contra esse engenheiro e contra o Estado por homicídio doloso? Doloso mesmo, com intenção de matar, como um bêbado ao volante sabe que mais cedo ou mais tarde vai arrancar a vida ou as pernas de alguém.
A tragédia anunciada no Piauí é apenas um item a mais na extensa lista de antecedentes criminais que revela o nosso caráter acomodado, incapaz de impedir ou prevenir que pessoas morram em desabamentos, enchentes, secas, acidentes de carro e de avião ou doenças seculares como meningite e dengue. Enfim, somos complacentes com diversas formas de desastre perfeitamente evitáveis quando há fiscalização, responsabilidade, cumprimento de leis e, em último caso, punição. Mas não. Vivemos num limbo, num deserto de idéias e de iniciativas capazes de dar cabo desses assassinatos coletivos dos quais não se consegue descobrir e muito menos punir os autores. Na falta de expressão mais adequada, cabe aqui o batido clichê de que estamos deitados eternamente em berço esplêndido, esperando sabe-se lá o quê, enquanto a roda gira e nos deixa mais uma vez esperando o próximo bonde da história.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

"Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente."

Vladimir Maiakovski

terça-feira, 26 de maio de 2009

As cinzas da história


Cheguei a duvidar das palavras de Mario Vargas Llosa quando atingi a página 50. Até aquele momento, Soldados de Salamina me parecia um bom livro, e não um “livro magnífico, dos melhores que li em muito tempo”, segundo o autor de Tia Julia e o Escrevinhador. Mas continuei desbravando a obra do espanhol Javier Cercas, alcançando a segunda parte (que me pareceu muito boa) e por fim a terceira. Só então compreendi a grandeza do romance, a sua força arrebatadora, que me impelia incessantemente rumo a um epílogo comovente, combinando de forma espantosa elementos típicos de um épico de guerra com incursões metalingüísticas (o livro dentro do livro, o narrador com o mesmo nome do autor, a homenagem ao escritor chileno Roberto Bolaño). Mais do que o estilo elegante, me chamou a atenção o olhar entre impiedoso e compreensivo com que ele se debruça sobre o falangismo, movimento que serviu de lastro intelectual para a escalada do fascismo na Espanha, tornando-se, após o golpe, o partido único da sanguinária ditadura de Franco. Cercas elege como cerne do livro um episódio surreal ocorrido com o político, cronista e escritor Rafael Sánchez Mazas, fundador da Falange e espécie de reserva moral (se é que isso pode ser possível) do franquismo. Preso pelos republicanos nos estertores da Guerra Civil Espanhola, Mazas foi para o paredon junto com outros fascistas, mas escapou milagrosamente do fuzilamento e fugiu pelo mato. Em meio à perseguição, foi flagrado por um soldado republicano, que não o denunciou. Personificando um Javier Cercas fictício (um escritor e jornalista fracassado), o autor refaz todo o percurso que o levou à história real de Mazas, das primeiras informações, colhidas com estudiosos e sobreviventes dos tempos do front até o fuzilamento, num dos trechos que desvelam a grande literatura praticada por Cercas:
“O soldado olha para ele; Sánchez Mazas também, mas seus olhos deteriorados não entendem o que vêem: sob o cabelo empapado, a testa larga e as sobrancelhas pontilhadas de gotas, o olhar do soldado não expressa compaixão, nem ódio, nem desdém, mas uma espécie de secreta e insondável alegria, algo no limite da crueldade e resistente à razão, mas que tampouco é instinto, algo que está no sangue com a mesma cega obstinação que o próprio sangue persiste em seus dutos e a terra em sua órbita inamovível e todos os seres em sua teimosa condição de seres, algo que se esquiva às palavras como a água do riacho se esquiva das pedras, porque as palavras só estão feitas para expressar-se em si mesmas, para expressar o dizível, quer dizer, tudo, exceto o que nos governa ou faz viver ou concerne ou somos, ou é este soldado anônimo e derrotado que agora olha esse homem cujo corpo quase se confunde com a terra e a água marrom da cratera, e que grita com força para o ar sem deixar de olhá-lo: Por aqui não tem ninguém! Então dá meia-volta e se vai.”
Porém, mais do que um estudo sobre a natureza do ódio, temos aqui um tratado sobre o altruísmo, já que percebemos que o verdadeiro objeto da obsessão de Cercas (o narrador, não o autor) não é Mazas – embora ele só se dê conta disso no final –, e sim o soldado anônimo que poupou a vida do falangista. A busca pela memória desse herói invisível responde pelos momentos mais pungentes de Soldados de Salamina, e o alçam à condição de obra maior. É quando Cercas discorre sobre literatura e jornalismo com Bolaño (numa homenagem ao prestigiado autor de Os Detetives Selvagens e Putas Assassinas) ou sobre guerra, heroísmo e esquecimento com Miralles, um veterano octogenário de muitas guerras que pode (ou não) ter sido o homem que salvou Sánchez Mazas da morte atroz numa clareira enlameada em algum lugar da terra devastada em que se converteu a Espanha no final dos anos 30. Através dessas conversas de forte teor emocional, descortina-se não apenas a aberração da guerra, qualquer que seja ela. Mas também a memória pulverizada dos que ficaram para trás, sem direito a futuro, nome ou gratidão, assassinados anonimamente como formigas numa calçada lotada de pedestres.

Literatura e jornalismo:

“Um escritor não escreve nunca sobre o que conhece, mas precisamente sobre o que ignora.”

“Nada irrita tanto um escritor que não escreve quanto perguntá-lo sobre o que está escrevendo.”

“Para escrever um romance não é preciso imaginação, só memória. Os romances são combinações de lembranças.”

“Um homem de ação é um escritor frustrado. Se Dom Quixote tivesse escrito um só romance de cavalaria, nunca teria sido Dom Quixote.”

“Um bom jornalista é sempre um bom escritor, mas um bom escritor quase nunca é um bom jornalista.”

Heroísmo e esquecimento:

“Pensei: nem uma única destas pessoas sabe desse velho meio caolho e terminal que fuma cigarros às escondidas e que agora mesmo está comendo sem sal a uns poucos quilômetros daqui, mas não há uma só que não esteja em dívida com ele.”

“Na realidade, eu acho que no comportamento de um herói há quase sempre algo cego, irracional, instintivo. Algo que está em sua natureza e ao qual não pode escapar.”

“Homens não pedem perdão: fazem o que fazem, dizem o que dizem, e depois agüentam.”

“Os heróis só são heróis quando morrem ou são mortos. E os heróis de verdade nascem na guerra ou morrem na guerra. Não há heróis vivos, jovem. Todos estão mortos. Mortos, mortos, mortos.”

“Ninguém se lembra deles, sabe? Ninguém. Ninguém se lembra sequer por que morreram, por que não tiveram mulher e filhos e um quarto com sol; ninguém, e menos que ninguém, as pessoas por quem lutaram. Não há nem haverá jamais uma rua miserável de alguma aldeia miserável de algum país de merda que venha a receber um dia o nome de algum deles.”

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Latifúndio devastado


Luiz Carlos Merten expôs uma tese interessante sobre Antichrist, o explosivo filme de Lars Von Trier exibido semana passada em Cannes: a de que o cineasta dinamarquês defende a teoria de que o homem foi criado à imagem e semelhança do Diabo, e não de Deus. A despeito da predileção do diretor por provocações muitas vezes vazias, não deixa de ser uma viagem interessante. Caso confirmada, essa teoria poria abaixo tudo que se pensa a respeito da humanidade: em vez de nascermos bons e irmos aos poucos nos corrompendo pelo contato com a sociedade, carregaríamos todos uma carga de maldade latente, que poderia irromper em determinado momento ou ficar sempre ali guardada para uma eventual necessidade. Lars Von Trier aprecia essa tese, como se pode conferir sobretudo em Dogville. E o anjo cego encarnado por Björk em Dançando no Escuro seria apenas uma anomalia em meio à torpeza generalizada. De certa forma, essa teoria explicaria por que a maldade permanece renitente a assombrar os vivos e a produzir aberrações com forte poder destrutivo. Sendo assim, Hitler –  para citar o mais notório dos nossos anticristos – seria a imagem e semelhança do Lúcifer lá de cima. Em vez de tridentes, chifres e pés-de-cabra, teríamos o bigodinho tosco, o cabelo lambido e o comportamento insano. Ou, já que somos todos iguais ao dito-cujo, ele também não poderia ostentar traços nipônicos, pele escura e olhos azuis?

A verdade é que, passado tanto tempo (ou quase nada em termos geológicos), ainda não sabemos quem somos, e qualquer maniqueísmo serve apenas para confundir, e não elucidar. Até porque a humanidade habita uma zona cinzenta, um latifúndio devastado sem pátria ou proprietário, onde a perversão, o ódio e a indiferença convivem lado a lado, até com uma certa harmonia, com o altruísmo, a compaixão e o amor. Impossível separar bons e maus em departamentos estanques, como jogadores de uma partida de vôlei, devidamente cindidos por uma rede imaginária. Estamos mais para peladeiros numa partida de futebol disputada na várzea, com todo o contato físico que ela implica e na qual a lama e a poeira vão aos poucos diluindo as cores dos uniformes, fazendo com que todos pareçamos idênticos, como membros de uma mesma irmandade marrom e indefinida. É isso que somos, até que se prove o contrário.

sábado, 16 de maio de 2009

Os piores cegos


Nunca esqueci de uma crítica que Inácio Araujo escreveu na Folha de S.Paulo sobre Mar Aberto, aquele thriller angustiante em que um casal é esquecido em alto-mar durante um passeio de mergulho. Nem tanto pela brilhante análise que fez do filme em si, mas pela maneira como refletiu sobre o vazio psicológico dos personagens, que segundo Inácio tinham “à disposição apenas lugares-comuns para se comunicar”. Fui ao arquivo digital do jornal e recuperei o texto, que inclui o seguinte trecho: “Podemos indagar sobre o significado de vidas que parecem copiadas de catálogos publicitários, que vivem uma aventura de angústia profunda sem nunca a experimentarem em toda a intensidade.
Daí, talvez, o final silencioso restituir-nos esse enigma do que seja uma vida”. É uma análise precisa de como algumas pessoas – muitas, aliás – transitam numa espécie de universo paralelo, no qual tudo que produz incômodo ou desconforto se torna invisível. Pessoas com apenas duas dimensões, planas, chapadas, sem contrastes ou assimetrias, incapazes de romper a existência de papel couchê em que estão encarceradas. São como fotocópias coloridas de um único e bem-sucedido modelo de existência. Bem-sucedido no sentido de provocar um bem-estar contínuo, por mais que esse bem-estar seja ele também uma fotocópia, como aqueles folhetos luxuosos dos lançamentos imobiliários de alto padrão: uma convenção preestabelecida, rigorosamente respeitada e seguida. Famílias inteiras são construídas de acordo com essas convenções, e quando me deparo com pessoas assim – e me deparo quase todo o tempo – tenho a impressão de que não vejo uma vida, e sim um estereótipo, solidamente oco como todos os estereótipos. Mesmo os conflitos, os dramas vividos padecem de uma falta de autenticidade atroz, quase uma simulação dramatúrgica hiper-realista. Só que estamos falando aqui de gente, gente que se reproduz, adoece e morre sem que efetivamente se entranhe nessas e em outras experiências. Gente cuja indiferença (inclusive em relação à injustiça e à desigualdade) é uma espécie de mecanismo de autodefesa. Imagino, portanto, que a superfície deva ser um território seguro e tranqüilo, um oásis de frivolidade onde é possível criar os filhos em condomínios fechados, conviver com iguais, ir a festas badaladas, destilar amenidades, exercitar o esnobismo, beber vinhos caros não porque são vinhos, mas porque são caros, sorrir risadas postiças, crer remotamente em alguma instância superior e, de vez em quando, sofrer um pouco, para mostrar que a vida, afinal, não é só uma festa móvel.
Não faço aqui, obviamente, uma apologia do sofrimento. Penso até que nossa brevíssima passagem pela Terra seria menos traumática se não levássemos ao longo dos anos tantas rasteiras do acaso. Faço na verdade uma apologia da lucidez, do mergulho vertical rumo à zona abissal que é a existência humana. Abdicar deliberadamente do colossal conhecimento apreendido e acumulado nesses cinco mil e tantos anos é jogar fora a dádiva fatal que nos foi dada. É desperdiçar a única aventura que realmente importa nesses 70 anos ou pouco mais que temos antes do oblívio. Lembro agora do Ivan Ilitch de Tolstoi lamentando a brevidade da própria vida, constatando que não viveu como deveria e concluindo que sua vida estava envenenada e que o veneno não seria eliminado, mas sim penetraria cada vez mais nele. Ilitch ao menos conseguiu, já nos estertores, empreender o mergulho, mas aí já era tarde e o estrago tinha sido feito. A maioria, porém, opta por permanecer na superfície, imune a essa chaga imunda e imperfeita chamada realidade. Como o pior cego, aquele que não quer ver, do ditado popular.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Tão longe, tão perto


