sábado, 25 de dezembro de 2010

2011


Sinto falta dos finais de tarde de minha juventude. De parar para ver o sol morrer no mar e continuar lá muito tempo depois, conversando ou contemplando. Sinto falta das noites de minha juventude. De parar para ver a lua nascer no mar e continuar lá muito tempo depois, conversando ou contemplando. A violência mudou nossos hábitos, e hoje é raro eu ficar na praia nas horas que mais aprecio, quando o sol se retira e a lua toma o seu lugar. Uma pena. Gostaria de passar mais tardes assim, livre das paredes e cortinas de um prédio empresarial ou mesmo das paredes e cortinas da minha casa. De caminhar descalço na areia com minha família, com uma sensação íntima e muda de felicidade, como às vezes faço quando deixamos Salvador e nos hospedamos numa praia distante. Talvez por isso, gostaria que 2011 me trouxesse, além dos votos de praxe – paz, felicidade, saúde, prosperidade –, um pouco mais de finais de tarde. De ver mais vezes o sol morrendo e a lua nascendo em frente ao mar. Um desejo prosaico, sem dúvida, mas talvez as melhores coisas da vida sejam mesmo as mais prosaicas.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Quero viver mais 200 anos


Hoje, na hora do almoço, estava assistindo a um programa na GloboNews que tinha como convidado um senhor bem magrinho, de aparência fragilizada, cabelos bem brancos e dentes amarelados, com uma guitarra nos braços. Quando a apresentadora conversou com ele, eu reconheci a sua voz, mas ela não correspondia à imagem que tinha na minha frente. Era Beto Guedes. Ou alguém muito diferente do Beto Guedes que conheci em shows, capas de discos e programas de tevê: um sujeito tímido, de cabelos fartos e boa estampa, autor de canções que até hoje eu adoro, como No Céu com Diamantes, Amor de Índio, Canção do Novo Mundo e muitas, muitas outras. Em seguida, ele começou a cantar uma música do pai, Godofredo, chamada justamente Cantar. Tão linda. Fiquei observando Beto Guedes cantá-la com um fio de voz, tão fraquinho e debilitado, e senti um desalento muito forte, que ia além do espanto com o seu profundo envelhecimento.

Percebi, naquele momento, o quanto eu também envelhecera nos últimos anos, e o quanto ainda vou envelhecer até chegar à idade dele, que tem 59. Doeu em mim intimamente constatar que o homem que fui aos 20 ou aos 30 também não existe, ao menos em sua totalidade. Mas... por que a juventude nos é tão necessária? Por que nos apegamos aos seus últimos sinais como um moribundo que se recusa a ceder ao último suspiro? Provavelmente porque sabemos que, como o cineasta Mario Peixoto disse um dia, quando o ponteiro de segundos do relógio avança, ele não está dizendo: mais um, mais um, mais um. E sim: menos um, menos um, menos um. É claro que já acompanhamos outras vezes, sem perceber, o envelhecimento de pessoas públicas, artistas principalmente. Até chegar o dia em que nos damos conta de que aquele eterno galã da novela das oito ou aquela grande cantora de MPB não exibem mais a forma física de outros tempos. A verdade é que eles são espelhos da nossa própria caminhada rumo à decrepitude. Estão ali para nos mostrar o caminho, como se dissessem: se nós ficamos assim mesmo com plásticas e maquiagens, imagine você.

Beto Guedes, contudo, me pareceu mais decaído do que sugeriria a sua idade. Entra aí, claro, a vida desregrada comum aos artistas: noites perdidas, álcool, farras etc. Não importa. Para mim, foi como se tivesse convivido a vida toda com a pessoa de juventude imutável dos meus 16 anos e, naquele momento, me deparasse repentinamente com o quadro que ela escondia no armário, como um improvável Dorian Gray de Montes Claros. Como artista, ele permaneceu no passado, resumindo-se a cantá-lo: Sol de Primavera, O Sal da Terra e um punhado de canções que em nossa memória vão ficar, para usar versos de sua autoria. Não se reinventou, não trilhou novos caminhos. Talvez isso contribua para que a sua performance na tevê seja ainda mais melancólica, o que é uma pena. Ou talvez o meu olhar é que esteja contaminado. Ao expor sua decadência física em público, Beto Guedes nos brinda com o que a vida tem de mais dolorosamente fascinante: a nossa incompreensão, o nosso assombro e a nossa luta vã contra o oblívio. Tempo, quero viver mais 200 anos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Correnteza


Às vezes um livro nos faz companhia por tanto tempo que não lembramos da sua existência. Durante anos ele permanece ali, sorumbático e silencioso como um cão abandonado, até que nos damos conta de que sempre esteve lá, esperando a sua vez. Durante anos, Conversa na Catedral permaneceu na minha estante, grande demais para ser ignorado, e talvez grande demais para ser levado a sério como leitura obrigatória. O título me remetia a uma tertúlia de cunho religioso, ambientada numa igreja e tendo padres ou sacristães como protagonistas. Não tinha me dado conta de que guardava em meu gabinete uma obra máxima de Mario Vargas Llosa. Afinal, essa alcunha me parecia mais apropriada a títulos como A Cidade e os Cães (que tenho aqui em sua primeira tradução, ainda com o título Batismo de Fogo), A Guerra do Fim do Mundo ou quem sabe até Tia Julia e o Escrevinhador, romance pelo qual nutro um grande carinho. Após o Prêmio Nobel concedido ao autor peruano, a curiosidade – aguçada pela leitura de O Paraíso na Outra Esquina – ganhou força quando li, nos jornais, reportagens e análises que apontavam Conversa na Catedral como sua obra-prima. Sim, aquele livro de capa verde publicado pela Arx, que conservava na estante havia pelo menos cinco anos e que nunca me dispusera a encarar.

Antes, li Pantaleão e as Visitadoras, divertido mas esquecível, desses romances que, como casos fortuitos, passam por nossa vida sem causar avalanches no nosso espírito. Então, num final de noite, tirei o calhamaço de quase 800 páginas da estante, sentei onde estou agora, e comecei a saboreá-lo. A sedução, devo confessar, foi instantânea. Em pouco mais de 40 páginas, me dei conta de que tinha sido contaminado pelo delírio silencioso. Fui me deixando levar pela vida de Santiago Zavala, o Zavalita, por suas contradições, por seus remorsos ambíguos, pela tentativa que fazia de compreender o próprio fracasso e o fracasso do seu país – no caso, o Peru dos anos 50. Avançando um pouco mais, ficou claro que Vargas Llosa prestava tributo a William Faulkner: seus personagens e diálogos avançavam e retrocediam anos e décadas em instantes, separados apenas por um parágrafo ou nem isso. Iam e vinham, como um bate-papo num boteco, a catedral que dá nome ao livro. Nada de elucubrações eclesiásticas, portanto.

Aos poucos, foram surgindo outros personagens: Ambrósio, Amália, Cayo Bermúdez, Don Fermín, Ludovico, Carlitos, Chispas, Teté, Hortênsia, Queta. Gente comum, como eu ou você, que em dado momento se via arrebatada pela história de um país dominado por militares sem ideais, empresários sem dignidade e arrivistas sem escrúpulos. Um país separado por uma correnteza sem rumo. Numa margem, o presidente Odría, os apristas, comunistas e congêneres. Na outra, uma população sem horizonte, capaz de se agarrar ao cipó mais próximo para não submergir no rio do anonimato. Se por um lado é impiedoso com o seu país, por outro Vargas Llosa refaz o percurso de todos esses párias com um afeto que comove. São tragédias que se sucedem sem redenção à vista, amenizadas por ligeiros lapsos de felicidade fugidia, mas inevitavelmente fadadas ao desenlace trágico. Mais do que um romance político, Conversa na Catedral é um romance de formação – no caso, a de Santiago, que rejeita o dinheiro e o afeto do pai para viver miseravelmente, primeiro como militante comunista e mais tarde como jornalista sem ideais, movido pela inércia, destroçado pela própria inteligência. É um dos personagens mais palpáveis que já conheci nessas andanças por romances e contos vida afora. Vi muito de mim em Santiago, assim como vi muito de pessoas que conheço ou que imagino existirem nos demais personagens.

À medida que fui avançando, Conversa na Catedral me conquistou em definitivo, e em pouco tempo não conseguia atravessar as noites sem passar por ele, ler nem que fossem umas cinco ou seis páginas, relembrar em que momento da trama eu me encontrava. Pesado, exigiu de mim um esforço físico ao qual não teria me dedicado se a recompensa não fosse tão proveitosa. Nos últimos dias, me vi perdendo noites e encontrando posições menos desconfortáveis para avançar por aquele matagal de palavras. Ia dormir entre angustiado e saciado, após 40, 70 ou 100 páginas consumidas. No domingo à noite, após mais umas 130 páginas, finalmente cheguei ao final: “... e depois aqui, acolá, e depois, bem, depois morreria, não, menino?”. Um final lancinante, que me deixou como heranças um travo no peito, uma angústia muda e a incômoda sensação de impotência de quem sabe que essa história cheia de som e fúria não leva a lugar nenhum. Em algum momento do livro, todas aquelas pessoas se depararam com a grande história, esse carro velho e desgovernado que nos leva a reboque sem cerimônia, nos mastiga e nos reduz a nada. Enquanto um novo romance não aparece para flertar comigo, elas permanecem aqui, como espectros desgarrados, povoando meus pensamentos. E eu me sinto invadido por uma ternura imensa.

domingo, 12 de dezembro de 2010

A essência de uma era




De tempos em tempos, volto à série Jazz, de Ken Burns. Uma produção com mais de 12 horas de duração espalhadas por quatro DVDs, que reconstitui a trajetória do mais relevante e complexo gênero musical surgido no século 20, do nascimento aos dias atuais, passando pela era do swing, o bebop, o cool, as experimentações do avant-garde e a decadência quase seguida de morte, quando o rock tomou conta do mundo a partir de meados dos anos 60. Adoro rever sobretudo o último DVD, que aborda o jazz moderno, pós-swing, aquele que Charlie Parker, Thelonious Monk e Dizzy Gillespie erigiram e Miles Davis e John Coltrane elevaram ao Olimpo.