Às vezes basta uma ironia involuntária para nos darmos conta de um absurdo crucial da condição humana: o abismo que separa nossas conquistas – sejam elas intelectuais, científicas ou artísticas – das nossas desditas cotidianas. Ao ler a Folha de S.Paulo de ontem, me deparei com uma esclarecedora reportagem sobre o caos político que vem minando a vida de milhares de civis no Sri Lanka, país de nome exótico situado ao sul da Índia. Multidões morrendo de inanição ou bombardeio, fugindo em massa para se instalar de forma precária em barracos improvisados, enquanto o governo local e o grupo rebelde Tigres Tâmeis se flagelam num ritual antropofágico movido a minas terrestres, submetralhadoras e ataques suicidas. E, justamente na página seguinte (daí a ironia involuntária a que me referi no início), encontro uma matéria sobre o conserto do telescópio espacial Hubble, aquele que nos traz imagens comoventes dos confins do universo. Olhei agora para o céu limpo, no qual desponta um resto de lua minguante já caminhando para oeste, e tentei imaginar onde, no meio dessa vastidão escura, estaria ele, orbitando a Terra a 559 km de altitude. O Hubble é uma obra-prima da ciência, com suas imagens que viajam até o princípio do mundo para que nós, aqui nesta bola de gude celestial, possamos compreender – ou ao menos esboçar uma teoria plausível – de onde viemos, quem somos e para onde vamos. E aqui entra a seguinte questão: se chegamos tão longe, não poderíamos chegar tão perto? Não poderíamos ter um outro Hubble, tão potente e tecnologicamente sofisticado quanto o primeiro, só que direcionado para as entranhas do que chamamos civilização? Um Hubble que em vez da Nebulosa da Águia mirasse o Sri Lanka? Ou o Haiti? Ou o Sudão?
Não há nenhuma novidade em estabelecer, como faço agora, um paralelo crítico entre a nossa evolução científica e o nosso malogro social. Mas não é sintomático que o passar do tempo não nos tenha trazido sequer um arrefecimento das nossas desgraças? Neil Armstrong e o garotinho sem uma perna no campo de refugiados de Vavuniya pertencem à mesma espécie? Se pertencem, então de que forma o pequeno passo dado pelo primeiro ao pisar na Lua representou um salto gigantesco para a humanidade, o segundo aí incluído? A verdade é que dois mundos distintos e estanques convivem lado a lado, como em outros tempos conviveram o homo sapiens e o homem de Neanderthal. Se o Hubble estacionado a 500 km do solo representa o nosso roçar primevo e ainda incipiente numa realidade de ficção-científica, o Sri Lanka nos lança de volta à pré-história. Talvez Stanley Kubrick quisesse dizer exatamente isso quando seu hominídeo arremessou o osso rumo ao céu e ele se transformou em espaçonave. Ou seja, que passado e futuro são apenas simulacros grosseiros um do outro, refletindo, cada um a seu modo, o nosso fracasso como espécie. Sinceramente, não sei se é por aí. Sei apenas, do alto da minha insipiência, que um dia o sol vai explodir, sugando tudo ao redor, inclusive as cidades, guerras, anéis de ouro, televisões de plasma, telescópios espaciais e garotos famintos. E passado e futuro vão pertencer à mesma massa amorfa da eternidade, como ingredientes de um bolo já ingerido.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Rebeldia de almanaque


Aos 18 anos eu ansiava por rebeldia. Queria pôr em prática os ensinamentos obscuros que havia absorvido nas leituras incipientes do Manifesto Comunista (em edição condensada e didática) e do volume O que é socialismo?, da coleção Primeiros Passos. Ou seja, apesar de conhecer apenas a quintessência da superfície, me sentia preparado para emitir palpites definitivos sobre o universo da foice e o martelo ou me juntar à marcha heróica de alguma revolução iminente. Bobagens, claro. No final dos anos 80, num país recém-saído e ainda traumatizado pela ditadura, tudo o que a garotada da minha geração queria era namorar, beber e jogar bola – atividades às quais eu também me dedicava com afinco, embora sem muito êxito. Havia, porém, um incômodo com aquela realidade edulcorada, que logo se traduziu em inadequação. Sabia desde a infância que vivia no lugar e na época errados, mas ao atingir a maioridade, com os hormônios pulando dentro de mim como foliões no Carnaval baiano, a situação se agravou. O que fazer com aquela imperiosa necessidade de sublevação, se não havia armas nem bandeiras para empunhar? Reconheço que teria sido presa fácil de algum messias vermelho disposto a depor o Estado para implantar uma ditadura do proletariado. Assim como reconheço a frustração por ser velho demais, já trabalhando e deixando a primeira faculdade no meio, quando os caras-pintadas, com sua rebeldia alegórica, saíram às ruas para exigir a saída de Collor e sua corja. Ou seja: fiquei num limbo entre os soturnos militantes do VAR-Palmares, ALN e MR-8 e a gente bronzeada que mostrou seu valor com as bochechas em verde e amarelo. E quer saber? Abençoado seja esse limbo.

Mas esta semana, ao ler uma história deliciosa protagonizada por Frei Betto em 1968 (publicada no Estadão), percebi um tênue sabor de rebeldia na saliva, ficando com uma inveja danada daquele pessoal que não dormia nunca. Chefe de reportagem do extinto Folha da Tarde, Betto foi convidado (por ser o único com o passaporte em dia) para cobrir com outros nove repórteres o casamento de Roberto Carlos e Nice na Bolívia (explica-se: como o divórcio ainda não era legalizado no Brasil e Nice era separada do primeiro marido, eles precisaram oficializar o matrimônio em solo estrangeiro). Já bastante endinheirado, o criador dos detalhes tão pequenos de nós dois fretou um avião para levar esse pessoal ao país vizinho, onde Ernesto Che Guevara fora assassinado meses antes pelo exército local, com ajuda da CIA. Frei Betto poderia tranquilamente escrever algumas linhas atulhadas de frivolidade sobre o evento e em seguida encher a cara e a pança no banquete promovido pelo Rei. Fez a primeira parte, mas trocou a embriaguez do álcool pela embriaguez de um sonho jornalístico. Entrevistou um monte de gente que conviveu com Guevara na selva ou participou da sua captura, chegando a pedir uma audiência com o então presidente boliviano, o general René Barrientos, no Palácio Quemado, sede do governo. Foi lá que conseguiu o maior furo de sua curta vida de jornalista, ao perguntar: "Afinal, quem mentiu? O senhor, ao dizer que Che foi enterrado, ou o chefe das Forças Armadas, general Alfredo Ovando Candía, ao afirmar que ele foi cremado?". Barrientos respondeu tranquilamente: “Nenhum dos dois mentiu. Parte do corpo foi enterrada, parte, cremada". Naquele momento, a lenda acabava de dar lugar ao fato.

É verdade que hoje, quando Che Guevara está mais para um mito pop do que para um grande homem do seu tempo, tudo isso soa meio ingênuo e inócuo. Mas o mundo fervia em 1968. E eu não estava lá para descarregar todo o meu desconforto existencial de almanaque.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Em carne viva


Algumas obras nos marcam tanto que é impossível voltar a elas, de tão dilacerante que foi a experiência. Outro dia postei um comentário no blog de Luiz Carlos Merten (http://blog.estadao.com.br/blog/merten/) – que considero o mais preparado e sobretudo o mais sensível crítico de cinema do país – sobre a não-inclusão de Ninguém Pode Saber numa dessas listas de melhores filmes do século 21. Não imaginava que, assim como eu, ele também devota profunda admiração por esse trabalho do japonês Hirozaku Kore-Eda, tendo até citado outros longas do autor que não conheço e postado uma entrevista que fez com ele – um humanista convicto e cultor da alteridade – em Cannes. Ninguém Pode Saber é uma dessas obras a que me referi no início. Não conseguiria enfrentá-la de novo, agora sabendo de antemão em que culmina a série de infortúnios por que passam quatro garotinhos abandonados pela mãe num apartamento em Tóquio. Seria, de certa forma, como retornar a um trauma pessoal atenuado pelo tempo. Deve haver, em alguma região da minha mente, uma superfície em carne viva, que se inflama de imediato ao descobrir ou presenciar qualquer tipo de agressão – física ou psicológica – contra crianças. E o abandono dos filhos na história de Kore-Eda, surpreendentemente baseada num episódio real ocorrido no Japão, é uma dupla agressão, capaz de provocar um talho invisível que se aprofunda progressivamente na carne e no espírito daqueles meninos. Merten adiantou também que o cineasta está de volta ao Festival de Cannes com Still Walking, sobre uma mãe que persegue uma borboleta por achar que ela é a reencarnação do seu filho morto. Em 2004, Ninguém Pode Saber perdeu para o engajado documentário Fahrenheit 11 de Setembro, de Michael Moore, numa decisão essencialmente política do então presidente do júri, Quentin Tarantino.

Segue abaixo um texto que escrevi na época do lançamento desse que considero um dos grandes filmes deste sombrio e ainda incipiente século 21.

  

O desamparo dos inocentes*

 Cineasta japonês imerge no abandono e na indiferença no dilacerante ‘Ninguém pode saber’

 Paulo Sales

Há filmes que nascem para confrontar o espectador com seus sentimentos mais dolorosos, permitindo a ele alcançar a essência da própria insignificância. Ninguém pode saber (Dare mo shinarai, 2004) pertence a essa estirpe. Um dos principais expoentes do novo cinema japonês, Hirozaku Kore-Eda aborda com sensibilidade e ternura temas como desamparo e indiferença, tendo como ponto de partida um fato real (e tristemente comum no Japão), ocorrido em Tóquio na década de 80: uma mãe que abandonara os quatro filhos num apartamento na periferia da cidade, apenas com um pouco de comida. Munido desse alicerce, o cineasta concebeu uma história dilacerante.

A mãe, em Ninguém pode saber, comporta-se de maneira infantil e se envolve em relacionamentos fortuitos. Através deles, teve quatro filhos de pais diferentes. Ela se muda com as crianças para um apartamento pequeno e aconchegante, numa região pacata de Tóquio. À exceção do mais velho, Akira (Yuya Yagira, ganhador do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes), de 12 anos, os outros chegam ao prédio escondidos (dois dentro de malas e uma que viajou separada do grupo). O motivo: no Japão, mães solteiras cheias de filhos são malvistas e dificilmente conseguem alugar apartamentos.

Assim, as quatro crianças vivem praticamente aprisionadas, enquanto a mãe sai para trabalhar e se divertir. Precocemente maduro, Akira supre essa ausência cuidando da casa e dos irmãos, indo ao banco, comprando e cozinhando comida. Na primeira vez, a mãe fica um mês fora. Na segunda, não volta mais. Akira, Keiko (Ayu Kitaura), 10 anos, Shigeru (Hiei Kimura), 7, e Yuki (Momoko Shimizu), 4, tentam sobreviver longe da escola e dos parques de diversão, contando apenas com o amor mútuo. Os pais, quando são encontrados, revelam-se indiferentes e apenas dão alguns trocados a um Akira cada vez mais preocupado com a conta bancária e com o destino dele e de seus irmãos.

Os meses passam, a mãe já é uma lembrança distante e os meninos vão ficando cada vez mais empobrecidos e com roupas puídas, enquanto as contas começam a atrasar (luz, água e gás são cortados). Todo esse drama é vivido em silêncio, evidenciando a frieza das relações sociais num país que vive para o trabalho. Akira não quer pedir ajuda a entidades assistenciais, pois teme a possibilidade de ver seus irmãos separados. Então acontece a pancada, o golpe que faz com que as crianças abandonem de vez o fiapo de inocência para encarar, com medo e tristeza, mas também com determinação inabalável, a vida adulta.

Kore-Eda apresenta o cotidiano das crianças - que oscila entre brincadeiras infantis, tédio e solidão - sem apelar para qualquer golpe baixo. Não há sentimentalismos na narrativa, embora ela comova profundamente. Rodadas com câmera na mão e pontuadas por uma bela trilha minimalista, as cenas são compostas de longos silêncios e pequenos detalhes dos corpos das crianças, como as mãos que se apertam ou se acariciam. Conduzidos com maestria, os pequenos atores revelam-se sublimes em sua espontaneidade. E o diretor maneja o tempo a seu favor, construindo seqüências longas e contemplativas, como só o cinema oriental é capaz de construir.

Ninguém pode saber é uma obra-prima, em tudo que essa definição encerra em termos de reflexão e profundidade. Aproxima-se, nesse sentido, de uma arte ainda mais reflexiva: a literatura. Ao mostrar o cotidiano de quatro crianças abandonadas e sua capacidade de sobreviver nas condições mais adversas, Kore-Eda celebra a vida e questiona as formas que escolhemos para desfrutá-la: o tempo desperdiçado, a brutal apatia em relação ao outro e, acima de tudo, a ausência de sentimentos num mundo árido e desprezível.

 

* Publicado originalmente no Correio da Bahia

sábado, 2 de maio de 2009

Um mundo em extinção


Não sei quem escreveu que quando uma pessoa morre, morre um mundo com ela. Muito menos quem concebeu o clichê de que cada cabeça é um mundo. Sei apenas que, mais do que frases de efeito, são reflexões de uma exatidão primorosa. Há uns cinco anos, minha tia-avó (na verdade o mais próximo que tive de uma avó em termos de afeto e presença) sugeriu que eu escrevesse um livro contando a história da vida dela. Estávamos na varanda da minha casa conversando, e ela então passou a listar vários acontecimentos interessantes que a tornaram o ser humano que se tornou: uma pessoa de semblante invariavelmente alegre, com uma sede de viver invejável, que trabalhou mais de 50 anos como enfermeira em tudo quanto é canto. Eram acontecimentos não apenas da vida dela, mas pertencentes também à saga da minha família, iguais aos de muitas outras, mas por outro lado completamente distintos (não foi por acaso que Tolstói iniciou Anna Karenina dizendo que todas as famílias felizes são iguais entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira). Nessa época, minha tia já havia passado dos 80 anos, e hoje ela completou 87. Mas a pessoa que encontrei, primeiro numa missa, desinteressante como quase todas as missas, e depois sentada numa cadeira na sala de sua casa, não era mais a pessoa que cinco anos antes me relatara casos pitorescos. Como aquele em que foi raptada na infância pelo pai marinheiro, que a levou para morar com ele no Rio, e só depois de algum tempo e algumas confusões jurídicas voltou para a mãe, minha bisavó, mulher pobre e viúva recente, que conhecera esse marinheiro e com ele tivera minha tia. Ela lembrava inclusive de uma “laranjinha gelada” que chupou no navio que a levava para a então capital brasileira junto com o pai, que a amava.
É esse mundo que de certa forma está acabando, como uma vela no fim, enquanto minha tia se lança inevitavelmente rumo à senilidade, numa espécie de morte a conta-gotas. Mesmo que eu tente reproduzir aqui esta e outras histórias, elas serão apenas um espelho do que aconteceu oito décadas atrás, e nunca o acontecimento real, as sensações ambíguas, o sabor inconfundível da laranja, o temor da separação e talvez um incipiente senso de aventura naquela cabine de navio, vendo o oceano revolto à sua frente. Hoje ela me olha, mas não me vê. Olha para minha filha, sua afilhada (como eu), e vê apenas uma garotinha desconhecida. Não sabe que 11 anos atrás celebrou meu casamento, após aceitar o convite para ser a sacerdotisa de uma cerimônia informal e divertida, regada a uísque e canções do Creedence. Não sabe sequer que foi raptada e andou de navio, e que sua vida teria sido completamente diferente se tivesse ficado por lá, vivendo com outra família e com uma condição financeira melhor do que sua mãe poderia oferecer. Senti uma pontada de tristeza ao constatar que a longevidade, no seu caso, não foi um bom negócio, pelo menos nesses últimos dois anos em que sua memória se pulverizou. E, com este texto, tento sem êxito reparar o que fiz ao não atender ao seu pedido de pôr no papel uma vida bem vivida, mas que, como todas as outras, se aproxima a passos de lebre do ponto final.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Por um pouco de ignorância


Há muitos aspectos positivos em poder escrever num caderno de cultura. A possibilidade de expor idéias, conceitos e obsessões. A troca de experiências e impressões com os colegas de redação. A oportunidade de conhecer pessoas extremamente sensíveis e talentosas no mundo das artes. A maciça quantidade de informação que absorvemos. Mas de uma coisa não sinto a menor saudade: a busca incessante e a qualquer custo por tudo que acaba de ser gravado, escrito ou lançado. Durante muito tempo, os livros que comprei ao longo de décadas ficaram esperando nas prateleiras a sua vez, enquanto me dedicava à leitura apressada de lançamentos. Com música era ainda pior, já que nos últimos tempos só queria me embrenhar no mundo do jazz, e às vezes precisava ouvir discos chatíssimos de artistas idem. No cinema nem se fala: filmes insípidos, assistidos após uma rotina exaustiva de trabalho duplo.

Descobri, enfim, que detesto me pautar pelo novo. Recentemente, os jornais e revistas de cultura dedicaram um espaço enorme ao mais recente disco de Caetano Veloso. Nada contra essa postura editorial, até porque a obra e a figura de Caetano a justificam. Mas não senti a menor vontade de conhecer esse disco. Do trabalho anterior do compositor tinha ouvido uma ou duas músicas – uma delas, que falava da inveja dos orgasmos múltiplos das mulheres, me pareceu uma bobagem sem tamanho – e deste último li só a letra – patética – de uma tal Base de Guantánamo. Mas o problema aí não é (se bem que até pode ser) de Caetano, e sim da minha ausência de vontade em conferir tudo que aparece nas lojas de discos, telas e livrarias. Por que trocaria uma obra-prima como Kind of Blue, com suas cinco décadas de vida, ou os discos de música africana que adoro descobrir na internet, para ouvir o novo trabalho de Caetano? Ou do U2? Ou de Zeca Pagodinho?

Até hoje, quase dois anos depois de ter optado por deixar a redação, não consegui recuperar o hábito de ir ao cinema, após tanto tempo freqüentando compulsoriamente as salas três ou quatro vezes por semana – e por outro lado me sentindo na obrigação de preencher em DVD as lacunas de filmes clássicos de diretores geniais que nunca tinha visto. Ufa. Agora vejo o que quero quando quero, e muitas vezes tudo de que preciso é assistir pela vigésima vez à reprise de algum filme que adoro. Hoje mais cedo li no blog de um amigo e ex-colega de faculdade (verbotransitivo.blogspot.com) uma frase de Nick Hornby que versa mais ou menos sobre esse tema, embora não exatamente sobre a imprescindibilidade do novo: “Chega um momento da vida, pelo menos é o que eu acho, em que o sujeito tem de decidir se é um literato ou simplesmente alguém que gosta de ler, e eu estou começando a perceber que os amantes da leitura se divertem mais. O literato tem que ler coisas como ‘Cândido’, caso contrário ficará defasado; amantes da leitura, por outro lado, podem ler aquilo de que estão afim.”

Nem sou fã de Hornby (só li dele o Febre de Bola, que é interessante), mas considero essa frase exemplar. Cada vez menos sinto necessidade ou me sinto na obrigação de ler, ver ou ouvir certas coisas tidas como “obrigatórias”. Pode ser uma espécie de inação, mas creio que a descoberta deve ser intuitiva: a maturidade e o conhecimento adquirido levam naturalmente às grandes obras no momento certo. Já falei aqui mesmo no blog que certos livros e discos não me disseram nada quando os conheci pela primeira vez. Foi preciso um tempo de maturação para que pudesse compreender o verdadeiro significado deles. Por isso, provavelmente nunca terei a oportunidade de desbravar obras que certamente mudariam minha maneira de pensar o mundo. Paciência. Não vou abandonar o ócio, os prazeres etílicos e gastronômicos ou o divertimento puro e simples, como tomar banho de mar, brincar com minha filha ou fumar um charuto, para me tornar um intelectual. Afinal, a vida não pode prescindir de um pouco de ignorância.   

segunda-feira, 27 de abril de 2009

"Uma só criança na rua deveria ser motivo de escândalo, em qualquer sociedade responsável."

Hirokazu Kore-Eda, diretor japonês, autor do filme Ninguém Pode Saber (2004)

sábado, 25 de abril de 2009

Minha pequena e acolhedora trincheira


Nos últimos dias acionei minha memória afetiva ao escutar um disco antigo de Cat Stevens no som do carro, enquanto ia e voltava do trabalho. Sobretudo porque aquelas canções cheias de sinceridade e ímpeto juvenil me trazem reminiscências de um período particularmente agradável da minha vida: os últimos tempos em que vivi em São Paulo, num pequeno e aconchegante apartamento de quarto e sala na Bela Vista. Minha filha ainda não era nascida, e lembro que chegava em casa, tomava um banho, me servia um copo de J&B ou Cutty Sark com gelo e chamava minha mulher para ficarmos sentados numa cadeira de balanço no escuro ouvindo Where do the Children Play, Lady D’Arbanville, Father and Son ou qualquer outra música do velho Cat. Então eu acendia um cigarro, tomava um gole e me sentia reconfortado e ligeiramente sonolento, pronto para mais um dia de trabalho na manhã seguinte. Adorava aquele apartamento. Ficar ali de bobeira lendo o Estadão e ouvindo Pixinguinha nas manhãs de domingo. Assistir aos jogos do Flamengo (foi lá que passei a noite mais triste da minha veneração pelo Manto Sagrado, quando perdemos uma final de Copa do Brasil para o Grêmio). Ler um livro na cama (Havana para um infante defunto, O Teatro de Sabbath e Uma Luz em meu Ouvido foram alguns deles). Ou então sair para comer um pastel com caldo de cana no feirão da Ceagesp e depois passear na Paulista. Ah, o prazer de acender um cigarro e olhar as pessoas, fuçar os livros usados vendidos na calçada e tomar um expresso no Café Creme. O olhar retrospectivo faz tudo isso adquirir um tom menos sombrio e mais nostálgico, mas lembro bem que na época apreciava muito esses prazeres frugais, assim como apreciava as noites quase diárias de boemia no Puppy, meu santuário particular, ou uma pizza na Speranza, ou um tutu com torresmo no Consulado Mineiro, ou uma moqueca de camarão no hoje extinto Bargaço do Largo do Arouche. Também sinto falta hoje das noites inteiras regadas a conversas intelectualmente sólidas (apesar do álcool), dos diálogos que me enriqueciam, criando um intercâmbio de idéias fundamental, quer o tema girasse em torno da genialidade de Romário ou da de Nelson Rodrigues. Talvez por isso goste tanto de voltar a essa cidade caótica e rever meus bons amigos e repetir tudo (aliás, quase tudo) que fazia nos tempos de faculdade. É como um ritual, agora sem o cigarro e sem o pequeno apartamento da rua Rui Barbosa, minha pequena e acolhedora trincheira. Às vezes me pergunto como estaria minha vida hoje se tivesse optado por permanecer na cidade. Não tenho a menor idéia. Mas sei que sentiria uma dor danada se não tivesse estado ao lado de meu pai durante os últimos anos dele, e que a saudade de minha mãe doía demais naqueles tempos de auto-exílio. E, por fim, não imagino minha filha vivendo lá, embora a Salvador deste início de século esteja longe de ser um idílio. De qualquer modo, aquela minha São Paulo particular do final dos anos 90 não existe mais, nem sou mais o homem de 26, 27 anos que perambulava por suas ruas, bebia em seus bares e ouvia Cat Stevens no escuro, no aconchego de uma cadeira de balanço.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cronicamente inviável

A escória humana veste paletó e gravata, anda de avião e circula ocasionalmente pelos salões do Congresso Nacional. Uma gentinha frívola, assumidamente burra e despida de escrúpulos ou responsabilidades, que só prolifera com a anuência de um tipo de chaga ainda mais grave: o voto dos ingênuos ou dos interesseiros. Ou seja: mais do que um mundo à parte, esse território habitado por lêndeas gordas travestidas de deputados e senadores é na verdade um microcosmo de nossa sociedade estúpida e corrompida, de moral torta, incapaz de se imaginar construindo um país ou mesmo algo que vá além da sua satisfação pessoal imediata. O resultado não poderia ser outro: um Estado cronicamente inviável, celeiro da bestialidade e da barbárie. E quem puder que se agarre ao destroço mais próximo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Náufrago


O que mais me comoveu em O Escafandro e a Borboleta foi o lamento final de Jean-Do ao perceber que a vida se extinguia. Um lamento resignado, mas nem por isso menos doloroso, de um homem aprisionado no próprio silêncio, após o derrame que o deixou totalmente paralítico – com exceção do olho esquerdo, sua única via de comunicação com o mundo exterior. Dentro da inútil couraça externa que se tornou o seu corpo, havia o infinito de uma mente perfeitamente consciente, capaz até de escrever um livro, ditado com o piscar do olho a uma das muitas pessoas que cuidaram dele com abnegação pungente. Talvez por isso, Jean-Do agarrava-se à vida como um náufrago. Um naco de vida, é fato, mas de qualquer modo uma vida sua, a única a que teria direito dali para a frente, antes que uma pneumonia o levasse de vez rumo à inconsciência eterna.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O que fazemos de nós


Por que a necessidade de desbravar o desconhecido, tão freqüente no nosso imaginário juvenil, se esvai com o passar dos anos até quase sumir, como se nossa consciência fosse uma cobra que vai se desfazendo das peles antigas à medida que cresce? O que nos leva (não a todos, é evidente) a abdicar deliberadamente de anseios tão caros nos nossos anos de formação, sem que exista qualquer pressão externa ou interna aparente? Esses questionamentos me ocorreram num fim de tarde do último final de semana, enquanto a chuva chicoteava meu rosto dentro do barco que me levava com minha mulher e minha filha à ilha de Boipeba. De certa forma, senti de volta uma inquietude típica daqueles velhos tempos ao estar naquele barquinho que a todo minuto nos lançava para fora dos assentos, deixando minha pequena atemorizada. E procurei descobrir em que estrada ou hotelzinho de quinta categoria abandonei o desejo de me lançar ao inesperado e ao fortuito. Não encontrei o que procurava, mas é certo que uma hora cansamos dos ônibus imundos, dos lanches sofríveis nas rodoviárias, da solidão que desfere golpes ligeiros como um gancho de direita desferido por Mike Tyson. E que, no extremo oposto do rol de prazeres, é gostoso demais deixar a vida passar num hotel confortável e luxuoso, com uma mesa de sinuca e um varandão feito sob medida para se degustar um charuto e beber um vinho. São prazeres que a maturidade e um mínimo de estabilidade financeira nos trazem, mas por outro lado são compensações insatisfatórias para a renúncia à aventura.
Não sei aonde quero chegar com essa conversa de boteco, mas talvez esteja ruminando o que ando lendo num livro interessante de Eduardo Giannetti, chamado Felicidade. Nele, o autor discorre, entre outras coisas (e com um grau de erudição que me joga para escanteio quase o tempo todo), sobre as escolhas que fazemos ao longo da vida e como elas nos levam – ou não – a um patamar, por mínimo que seja, de felicidade. É aí que entra o que tentei esboçar no início do texto: por que em determinado momento tudo aquilo que nos move de forma imperiosa simplesmente implode para dar lugar a satisfações radicalmente opostas? Existem várias camadas de felicidade? Elas se sobrepõem ou eliminam-se mutuamente? A verdade é que todas essas questões são insolúveis, sobretudo porque não existe sequer uma percepção única ou coletiva de felicidade. Giannetti vai mais longe: em que a modernidade (e com ela a tecnologia e o conforto) contribuiu – se contribuiu – para alcançarmos padrões mais elevados de realização pessoal?
Cada vez mais penso que caímos na armadilha do consumo maciço como ideal não apenas de felicidade, mas também (e talvez principalmente) de demonstração de poder e de superioridade frente aos semelhantes. Um carro novo ou uma viagem a Paris produzem felicidade? Sinceramente, acho que produzem generosos surtos de contentamento, mas até que ponto esse contentamento é genuíno, e não apenas um trunfo que usamos para nos diferenciarmos dos nossos vizinhos ou colegas de escritório e nos aproximarmos dos que estão no andar de cima? Fico me perguntando se no fim das contas não vai sobrar um vazio imenso nessa escalada rumo ao nada, já que a gente sabe que não vai sobrar nada mesmo. Estamos transmitindo o legado da nossa riqueza material ou da nossa miséria espiritual? Como posso saber? E quem pode? Sei apenas que uma aventura trivial como um passeio de barco por um lugar belíssimo e ainda primitivo faz a gente trazer de volta sensações e prazeres que deixam de nos acompanhar quando o hedonista que há em nós morre para dar lugar ao pragmático. Ou, me apropriando de uma parábola do livro de Giannetti, quando Epimeteu desaparece para que Prometeu possa reinar em paz.

domingo, 12 de abril de 2009

Admirável mundo novo?