Assistir à série nos permite enxergar o jazz não apenas como um gênero musical, mas também como um fenômeno político, comportamental e sobretudo social. Estão lá a barbárie da Segunda Guerra, a nova conquista do oeste por americanos endinheirados, as manifestações pelos direitos civis e contra a guerra do Vietnã e principalmente o racismo exacerbado e institucionalizado, que cindia a sociedade americana entre anglo-saxões descendentes de ingleses e irlandeses e os que carregavam na pele a descendência de escravos africanos. Algo fundamental para se entender uma música essencialmente de negros, sendo alguns deles os homens e mulheres mais talentosos e singulares do seu tempo. Mas essa é uma observação retrospectiva, despida do calor da hora, da tensão racial do período. Na época, era comum associar músicos de jazz à escória, ao lado selvagem dos bares enfumaçados cheios de viciados e bebuns, onde moças e rapazes de boa família não entravam.

Daí ser impossível dissociar, por exemplo, o sofrimento atátivo na voz de Billie Holiday ou o ensimesmamento agressivo de Miles Davis do contexto racial no qual eles estavam inseridos. Toda a dolorosa vida pregressa de Lady Day e de seu povo está presente na sua obra: basta ouvi-la cantando Strange Fruit, metáfora macabra para os negros enforcados em árvores, das quais pendiam como frutas estranhas. Já Miles tinha muitos motivos para ser um cara durão: chegou inclusive a ser agredido por um policial branco ao sair para fumar no intervalo de um show do qual era a grande estrela. Miles não aceitou o “circulando”, tão comum até hoje nas cidades brasileiras, e foi coberto de pancadas.

Tudo isso está em em Jazz, assim como algumas histórias lindas, que guardam um pouco daquelas pessoas para a posteridade. Lembro agora de algumas delas: o pai de Miles, ao receber em casa o filho que tentava se livrar do vício da heroína, dizendo: “Tudo que posso lhe oferecer é o meu amor”. A resposta de Coltrane, que morreria dentro de alguns meses, ao ser perguntado sobre os seus planos para os próximos anos: “Pretendo me tornar um santo”. Dave Brubeck explicando como sugeriu a Paul Desmond que juntasse dois temas criados em separado para dar forma a Take Five, uma das grandes composições da história do gênero. Louis Armstrong desbancando os Beatles em plenos anos 60 com Hello Dolly, no último suspiro do gênero nas paradas de sucesso. Histórias trágicas também, como a reação aturdida de Charlie Parker ao saber da morte da filhinha Pree, e dos telegramas que passou em sequência para a esposa Chan, cada um mais desconexo do que o outro. Os momentos que antecedem a morte do próprio Bird – drogado, bêbado, depressivo e com o corpo em frangalhos.

A série nos faz acompanhar angustiados ou com um sorriso cúmplice todas essas passagens, ao mesmo tempo em que constrói um rico painel da América, mostrando suas contradições, sua opulência e o fascínio coletivo que o jazz exercia sobre jovens, adultos e velhos naqueles tempos politicamente sombrios e musicalmente solares. O mais importante, no entanto, é perceber que a música nascida em guetos negros, tocada por ex-ladrões e ex-prostitutas, se tornou o gênero americano por excelência e, o principal, a música clássica do século 20.

Uma música que ouço todos os dias, sem cansar, e que descubro a cada novo artista, a cada novo disco desenterrado em lojas ou na internet. O fascínio de um solo quase se evaporando de Lester Young. O dedilhado infinito de Oscar Peterson. A ascese espiritual e musical de Coltrane. A força vital de Blue Mitchell, Lee Morgan, Kenny Dorham. O lirismo de Clifford Brown, que foi embora tão cedo. A sonoridade que se assemelha a um dry martini nos solos de Paul Desmond. A alegria incontida na voz de Louis, que joga por terra qualquer melancolia. A loucura sagrada de Monk. A chama gélida nos solos de Miles, que adoro acima de todos os outros e que ouço agora, nesta noite preguiçosa de domingo.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Salute!


E assim se passaram dois anos. No dia 4 de dezembro de 2008, Este Lado do Paraíso chegava ao mundo. De lá para cá, foram 190 postagens, mais de 5 mil visitas (com um recorde de 516 no mês passado), mais de 200 comentários e um grande prazer de escrever o que me vem à mente e de poder expressar as minhas angústias, perplexidades e sonhos de um jeito sincero e pessoal. Não sei aonde esses textos vão me levar, mas agradeço aos leitores e leitoras por seguirem comigo, lendo, comentando, discordando e sugerindo. Incluindo aí os que não conheço pessoalmente, mas que passei a conhecer um pouquinho neste espaço, onde também descobri o quanto muitas de minhas impressões sobre a vida, o mundo, o passado e o futuro são compartilhadas com outras pessoas. E hoje, depois de um mês particularmente conturbado, principalmente no Brasil, em que a realidade invadiu os nossos corações e mentes com fatos estarrecedores exibidos em grande angular nas nossas casas, quero apenas comemorar abrindo um chardonnay bem gelado nesta noite quente de quase verão. Salute! E que a fonte nunca seque.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ir embora


Existe um limite de idade para o suicídio? Um ponto de não retorno, no qual o despedir-se voluntariamente da vida não seja mais permitido? Não estou me referindo, claro, a um limite moral, mas a algum tipo de convenção tácita que nos impeça de cometer atitude tão extrema num momento da vida em que não faz mais sentido nos desvencilharmos de tudo que ela nos ofereceu ao longo de tanto tempo. Ou seria justamente o contrário? Nesse sentido, seria absolutamente justo que quem viveu tanto possa se dar ao privilégio de não viver mais, em função das perdas que a velhice traz: doenças graves que se tornam crônicas, depressão eventual, decrepitude física, confusão mental, perda de parentes queridos e por aí vai.

Pensei nisso tudo ao saber que o cineasta Mario Monicelli, de 95 anos, se jogou do quinto andar do hospital em que estava internado. Ele sofria de câncer na próstata, já em estágio avançado, e certamente teria poucos meses de vida, a maioria deles num estado de sofrimento e prostração insuportáveis. Não julgo, muito menos condeno, a atitude de Monicelli. Sua renúncia a enfrentar estoicamente o fim de uma vida longeva e produtiva é legítima. Apenas tento entender o que passou por sua cabeça no momento do salto para a inconsciência. Até que ponto foi um impulso repentino ou até onde mereceu uma reflexão prévia, um ajuste de contas com o próprio passado e a própria existência? Afinal, jogar-se do alto de um prédio é antes de tudo um ato de coragem. Um gran finale antes de cair o pano, mas sem o alento de poder ouvir os aplausos ou as vaias à nossa performance.

De um jeito ou de outro, seja qual for a sua motivação, o suicídio é invariavelmente fruto do desespero, mesmo quando planejado de maneira metódica, pensado e repensado várias vezes para que nada saia errado (tanto que há formas engenhosas de se matar que vão muito além da queda, do enforcamento ou do tiro na testa). Um ato complexo, em suma, que Camus definiu como a grande questão filosófica do nosso tempo e que foi cometido por Ernest Hemingway, Virginia Woolf, Stefan Zweig e Sylvia Plath, para ficar restrito ao universo literário. Como eles, multidões solitárias de anônimos se lançam todos os dias rumo ao olvido movidos por perdas avassaladoras, sobretudo emocionais, mas também – e essas são as que mais me intrigam – morais ou financeiras.

Voltando a Monicelli, acho que essa estranheza que o seu suicídio causou em mim tem a ver com um preconceito velado – e provavelmente involuntário – contra a velhice. Por que, por exemplo, um Kurt Cobain pode se matar aos 24 anos, ainda jovem, belo e com a estrada aberta à sua frente, e Monicelli, já no quilômetro final da mesma estrada, não pode? Para um, heroísmo, para o outro, covardia? Como se aos velhos, principalmente se doentes, fosse proibido o livre-arbítrio. Monicelli deu uma banana para toda essa baboseira, assim como Richard Farnsworth, o magnífico ator de A História Real, que meteu uma bala na cabeça ao se ver com um câncer terminal aos 80 anos, em 2000. Não sei o que pensar, afinal, sobre tudo isso. Não tenho nem mesmo uma opinião formada sobre o suicídio, seja ele praticado na velhice ou na juventude. Sei apenas que é um enigma, como muitos que dão forma à alma humana, e que por mais que investiguemos, permaneceremos na penumbra. Ir-se embora da vida, enquanto tantos querem permanecer, um ano ou mais que seja, por aqui.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Brasil nos tempos da cólera


Há duas epidemias de cólera em curso em dois países da América Latina. A primeira é no Haiti, onde uma população recém-saída do devastador terremoto de janeiro agora se vê dizimada pela doença. Já são mais de mil mortos e 18 mil infectados, e esses números são preliminares. Como quase sempre acontece no Haiti, as proporções das tragédias são estratosféricas, e a elas se seguem invariavelmente o caos e a explosão de desordem. A outra epidemia de cólera acontece no Brasil. Mas não se trata da mesma enfermidade presente no pequeno país centro-americano ou daquela que serve de pano de fundo para O Amor nos Tempos do Cólera, o belo e caudaloso romance de García Márquez. O Brasil padece de cólera moral.

Não há nenhuma novidade em dizer que temos uma sociedade doente, cindida por sintomas que na verdade são variações de um mesmo diagnóstico. Mas é curioso que a epidemia de cólera – ou de raiva, ira, preconceito, racismo ou qualquer outro termo que se queira usar – tenha se externado justamente agora. Como se um fato contaminasse outro e assim por diante. Há 15 dias, escrevi sobre as manifestações de preconceito contra nordestinos na internet, lideradas por um grupo de estudantes de classe média. Esse já é um episódio datado, mesmo que ainda atual. Datado porque a ele se seguiu uma onda de ódio que parece não ter fim: ódio contra pobres, ódio contra gays, ódio, enfim, contra o que é diferente – ou o que soa diferente a corações e mentes acostumados a um mundo sem matizes.

O problema, para pessoas assim, é que a civilização é dinâmica. E a pirâmide social brasileira – que durante muito tempo se configurou como um corpo letárgico, com castas rigidamente depositadas umas sobre as outras – presencia uma mobilidade inédita. Hoje, cada vez mais gente anda de carro, para desespero de pessoas como o jornalista Luiz Carlos Prates, comentarista de uma emissora de tevê catarinense, que esbravejou contra os “miseráveis” motorizados e atribuiu a eles a culpa pelos graves acidentes ocorridos no último feriado nas estradas de Santa Catarina. Gente, segundo ele, que “jamais leu um livro, mora apertado numa gaiola que hoje chamam de apartamento, não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem”. Coincidentemente, também peguei a estrada no feriado e vi muitos motoristas cometendo barbaridades, sendo que muitos deles dirigiam automóveis de luxo, não os habitualmente adquiridos pelos “desgraçados” a que se refere Prates, quase derramando saliva pelos cantos da boca.

E, como a doença está se alastrando sem controle país afora, não podiam faltar outras demonstrações de cólera, como a ocorrida domingo em São Paulo, na Avenida Paulista pela qual caminhei tantas vezes nos finais de noite da minha juventude. Desta vez um fato ainda mais grave, porque nele o destempero verbal veio acompanhado do destempero físico: um adolescente armado de uma lâmpada de escritório e respaldado por outros adolescentes investe contra três rapazes vindos em sentido contrário. Vi as imagens hoje e foram elas que me motivaram a escrever este texto. Foi um ato gratuito e covarde, como costumam ser os atos dessa natureza: o sujeito pára, se posiciona sorrateiramente e desfere o golpe na cabeça do rapaz, como se empunhasse um sabre de luz do filme Guerra nas Estrelas. Não satisfeito, golpeia novamente e só então o outro revida.

Mais tarde, através do advogado de defesa dos jovens, ficamos sabendo o motivo: as vítimas seriam homossexuais, e quem sabe até "teriam paquerado os agressores", que obviamente se viram obrigados a exibir toda a sua virilidade. Ah, então existe uma motivação, o que talvez faça muitos respirarem aliviados. Os rapazes não são, portanto, um equivalente paulistano dos delinquentes de Laranja Mecânica, que agrediam por agredir, sem qualquer propósito ou justificativa. Não, eles têm uma causa. Assim como o sujeito que matou um rapaz na saída da Parada Gay, na mesma São Paulo, há alguns meses. Assim como o estuprador que só estupra porque a mulher está com um vestido curto demais, colado demais, sedutor demais. Assim como Hitler, para quem judeus, ciganos, deficientes físicos, homossexuais e outras minorias não cabiam na sua utopia particular. E por aí vai.

O fato é que quando a motivação de uma pessoa para agredir outra está na não-aceitação do que essa outra pessoa é – não o que ela pensa ou defende – então estamos caminhando por um território sombrio. É o mesmo campo minado habitado por israelenses e palestinos, já que um não aceita a existência do outro, embora a convivência pacífica entre ambos fosse a alternativa mais viável. Ou seja: não basta odiar o outro; é preciso acabar com ele. É preciso acabar com os pobres que compram carros, acabar com os gays que andam nas ruas e deveriam voltar aos guetos, acabar com os nordestinos que votam em Dilma Rousseff. O que me leva a pensar que nossa epidemia talvez não seja de cólera, seja de demência mesmo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O ser e o nada



Leio na Folha de S.Paulo que cientistas conseguiram capturar um átomo de antimatéria. É um feito promissor, que pode abrir caminho para novas descobertas no campo da física, embora eu não tenha qualquer noção do que significa em termos práticos a antimatéria. A reportagem diz que em condições normais ela não costuma existir, já que o universo é todo feito de matéria convencional – prótons de carga positiva e elétrons negativos. O Big Bang, aquele sopro primordial que lançou no espaço todos os planetas, estrelas, cometas, nebulosas, peixes, plantas, cachorros e pessoas que sabemos ou não existir, também produziu muita antimatéria, embora não se saiba onde ela foi parar. Essa incógnita ganha ares de dramaticidade quando se sabe que, ao se encontrarem, partículas de matéria e de antimatéria provocam uma espécie de auto-aniquilação. Ou seja, mandam para o vácuo tudo aquilo que somos nós.

O fato é que, por mais que tente, não consigo compreender os fatores envolvidos na descoberta e na manipulação da antimatéria, e só me resta contemplar, do alto de minha estupidez, a complexidade da nossa insignificância, a valorosa perseverança da vida diante de um ambiente hostil. Fiquei tentado a pensar que, caso esse átomo recém-descoberto venha a se chocar com um átomo de matéria, os dois poderão ser aniquilados, levando a reboque tudo ao redor, inclusive nós, que seríamos sugados tão rápido que nem teríamos tempo de esboçar um adeus a quem amamos ou ao mundo que conhecemos. Gostaria de saber mais sobre física, para quem sabe desvendar as questões primordiais que movem o homem desde sempre: de onde viemos, quem somos, para onde vamos. O que me consola (ou desanima) é que sujeitos dotados de intelecto muito mais musculoso, como Albert Einstein, Stephen Hawking ou Carl Sagan, também ficaram pelo caminho. Encontraremos uma resposta satisfatória? Provavelmente sim, só não sei quando.

Continuo lendo a reportagem e, à medida que avanço, ela vai se tornando absolutamente incompreensível, um pouco como o Aleph de Borges, impossível de descrever, embora fascinante. A diferença é que a leitura do conto do mestre portenho abre imensas clareiras em nossas mentes simplórias, nos transportando para um universo paralelo habitado por uma espécie de tudo ao mesmo tempo agora. Já a reportagem – e o autor não tem qualquer culpa nisso – provoca apenas um pasmo resignado. Mas, enfim, aonde quero chegar com tanta baboseira? Não faço a mínima idéia. Apenas compartilho aqui a minha suprema ignorância, as minhas inquietações tolas e o meu singelo desejo de entender por que precisamos ir embora do mundo. Afinal, não é fácil resignar-se frente ao fato de que, daqui a 200 anos, todos nós – eu, você, nossos filhos e até aquele bebê que acaba de nascer numa maternidade do Nepal – não seremos nada além de partículas de antimatéria, sem qualquer serventia ou história para contar.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O homem é um bicho mau


Em O Gato por Dentro, sua singela declaração de amor aos felinos, William Burroughs relembra um episódio de infância traumático: estava com colegas e um “professor sulista com jeito e aparência de político” num acampamento escolar próximo a um rio, quando um texugo se aproximou do grupo. Era um animal pequeno, inofensivo, mas assim mesmo o professor sacou a arma e atirou contra ele. O texugo não foi atingido e, sem se dar conta do perigo, continuou se aproximando,“brincalhão, amistoso e inexperiente como os índios astecas que levaram frutas para os espanhóis, que cortaram fora suas mãos”, descreve Burroughs. Então o professor se aproximou ainda mais e, à queima-roupa, disparou vários tiros contra o bicho, que rolou morrendo pela ribanceira. Aquilo marcou o escritor, e o fez escrever: “O texugo só queria brincar e fazer umas travessuras, e leva um tiro com um .45 do exército. Dá para entender isso? Para se identificar com isso? Sinta isso. E pergunte a si mesmo: que vida vale mais? A do texugo ou daquele perverso de merda branco? Como diz Brion Gysin: o homem é um bicho mau.”

Nunca esqueci desse trecho do livro, e lembrei dele ao ler uma notícia que me chocou: um filhote de coala foi encontrado na Austrália com 15 tiros no corpo, ao lado da mãe morta. Um animal tão frágil e pequeno quanto o texugo de Burroughs, que sobreviveu não se sabe como e agora está sendo tratado por veterinários. Seu estado, claro, é muito grave, já que as balas o atingiram no estômago e no intestino e ele passou por duas cirurgias para a remoção dos bagos de chumbo. Chamado de Frodo na clínica onde está internado, o filhote é uma fêmea com pouco mais de um ano, e pertence a uma espécie ameaçada de extinção na Austrália.

Cada vez mais chego à conclusão de que o homem regrediu alguns milênios em sua escala evolutiva quando criou a pólvora e posteriormente as armas de fogo. A partir desse momento, o ato de matar, que até então exigia envolvimento físico e confronto com o oponente, tornou-se algo banal, que podia ser praticado à distância, sem qualquer desgaste físico – e, a julgar pelo que assistimos ao longo dos últimos séculos, sem desgaste moral também. Mata-se sem pretexto, sem objetivo, sem sentido, já que apertar um gatilho é tão fácil quanto dar um peteleco numa formiga que sobe no nosso braço. Camus sabia bem do que estava falando em O Estrangeiro.

Era isso o que faziam os viajantes de trem nos Estados Unidos do século 19, ao atirar por diversão em bisões enormes que ocupavam pradarias a perder de vista no caminho do oeste, até ficarem quase extintos. É isso o que ainda fazem os caçadores de gorilas no Quênia, dizimando populações inteiras da espécie. Por uma certa ótica, o ser humano se sofisticou com o uso das armas de fogo, e passou a fazer o mesmo com outros seres humanos – a imagem que me vem à mente de imediato é a de Ralph Fiennes no papel do nazista Amon Goeth, atirando a esmo em judeus espalhados pelo campo de concentração em A Lista de Schindler. Daí a matar a distâncias ainda mais seguras – o avião que despeja bombas e varre do mundo populações inteiras – foi um pulo. “O horror, o horror”, como diria Brando/Kurtz em Apocalypse Now.

Dado todo esse histórico, por que ainda nos surpreendemos quando alguém desfere 15 tiros num filhote de coala? Afinal, já vimos pessoas desferirem tiros até em filhotes de pessoas. É que talvez permaneça, pelo menos em alguns de nós, um espanto primordial. Um travo de humanismo e desconforto com a injustiça, que parece ter ficado para trás quando a pólvora ganhou o mundo e nos trouxe até esta terra devastada. Esse espanto talvez nos redima um dia, mas é mais provável que o mal se torne de vez uma força da natureza, como um relâmpago ou um vulcão – o que, pensando bem, talvez já esteja acontecendo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Gente é para brilhar


“Não quero ver mais essa gente feia. Não quero ver mais os ignorantes. Eu quero ver gente da minha terra. Eu quero ver gente do meu sangue”.

Pobre Paulista, Ira!

Hoje mais cedo comentei com um velho amigo sobre o significado dessa letra do Ira! Estávamos – eu mais do que ele – em dúvida sobre o significado dos versos acima. Seriam eles uma demonstração explícita de racismo e xenofobia? Ou apenas ironia e rebeldia juvenil? Tanto faz. Conhecemos Nasi, vocalista e um dos líderes da banda, na época em que fazíamos faculdade, em São Paulo, quando o entrevistamos em sua casa para um fanzine que nunca chegou a ser publicado. E chegamos à conclusão de que, pela personalidade dele e dos demais integrantes, seria improvável que Pobre Paulista se configurasse como uma ode ao preconceito.