Foram necessários menos de três meses para o mundo se dar conta de que o lema “yes, we can” se tornou mais do que uma declaração de intenções ou um slogan certeiro. Preparado, bem-intencionado e disposto a colocar em prática sua concepção de mundo, Barack Obama está pondo abaixo a crença que os Estados Unidos da América tinham de si mesmos: a de que estavam para a Terra assim como a Terra está para o Sistema Solar. Não que o país esteja abdicando deliberadamente do papel de maior potência econômica e militar mundial, nem vá deixar de uma hora para outra de interferir, inclusive militarmente, na vida política alheia. Mas, pela primeira vez, é possível entrever um princípio de alteridade nas ações do primeiro presidente negro da sua história. Seria esse, involuntariamente, um sinal do declínio do império americano? Improvável, embora se torne cada vez mais evidente que, quase duas décadas após o colapso soviético, a nação voltará partilhar a hegemonia sobre o planeta, desta vez com a China.
A verdade é que há algo em Obama que o diferencia dos antecessores, tornando ainda mais abissal a distância em relação ao último inquilino da Casa Branca, estulto, belicista, corrupto e indiferente às nossas mazelas ecológicas. Em suma: um idiota cheio de som e fúria significando nada. Em artigo publicado semana passada na Folha de S.Paulo, o colunista político Clóvis Rossi, que já esteve cara a cara com pelo menos meia dúzia de presidentes americanos, escreveu que Obama é o único de todos eles que “não exala o odor do império”. Ponto para ele. Mas de nada adiantaria esse jeitão amistoso de colega do ginásio se ele não viesse acompanhado de ações concretas, como a intervenção enérgica no sistema financeiro, que está pondo fim ao Estado mínimo e à farra inescrupulosa do capital especulativo, ou o compromisso com o Protocolo de Kyoto. Além, obviamente, do encerramento das atividades na Base de Guantánamo e a conseqüente investigação dos excessos (um eufemismo para torturas e assassinatos, inclusive de gente inocente) cometidos em solo cubano.
Seria Barack Obama a encarnação da mudança de paradigmas por que passa o mundo após a avassaladora crise econômica que teve nos EUA o seu principal estopim? Impossível responder sem a ajuda de um olhar retrospectivo, de uma luneta que enxergue o atual momento sob a ótica de um panorama futuro. Mas é fato que nunca antes – entre os grandes países capitalistas, é claro – se condenou com tanta veemência a liberdade que o sistema financeiro tinha de construir e destruir fortunas com base numa montanha de pó. Em outros tempos, esse discurso seria previamente desqualificado como coisa de esquerdistas, aquela gente chata que adora uma bandeira vermelha. Nunca antes, também, a preocupação com a devastação do meio ambiente adquiriu importância capital na alta esfera do poder mundial e no universo corporativo (e não estamos falando aqui do velho blá-blá-blá da responsabilidade social, cujo maior benefício para o planeta praticamente se resumia ao uso indiscriminado de papel reciclado). Hoje, a preservação do meio ambiente é antes de tudo uma questão econômica, e as empresas que se adaptarem mais cedo a essa realidade irão colher os louros no futuro. Mas o que Obama tem a ver com essa conversa?
Tudo. Porque, ao invés de ser uma encarnação dos novos tempos, como sugeri acima, Obama é na verdade fruto deles. Por mais que as sociedades atuais se caracterizem pela frivolidade a qualquer custo, buscando o consumo desenfreado como um moribundo busca a salvação, é possível vislumbrar um certo fastio com esse cenário, uma vontade ainda incipiente de dizer basta! (e aí o otimista que há em mim se sobrepõe ao cético). Se essa impressão corresponde à verdade, ainda não sei. Não sei sequer se estamos mesmo diante de uma mudança, por ínfima que seja. É aquela velha história de que a luz no fim do túnel pode ser um trem vindo na direção contrária para acabar de vez com a gente. Mas ao menos não temos mais George W. Bush e sua corja de panacas para atazanar nossas vidas, e isso faz uma diferença danada.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A voz de todos nós


Quantas perdas são necessárias para fazer uma pessoa sucumbir? Para algumas, uma perda basta, e nunca será pouco. No caso de Edith Piaf, foram necessárias perdas em cascata, desaparecimentos abruptos que em maior ou menor medida foram cruciais para que ela se tornasse a estrela de vidro que veio a ser. No deserto de sentimentos em que transitou durante a infância e a juventude, Piaf foi perdendo paulatinamente o pouco que lhe foi concedido: a prostituta que a amava como filha, a visão (depois recuperada), o homem que primeiro a tirou do submundo e a revestiu de dignidade, uma filha pequena, um grande amor, a saúde e por fim a vida. Não foi por acaso, portanto, que ao morrer, com quarenta anos e alguma coisa, ela parecia uma anciã.
Um fim melancólico, mas perfeitamente compatível com a sua trajetória. Piaf deixou a escória, mas a escória continuou dentro dela: nas suas canções de cabaré, no seu comportamento desregrado e autodestrutivo, no vício em morfina, na saúde precária típica de quem cresceu sem cuidado e proteção. Ao cabo de tudo, o saldo foi maciçamente negativo, embora o pouco que ganhou tenha sido o bastante para torná-la um ícone imperecível.
Tudo isso está no filme de Olivier Dahan, Piaf – Um Hino ao Amor, e nos olhos esbugalhados de Marion Cotillard, que exprimem e ao mesmo tempo ocultam um sofrimento imensurável. Quando a sucessão de privações enfim termina, nos versos dilacerados de Non, Je Ne Regrette Rien, aquele sofrimento também é nosso, e a voz de Piaf também é nossa voz.

sábado, 4 de abril de 2009

África ao pé do ouvido


É certo que a grande música dos séculos 17 a 19 frutificou na Europa, sobretudo na Áustria, Alemanha e Itália. O século 20 viu o eixo cultural, assim como o econômico e político, se deslocar do velho continente para o Novo Mundo, onde os descendentes de escravos – negros, pobres e em sua maioria analfabetos – deram forma ao jazz e também ao blues e ao soul, provando que estavam à frente do seu tempo e das atrocidades a que foram submetidos. E agora, neste início de século 21, onde germina a grande música do mundo? Cada vez mais me sinto seguro para afirmar que ela está na África. Sim, na África. Aquele continente enorme, lindo e esquecido, onde guerras civis pipocam feito espinhas no rosto de um adolescente. Onde a aids ainda não deixou de ser uma doença fatal, e mata mais do que a varíola nos velhos tempos. Onde uma população esfomeada e sem horizontes espera pela ajuda humanitária que quase nunca vem, enquanto serve de modelo vivo (ou nem tanto) para os fotógrafos adeptos da estética da fome. Como pode haver música boa num lugar assim, você poderia perguntar. Bem, não sei a resposta. Sei apenas que a música simplesmente prolifera. E sei também que a África absolutamente miserável é, de certo modo, um estereótipo não necessariamente fiel aos fatos. Uma vez entrevistei José Eduardo Agualusa, proeminente escritor angolano (segue abaixo o bate-papo, vale a pena conhecer seus pensamentos e suas experiências), e ele disse que não adianta olhar a África como se fosse um lugar único e estático. “A África são muitos países, e completamente diferentes um do outro. Você tem países prósperos, viáveis, democráticos, como Botsuana, Senegal e Cabo Verde. Mas deles não se fala, porque as notícias são sempre sobre guerra. Nossos problemas têm a ver sobretudo com a não-democratização da África. A democracia está intimamente associada ao desenvolvimento”, teorizou. Ou seja, nosso olhar ocidental e anglocêntrico se faz de míope quando se depara com a diversidade do continente. Lembro que Agualusa também falou da música africana, da qual é um entusiasta (ele tem até um programa de rádio lá em Angola), e quando eu citei Youssou N’Dour, Cesaria Évora e Miriam Makeba, ele retrucou: “Esses são os consagrados. Os melhores são os desconhecidos”. Ele estava certo. Quando sustento – provavelmente sem nenhuma base sólida, apenas com a avaliação superficial, porém sincera e sem vícios, de um sujeito incapaz de tocar um instrumento – que a grande música está na África, quero dizer que essa música oferece caminhos e soluções inventivos e inusitados que vão muito além dos excessos histriônicos da música pop norte-americana, do marasmo dos antigos ritmos caribenhos e do sem-rumo e vulgaridade dos brasileiros. Uma música impregnada de passado, mas vigorosamente sintonizada com o futuro. Ao ouvir esses artistas de nomes insólitos, me embrenho num universo de sofisticação, lirismo e espontaneidade que me fascina a cada nova descoberta. Já falei, aqui no blog, sobre o pessoal da rumba congolesa, do disco The Kinshasa-Abjian Sessions. E agora, graças aos sites de compartilhamento, venho conhecendo outros artistas e sonoridades excepcionais. Um deles é o cantor e guitarrista Habib Koité, de Mali. Sua música – orgânica e melodicamente fértil – guarda tamanha sutileza que é impossível não se envolver emocionalmente com ela, apesar do canto incompreensível. Koité não é novo (nasceu em 1958), mas seu trabalho só começou a ganhar o mundo na última década. Outro é Andy Palácio, que, mesmo não sendo do continente (nasceu em Belize), mune-se de uma tessitura etérea para fazer a ponte entre seu berço africano e a influência caribenha, divulgando a cultura da comunidade Garifuna. E ainda tem o pessoal do Cool Crooners of Bulawayo, conjunto vocal precioso. Há muito mais, claro, e eu ainda estou apenas no começo da caminhada. Um atalho confiável para conhecer melhor esses sons são os discos da coleção Putumayo dedicados ao cancioneiro do continente, mesmo se tratando de coletâneas. O resto é pesquisar. A internet é um manancial: você só precisa de paciência, atenção, sensibilidade e um provedor decente para ter a África aos seus pés. Ou, melhor: aos seus ouvidos.

Arquivo - Entrevista: José Eduardo Agualusa


“O que me interessa é exercitar o absurdo”

O escritor angolano José Eduardo Agualusa dedicou boa parte da vida a conhecer os países e cidades de língua portuguesa espalhados pelo mundo. Esteve em Goa, Macau, Moçambique e Indonésia, entre outros lugares, e morou no Brasil e em Portugal. Toda essa peregrinação fez dele um profundo conhecedor das peculiaridades que envolvem o idioma lusitano e um homem estreitamente sintonizado com a realidade dos países africanos. A seguir, ele fala sobre o atual governo angolano, o qual define como “cleptocracia”, e discorre sobre as nuances da língua portuguesa.

Paulo Sales

P - Há muito de realismo fantástico em seu livro mais recente, O vendedor de passados, que tem como protagonista uma lagartixa? Qual a importância do gênero na sua obra?
JEA -
O realismo fantástico foi realmente importante para mim, mas mais do que ele, o que me interessa é um pouco exercitar o absurdo. Nós convivemos diariamente com o que nos países europeus e em outros países ocidentais se poderia considerar a presença da magia na realidade. A verdade é que, se eu quiser escrever um romance realista em Angola, fatalmente vou escrever um romance que poderá ser enquadrado como realismo mágico. Lidamos com o fantástico de uma forma muito natural.

P - O fantástico é uma característica africana?
JEA -
Sim. Nos países da Europa a racionalidade domina. A Igreja Católica, por exemplo, foi perdendo seu lado mágico. O que é um padre? Um padre é sobretudo um mago, deveria ser um homem capaz de realizar milagres. E a própria Igreja foi se afastando do milagre. Em África isso não aconteceu. Lá, o mistério e a magia estão presentes no cotidiano das pessoas. Vou dar um exemplo: você lê os jornais de Angola, e pode encontrar, no meio de uma série de notícias corriqueiras, uma história como esta: nosso correspondente na Barra do Quanza, explicava o jornal, conta a história de três crianças que desapareceram no rio. Ao fim de três dias, os pescadores mergulharam e encontraram as três crianças, vivas, no fundo do rio, sendo agarradas por um homem de longas barbas brancas. E aí pescaram as crianças e o velho, e guardaram o velho numa “cubata” (casa), e na manhã seguinte ele tinha desaparecido, sendo convicção dos habitantes do lugar que esse velho seria uma “quianda”, uma sereia. Essa notícia é apresentada de uma forma absolutamente natural em Angola.

P - Em entrevista ao Jornal do Brasil, você disse que há atualmente em Angola uma espécie de “cleptocracia”. Fale um pouco sobre o assunto.
JEA -
Angola é um país com muitos recursos e um dos principais produtores mundiais de petróleo e de diamantes. O problema é que, ao longo destes últimos anos, criou-se um sistema que vive de fato da exploração desses recursos. O que temos hoje é realmente uma cleptocracia, um sistema que vive do saque.

P - Isso é institucionalizado, ou seja, é promovido pelo próprio governo de Angola?
JEA -
Não sei se temos um governo. Temos ministros, mas alguns deles não têm sequer capacidade econômica para exercer sua função. É um governo de fachada, quem tem o poder total em Angola é o presidente da República, José Eduardo dos Santos.

P - Existe uma solução a longo prazo para Angola e para a África em geral?
JEA -
Não se deve olhar para a África como um todo. A África são muitos países, e completamente diferentes um do outro. Você tem países prósperos, viáveis, democráticos, como Botsuana, Senegal e Cabo Verde. Mas deles não se fala, porque as notícias são sempre sobre guerra. Nossos problemas têm a ver sobretudo com a não-democratização da África. A democracia está intimamente associada ao desenvolvimento. Portugal é uma prova disso, sendo hoje um país europeu moderno, o que justifica a ótima fase da literatura portuguesa. Você teve 30 anos de investimento sério e continuado na cultura, e os reflexos estão nos jovens escritores de Portugal, que são muito bons.

P - Cite alguns.
JEA -
Filipa Mello, Gonçalo Tavares, José Luis Peixoto, que ganhou o Prêmio Saramago há três anos. Quando você olha para trás e analisa a literatura portuguesa, não encontra concentrados num mesmo período de tempo um grupo tão grande de escritores tão bons. Temos António Lobo Antunes, José Saramago, Agustina Bessa Luís, e uma nova fornada tão boa quanto.

P - Você encontrou a língua portuguesa em lugares remotos do mundo, encravados na Ásia e na África. Conte um pouco dessas experiências.
JEA -
Estive em lugares remotos nas situações mais estranhas. Um exemplo é a Ilha das Flores, na Indonésia, que teve colonização portuguesa. Lá, existe uma procissão na semana santa que é famosa em toda a Ásia, você atravessa uma estrada enorme através da floresta, de noite, num silêncio extraordinário, compacto. E de repente as pessoas começam a rezar, e então subitamente você percebe que as pessoas estão a rezar em português. É uma coisa de arrepiar.