Essa conversa seria apenas um bate-papo sobre reminiscências de um período particularmente agradável de nossas vidas se não tivessse sido motivada por um fato grave: as manifestações de racismo desferidas por pessoas de São Paulo, em sua maioria, contra os nordestinos. O motivo: Dilma Roussef teria sido eleita presidente do Brasil unicamente por causa da maciça votação que obteve entre os “jegues”, “burros” e “cabeça chata do carai”. As frases, capitaneadas na terra de ninguém chamada Twitter por uma tal Mayara Petruso, paulistana, estudante de direito, reverberaram em muitas outras frentes. São afirmações como: “Faça um favor para o país: mate um nordestino”, “Tomara q todos os nordestinos morram de sede e fome, so pra sentir a merda q fizeram pro Brasil”, “Tomara que esses nordestinos morram de fomeee, seus burros”. E por aí vai.

Existe um fato fundamental nessa história toda que precisa ser ressaltado. A candidata do PT venceria as eleições mesmo se os votos do Nordeste (ou do Norte e Nordeste) não tivessem sido computados. Ou seja, ela ganharia mesmo que o país fosse cindido ao meio, como sugeriu Carlos A. Júnior numa mensagem (“Dividam o Brasil ao meio, me nego a ser da mesma nação dos nordestinos”).

Bem, como diria Dorival Caymmi, acontece que eu sou baiano. Nordestino, para ser mais abrangente. Não votei em Dilma, por achar que o Brasil precisa acima de tudo de alternância no poder, para acabar com os vícios do partido único e evitar uma incômoda propensão ao autoritarismo que enxergo em alguns setores do PT. Mas considero absolutamente legítima a vitória da candidata, até porque o candidato no qual votei, José Serra, de um partido que admiro, o PSDB, se deixou levar pelo oportunismo mais deslavado e por táticas rasteiras. Mais: a vitória de Dilma representa a derrocada – definitiva, ao que parece – do voto de cabresto. Pode-se discordar da escolha, mas jamais do fato de que os mais pobres votam com mais consciência hoje do que há 10, 20 anos. Votam em quem, na opinião deles, vai ao encontro das suas necessidades imediatas, muito mais prementes que as minhas ou as de quem lê este texto.

Como baiano, nordestino ou mesmo brasileiro, não me considero atingido por essas ofensas. Como ser humano, sim. Se por um lado são uma aberração, por outro são o epílogo perfeito para uma das eleições mais estúpidas da nossa história recente. Regredimos algumas décadas nos últimos quatro meses, sobretudo no último, quando as discussões sobre o futuro de um dos países mais desiguais e miseráveis do mundo se restringiram a temas pinçados da idade média, o que permitiu a proliferação de uma improvável corja de neocarolas. Bobagens de parte a parte, acusações tolas, extremismo desnecessário, denúncias sem substância. E, para coroar tudo isso, as vociferações virtuais da turma de Mayara Petruso.

Nada disso teria maior importância se o episódio não abrisse um precedente perigoso: manifestações como essas deixam claro que o fascismo agoniza mas não morre. Nesse sentido, é sintomático que uma das revoltosas, de nome Rayssa Medeiros, tenha citado como exemplo a ser seguido o indivíduo mais abjeto nascido no século 20: “so hitler acaba com a raça dos petistas.. construindo camara de gas no nordeste matando geral..”. Soa como uma versão feminina do Capitão Nascimento. A história ensina que ignorância, sobretudo se somada a desencanto e indiferença, produz efeitos devastadores para a humanidade. Rayssa provavelmente não sabe que garotas como ela – jovem e bem-humorada, a julgar por sua foto no Twitter – deixaram de existir apenas por serem judias. Não pelo que pensavam, não por aquilo que queriam para si ou para sua família, mas porque haviam nascido em berço judaico.

O fato é que tudo isso deixa entrever o nosso lado racista, preconceituoso, babaca mesmo, que tentamos jogar para baixo do tapete em nome de uma cordialidade inexistente, de uma democracia racial e social ainda no paleolítico. Por fim, contrapondo os versos do Ira!, que anseiam por gente da sua terra, gente do seu sangue, eu lembro de um verso de Caetano Veloso – singelo, alegórico e datado, mas nem por isso menos legítimo: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Somos pássaro novo longe do ninho


Desde o domingo passado queria escrever sobre o Legião Urbana, a banda que adorei acima de todas as outras quando percorri o acidentado percurso dos 16 aos 20 e poucos anos. Havia acordado naquela manhã com vontade de ouvir, feito um adolescente, a voz de Renato Russo despejando lirismo e desencanto pela sala. A semana passou, o trabalho apertou e acabei não escrevendo nada. Até que ontem li um texto no blog de Luís Antônio Giron sobre as suas memórias dos tempos de Legião, motivadas pelo relançamento da obra completa da banda. Giron é um jornalista que passei a admirar com o passar dos anos, e cheguei a entrevistá-lo na época do lançamento do livro que escreveu sobre o cantor Mario Reis. É um sujeito educadíssimo, algo que deixa transparecer no texto. Um texto essencialmente afetivo, que fala sobre muitas das coisas que eu gostaria de ter escrito sobre Renato Russo e sua turma, só que com muito mais autoridade e brilhantismo.
O fato é que, passados 14 anos da morte de Russo, o Legião não se tornou uma peça arqueológica, por mais que alguns jornalistas menosprezem os artistas e bandas surgidos nos anos 80. Justamente os meus anos de formação, quando passei a tentar compreender (sem sucesso) o funcionamento das engrenagens que moviam a minha história e a história propriamente dita. Assim como alguns escritores e outros compositores, Renato Russo foi essencial naquele incipiente processo de auto-descoberta, que por sinal ainda não terminou. Afinal, era difícil ficar indiferente a versos fatalistas e por vezes incompreensíveis, mas que tocavam fundo na gente e proporcionavam uma improvável sensação de aconchego. Coisas como “Somos pássaro novo longe do ninho” ou “Há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade. E há tempos são os jovens que adoecem. E há tempos o encanto está ausente e há ferrugem nos sorrisos. Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção”.
Giron escreveu que “não há uma única palavra mentirosa nas canções da banda”. É essa sinceridade que me comove ainda hoje. Isso ficou claro ao escutar, no trajeto de casa até a praia na manhã do último domingo, O Descobrimento do Brasil, o penúltimo disco e um dos menos badalados do grupo. São canções de uma singeleza tocante, que abordam temas como dignidade, alteridade, bondade, respeito e, de quebra, alguns nacos de felicidade. Decência, em suma – mas não decência num sentido moralista. Ou talvez sim. O que é o moralismo senão o valor supremo a partir do qual devem ser regidas as relações humanas? Nesse sentido, as letras de Renato Russo passam uma sensação de caretice, de coisa ultrapassada. Mas na verdade são os próprios valores preconizados por elas que estão ultrapassados. Não há nada mais fora de moda do que prezar e praticar a ética, numa sociedade brutalizada em todos os aspectos e caracterizada pelo cinismo recorrente. Talvez por isso eu me sinta um velho quando uma canção aparentemente inofensiva umedece meus olhos e seca minha garganta. “Quem está agora ao teu lado?
Quem para sempre está? Quem para sempre estará ?”. Tão pueril e ao mesmo tempo tão poderosa.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um talento forjado em amargura


Carregamos a infância por toda a vida. Suas descobertas, perdas, frustrações e pequenas alegrias são como uma tatuagem invisível da qual nos livramos apenas na morte. Talvez por isso, seja praticamente impossível para uma criança que não recebeu afeto manifestar afeto na idade adulta. Cria-se involuntariamente uma carapaça, um invólucro refratário ao amor e às suas manifestações. A Ausência de afeto fez de Charles Bukowski um homem embebido em amargura. As surras diárias – violentíssimas e sem sentido algum – que recebia do pai, aliadas à incapacidade da mãe de evitá-las, o transformaram num homem permanentemente ferido, que vislumbrou no alcoolismo, nas brigas de bar e no vagar errante por subempregos uma improvável válvula de escape. Seria apenas mais um mendigo anônimo, como tantos que vemos por aí, lançados às ruas, se não contasse com um talento maiúsculo – e uma obstinação vigorosa para fazê-lo chegar aos seus leitores.

Bem, pelo menos foi isso o que depreendi ao assistir Bukowski – Born into This, um excepcional documentário dirigido por John Dullaghan. Nele, fica evidente que o escritor só conseguiu se desvencilhar da própria desdita na velhice, quando – para usar uma imagem de sua autoria – parecia ter enfim deixado voar o pássaro azul que habitava seu peito. A desdita pela qual passou, contudo, foi diretamente responsável pela edificação da sua obra e de uma visão de mundo cética, quase niilista. As centenas de poemas e dezenas de obras em prosa que Bukowski produziu deixam entrever com nitidez a sua infância tenebrosa e o desalento que se seguiu a ela. Isso fica claro num depoimento sobre o processo de criação de Misto Quente, seu melhor romance, no qual se mostra comovido, triste, ensimesmado. Corta a cena e lá está ele na casa onde cresceu, sofreu e apanhou, mostrando o lugar na cozinha onde o pai pendurava o cinto com o qual o espancava. É comovente.

Há muitos outros depoimentos preciosos no filme de Dullaghan. E também cenas antológicas, como uma insólita briga de Bukowski com a mulher (captada por Barbet Schroeder nos intervalos das filmagens de Barfly) ou uma animada leitura pública de seus poemas em São Francisco. Mais: vemos cenas prosaicas, cotidianas, como o escritor dirigindo seu carro até uma lavanderia, bebendo (quase sempre) ou chorando ao ler um poema e lembrar de um amor antigo. Enfim, vemos o homem e o escritor como ele foi, com todas as suas idiossincrasias e contradições, mas também com toda a sua ternura.

Bukowski foi, ao lado de Jack Kerouac, meu grande ídolo de juventude. Deixei de ler seus textos com o passar do tempo, mas lembro nitidamente de algumas passagens, dos diálogos ferinos, da força arrebatadora de Misto Quente, Factótum, Crônica do Amor Louco e muitos outros romances, contos e poemas. Ao vê-lo ali, desnudo, tão perto de mim, senti saudade da minha adolescência, e do clarão que se seguiu à descoberta de uma obra tão sincera e poderosa. Mas também senti uma forte pontada de compaixão, ao perceber que essa obra só existiu porque, numa casa modesta em Los Angeles, nos anos 20, um garoto tímido e sensível era surrado sistematicamente por um sujeito abjeto, sob o olhar complacente de uma mãe ausente.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Um momento de eternidade


Ontem pela manhã, logo depois de acordar, minha filha me pediu que colocasse um disco do Madredeus. Então ficamos ali, juntos, observando quase em silêncio a voz de Teresa Salgueiro se derramar pela sala. Foram apenas 15 ou 20 minutos sentados no sofá, mas foi como se esse momento se cristalizasse em algum canto do universo, nos alçando à eternidade. Enquanto ela comentava comigo que a cantora era uma soprano e eu respondia dizendo que poucas vezes ouvira um registro tão agudo (e tão lindo), nós permanecemos lado a lado, eventualmente abraçando distraídos um ao outro, como que envoltos numa bolha imune à vertigem do tempo.

Senti uma espécie de epifania, e uma reconfortante sensação de plenitude me invadiu. É provável que, naquele momento, os minutos tenham pairado no vácuo, como uma pedalada no vazio, enquanto uma voz celestial cantava: “Haja o que houver, eu estou aqui. Haja o que houver, espero por ti”. Assim, simples e puro. Ao lado da pessoa que mais amo, eu me senti invulnerável, como se fosse capaz de estancar a sangria das horas. Depois passou, e voltamos ao chão.

Sei que minha filha vai crescer, e que passará por mudanças físicas e comportamentais que mudarão quase por completo aquela criança que estava ali comigo. Sei também que, tal qual um exército inimigo, os fios brancos vão continuar avançando impiedosamente sobre meus cabelos e meu corpo um dia penderá, como um galho seco. Não importa. Momentos como esse justificam a aventura de existir.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O princípio do prazer


Alguns vinhos envelhecem bem. Alguns filmes também. Queria assistir algo interessante, indisponível na tevê naquele momento, e ao olhar para a minha prateleira de DVDs encontrei Sideways, que não via desde a época em que foi lançado nos cinemas, acho que em 2005. Revê-lo foi uma experiência hedonística, semelhante à queima do charuto dominicano que fumo agora, aos fraseados de Phil Woods que escuto neste momento e ao chardonnay chileno que me acompanha, já na última taça, enquanto escrevo. Estou me referindo, claro, a prazeres sensoriais, mas que trazem embutido um prazer intelectual, feito uma ligeira epifania. Os quatro ou cinco anos que me separam da primeira vez que assisti ao filme de Alexander Payne se fazem nitidamente presentes. Hoje conheço – pelo menos de nome – alguns dos vinhos citados por Miles, o personagem principal, e entendo algumas referências a aromas e sabores que ele elenca no decorrer da história. São motivos a mais para apreciá-la.

O registro humorístico de Sideways é seu grande trunfo, porque confere leveza a temas áridos, como depressão, carência afetiva, alcoolismo e um lancinante sentimento de inadequação. Miles é um grande personagem, assim como Jack, o amigo tosco que o acompanha para viver uma inusitada despedida de solteiro em meio aos vinhedos da Califórnia. Ambos fogem, nessa jornada, da mediocridade de suas vidas: o primeiro, de um casamento desfeito. O segundo, de um casamento sem futuro, para além do conforto financeiro que irá proporcionar. Um busca alento nos grandes vinhos, outro, no sexo descompromissado. O filme contempla a primeira semana do resto dessas vidas com ironia e leveza, mas também com lirismo e desalento. Há o fim de um ciclo, mas também um recomeço.

Mas foi o pano de fundo que mais me encantou desta vez. Aqueles vinhedos ensolarados despertaram em mim um desejo imediato de viajar até o Vale de Napa. De, como fizeram Miles e Jack, ir parando em pequenos bares e vinícolas para beber vinhos de produção limitada, feitos com afinco por gente de origem rural, meio bronca, como é o norte-americano típico: conservador, protestante, generoso e empreendedor. Nesse sentido, Sideways diz muito mais sobre o espírito da produção do vinho na região do que um filme meio tolo que vi recentemente, chamado Bottle Shock, sobre os bastidores do Julgamento de Paris, quando os rótulos locais superaram os franceses numa histórica degustação às cegas em 1976. Talvez porque, no trabalho de Payne, a bebida seja apenas uma companhia ilustre para as dores e delícias experimentadas pelos personagens, e não um fim em si para a narrativa.

Para mim, também, os vinhos são uma companhia ilustre. Um aprendizado ininterrupto, que passa ao largo do pedantismo e do exibicionismo tão comuns no consumo da bebida entre novos-ricos esnobes. Aprecio seus aromas, sua textura, o prazer singular que proporcionam e a trajetória que fazem desde quando são apenas o sumo dentro das uvas ainda não colhidas até o longo e complexo caminho que enfrentam antes de serem engarrafados, e mesmo lá dentro, quando evoluem lentamente como seres vivos – para usar a expressão de Maya, o par romântico de Miles –, passando pelo auge e decaindo inexoravelmente rumo ao fim. Em muitos finais de noite, como neste, há sempre um deles comigo, proporcionando um prazer solitário herdado de meu pai, perfeito para quem preza o ensimesmamento, a introspecção e as luas minguantes que nascem de madrugada.

***

Segue abaixo a crítica de Sideways, escrita na época do seu lançamento:

A comédia humana*

`Sideways - Entre umas e outras´ empreende uma peregrinação pelas dores e delícias da existência

Não seria exagero afirmar que Sideways - Entre umas e outras é, na essência, um filme sobre prazeres. Alguns essencialmente masculinos e viscerais, como o sexo e o fascínio desmedido pela sedução, outros delicados e universais, como a primeva atração do homem pelo álcool e o delírio silencioso que só os livros são capazes de provocar. Mais do que isso, porém, a comédia sensível e humana assinada por Alexander Payne fala também da inadequação de certos homens ao universo que habitam.

Miles (Paul Giamatti) é um desses homens. Professor do ensino secundário, escritor fracassado, separado há dois anos de uma mulher que não consegue esquecer, ele vê a vida como algo em que se perde muito para se ganhar migalhas. Miles chegou a um ponto da existência em que até os pequenos prazeres que ela proporciona não conseguem mitigar o incômodo de um vácuo gigantesco. É esse homem que parte com o amigo Jack (Thomas Haden Church) numa viagem até o Vale de Santa Inez, conhecido por abrigar os melhores vinhedos da Califórnia.

Lá, eles vão se dedicar à degustação de algumas dezenas de vinhos das melhores cepas, jogar golfe e refletir sobre o bom da vida no meio das plantações de uva. Bem, pelo menos esses são os planos de Miles, enófilo obcecado, que nutre uma devoção exacerbada pelas uvas Pinot, e também um desprezo extremado pelas Merlot. Mas esses não são os planos de Jack, ator de seriados e comerciais de tevê, que tenta reter ao máximo os derradeiros fiapos de juventude fazendo sexo com o maior número possível de mulheres. Na viagem, que é também a sua despedida de solteiro, ele não anseia mais do que sexo rápido e intenso.

Miles e Jack são radicalmente diferentes entre si, e isso de certa forma os complementa. É o amigo que faz Miles permanecer de pé quando as crises de depressão o levam a uma inércia perigosa. E é também quem o protege dos arroubos de violência e da tendência à queda. Miles, por sua vez, serve de reserva moral para a ausência de escrúpulos e o excesso de imaturidade de Jack. Quando eles encontram e se relacionam com Maya (Virginia Madsen) e Stephanie (Sandra Oh), essa amizade se torna vital.

Baseado em livro de Rex Pickett, Sideways - Entre umas e outras se alicerça num roteiro consistente, a cargo de Jim Taylor e do próprio Payne. Há divagações arrebatadoras sobre vinhos e uvas. Numa delas, ao justificar para Maya a sua paixão pela Pinot - uva frágil, que só sobrevive em poucas e remotas regiões do planeta -, Miles está na verdade definindo a si mesmo. É uma seqüência belíssima, na qual a casca da timidez que envolve o personagem finalmente deixa entrever o ser humano valioso que se oculta por trás dela.

Giamatti oscila com a mesma desenvoltura entre o humor desbragado e o drama intimista. Sua atuação é um achado, assim como a de Church, com suas feições schwarzeneguianas e seu olhar bronco. Diretor de As confissões de Schmidt, Payne fez de Sideways uma comédia dramática que jamais cede ao óbvio. Miles e Jack são tipos que a princípio poderiam soar esquemáticos, mas ganham vigor e autenticidade ao longo da projeção. Ao final dela, temos à nossa frente seres humanos que poderiam ser nós mesmos. Ou nossos amigos, ou alguém que conhecemos em determinado momento da vida. E a aflição com o grau de insignificância e efemeridade da existência humana, que os atinge em maior (caso de Miles) ou menor (caso de Jack) medida, também nos acompanha ou acompanhará em algum momento do nosso percurso pela Terra.

* Publicado originalmente no Correio da Bahia

O som e a fúria


Não lembro quem afirmou que tudo de essencial que precisava ser escrito na literatura em qualquer época já foi escrito um dia por William Shakespeare. Nesse sentido, ele seria uma espécie de quintessência, de nascente intelectual ou, parafraseando o título do livro de Harold Bloom sobre sua trajetória, o homem que inventou o humano como o conhecemos. Pelo parco conhecimento que tenho da obra do bardo inglês, seria uma leviandade refutar ou concordar com essa afirmação, mas provavelmente estamos apenas diante de uma frase de efeito, que tem como objetivo abarcar a avassaladora importância de Shakespeare na construção da cultura ocidental.

O fato – e talvez seja isso o que realmente importa – é que a leitura de sua obra proporciona momentos de enlevo difíceis de definir, como os que senti na noite de sábado, ao consumir em algumas horas todo o conteúdo de Macbeth. Há algo de sagrado em se deparar, no calor da batalha (ou seja, lendo o livro), com algumas das sentenças clássicas que há anos encontramos em textos jornalísticos ou em dicionários de citações. Incluindo aquela que talvez seja a definição primordial de Shakespeare sobre a condição humana, pronunciada por um Macbeth em desespero, prestes a ser derrotado e morto pelo exército inimigo. Aquela que em poucas linhas decreta e simboliza toda a nossa valorosa insignificância, a nossa inevitável finitude, o nosso destino implacável:

"O amanhã, outro amanhã, e mais um amanhã se arrastam com seu diminuto passo, dia após dia, até a última sílaba do registro dos tempos; e todos os nossos ontens têm apenas iluminado para os tolos o caminho do pó da morte. Apaga-te, apaga-te, breve vela! A vida não passa de uma sombra ambulante, de um pobre ator que se pavoneia e se agita ao dizer sua fala sobre o palco, e depois é esquecido. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e que nada significa".