P - E elas sabem o significado da reza?
JEA -
Não, não sabem. O que é extraordinário na língua portuguesa é o fato de ela estar espalhada por geografias tão diversas e ter sido capaz de se afeiçoar a essas geografias. Os dialetos crioulos (falados nas colônias portuguesas) são depositários de palavras antigas. Não por acaso eles surgem normalmente nas ilhas, que são lugares onde aportam todas as coisas esquecidas do mundo.

P - Durante a Flip, escritores como Paul Auster e Martin Amis demonstraram certa inquietação com o momento sombrio que vivemos. E disseram que seus próximos romances refletiriam, de certa forma, esse período. Gostaria que você analisasse esse momento.
JEA -
Em primeiro lugar, eu não concordo com essas afirmações. Quando você olha para trás, vê um tempo de sombras. Quanto mais para trás você olha, piores eram os tempos. Há cem anos havia escravidão aqui no Brasil, e eu não conheço sistema mais indigno e injusto que a escravatura. E era aceito. Depois houve o Hitler. Hoje já não seria possível existir um Hitler, nem a escravatura. O mundo não permitiria. Nós melhoramos muito, não há dúvida que há uma evolução ética e moral. Os budistas dizem que a gente evolui em espiral: você recua, mas vai subindo sempre.

P - Que escritores serviram de base para o seu crescimento como escritor?
JEA -
Consigo identificar claramente, ao longo de minha vida, os meus momentos de assombro na literatura. Começou com Eça de Queiroz... Jorge Amado foi muito importante para mim, como para muita gente em África, porque nós descobrimos nele uma forma africana de escrever. Depois vieram os latino-americanos, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, alguma coisa do Mario Vargas Llosa. Meu mundo é o mundo afro-latino.

* Publicado originalmente no Correio da Bahia

terça-feira, 31 de março de 2009

Animal sorrateiro


Vez por outra a literatura nos prega peças. Quando achamos que já tínhamos lido praticamente tudo que merecia nossa dedicação e nosso tempo (algo impossível mesmo para alguém que viveu para ler, como Borges), sempre aparece alguém para nos povoar de assombro e provar que obviamente se trata de uma pretensão absurda da nossa parte. Até porque o passado não é nosso único manancial de palavras: a cada ano surge um novo autor, e com ele uma visão de mundo singular, amparada por suas experiências e percepções, que por sua vez são diferentes das de todos os que vieram antes dele. Ian McEwan não é assim tão novo, mas é um grande autor, na plenitude do domínio narrativo e prestes a atingir a maturidade intelectual. Seus parágrafos funcionam como recipientes, que vão sendo lenta e progressivamente preenchidos por quantidades colossais de angústia, dando a impressão de que vão nos arrastar para dentro deles. Na semana passada, olhos arregalados na noite alta, me vi aprisionado num desses recipientes, com o agravante de que precisava trabalhar na manhã seguinte. Às vezes, o canto do olho alcançava os ponteiros no braço esquerdo, e eles me alertavam: “Rapaz, saia logo daí de dentro”. Mas a teia de Reparação me prendeu lá madrugada adentro, até que o sono me libertou.
Mais do que uma prosa impecável, tanto Sábado quanto Reparação têm como principal característica provocar um mal-estar silencioso, como se caminhássemos numa floresta e soubéssemos intimamente que em algum momento um animal sorrateiro vai nos atacar. Às vezes isso acontece, às vezes não, e é o que faz de McEwan um escritor superior: ele sempre nos reserva espantos, nunca nos entrega o doce de mão beijada como um roteirista de Hollywood, mesmo quando acreditamos antever algum acontecimento. A história de Briony Tallis e o mal que fez à irmã e ao jovem que trabalhava na sua casa ressoa em nossa mente muito tempo depois que a abandonamos. E o neurocirurgião de Sábado é um dos personagens mais solidamente palpáveis que já encontrei nessas minhas andanças pelo território sagrado das palavras. Tenho na estante um outro livro de McEwan: A Criança no Tempo. Cheguei a tirá-lo de lá quando recoloquei Reparação, mas dei uma lida na orelha e a trama me afugentou: um escritor que tem sua filha de três anos roubada numa fila de supermercado. Sei da capacidade do autor de reverberar o mal até o grau máximo do insuportável, e sei também da minha incapacidade cada vez maior de suportar a torpeza que se descortina a cada jornal aberto, assistido ou acessado. É criar coragem agora ou deixá-lo ali, à espera de tempos menos sombrios.

sexta-feira, 27 de março de 2009

A vida útil da eternidade


Outro dia estava lendo o ótimo blog de um amigo e ex-colega de faculdade (www.diretodoquarto.blogspot.com) e encontrei lá uma frase linda, atribuída a um sujeito chamado Mario Viana, de quem nunca tinha ouvido falar. A frase é a seguinte: “Nossa eternidade tem a duração da memória de quem nos ama”. Engraçado que ele condensou em uma linha o que eu usei mais de 10 para dizer, num post antigo, chamado Quando a Gente se Chama Saudade, no qual falava sobre o meu pai e o quanto a memória dele dependia da minha e da de outras pessoas que conviveram com ele. Viana foi sucinto e certeiro. Somos eternos enquanto somos lembrados, embora não necessariamente amados. Lembro agora de um episódio que li - e que ficou instantaneamente gravado em minha memória - sobre o amor incondicional que Somerset Maugham devotou à mãe, morta quando ele tinha apenas 6 anos. O escritor morreu aos 91 anos, em 1965, e no seu leito de morte estava o retrato dela: um sentimento que atravessou intacto mais de oito décadas e uma perda que nunca foi superada (pois, de certo modo, somos o que perdemos). Graças aos excepcionais romances que escreveu (O Fio da Navalha, O Destino de um Homem, Servidão Humana), Maugham permanecerá eterno por muito tempo, e consequentemente sua mãe, Edith, continuará sendo lembrada por aquele retrato no leito de morte. Pensando bem, é o amor que mantém, mesmo que indiretamente, a chama da eternidade acesa. Mas é certo, também, que um dia os livros de Maugham não serão mais lidos, e só os mais velhos lembrarão vagamente dele, enquanto a luz se apaga lentamente dentro dos seus cérebros. Toda eternidade tem sua vida útil, depois da qual agoniza rumo ao suspiro final. Feito um idioma que vai morrendo aos poucos, por não servir mais como canal de comunicação junto às novas gerações.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Inventário de ilusões


Circulou durante muito tempo na internet uma crônica falsamente atribuída a Gabriel García Márquez (que além de negar a autoria ainda espinafrou o texto), na qual o narrador listava um inventário do que deixou de ter feito e o que faria caso tivesse a chance de rebobinar a própria vida e começar de novo. Gabo foi impiedoso com o texto, que apesar de piegas tem lá seu encanto, mesmo sem valor literário (hoje se sabe que foi escrito por um ventríloquo mexicano de nome Johnny Welch). Mesmo com alguns bons pares de anos pela frente – a não ser que se abata sobre mim uma tragédia ou um enfarto fulminante -, às vezes penso no que deixei de fazer e no que nunca farei, mesmo que viva mais 200 anos. Cada decisão tomada ou cada empurrão do acaso nos leva a caminhos singulares, como num labirinto infinito em que não é possível retroceder, apenas seguir em frente. Não vou me ater sobre o que poderia ter feito diferente, mas sobre o que gostaria de fazer ao menos uma vez na vida, mesmo tendo consciência plena de que, em sua maioria, são sonhos irrealizáveis. E, no caso dos improváveis, só se o meu mundo se transformar numa festa móvel regada a dinheiro farto (quem sabe uma mega-sena?), como a vida que Jorginho Guinle levou entre os salões da alta corte carioca, os bares enfumaçados de jazz em Nova York e as festas de arromba, gim e cocaína em Hollywood, até morrer da maneira mais digna possível, de barriga cheia, banho tomado e alma lavada, numa cama do Copacabana Palace.
Aí vai o meu inventário de ilusões, umas impossíveis, outras improváveis: surfar uma onda de nove metros em Pipeline. Beber uma garrafa de Chateau Margaux 1900. Abraçar um leão sem ser morto por ele. Almoçar espaguete com frutos do mar e muito azeite numa casa italiana à beira do Mediterrâneo. Passar um mês em silêncio num templo budista no Tibet. Fazer um gol no Maracanã lotado com a camisa do Flamengo. Conversar com Ernest Hemingway sobre touradas, pescarias, bebidas e literatura, não necessariamente nessa ordem. Ver um urso caçando salmões numa corredeira de rio no Canadá. Ler todos os livros que valem a pena ser lidos. Amar todas as mulheres que valem a pena ser amadas. Pedir carona numa estrada sem me preocupar com a maldade dos condutores. Contemplar o mundo do topo do Everest sem ter que escalá-lo. Estar numa mesa do Village Vanguard ouvindo Miles Davis, Clifford Brown e John Coltrane num mesmo conjunto, com Thelonious Monk, Charles Mingus e Art Blakey na seção rítmica. Ter minha filha ao meu lado com seu rosto de criança por toda a eternidade. Encontrar Fernando Pessoa numa tabacaria em Lisboa e fumar um charuto com ele. Tomar um Ventisquero com meu pai numa casinha à beira-mar. Ver a aurora boreal num fiorde da Noruega. Atirar num caçador de filhotes de foca. Atirar num caçador de gorilas. Sentir o vento frio no rosto. Ir ao espaço e concordar com Yuri Gagarin sobre a cor da Terra. Ser o primeiro (ou o segundo, ou o vigésimo oitavo) homem a ver os anéis de Saturno da janela de uma nave. Ir além do Sistema Solar, da Via Láctea, dos limites do universo. Tentar fazer o bem. Morrer decentemente em minha cama, como no poema de Lorca. Morrer de barriga cheia, banho tomado e alma lavada, como Jorginho Guinle.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Vácuo

Alguns homens são tão maus que até os dias e as noites fogem deles. Outros são ainda piores: espantam as estações. Acho que Josef Fritzl vivia num vácuo, invulnerável à luz e ao tempo, como o local em que aprisionou a filha e os filhos-netos. Nele, a maldade é como um sinal de nascença, um tumor que sempre esteve lá, e um dia se fez metástase.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A persistência da genialidade


Ferreira Gullar concedeu uma ótima entrevista à Bravo! (para o bem da imprensa e dos leitores, a revista dá sinais de recuperação), que o define como o maior poeta brasileiro vivo. Acredito que deve haver poucas controvérsias em torno dessa questão, após a morte de João Cabral e Quintana – Manoel de Barros, embora valoroso, não possui o estofo necessário. Gullar, a despeito das incursões pelo concretismo e neoconcretismo, produziu poesia de excelente qualidade ao longo de quase 60 anos. Assombros com alto poder de impacto como o memorialístico e quilométrico Poema Sujo, seu Amarcord literário. Ou o engajado Dentro da Noite Veloz e seu “guevarianismo” hoje obsoleto. Ou mesmo o mais recente Barulhos, repleto de questionamentos existenciais. Me encantam em Gullar os versos simples, como: “Sua voz quando ela canta me lembra um pássaro/Mas não um pássaro cantando/Lembra um pássaro voando”. Relendo há pouco o Toda Poesia na rede da varanda, percebi o quanto fui influenciado na juventude por seus poemas.
Mas não era apenas ou exatamente sobre Ferreira Gullar que eu queria falar. Voltando à entrevista, o poeta – que também é crítico de arte e pintor diletante – se defende da pecha de conservador por suas análises, digamos, pouco simpáticas à arte de vanguarda. Gosto do que ele diz:

“Nesta altura do campeonato, quando o vale-tudo se apoderou das artes plásticas, a qualificação de "conservador" perdeu sentido. Conservador por quê? Por diferenciar expressão e arte? No meu entender, toda arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se me machuco e grito de dor, estou me expressando; não estou produzindo arte. Da mesma maneira, se alguém começa a bater numa lata, emite sons; não cria música. (...) Arte, portanto, pressupõe o "saber fazer". Saber pintar, saber dançar, saber esculpir, saber fotografar, saber tocar, saber compor. Tal critério prevaleceu durante milhares de anos, desde as cavernas até o advento das vanguardas, no final do século 19, período em que se questionou o "saber fazer". Pois bem: sob a minha ótica, a preocupação vanguardista é um fenômeno que se esgotou. Por milhares de anos, a arte seguiu adiante sem ligar para o conceito de vanguarda. Ninguém me convencerá de que, em pleno século 21, crucificar-se na traseira de um Fusca, deixar-se filmar cortando a vagina ou masturbar-se numa galeria equivale a um gesto artístico. Segundo o norte-americano John Canaday, historiador da arte, os críticos de hoje temem repetir o erro cometido pelos críticos do século 19, que não compreenderam os impressionistas. Em conseqüência, assinam embaixo de qualquer bobagem que levante a bandeira do "novo". Percebe a armadilha? Caso três ou quatro artistas resolvam espremer uma bisnaga de tinta no nariz de um crítico, ouvirão dele que praticaram um ato inovador. Definitivamente, não penso desse modo.”