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bravatas, apatia e desolação


Tenho acompanhado com algum desinteresse a guerra deflagrada entre Lula e os principais meios de comunicação brasileiros. Li a declaração do presidente e alguns editoriais, além de ter passado um olho na matéria de capa da Veja. A princípio, todo esse estardalhaço soa como bravatas de parte a parte, embora seja inaceitável que o líder máximo do poder público brasileiro se exponha a papel tão degradante. Afinal, qualquer espécie de cerceamento à liberdade de expressão é deplorável, e vejo em alguns quadros do PT um certo pendor por um mundo perfeito, sem oposição ou mídia independente. Sabemos aonde isso pode levar, embora alguns ainda acreditem que o exemplo cubano é um caminho a ser seguido.

O mais curioso é que essa briga tenha acontecido num período em que a grande mídia me parece particularmente fragilizada. Jornais como Folha e Estadão, os dois melhores do país, optaram por reformas gráficas e editoriais infelizes, sobretudo o primeiro, o que limou em grande parte a possibilidade de análises mais acuradas, com a supressão do espaço para textos mais longos e a opção por chamadas apelativas e recursos gráficos gratuitos. Já O Globo, após longo período se consolidando como uma gloriosa terceira via na imprensa diária brasileira, tem decaído de forma lamentável. E o JB...

No campo das revistas, a situação é bem mais dramática. A Veja há muito deixou de ser uma publicação séria, contentando-se em atacar irresponsavelmente pelo flanco direito, entrincheirando-se em posições eticamente duvidosas. No centro, com uma postura bem menos combativa, está a Época, revista moderna e bem-feita, mas meio modorrenta, que não provoca entusiasmo. E no flanco esquerdo, como herdeiros tardios de Mao ou Fidel, estão a Carta Capital e a Caros Amigos, que lançaram por terra a imparcialidade para abraçar sem meias medidas a causa petista e o neoesquerdismo latino-americano. É uma tomada de posição, sem dúvida, mas – assim como a Veja no extremo oposto – uma posição dura de engolir.

O que se percebe, enfim, é uma imensa dificuldade do jornalismo brasileiro em lidar, de forma lúcida e isenta, com o momento histórico inédito em que vivemos. Um cenário no qual a apatia do eleitorado é diretamente proporcional ao clima de guerrilha declarada entre militância, imprensa e partidos políticos. Tanto a apatia de uns quanto o extremismo de outros se justificam pelo desencanto generalizado com os postulantes à Presidência, governos estaduais e poder legislativo. Um desencanto que se estende, feito uma hemorragia, até a própria noção de estado, cidadania e moral. O que se vê, portanto, é um território de aspecto lunar, desolado e sem brilho próprio, habitado por ideologias caducas e personagens nanicos. Um vasto cemitério de idéias, cheirando a limo e passado.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

No ombro de um gigante


Viajar sempre foi para mim um momento de contemplação e descoberta puramente pessoal, mesmo quando acompanhado. Um momento de buscar novas experiências sensoriais e encantamentos visuais em lugares desconhecidos, enquanto o sagrado se descortinava para mim em situações muitas vezes improváveis. Há duas semanas, e pela primeira vez na vida, não fui o protagonista de minha própria viagem, assumindo apenas o papel de um coadjuvante de luxo. Caso contrário, não teria escolhido uma cidade como Orlando para passar alguns dias de férias. Atendi a um desejo de minha filha, e possivelmente a algum anseio esquecido de mim mesmo, um apelo inconsciente de quando tinha a idade dela e lia compulsivamente as revistinhas de Tio Patinhas, Mickey e Pato Donald. Se não saí encantado dos megaparques incrustrados por toda a cidade (que por sua vez é pouco mais do que um intricado conjunto de cruzamentos de auto-estradas rodeadas de hotéis e cadeias de fast-food) foi porque o calor e uma certa impaciência me impediram. Mas viajar para os Estados Unidos é quase sempre uma experiência gratificante, e invariavelmente uma excelente oportunidade de ver o mundo do ombro de um gigante.

Eles venceram, é fato. Dirigir por suas cidades e rodovias e compartilhar um pouco de sua imponente prosperidade é também uma forma de olhar para o nosso próprio umbigo murcho. Ao conhecer Miami, uma cidade exuberante e profundamente latina, é possível estabelecer paralelos com propostas semelhantes que poderíamos ter aqui (talvez em Salvador ou no Rio). Lá, a riqueza não se mostra como um acinte, mas como algo natural, já que o outro lado da moeda – a pobreza extrema – não dá as caras. Pode parecer uma contradição para os que ainda creem no êxito de uma aventura socialista, mas numa das maiores cidades da maior potência capitalista do globo, a desigualdade é pálida, quase uma miragem. Não estou, é claro, sendo ingênuo a ponto de enxergar apenas virtudes na América, mas seria ainda mais ingênuo se me negasse a percebê-las e saudá-las. Como a civilidade, traduzida numa cortesia permanente com os visitantes e no respeito sagrado às leis, inclusive as do trânsito.

Num texto interessante sobre os EUA, publicado no blog Manual do Executivo Ingênuo, o jornalista Adriano Silva recorre ao conceito anglo-saxão de “trust” para definir as relações entre as pessoas no país. Ou seja, existe um conceito de “comunidade, de confiança mútua entre os cidadãos, de laço social invisível amarrando os indivíduos numa mesma sociedade”. Segundo Adriano (e eu concordo com ele), a América “muito antes de ser uma terra de ninguém, é uma terra de todos – em que cada um, antes de exercer seus direitos, precisa cumprir seus deveres”.
O fato é que, enquanto empobrecíamos irremediavelmente nos anos da ditadura, os Estados Unidos consolidavam as conquistas do welfare state iniciadas nos anos 50 e se beneficiavam do enriquecimento – lícito, embora moralmente questionável – dos anos de guerra, dos quais emergiram como potência máxima. De vez em quando protagonizam tolices, como as aventuras expansionistas e a propensão ao belicismo gratuito, traduzidas à perfeição no amargo legado da era Bush. Mas a verdade é que, ao contrário de nós, eles acertaram muito mais do que erraram.

Voltando à viagem, creio que me diverti fazendo quase sempre o programa sagrado dos brasileiros que visitam (em quantidade absurda) a Flórida: exaustivos passeios aos parques e compras de eletrônicos e roupas a preços risíveis. Orlando oferece pouco mais do que isso, o que acaba sendo frustrante para quem não sente uma comichão quando se depara com pechinchas ou não se entusiasma com a possibilidade de desafiar a capacidade que o estômago tem de reter os alimentos sob condições adversas (leia-se rodar de cabeça para baixo a velocidades altíssimas ou simular a própria morte numa viagem vertical). Vale a pena, porém, presenciar baleias e golfinhos adestrados proporcionando espetáculos fascinantes (apesar de uma certa grandiloquência cafona tipicamente americana) ou ver de perto tudo aquilo que as revistinhas da Disney deixavam entrever quando amávamos Tio Patinhas e sua turma. Afinal, mesmo um coadjuvante tem direito a seus momentos de enlevo. E valeu a pena, também, comprovar mais uma vez que existem alternativas ao nosso modo de vida, cada vez mais brutalizado, cada vez mais sem sentido.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entre aliens e predadores


Trabalhar como crítico de cinema me permitiu assistir a filmes que, em situações normais, jamais teria a “oportunidade” de conferir. Uma dessas pepitas, que lembro de ter visto numa cabine quase vazia numa manhã sonolenta, foi Alien vs Predador, um improvável embate entre dois dos mais sórdidos e repugnantes caçadores de seres humanos que Hollywood já produziu. Se me recordo bem, o filme tinha início com uma expedição de astronautas a um planeta distante, no qual as duas espécies alienígenas digladiavam entre si desde tempos imemoriais. Em determinado momento, a única sobrevivente humana da carnificina tinha que escolher entre se aliar ao Alien ou ao Predador: ela estava entre um e outro, acabou se aproximando do segundo e lutou ao seu lado para derrotar o primeiro (engraçado que, escrevendo agora este texto, lembrei de uma cena idêntica em King Kong, quando Naomi Watts toma partido do gorila após se ver entre ele e um tiranossauro – num claro exemplo da Lei de Lavoisier aplicada à sétima arte).

O fato é que nas poucas vezes em que assisto ao horário eleitoral gratuito ou nas muitas em que leio sobre os candidatos às eleições presidenciais e estaduais, me sinto como aquela moça do filme: tendo que escolher entre aliens e predadores. Num cenário inóspito como esse, que caminho seguir? Quem escolher? Nunca votei nulo para presidente, nem vou votar nesta eleição. Mas poucas vezes me vi com tão poucas opções. No cenário local, a situação é ainda mais grave. A quem recorrer para nos tirar deste atoleiro em que vivemos desde tempos imemoriais, se o que vemos é apenas abjeção, obtusidade e desprezo pela miséria alheia? Alien, Predador ou um terceiro vilão à sua escolha? Só o que sei é que – ao contrário da heroína do thriller trash que me vi obrigado a assistir naquela manhã, hoje remota – eu me manterei longe de todos eles, apertando a tecla branca da urna eletrônica e tentando a todo custo escapar ileso dessa carnificina sem sentido e sem futuro.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Caminho dos cavalos


Até dois anos atrás, eu morava num apartamento de localização singular. Ficava no alto de uma ladeira, em frente à mata fechada do Parque da Cidade. Se virasse à esquerda e descesse a ladeira, chegaria a uma das principais avenidas de Salvador. Se prosseguisse pela direita, entraria num dos bairros mais miseráveis e – por conseqüência – violentos da cidade: a Santa Cruz. Eu gostava de circular por esse bairro. Na época em que ainda fumava, ia comprar cigarros nos mercadinhos da avenida principal, que tem um comércio fértil e movimentado. E costumava pegar um atalho por uma ruela que margeava o parque (cercado por um muro de concreto) e também a parte mais pobre do bairro. Um lugar desolador, onde a coleta de lixo não chega e homens em idade ativa circulam sem ter o que fazer, em meio a crianças maltrapilhas, velhos, carcaças de carros, cavalos, galinhas e muitos cachorros. De tanto passar por lá, já conhecia os animais de vista e dava nomes a eles. Eu e minha filha chamávamos essa passagem de “caminho dos cavalos”, e ela adorava um cavalo malhado, marrom e branco, que sempre víamos pelo caminho.

Mas, como já disse, é um lugar violento. Um dia, quando passei por lá, vi que alguns adolescentes cercaram discretamente o carro, como se vigiassem quem estava dentro dele. Quando passei e olhei pelo retrovisor, um deles portava um revólver enorme, que não fazia questão de esconder. Eram umas 7 da manhã, e várias pessoas caminhavam pelo local, indo para o trabalho. O cara poderia ter me matado, se quisesse. A partir daí, me dei conta do que já sabia em teoria: como uma metástase, o tráfico de drogas lançou seus tentáculos por toda a região, recrutando um pequeno exército de adolescentes sem camisa e muito bem armados. Adolescentes que morrem feito moscas em confrontos com a polícia ou entre grupos rivais. Atualmente, nessa mesma rua, há tiroteios terríveis a qualquer hora, provocando invariavelmente vítimas entre a população impotente. Voltei apenas uma vez ao caminho dos cavalos, fugindo de um congestionamento monstruoso que parou Salvador num dia de tempestade. Nesse dia, não prestei atenção aos cavalos e cães, apenas me fixei nas pessoas que circulavam por ali, temendo levar um tiro. A inocência tinha acabado.

Quando penso num lugar como a Santa Cruz, percebo como o percurso que falta para Salvador (e por conseqüência a Bahia e o Brasil) se tornar uma cidade digna é praticamente intransponível. Naquelas ruelas sem calçamento e naqueles casebres sem reboco, a herança da escravidão ainda é vívida como uma chibatada. Os mais de cem anos que separam este 7 de setembro de 2010 da abolição da escravatura são apenas um sopro, um pequeno hiato no qual o país evoluiu muito menos do que o mínimo necessário, e no qual a leva de miseráveis só fez se multiplicar, reproduzindo em escala industrial a senzala de outros tempos. A miscigenação racial não representou uma transferência de renda racial, e hoje brancos e negros permanecem em compartimentos estanques, como passageiros da primeira classe e da classe econômica, que quase nunca se esbarram. No meio ficamos nós, encantados com as benesses da classe executiva, mas loucos por um upgrade. Resta saber aonde esse vôo vai nos levar. Provavelmente à Suíça, mas com uma escala no Haiti, para o pessoal da rabeira poder desembarcar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O mundo sem palavras




Li outro dia uma frase de Mário Quintana que não conhecia: “Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. É uma bela frase. Mas, em se tratando da sociedade em que vivemos, até que ponto ela é verdadeira? Até que ponto os livros, hoje, mudam as pessoas e, por consequência, o mundo? Não vejo mais uma elite intelectual participando ativamente da formação de milhares de estudantes, trabalhadores ou quem mais se interesse pelo que ela tem a dizer. Ao contrário de outros tempos, não há mais ícones como Sartre ou Camus, que monopolizavam o debate na França, com reverberações no resto do mundo. Nem discussões acaloradas via artigos de jornal, como as que Samuel Wainer, Carlos Lacerda e muitos outros protagonizavam nos míticos anos 50 e eram acompanhadas avidamente.

Hoje, a formação de boa parte da juventude (e não só dela) independe dos livros. Todo o conhecimento acumulado ao longo dos anos passa ao largo das letras, cada vez mais restritas a nichos mais ou menos fechados e que até sofrem certo preconceito. Enquanto a discussão mais freqüente nos meios de comunicação resume-se à possibilidade de os e-books lançarem a pá de cal sobre os livros impressos, o processo mais dramático que vivemos nesse sentido é outro: a ausência de leitores, para além do consumo eventual de best-sellers que elucidam pouco sobre a alma humana. O cinema substituiu a literatura como manancial de cultura e as celebridades substituíram os intelectuais como exemplos a serem seguidos. É um discurso ranzinza? Provavelmente. Mas como as pessoas poderão mudar o mundo se não mudam a si mesmas? Se saem da vida quase tão ocas quanto entraram?

Sei que é um lamento inútil. Ou provavelmente o desalento de quem se deixou levar pelo delírio silencioso das palavras a partir do momento em que elas entraram na minha vida. Desde As Aventuras de Tibicuera (o primeiro título que lembro de ter lido) até A Humilhação (o último que li), foram muitos livros, milhares certamente. E me pergunto quem eu seria sem eles. Quem eu seria sem uma infância acalentada por obras como Viagem ao Mundo Desconhecido, Coração de Onça, A Ilha Perdida e A Máquina do Tempo? Quem eu seria sem uma adolescência povoada pelos livros de García Márquez, Kerouac, Steinbeck e Bukowski? Quem eu seria, mais tarde, sem Hemingway, Fitzgerald, Roth, Somerset Maugham, Sábato, Borges, Sartre e tantos outros que preencheram as lacunas de minhas inquietações? Seria provavelmente um eu mutilado, ainda mais incapaz de compreender e me adequar ao universo que habito.

É claro que mesmo com todos esses livros guardados na mente – com maior ou menor nitidez – eu não serei capaz de mudar o mundo. Meu desassossego é íntimo, e não se traduz em ações práticas: não pegarei em armas, não me tornarei um presidente, não me converterei no messias de uma nova era. A verdade é que, em sua grande maioria, as pessoas que mudam o mundo não foram mudadas pelos livros. Foram mudadas pelo ódio, por interesses privados ou pela necessidade premente de sobrevivência. Nesses casos, as palavras são inúteis, não mais do que pequenas cócegas nos pés da história. Talvez o que Quintana quisesse dizer foi que os livros mudam as pessoas e, por consequência, o SEU mundo. Não o mundo coletivo, essa terra devastada, cheia de som e fúria e sem sentido algum.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A solidez do compensado


Hoje acordei com vontade de ouvir Adoniran Barbosa. De sorrir ao escutar suas tiradas hilárias e me comover com a ingenuidade dos seus personagens. Pus um CD enquanto me arrumava para o trabalho e fiquei ouvindo canções como Apaga o fogo, Mané, Uma Simples Margarida e Despejo na Favela. O centenário de Adoniran foi comemorado com pompa em São Paulo, onde ele se eternizou como o cronista dos humildes. Um reconhecimento merecido. Afinal, há muito mais do que bom humor e irreverência na sua obra. Com um pouco de atenção, é possível identificar bolsões de ternura e melancolia circundando aqueles pequenos sonhos desarrumados pelo cotidiano, aqueles dramas envolvendo barracos derrubados e romances irrealizados pela precariedade financeira de quem os protagoniza. Impossível, por exemplo, não se emocionar com a dramaticidade de Saudosa Maloca (pinçada de forma precisa por Elis Regina numa interpretação inesquecível): “Peguemos todas nossas coisa e fumos pro meio da rua apreciar a demolição. Que tristeza que nós sentia, cada tauba que caía doía no coração”. É um sentimento genuíno, sólido como um compensado vagabundo que protege do frio.

Adoniran é a prova inconteste de que a música brasileira conseguiu falar com as classes populares de igual para igual, e não de cima para baixo, com aquele incômodo olhar sociológico tão freqüente no cinema e na literatura do país. Nesse sentido, o autor de Trem das Onze é muito mais autêntico que um José Lins do Rego ou um Glauber Rocha, para ficar em duas figuras emblemáticas. Não era um intelectual, não discursava para as massas nem pretendia doutriná-las. Apenas reproduzia em forma de canção o que ouvia nas ruas do Bixiga, do Brás e do centro velho. Adoniran fazia parte daquelas vielas, cortiços e botecos, tão caros à memória de quem, como eu, morou naquela região. Alimentava-se daquilo. Seu fio de voz, marinado em cigarro e cachaça, testemunhou uma cidade em feroz transformação, mas ainda provinciana e amigável. Ele foi embora, essa cidade também. Resta sua obra, o que não é pouco.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Efeitos colaterais


É bem provável que o desfecho seja diferente, mas o caso dos 33 trabalhadores soterrados a 700 metros da superfície, após o desabamento de uma mina no deserto do Chile, me fez lembrar de uma tragédia ainda mais grave: a dos marinheiros do Kursk. Para quem não recorda, o Kursk era um submarino nuclear russo que, no dia 12 de agosto de 2000, afundou no Mar de Barents, a 108 metros de profundidade. Sabe-se que 23 dos 118 marinheiros sobreviveram a uma explosão e esperaram por horas o resgate em meio ao breu e ao ar rarefeito. Mas o descaso das autoridades russas (comandadas por Vladimir Pútin, um homem de pouco apreço pela vida alheia) fez com que esse resgate nunca chegasse. Como deve ter ocorrido com os russos, acredito que em algum momento os chilenos devem ter imaginado que seriam enterrados vivos. Que aquele espaço exíguo onde se refugiaram acabaria se tornando um esquife coletivo, uma vala comum onde repousariam por toda a eternidade.

O fato é que tanto a tragédia russa quanto o acidente chileno são efeitos colaterais da busca humana pela superação dos limites físicos, empreendida nos pontos mais extremos do planeta, e até fora dele. A inquietação da espécie é o motor da civilização, e ela existe desde aquele momento primordial em que um hominídeo se armou de um osso para se proteger do inimigo. Vale lembrar que, mais de um século antes dos dois acontecimentos, Jules Verne já havia imaginado um veículo capaz de descer às profundezas da zona abissal (em 20 Mil Léguas Submarinas) e descrito uma peregrinação científica rumo ao umbigo do planeta (em Viagem ao Centro da Terra).

Protagonistas dos dois romances, Capitão Nemo e o Dr. Lidenbrock são fruto de uma era de utopias, o século 19, quando se imaginava que o surgimento e o domínio de novas tecnologias levaria a um mundo mais próspero e pacífico, com mais pessoas vivendo em condições dignas. O século 20 veio em seguida e tratou de sepultar essas utopias. Se por um lado nunca houve tantos avanços tecnológicos quanto nos últimos 100 anos, por outro nunca se matou tanto quanto no mesmo período, em muitos casos com o auxílio desses mesmos avanços. A culpa, em todo caso, não é da tecnologia, mas do uso que se faz dela. É a tecnologia que provavelmente vai retirar aqueles homens barbudos e extenuados lá de baixo, assim como foi a falta de disposição para usá-la que não deu aos marinheiros do Kursk a mesma oportunidade.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O fim da política


Outro dia reproduzi aqui no blog a seguinte frase de Albert Camus: “A política e o destino da humanidade são moldados por homens sem ideais e sem grandeza”. Uma frase que, passados 50 anos da morte precoce do autor de O Estrangeiro, permanece vívida como um desarranjo nos intestinos da civilização. E nem estou me referindo aqui aos homens sem ideais e sem grandeza que movem o mundo e atravancam o nosso caminho: de George W. Bush a Vladimir Pútin, de Mahmoud Ahmadinejad a Kim Jong II. Falo da arraia-miúda (ou nem tanto) que habita os noticiários e o programa eleitoral gratuito cá por estas bandas ao sul do Suriname. Uma gente sem graça e sem vergonha que aparece para nós de dois em dois anos, com seus sorrisos postiços e seus discursos mal decorados.