Ferreira toca no xis de uma questão fundamental às discussões sobre arte nos dias de hoje: a substituição da meritocracia pela democracia, com tudo que isso encerra. É difícil, por exemplo, considerar o hip hop uma manifestação artística. Manifestação cultural e comportamental, sem dúvida. Mas arte? Mais: em nome de quê devemos valorizar qualquer batuque que aparece a toda hora nas esquinas de uma cidade como Salvador, para citar a realidade geograficamente mais próxima de mim? Para estimularmos a inclusão social? O igualitarismo? Como disse Gullar, a arte, desde que se entende por arte, primou pelo reconhecimento aos diferentes, e não aos iguais, e foi assim que a civilização nos legou Beethoven, Bach, Cervantes, Shakespeare, Rembrandt e Da Vinci – tendo, por outro lado, passado uma borracha nos medíocres. Por que os critérios de avaliação deveriam mudar, fazendo com que passemos a avaliar a qualidade de uma obra em função da origem social ou racial do autor, ou mesmo da sua orientação sexual? É uma distorção tremenda. Harold Bloom, que conhece como poucos o valor da alta cultura, definiu como Era do Ressentimento essa condescendência contemporânea com a mediocridade. Nas palavras dele, em entrevista à Folha de S.Paulo: “O que ocorre nas universidades, hoje em dia, é que as obras literárias utilizadas para o estudo são escolhidas não porque são esteticamente mais poderosas ou porque são mais sábias. O intelecto, a sabedoria e a beleza são substituídos por considerações acerca da orientação sexual, gênero, pigmentação da pele, etnicidade e assim por diante”.
Vale lembrar que foi o mérito, e não a condescendência, que no Brasil permitiu a artistas populares de talento ganhar o devido reconhecimento, mesmo que tardio. Todo mundo sabe que Cartola é eterno não por ter sido preto e favelado, mas por ter concebido versos como “De cada amor tu herdarás só o cinismo”. Ou seja: é o gênio que permanece. Podem passar 200 anos e o criador da Mangueira estará entre nós, ao contrário dos pagodeiros do circuito Barra-Ondina. Ou, como diria Quintana, “eles passarão. Eu passarinho”.

sábado, 14 de março de 2009

O desbravador de sentimentos


John Coltrane entrou para a história como um desbravador, um Cristóvão Colombo do jazz, capaz de imergir num longo transe de acordes dissonantes e camadas de sons sobrepostas para voltar à tona saciado com suas paisagens recém-descobertas. Mas o Coltrane a quem devoto uma admiração fervorosa é aquele da fúria contida, do soprar suave que esconde uma dor avassaladora. Me emociona ouvir, como ouço agora, sua “voz” por entre as frases de Like someone in Love, I want to talk about you ou Alabama, para citar apenas três das muitas baladas a que deu vida em seus discos eternos (Stardust, Soultrane, A Love Supreme, Lush Life, Blue Train, Crescent e muitos outros). Nem Paul Desmond, nem Zoot Sims, muito menos Stan Getz, conseguem ser tão cálidos e emotivos com tamanha ternura. Ouvir Coltrane é se deparar com o sagrado, é render-se a uma epifania sonora que nos trará quem sabe alguma redenção.

Vamos dividir a conta


Não gosto de Tropa de Elite. Acho deplorável aquela glorificação da violência, a abordagem intelectualmente rasteira, a apologia da vingança como método de trabalho, o discurso fascista e condescendente com a truculência policial, personificada na figura do Capitão Nascimento, personagem abominável, que ganhou popularidade entre as classes populares por seus bordões (“Pede pra sair, 02”, “O senhor é um fanfarrão” e “Bota na conta do Papa”). Mas reconheço que o filme se embrenha de forma corajosa numa questão essencial para se compreender a epidemia de caos que infesta as grandes cidades brasileiras: o farto consumo de cocaína entre as classes abastadas e bem informadas, que são a ponta final de um negócio iniciado nos campos da Colômbia e Bolívia. Pode-se recorrer a vários argumentos (o mais válido e louvável é o de que viciados precisam de tratamento médico, e não de cadeia), mas está cada vez mais claro que, como receptadoras de um produto ilícito, essas pessoas contribuem decisivamente para a perpetuação de uma indústria que provoca carnificinas diárias nas favelas e avenidas do Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre e outras metrópoles brasileiras. Negar esse fato é apelar para a hipocrisia, é achar que consumir droga faz parte da cultura moderna (e há um fascínio inegável em torno da questão), mesmo que para isso gente que nunca fumou um baseado ou cheirou uma carreira tenha que levar uma bala na cabeça. O raciocínio é o mesmo que vale no mundo empresarial: quanto maior a procura, maior é a oferta (e maiores são o valor e o sacrifício para se conseguir o produto desejado). Não é à toa que, em Cidade de Deus, Buscapé dizia que Zé Pequeno seria o empresário do ano se as drogas fossem um negócio legal.
Sei que esse é um raciocínio passível de críticas, que pode ser acusado de reacionário ou que vai de encontro à liberdade que cada pessoa tem de fazer o que bem entende, desde que não afete os outros. O problema é que afeta. E eu cansei de me deparar todos os dias nos jornais e ao meu redor com o saldo desse livre-arbítrio, embora saiba que a violência urbana não está exclusivamente alicerçada no tráfico de drogas, mas também no embrutecimento das relações sociais e na desigualdade social que só fez aumentar nas últimas décadas. Depois de pensar o oposto durante anos, hoje acredito que os usuários de drogas têm, sim, uma parcela significativa de culpa (a não ser que eles próprios produzam sua droga), e passar a mão na cabeça de toda essa gente seria como sair de fininho do boteco e deixar a conta para os outros pagarem - no caso, a bandidagem e as vítimas. Ou seja: seria atribuir apenas aos “Baianos” (para citar o vilão de Tropa de Elite) a responsabilidade por nossa desdita coletiva.

domingo, 8 de março de 2009

O delírio silencioso


“Uma história era uma forma de telepatia. Por meio de símbolos traçados com tinta numa página, ela conseguia transmitir pensamentos e sentimentos de sua mente para a mente de seu leitor. Era um processo mágico, tão corriqueiro que ninguém parava para pensar e se admirar. Ler uma frase e entendê-la era a mesma coisa; era como dobrar o dedo, não havia intermediação. Não havia um hiato durante o qual os símbolos eram decifrados. A gente via a palavra castelo e pronto, lá estava ele, visto ao longe, com bosques verdejantes a se estender a sua frente...”

Ian McEwan, Reparação


Não sei quando foi inoculado em mim o veneno do delírio silencioso. Talvez na infância remota, ao sentir na ponta dos dedos a textura áspera do papel e os códigos desconhecidos que o preenchiam. Ou, mais provavelmente, antes mesmo de me deparar com a claridade primeva, recém-saído do líquido amniótico, os genes carregados da herança do meu avô paterno, de origem lusitana, que durante 50 anos cuidou da biblioteca do Gabinete Português de Leitura, de onde só saiu para a aposentadoria. Quando garoto, 6 ou 7 anos, sonhava em ganhar de presente uma banca de revistas, mais precisamente a da entrada da minha rua, onde meu pai e meu irmão me compravam as histórias de Mickey, Donald e Tio Patinhas (mais tarde doadas por minha mãe, sem o meu consentimento, a uma empregada que pouco ficou lá em casa, de sotaque carioca, que fumava como se estivesse no corredor da morte). Dos quadrinhos migrei para a Coleção Vaga-Lume. Lembro de ansiar pela chegada do meu aniversário para receber de presente da minha madrinha o livro Cem Noites Tapuias, de Ofélia e Narbal Fontes. Havia outros: Spharion, O escaravelho do Diabo, Éramos Seis, A Ilha Perdida. O meu preferido era Coração de Onça: Papudo, a rejeição e depois as minas de Potosí. Que livro. Levava meu imaginário à estratosfera e me trazia saciado de lá. Uma vez, já adolescente, conheci um desses autores, Aristides Fraga Lima (que tinha escrito A Serra dos Dois Meninos, outro que adorava), pai de uma amiga: numa das minhas visitas a ela, fiquei com ele numa sala, junto com meu primo, mas fui incapaz de esboçar algum comentário sobre os seus livros ou mostrar de algum modo a minha admiração. Apenas ouvi meu primo comentar: “O tempo está quente”, e ele responder: “Sim, e há muitas muriçocas”. O mais perto que cheguei de um ídolo em toda a minha vida e apenas me limitei a ouvir esse diálogo. Não sei se Aristides ainda é vivo, mas virou nome de rua aqui em Salvador. Em seguida – ou simultaneamente – vieram outros livros: As Aventuras de Tibicuera, de Erico Veríssimo, um dos primeiros, sobre um índio que viveu 500 anos, do descobrimento aos dias de hoje, tendo encontrado nas matas o Curupira e o Anhangá. Tenho esse exemplar aqui na minha biblioteca, guardado com carinho, por incrível que pareça o único do autor, ao lado de vários do filho Luis Fernando. Também Viagem ao mundo Desconhecido, sobre as aventuras do português Fernão de Magalhães, primeiro navegador a dar a volta ao mundo (cito aqui de memória as cinco naus que compunham sua frota: Trindade, Concepción, Santiago, Santo Antonio e Victoria, a única que voltou para contar a história, e sem o seu comandante). A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, na verdade uma versão adaptada por Paulo Mendes Campos (tinha receio de ler, pois era indicada a maiores de 12 anos, idade a que só chegaria dali a um ano). Um romance de suspense infantil que li em Itabuna, e do qual só lembro que era ambientado em Brusque, Santa Catarina (já adulto, movido pela curiosidade provocada pelo livro, fui à cidade e encontrei apenas frieza no clima e nas pessoas). E mais Tom Sawyer, O Conde de Monte Cristo, os livros de Julio Verne (20 mil Léguas Submarinas, A ilha Misteriosa, Miguel Strogoff, Viagem ao Centro da Terra...). Provavelmente esqueço algum aqui.
A adolescência trouxe descobertas de teor radicalmente distinto. Lembro do encanto provocado pelos livros de García Márquez. Li Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera aos 15 anos, com suas páginas embebidas de fascínio, e nunca esqueci da sensação provocada pelas virgens que subiam aos céus ou os sucessivos Aurelianos Buendías que superpovoavam as páginas. Os poemas de Brecht aos 16, On the Road, os contos de Bukowski e o fim definitivo da inocência aos 17. A partir daí, o mundo ficou mais brutal e menos lírico. Mas a telepatia a que se referiu McEwan permanece incólume. Ainda hoje me fascina receber diretamente, sem intermediários, como um medicamento intravenoso, o pensamento de alguém que na maioria das vezes nem existe mais. Pode ser uma forma de imortalidade, mesmo que incompleta. Que seja. É o nosso legado, o registro definitivo da nossa muito breve passagem por aqui.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Excomunguem as vítimas


Uma criança de 9 anos sofre violência sexual do padrasto desde os seis. Engravida dele (sim, aos 9 anos é possível uma criança engravidar e aos 9 anos uma criança pode ser sexualmente atraente para um adulto – em que grau de torpeza e estupidez isso acontece é impossível saber), passa por um aborto autorizado pela justiça e só então um arcebispo católico se pronuncia sobre o assunto, manifestando-se contrário à operação. Mais: excomunga a mãe e os médicos responsáveis pelo aborto, que agora farão companhia a Galileu Galilei e Joana D'Arc, entre outros. Sua justificativa: “A lei de Deus está acima de todas as coisas”.
Eu diria que graças a Deus (ironia necessária neste caso) a igreja, seja ela qual for, não tem poder de veto ou influência efetiva no poder judiciário – e a excomunhão não tem qualquer efeito pratico. Que o arcebispo é um tipo insensível e estulto não há dúvida, tanto que sofreu uma dura reprimenda do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que qualificou a postura do religioso de “extrema, radical, inadequada”. Vale lembrar: o padrasto – que também estuprava a enteada mais velha – não foi excomungado, assim como os padres pedófilos que bolinam garotinhos nos seminários do mundo todo e recebem um tratamento condescendente por parte da alta cúpula do catolicismo.
O que mais me surpreende nisso tudo, mais até do que o fato de uma instituição milenar ter evoluído tão pouco ao longo de todo esse tempo, é a frequência da pedofilia e a elasticidade dos seus tentáculos em vários setores da sociedade brasileira. No Pará, há denúncias de rifas a R$ 5,00 a cartela para se ter o direito de estuprar garotinhas. Em quase todo o Norte e Nordeste, a pedofilia sustenta uma próspera rede que inclui hotéis, taxistas, agências de viagens e parlamentares (no caso dos últimos, não há surpresa). Num país onde o sexo consentido entre adultos, pago ou não, é algo corriqueiro, fácil de encontrar em qualquer bar, boate ou festa, tudo isso soa ainda mais absurdo e revoltante. E o pior: sem sinal de punição à vista. Mas, sei lá, quem sabe a Igreja católica encontra alguma solução. Que tal excomungar as vítimas?

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sobre heróis e reminiscências


O jogo era à meia-noite, mas mesmo assim não dormi e fiquei assistindo à tevê na casa do meu tio, em Aracaju, onde estava passando férias. Meu pai sabia que eu estaria acordado e me ligou quando a partida terminou – Flamengo 3, Liverpool 0 –, lá pelas duas da manhã. Isso foi há muito tempo, eu tinha 11 anos e o Flamengo conquistava seu primeiro e único Mundial Interclubes, o torneio mais importante da história de qualquer clube. Lembrei desse dia quando vi no noticiário que Zico, o mais brilhante e importante jogador daquele time de craques, fez 56 anos. Mais do que um ídolo, Zico foi uma espécie de elo que me uniu ainda mais com meu pai durante a infância, assim como Romário me uniria a ele na idade adulta. O Galinho não marcou no jogo contra o Liverpool (fez dois lançamentos precisos para os gols de Nunes), mas para chegar até lá ele foi fundamental. Um ano antes, o Flamengo tinha vencido pela primeira vez o Campeonato Brasileiro, e meu pai não suportou assistir ao jogo, preferiu sair para andar, fumar e esperar passar o tempo. Voltou com o jogo já encerrado e me abraçou. Da mesma forma que me abraçou quando o Mengão ganhou a Libertadores, contra o Cobreloa, e o tricampeonato brasileiro, contra o Santos, Adílio fazendo um golaço de cabeça no final. Depois Zico foi vendido ao Udinese e Morais Moreira criou uma música linda, que dizia: “E agora como é que eu fico nas tardes de domingo, sem o Zico no Maracanã. E agora como é que eu me vingo de todas as derrotas da vida se a cada gol do Flamengo eu me sentia um vencedor”. Zico passou, o Flamengo imbatível passou e meu pai não está mais aqui para me abraçar quando nosso time ganha. O que fazer? O tempo passa, as reminiscências ficam, e temos que nos contentar com elas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Anda. Anda. Anda


Após um atraso de meses (o que talvez torne este texto particularmente desinteressante), aproveitei o recesso do Carnaval para finalmente assistir aos filmes mais recentes dos diretores que, ao menos para mim, fazem hoje o melhor cinema do país. E saí de cada um deles com impressões radicalmente distintas. Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, nunca se decide entre construir uma parábola existencial (falta-lhe substância para isso) ou apenas se limitar a ser um thriller apocalíptico, do qual está mais próximo (lembrando inclusive Extermínio, de Danny Boyle, em alguns momentos). Houve claramente um retrocesso em relação a O Jardineiro Fiel. Meirelles vive agora um momento de consolidação (ou talvez não) como cineasta internacional, fase pela qual Walter Salles já passou de forma um tanto traumática (sobretudo no caso de Água Negra, quando os produtores lhe negaram o corte final). O trauma fez com que o diretor de Central do Brasil voltasse (embora não definitivamente) à realidade do próprio país, e nesse sentido Linha de Passe representa um salutar retorno às origens. Trata-se de um filme denso e coeso, essencialmente humanista como todos os trabalhos de Walter, mas sem que esse humanismo acabe se convertendo no bom-mocismo ingênuo de, por exemplo, Diários de Motocicleta. Sandra Corveloni levou o prêmio de melhor atriz em Cannes pelo papel de uma mãe solteira, mas foi a atuação segura – aguda em alguns momentos, contida em outros – dos quatro rapazes que vivem seus filhos que mais me chamou a atenção. Mas o que realmente importa na trama urdida pelo diretor e sua parceira Daniela Thomas é o olhar desnudo – mas com boa dose de compaixão – que ela direciona a um microcosmo acima de tudo brutal: o cotidiano dos brasileiros urbanos de classe baixa. Enquanto essa realidade asfixiante se desenrolava à minha frente, eu me perguntava em silêncio como é possível viver com perspectivas tão exíguas. A pobreza e o horizonte estreito representam um fardo gigantesco, um peso intangível que impede que aqueles seres humanos – invisíveis para a maioria de nós, mesmo andando ou trabalhando ao nosso lado – alcancem uma liberdade mínima de movimentos. O que fazer quando pernas, braços e cérebro permanecem invariavelmente engessados por um fatalismo incontornável? Quem é íntegro e quem não é, nesse pequeno universo onde a solidez de caráter convive fraternalmente com a escassez diária de dignidade e a presença avassaladora da violência como fonte de renda? Ou melhor: onde termina o desespero e onde começa a abjeção? Os quatro filhos sem pai daquela mãe sem marido transitam permanentemente por essa zona cinzenta, e Linha de Passe termina sem qualquer sinal de redenção para eles. Não poderia ser diferente, ou estaríamos assistindo a uma realidade edulcorada, um conto de fadas hollywoodiano com seus heróis anônimos que superam as adversidades para se estabelecerem como alguém no mundo, tornando-se enfim visíveis aos que habitam o topo da pirâmide. Não é assim que funciona para quem mora em Cidade Líder, bairro que serviu de locação para o filme. Não é assim que funciona para quem mora no Nordeste de Amaralina, na Ceilândia, no Pavãozinho ou em qualquer bairro pobre de uma grande cidade brasileira. O que permanece é a paralisia, o imobilismo involuntário. Por mais que, como um dos personagens do filme, todas essas pessoas vivam dizendo a si mesmas: “Anda. Anda. Anda”.

Compaixões seletivas


“No passado, era conveniente pensar em termos bíblicos, acreditar que vivemos cercados de autômatos comestíveis, habitantes da terra e do mar, para nos servir. Agora se sabe que mesmo os peixes sentem dor. Tal é a complicação crescente da condição moderna, o círculo crescente da solidariedade moral. Não só os povos remotos são nossos irmãos e irmãs, as raposas também, e os macacos de laboratório, e agora os peixes. Perowne continua a pescá-los e comê-los e, embora nunca jogue uma lagosta viva dentro da água fervente, está disposto a pedir que lhe sirvam uma lagosta num restaurante. O truque, como sempre, a chave para o sucesso e para o domínio humano, consiste em ser seletivo nas compaixões. A despeito de todo o palavrório sensato, é o que está perto da mão, é o visível que exerce a força suprema. E aquilo que não se vê...”

Ian McEwan, Sábado

O mais interessante nesse trecho do instigante livro de McEwan é o conceito – o truque, nas palavras dele – das compaixões seletivas. Em outras palavras, uma versão amena de hipocrisia, uma forma de evitarmos o confronto entre nossas convicções racionais e o nosso desejo primal, instintivo. É reconfortante se deliciar com um corte ao ponto de bife ancho ou miolo de alcatra já que não vemos, ali à nossa frente, o boi ser executado com uma pistola de ar comprimido e depois retalhado, com sangue e vísceras escorrendo por todo lado. A idéia de pescar está tão entranhada em nossa memória afetiva de crianças que não nos damos conta do absurdo que é arrancar um ser vivo de dentro do seu meio e em seguida sufocá-lo numa cesta de vime (para depois, em muitos casos, nem aproveitá-lo como alimento). A verdade é que reproduzimos – obviamente com sofisticação, complexidade e escala de produção e consumo inigualáveis – a ancestral necessidade de extinguir outra vida, de nos apropriarmos da sua energia para continuarmos andando. Você pode degustar uma lagosta ao molho termidor ou uma galinha ao molho pardo, mas jamais vai apagar o fato de que está comendo uma lagosta ou uma galinha. Para justificar em palavras sua renúncia total ao alimento de origem animal, uma amiga minha disse que não come nada que tenha rosto. Racionalmente, gostaria de agir da mesma forma. Mas minhas compaixões são, como as do personagem de McEwan, mais seletivas. Algo em mim clama por sangue, pelo “ardente prazer de dilacerar”, para usar as palavras com que Borges traduziu o desejo inato de um leopardo. Seria uma hipocrisia e tanto afirmar que este coração hedonista não padece de pequenos surtos de prazer ao dilacerar finas e delicadas tiras de salmão cru ou pedaços tenros e altos de picanha cheios de gordura, enegrecidos pela brasa. Renunciar a esses surtos seria doloroso ao extremo, quase um castigo perpétuo. Por outro lado, o que fazer com o apelo racional, o aprendizado constante que a evolução intelectual nos impõe? Não vou viver para presenciar o fim desse dilema, até porque sou parte dele, mas é bem possível que a humanidade caminhe – a passos de tartaruga – para um mundo habitado apenas por herbívoros. Sem churrascarias e suas carnes exóticas, iguarias japonesas, moquecas de camarão e siri mole, ostras, polvos, mexilhões, presuntos de Parma ou mesmo um simpático feijão branco com rabada. Pensando bem, não ser imortal tem lá suas compensações.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Chamem o Pedro de Lara!


Outro dia estava comprando umas coisas para casa num supermercado que tinha som ambiente (não sei se para entreter ou enervar os clientes). E lá pelas tantas, após uma meia dúzia de pagodes sem pé nem cabeça, reconheci, por trás da interpretação tosca, a letra e a melodia de A Fórmula do Amor, uma baladinha legal que Léo Jaime e Paula Toller cantavam na década de 80. Mas a interpretação profundamente amadora me intrigou. Cheguei a pensar que estavam promovendo um karaokê com os clientes em alguma parte do estabelecimento, provavelmente no setor de eletroeletrônicos. Aos poucos, fui percebendo que aquilo havia sido gravado por um artista profissional (seja lá o que for isso hoje): o arremedo de voz, os instrumentos de contornos sonoros indefinidos, os indefectíveis “sai do chão!” e “vamos nessa, galeeeeera!” deixavam evidente que se tratava de um legítimo integrante do cancioneiro baiano contemporâneo. Então me vieram à mente os shows de calouros que assistia na infância, quando os artistas amadores precisavam demonstrar ao menos alguma afinação, um timbre de voz agradável ou um certo balanço para convencer o auditório de que não mereciam levar o buzinaço. Se não, corriam o risco de ser desancados em praça pública pelos finados Aracy de Almeida e Pedro de Lara, os chatos exigentes de plantão, que se contrapunham aos puxa-sacos que achavam tudo o máximo. Ou seja, mesmo em se tratando de diletantes, havia algum critério, um grau mínimo de exigência para que aquilo não virasse a Casa da Mãe Joana. O “calouro” que ouvi no supermercado jamais passaria pelo crivo de Dona Aracy, do mal-humorado Pedro de Lara ou de qualquer pessoa sensata, assim como essas outras manifestações de mau gosto que dão as caras nos carros com som ligado ao máximo (essa equação não tem erro: a qualidade da música é inversamente proporcional à potência dos altos-falantes). Não que as coisas que a gente ouvia naquele tempo nos programas de calouros fossem lá grande coisa. Mas o julgamento de uma criança é bem mais condescendente com os medíocres. Tudo isso ficou perambulando por minha cabeça enquanto pegava umas folhas de escarola para botar numa lasanha.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Fio desencapado


Há alguns dias postei um texto aqui falando do ataque de neonazistas suíços a uma brasileira. Não retiro uma palavra do que disse sobre a necessidade de enterrarmos de vez o cadáver do fascismo, se é que realmente estamos evoluindo (ou queremos evoluir) como civilização. Mas agora deixamos o terreno da xenofobia e do racismo – sobre o qual é possível caminhar, ainda que pantanoso – para nos aventurarmos pelo universo fluido das obsessões humanas. Já é quase certo que Paula Oliveira forjou o ataque, cortou a própria pele, inventou uma gravidez de gêmeos e mentiu em seu depoimento à polícia. Já é quase certo que ela irá se complicar por lá, onde a mídia e a opinião pública se manifestaram de forma tão acalorada quanto aqui. Mas o que fica de tudo isso, mesmo que ainda estejamos no território das suposições, é: quais as motivações de uma mulher de 26 anos, com um bom emprego, legalmente estabelecida em um dos países mais civilizados da Europa, para cometer tamanha sandice? Há certos desvãos na alma humana inalcançáveis para os homens comuns, entre os quais me incluo. Esses recônditos abrigam um grau de complexidade tamanho que pode nos levar para o bem ou para o mal, embora o maniqueísmo seja apenas uma invenção de contornos bíblicos e nós estejamos eternamente nos deslocando por uma sombria zona cinzenta. Não se trata de medo, angústia, ódio, amor, insegurança ou tristeza, mas de uma combinação em proporções exacerbadas de todos esses sentimentos e mais uma dezena de outros que (não sei como) acaba descambando para algum tipo de desequilíbrio. Um dia, algo em nós deixa de funcionar adequadamente e passamos a nos comportar fora dos padrões. Quando nos damos conta, o estrago está feito. Pode ser que eu ou você nunca soframos um desses curtos-circuitos no decorrer da vida. Mas é certo que em alguma gaveta fechada com cadeado lá no nosso íntimo existe um fio desencapado, pronto para causar um estrago.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Arquivo - Sinto um gosto amargo


Sinto um gosto amargo


Escrito em 19 de dezembro de 1991


Eu senti que os olhos me doíam como se
Pequenos pedaços de vidros de lâmpada
Fizessem lar neles
Essas vitrines da minha juventude
Onde eternos invernos nublados
Fazem chover solidão em minha consciência
Por que tanta tormenta?
Por que essa dor no peito?
Os belos, os felizes
Eu cansei dessa tristeza
E um animal querido observa a minha decrepitude
Um homem que pede um pouco de carinho
Jogado numa cama e só
Ferido
O problema é não ver o horizonte
É beber muito para poder esquecer de si mesmo
Eu reparei naquela árvore no crepúsculo
Ninguém reparou
Vi, eu vi, sim, eu vi os olhos vermelhos
No reflexo da janela e o vidro embaçado
Tocando a chuva do outro lado com o nariz
Os pedaços de lâmpada me fazendo lacrimejar
O paraíso tão perto
A alma querendo ir
Os velhos só queriam jogar damas e eu
Pedindo para ser anjo
Eu caí na sarjeta às cinco horas da manhã morto de bêbado
Eu não estava bem
Tirei o fio de juventude de uma dezena de putas
E escrevi poemas profanos na areia da praia
Eu destruí a vida de mulheres que me amavam e só
Eu fiquei em posição fetal durante duas horas
Quase morto de tanta solidão
Esperei bem uns nove meses sentado numa rodoviária
Para tentar achar uma índia
Tudo o que eu quero é um pouco de sanidade
Não vou ficar embaixo da grama, embaixo de tudo
A morte sempre nos torna medíocres
Todos seremos medíocres um dia, não adianta
Buscar a genialidade na estrada
Nem nos livros nem nos olhos dos velhos mendigos bebuns
Não adianta buscar nada
Felicidade é uma pedra de gelo
E a velhice é o castigo final e o castigo é a esclerose
Olhos vendados, estamos sempre de olhos vendados
A cegueira é sempre achar que o paraíso está perto
Se nunca conseguimos alcançá-lo
Nos vendemos a nossos próprios pais
Nos vendemos a nosso próprio país
Nações territórios demarcações fronteiras
Invenções tolas
Homens são todos iguais e se acham singulares
Todas aquelas árvores seculares foram mortas por eles
Elas, que são muito mais sábias
Elas, que são sim eternas
Não entendi quando me falaram sobre mentes destruídas
Sobre corpos torturados
Eu ainda não entendo o sofrimento
Há tanta tristeza
Pairando no ar
Tornando o ar pesado
Ainda há muitos gritos de mães atormentando nossos ouvidos
Ainda há uivos de dor flutuando no vento
Minha solidão ataca, lasca
Feito a visão de um fuzilamento
Carrego toda dor sozinho
Pois só tenho a mim mesmo, pois não
Me apoio em soluções invisíveis, impalpáveis
Sinto um gosto amargo como se comesse uva podre
Sinto um cheiro de bosque que já não existe
Um pressentimento como se animais famintos
Viessem ao meu encalço
Toda a minha fé está em mim e não tenho fé
Tenho um impulso colérico, uma fúria de vida
Dois olhos dolorosos, olhos doloridos, olhos horrorosos
Duas feridas iguais abertas e infeccionadas
Infecções intestinais
Buracos ulcerados no estômago e no fígado
Já destruído pela cirrose hepática
Mil cigarros e litros de fumaça por dia
Meu vício é achar que tenho chance de ser feliz
Meu vício é esse narcisismo contraditório
Sempre tentando esconder tolices
Tolices sempre aparecem cedo ou tarde
Feito baratas saindo de esgotos
Tudo o que tenho a dar é um pouco de aflição
Um pouco de desesperança
Doses violentas de niilismo e depressão
Uísques vagabundos jogados fora no vômito
Os piores homens são os que se matam por amor à pátria
Os melhores homens são assassinados pela solidão
Vive-se uns sessenta anos para se acabar numa vala comum
Num terremoto qualquer
Eu repentinamente vejo aviões bombardeiros passarem
Jogam bombas em nossas almas
Punks imbecis quebram bancos 24 horas e se flagelam
E desde quando violência e dor levam a algum lugar?
Há sempre alguém tramando alguma coisa em qualquer canto
Sempre algum idiota querendo vencer na vida
Metrópoles fazem as pessoas enlouquecerem
O tráfego e a buzina
As brigas de bar e os assaltos
Oh, o tempo...
Somos todos fantoches e nossas vitrines estão quebradas
Alguém jogou uma pedra e roubou o brilho dos nossos olhos
Começo a pensar que não temos para onde ir
Que mesmo fugindo em um avião o desnorteio vem junto
Como um tiro persegue um alvo em fuga
E o tiro é na consciência
Quase me joguei um dia de um penhasco e
Imaginei meu corpo fazendo companhia às pedras
Todos nós somos espancados como as pedras pelas ondas
E não podemos beber água por ser salgada
Me sinto como um feto recebendo pancadas
Das mãos da mãe
Gosto de sentir a minha mão apertar um seio
Gosto de pensar em algum dia me entregar ao mar
De morrer enlouquecido de bebida em algum bar de striptease
Ferir a minha imagem jogando um copo no espelho
Um copo de vodka gelo e limão
Um espelho de banheiro
Quantos cacos de vidro ainda restam em meu olho?
Quantas lágrimas?
Quantos olhos me restam?
A queda sempre pode estar próxima
Meu vento é um sopro de solidão soprando no deserto
Eu espero a primavera
Eu espero a sanidade
Eu espero a felicidade
Mesmo que não exista e eu espero que exista
Estranhos melancólicos febris
Esses são os olhos da noite
E esses são meus olhos
Seus olhos, querida, parecem cortes de gilette
Sangrando em meus pulsos...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Pá de cal