A política, na prática, não me interessa. Já me interessou durante a juventude, sobretudo em 1989, naquela eleição histórica que terminou em catástrofe, com a vitória de um embuste sobre o suposto mensageiro da utopia. Agora não restam utopias, apenas o cinismo. Mesmo aquilo que em eleições passadas produzia um desafogo, hoje produz enfado. Impossível esboçar um sorriso, por exemplo, com as tiradas do cantor e humorista (?) Tiririca, que se lançou candidato a deputado federal em São Paulo com o slogan “pior que tá não fica”. Fica, sim. O fato de Tiririca ter chances reais de entrar para o Congresso Nacional é por si só uma constatação de que não dá para prosseguir com o velho chavão de que só nos resta “rir das nossas desgraças”.

Enquanto isso, a eleição presidencial caminha para ser decidida no primeiro turno, vencida por uma candidata de currículo nebuloso e sotaque mais nebuloso ainda. Uma verdadeira personificação da palavra incógnita. Faz um certo sentido, já que se busca a continuidade, e não a ruptura – que talvez só viesse mesmo com a eleição de Marina Silva. Mas não me animo a discorrer sobre o assunto. Tanto na esfera nacional quanto na local, são flagrantes a repetição exaustiva de fórmulas publicitárias e a impressão de que aquelas pessoas que lhe sorriem estão na verdade se lixando para você. O que acaba provocando um efeito recíproco: passamos a nos lixar para elas, para o destino do país e para o nosso próprio futuro como cidadãos que vivem numa nação miserável. É um alheamento arriscado, e a história ensina onde ele pode chegar.

(ilustração retirada do blog http://turmacaribepi.blogspot.com)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Estrangeiro


Hoje baixei o disco A Revolta dos Dândis, do Engenheiros do Hawaii, grupo que adorava na adolescência e cujas canções não escutava atentamente havia muito tempo. Coloquei para tocar no carro, ouvi os versos, de uma ingenuidade comovente, e tentei me lançar de volta ao passado. Retroceder até o rapaz de 17 anos que chegou com o vinil de capa amarela nas mãos, pôs o disco no som da sala do apartamento dos pais, apagou a luz e se deixou arrebatar por frases como “nós não precisamos saber para onde vamos, nós só precisamos ir”. Algo se descortinava ali, embora não soubesse exatamente o quê. Talvez uma ânsia por novas paragens, uma inclinação pelo existencialismo empírico contido naquelas canções ou quem sabe uma valorosa sensação de cumplicidade.

Em 1987 o mundo parecia em suspensão. Vivíamos uma espécie de fim da história, para usar a expressão de Francis Fukuyama. Um limbo sem sobressaltos geopolíticos: a Guerra Fria já deixara o auge e se encaminhava silenciosamente para a derrocada, e por aqui os anos de chumbo já haviam dado lugar a um arremedo de democracia. Impossível cultivar utopias ou partir para o desbunde – nossos pais e irmãos mais velhos já tinham passado na frente e vivido tudo isso. Enquanto Humberto Gessinger falava em “americanos e soviéticos”, nós (eu pelo menos) ainda acreditávamos no socialismo como a única via. Não sabíamos, obviamente, que o Muro de Berlim implodiria dali a dois anos e o império vermelho, dali a quatro. Enfim, havia uma convulsão silenciosa em curso, e não imaginávamos o quanto nossas escolhas ideológicas, ainda tão incipientes, já eram anacrônicas.

Tento lembrar em vão o que pensei ali no sofá, no escuro, enquanto meus pais assistiam TV no quarto da televisão. Recordo apenas que acalentava o desejo de me tornar um cantor de rock, embora me faltassem voz para cantar, ouvido para tocar e cara de pau para me apresentar em público sem esses requisitos. Era um garoto que como outros amava Legião, Engenheiros e RPM, seduzido por versos como os de Infinita Highway, recheados de referências ao universo beat, que já então se prefigurava como uma válvula de escape literária em meio ao marasmo e ao dilacerante sentimento de inadequação. A dúvida era o preço da pureza? Não faço idéia. Ingênuo até os ossos dos dedos dos pés, eu apenas me embebia de dúvidas enquanto buscava certezas, e evidentemente não me sentia preparado para a vida adulta.

O mais estranho de tudo isso é perceber como essas reminiscências são vívidas, frescas e próximas, como uma tela ainda por terminar. Como se o rapaz de 17 fosse vizinho de porta do homem de 40 e se vissem todo dia, quando o primeiro fosse para a escola e o segundo, para o trabalho. Nada como um velho clichê – no caso, o “parece que foi ontem” – para denotar a sensação de proximidade. E nada como um verso de Gessinger para deixar evidente que o tempo, afinal, praticamente não alterou o que eu sou na essência: “um estrangeiro, passageiro de algum trem que não passa por aqui, que não passa de ilusão”.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O antes, o agora e o depois


Numa crônica recente, Luis Fernando Verissimo refletiu sobre o fascínio que o fascismo exerce na juventude dos países do Leste Europeu. E justificou essa tendência com uma tese interessante: como esses países não puderam compartilhar a avassaladora revolução cultural que varreu os países ocidentais nos anos 60, os jovens de lá têm como modelo o anacrônico nacionalismo pré-Segunda Guerra de Hitler e Mussolini, e não a subversão dos costumes promovida pela era hippie. Como se os tanques soviéticos que sufocaram as sublevações ocorridas na Hungria e na Tchecoslováquia tivessem também sufocado a passagem do tempo. Ou seja: como se por trás da antiga Cortina de Ferro as pessoas vivessem ainda no ano de 1933. Uma época propensa à adoração de ditadores inescrupulosos e pregações a favor do extermínio de judeus, ciganos e outras raças historicamente perseguidas.

O grande risco da humanidade é não aprender com os erros do passado, embora talvez seja o caso de pensar que vivemos realmente em diferentes eras, devidamente estanques entre si – impossível, portanto, aprender com os erros do passado, já que ele ainda é futuro em alguns cantos do planeta. É como se a Terra fosse uma gigantesca ilha do seriado Lost (que não assisti, apenas li a respeito), com suas camadas temporais sobrepostas, nas quais passado, presente e futuro convivem em plena desarmonia. Para transitarmos entre o antes, o agora e o depois, não seria necessária uma máquina do tempo como aquela imaginada por H.G. Wells. Bastaria, por exemplo, uma viagem à Suécia ou à Noruega para nos defrontarmos com uma legítima nação de bem-estar social dos anos 1950, os chamados welfare states, com prosperidade infindável e proteção total ao cidadão, através de sólidos investimentos em projetos sociais. Por outro lado, ir ao Sudão ou a Serra Leoa equivaleria a uma longa jornada rumo a um passado muito mais longínquo, quando os impérios colonialistas deflagraram a ruína de qualquer projeto de civilização viável nesses países. Já um passeio ao Irã de Mahmoud Ahmadinejad ou ao Afeganistão dos Talibãs seria quase um safári, sem passagem de volta, pela era medieval.

Com um presente que se assemelha de tal forma ao passado – para o bem e para o mal –, é de se pensar se há mesmo futuro para a civilização humana. Há, obviamente, mas não necessariamente um porvir alvissareiro. Basta, por exemplo, passar um olho no Brasil, onde ontem e amanhã se encontram e se chocam permanentemente. Em Salvador, cidade em que vivo, é possível contemplar o século 21 e o século 19 cindidos por apenas uma avenida: de um lado, edifícios de apartamentos luxuosos, com arquitetura inovadora e carros de última geração nas garagens; do outro, casebres sem reboco, habitados por miseráveis que reencarnam a chaga da escravidão. A Casa Grande e a Senzala. No meio disso tudo estamos nós, passivos e vulneráveis, tentando a todo custo nos desvencilhar de um dos lados e sermos aceitos no outro.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Moinhos


Quando se tem uma filha de nove anos, por quem manifestamos uma devoção quase religiosa, fica ainda mais difícil assimilar o clichê de que criamos os filhos para o mundo, e não para nós mesmos. Afinal, ela está devidamente amparada dentro do ninho, dependente de nossas ações e ainda incapaz de ganhar vôo próprio. Sei que isso vai mudar, e que o mundo vai roubar meu pequeno passarinho. E que, tal qual o moinho do verso de Cartola, vai triturar seus sonhos, tão mesquinho. Tentarei estar aqui para acalentá-la quando isso acontecer, mesmo sabendo que o ícone que um dia fui já terá ruído, restando apenas o afeto e a percepção de que sou tão imperfeito e vulnerável quanto qualquer outro ser humano.

Hoje caminhei na praia com minha filha. Enterramos nossos pés na areia e deixamos que a espuma da água do mar passasse por cima deles. Observamos nuvens que se assemelhavam a animais e vimos lá no alto um avião que rumava para o norte. E pensei em Paul Gauguin, que abandonou a mulher com os cinco filhos para desbundar e morrer nos mares do sul, onde se amasiava com nativas de 14 anos e consumia doses cavalares de álcool, enquanto pintava os quadros que o tornariam eterno. Se é esse o preço que se paga pela imortalidade, prefiro despontar para o anonimato. A julgar pelo relato de Mario Vargas Llosa em O Paraíso na Outra Esquina, que estou lendo, Gauguin sofreu horrores com a morte de sua filha Aline, aos 20 anos, vítima de tuberculose. Mas já estava num caminho sem volta, no qual não cabia a existência de um filho (quanto mais cinco).

Enfim, Gauguin levou ao pé da letra o velho clichê, mas, em vez de criar os filhos para o mundo, apenas os lançou nele, deixando-os ao relento. Até aí não há nenhuma novidade. São muitos os órfãos de pais vivos, que encerram em algum recanto de si mesmos a vergonha do abandono. Como os filhos de alguns descendentes de japoneses que voltam ao Japão, deixando as famílias no Brasil. De início, os pais mandam cartas e dinheiro, que aos poucos vão rareando, rareando, até se tornarem um retrato na parede – mas como dói, como diria Drummond. Curioso que eu tenha lembrado agora do poeta itabirano, que viveu até os 85 anos, mas só conseguiu suportar por 12 dias a perda da única filha, Maria Julieta. Talvez seja esta a mais nítida amostra do amor incondicional de um pai por uma filha: não conseguir viver sem ela.