O fascismo é um cadáver insepulto. De vez em quando o ar muda de direção e sentimos o cheiro de sua decomposição incessante. Vislumbramos, através do odor acre que invade nossas narinas, sua carne podre e esverdeada. Na última semana, uma brasileira grávida de gêmeos, 26 anos, foi espancada por skinheads na Suíça, que com um estilete riscaram palavras imbecis em seu ventre. Ela perdeu os bebês. Passados 63 anos do fim da Segunda Guerra, não já é hora de a humanidade – se se pretende civilizada e em evolução contínua – enterrar de vez o defunto e deixá-lo enfim repousar à sombra da história?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O primeiro hominídeo


O pavor teve início aos 16 anos. Acordava no meio da noite banhado em suor e dizendo a mim mesmo: vou morrer. Não, não padecia de alguma doença grave, nem mesmo de uma frugal tuberculose, doença que minou a vida de milhares de jovens românticos no século 19. O pavor não se referia a uma possibilidade iminente, mas sim a uma certeza, por mais que ainda distante. Descobrir tão novo a extensão da própria finitude pode ser devastador. No meu caso, produziu uma curiosidade mórbida de conhecer e investigar os questionamentos de quem veio antes (e que, na maioria dos casos, já havia ido embora) sobre o assunto. Acabei encontrando ateus em desespero, católicos ansiosos por uma redenção impossível e budistas surpreendentemente serenos. Mas jamais descobri uma resposta ao escavar as belas e desconcertantes reflexões que os grandes poetas e prosadores me legaram ao longo desses anos. Continuei tão sozinho quanto todos aqueles que, um dia, tiveram uma epifania pelo avesso – como um grito para dentro – ao se depararem com a certeza da extinção.
Com o tempo, o pavor se converteu numa resignação atroz, mas várias vezes, na noite alta, ainda digo a mim mesmo: vou morrer. A diferença é que agora meu tempo de vida sobre a Terra é ainda menor. Mas fazer o quê? Ter plena consciência de que um dia cessaremos e que o planeta continuará placidamente o seu curso não me fez mais inteligente ou mais preparado para o futuro, pelo contrário. Ao menos, tento compreender o que exatamente significa o ponto final. O que sei é que não conseguimos nos despregar do nosso corpo. Ele é como uma carapaça solidamente fixada à nossa alma por alguma membrana invulnerável, sem a qual é impossível seguir vivendo. É por meio dessa membrana invisível que recebemos os estímulos vitais: o conhecimento, o aprendizado pelos sentidos, o medo. Somos como animais que habitam conchas: sem elas é impossível sobreviver mais que alguns segundos no meio ambiente. Quando vemos um morto, vemos uma pessoa dormindo. Só que é um sono sem sonhos. Tudo cessa por dentro daquela couraça de pele e pêlos, à exceção das bactérias que se reproduzem à profusão no estômago e no intestino. Verissimo escreveu – ou reproduziu a frase de alguém, não lembro – que nossa morte é um evento para os outros, não para nós. Ou seja: não estaremos aqui (ou em algum outro lugar, muito menos num camarote celestial) para presenciar as lágrimas sinceras, os comentários condoídos, os pêsames formais, e depois a caminhada, a terra ao lado do buraco, o barulho dela caindo no caixão, a volta para casa sem nós. Tudo isso, variando apenas a forma, é fato. Muitos se conformam, outros celebram a passagem para um plano superior, e alguns poucos sentem no íntimo aquela dor primordial, quase uma asfixia, que deve ter afligido o primeiro hominídeo quando ele se deu conta de que a pessoa que vivia ao seu lado não acordaria nunca mais. E que ele, um dia, também não acordaria.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

(Um pequeno grande texto de Borges)

Inferno, I, 32

Jorge Luis Borges

Do crepúsculo do dia ao crepúsculo da noite, um leopardo, nos anos finais do século XII, via umas tábuas de madeira, umas barras verticais de ferro, homens e mulheres cambiantes, um paredão e talvez uma canaleta de pedra com folhas secas. Não sabia, não podia saber, que ansiava por amor e crueldade e pelo ardente prazer de dilacerar e pelo vento com cheiro de veado, mas algo nele se sufocava e se rebelava e Deus lhe falou num sonho: "Vives e morrerás nessa prisão, para que um homem que conheço te olhe um número determinado de vezes e não te esqueça e ponha tua figura e teu símbolo num poema, que tem seu preciso lugar na trama do universo. Sofres o cativeiro, mas terás dado uma palavra ao poema". Deus, no sonho, iluminou a rudeza do animal e este compreendeu as razões e aceitou esse destino, mas só houve nele, ao despertar, uma obscura resignação, uma valorosa ignorância, porque a máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade de uma fera.
Anos depois, Dante morria em Ravena, tão injustiçado e tão só quanto qualquer outro homem. Num sonho, Deus lhe declarou o secreto propósito de sua vida e de seu lavor; Dante, maravilhado, soube por fim quem era e o que era e abençoou suas amarguras. A tradição relata que, ao despertar, sentiu que tinha recebido e perdido uma coisa infinita, algo que não poderia recuperar, nem mesmo vislumbrar, porque a máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade dos homens.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O mais querido


Depois de quase sete anos no cargo, quando à exaustão do poder se soma o desgaste natural junto à população, é impressionante que Luís Inácio Lula da Silva continue alcançando índices de aprovação maciça à sua persona e ao seu governo. Sobretudo numa época sombria, de crise mundial já consolidada, com refluxo na atividade industrial e aumento do desemprego. Pela milionésima vez cabe a pergunta: o que esse ex-torneio mecânico e ex-líder sindical possui, além de um carisma pessoal avassalador e uma invejável capacidade de falar olho no olho com seus súditos, como numa conversa de bar? É simples: Lula tem competência e, principalmente, uma sensibilidade social genuína, ausente em todos os que vieram antes dele. Baixada a poeira do seu primeiro governo, terrível sob quase todos os aspectos, ele reviu a rota, tirou a água que invadia a proa e reconduziu o país à condição de nação emergente, e não em fase de submersão. Para isso, foi necessário limar o pendor autoritário e a corrupção institucionalizada como mecanismo de persuasão e manutenção do poder (ambos personificados na figura abominável de José Dirceu). Restou um governo razoavelmente eficiente, que tem como principal premissa a redução da brutal desigualdade social que assola o Brasil desde que ele atendia pela alcunha de Ilha de Vera Cruz. E há, obviamente, o fator Lula, que está acima do seu partido e do seu governo. Quando ele combate o spread e o excesso de juros nos bancos públicos, está na verdade corrigindo uma distorção histórica: bancos públicos não são empresas criadas com o objetivo primordial de obter lucro, e sim de oferecer crédito à população em condições menos adversas que os privados. Atitudes assim poderiam ser evitadas com o costumeiro empurrar com a barriga, por isso é tão louvável que ele as tenha. E mais: pode-se contestar o assistencialismo como um fim em si, mas num país de miseráveis ele é legítimo e necessário, simplesmente porque não se pode deixar alguém morrer por falta de conteúdo no estômago. Ignorar isso é sucumbir a um discurso elitista, cada vez mais patético em sua tentativa de desqualificar o dar o peixe, como se fosse possível ensinar quem não consegue se manter de pé a colocar a isca no anzol e lançar a linha. Lula é popular não porque usa o assistencialismo em benefício próprio (e usa), mas porque criou uma rede de proteção social que beneficia milhões de pessoas que jamais tiveram qualquer atenção por parte do Estado.
O assistencialismo é o grande diferencial do governo Lula, e reconheço que isso é muito pouco, embora existam aspectos positivos na gestão econômica, essencialmente desenvolvimentista, ao contrário do monetarismo que reinou nos anos FHC. Prefiro assim, mesmo morrendo de medo das conseqüências do PAC, que nos próximos dois anos vai ser usado à exaustão para alçar Dilma Roussef à condição de candidata viável ao Planalto. Na seara política o governo ainda peca pela profusão de negociatas e o aparelhamento dos cargos técnicos – resquício da herança stalinista no PT. E é claro que persistem a demagogia barata, o excesso de informalidade no trato diplomático, os equívocos na política externa (sobretudo no apoio aos tiranetes bolivarianos e no uso de pesos distintos ao tratar de quem nos pede asilo). Mas as virtudes são incontestes e – num país combalido por séculos de egoísmo e inapetência – muito bem-vindas.
Não sei se o PT deve continuar gerindo o país a partir de 2010. Talvez a alternância com o PSDB seja saudável, talvez não, embora essa alternância tenha sido responsável por uma reviravolta no panorama social, político e econômico brasileiro nos últimos 15 anos. Por outro lado, é sintomático que excrescências da nossa política (Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães, Joaquim Roriz etc) estejam saindo (ou já saíram) de cena, e que tenhamos hoje novas lideranças aparentemente capazes. Muito embora a minha geração não viva para ver um poder público livre da corrupção generalizada e do mau-caratismo em escala industrial. A eleição de 2010 será a primeira desde 1989 (ou seja, 21 anos) da qual Lula não participará diretamente. Sentiremos saudades? Não sei. Mas, para quem votou nele em três dos cinco pleitos que disputou, vai ser impossível não sentir uma ponta de nostalgia com a sua saída de cena, mesmo que provisória. E lembrar de um tempo em que Lula e o PT representavam a nossa reserva moral. Isso acabou. Vivemos tempos de pragmatismo, e não há espaço para invocações românticas. De qualquer modo, acho que esse pernambucano de Garanhuns vai entrar para a história como o presidente que conseguiu mitigar nossa miséria atávica, o que já é um feito e tanto.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Faço 39 anos hoje. A sensação é de ter subido o último degrau de um trampolim – e de ter que esperar ainda um ano antes de me lançar no abismo.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O estorvo de cada um


David Lynch já cravou seu nome na história do cinema pelos flertes com o bizarro e o nonsense, presentes, por exemplo, em Coração selvagem e Cidade dos sonhos. Mas seu filme que ainda hoje encontra eco no meu coração é mesmo A história real, que revi ontem na TV, ainda que seja tão linear e essencialmente humanista, características que só vamos encontrar de novo no Lynch de O homem elefante, outro de meus preferidos. Há uma cena em A história real da qual não me recordava e que é essencial para a trama: é quando o velho viajante Alvin (Richard Farnsworth) confessa – a um homem idoso como ele e ex-combatente como ele, portanto muito mais apto a entender sua angústia silenciosa – que matou por engano um estimado companheiro de exército durante uma batalha na Segunda Guerra. E que só agora, naquele momento, outra pessoa além dele próprio ficava a par do episódio. É só uma cena rápida em uma obra-prima recheada de grandes cenas e diálogos, mas ela é fundamental para se entender a personalidade de um homem que, para reencontrar o irmão com quem brigara décadas antes, sai viajando pelas estradas americanas a bordo de um cortador de grama levando atrás um trailer improvisado. Alvin precisou de mais de 50 anos para tirar do ombro um estorvo que o marcou durante todo esse tempo, fazendo com que se entregasse deliberadamente ao álcool e à melancolia (a atuação de Farnsworth, que se matou logo após o encerramento das filmagens ao saber que tinha um câncer incurável, só faz acentuar o peso desse estorvo). Na mesma cena, ele ainda comenta: “No final da guerra já estávamos matando garotos”, referindo-se aos meninos alemães recrutados nos estertores do nazismo para morrer no front. Mas a verdade é que Alvin era ele mesmo um garoto, despejado em algum confim da Europa ou Ásia para vivenciar o aniquilamento da própria inocência. Ninguém sai imune (ou seria impune?) de uma guerra. Talvez seja a experiência mais próxima do que se entende por inferno. Quando assistimos a esses documentários sobre crimes de guerra no Vietnã ou no Iraque, percebemos que seria impossível não existirem abusos por parte dos invasores: são apenas garotos, tão equipados com armamentos que mal conseguem caminhar, entregues ao ato de dizimar seres humanos como se brincassem com soldadinhos de chumbo. Filmes como O franco atirador (Michael Cimino) e Além da linha vermelha (Terrence Malick) falam disso com propriedade, assim como o romance de estréia de Norman Mailer, Os nus e os mortos. Em A história real esse é apenas mais um ingrediente que nos ajuda a compreender a desdita de Alvin e sua imperiosa necessidade de redenção. Rever esse filme de tempos em tempos também é imperioso.