quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Gente é para brilhar


“Não quero ver mais essa gente feia. Não quero ver mais os ignorantes. Eu quero ver gente da minha terra. Eu quero ver gente do meu sangue”.

Pobre Paulista, Ira!

Hoje mais cedo comentei com um velho amigo sobre o significado dessa letra do Ira! Estávamos – eu mais do que ele – em dúvida sobre o significado dos versos acima. Seriam eles uma demonstração explícita de racismo e xenofobia? Ou apenas ironia e rebeldia juvenil? Tanto faz. Conhecemos Nasi, vocalista e um dos líderes da banda, na época em que fazíamos faculdade, em São Paulo, quando o entrevistamos em sua casa para um fanzine que nunca chegou a ser publicado. E chegamos à conclusão de que, pela personalidade dele e dos demais integrantes, seria improvável que Pobre Paulista se configurasse como uma ode ao preconceito.

Essa conversa seria apenas um bate-papo sobre reminiscências de um período particularmente agradável de nossas vidas se não tivessse sido motivada por um fato grave: as manifestações de racismo desferidas por pessoas de São Paulo, em sua maioria, contra os nordestinos. O motivo: Dilma Roussef teria sido eleita presidente do Brasil unicamente por causa da maciça votação que obteve entre os “jegues”, “burros” e “cabeça chata do carai”. As frases, capitaneadas na terra de ninguém chamada Twitter por uma tal Mayara Petruso, paulistana, estudante de direito, reverberaram em muitas outras frentes. São afirmações como: “Faça um favor para o país: mate um nordestino”, “Tomara q todos os nordestinos morram de sede e fome, so pra sentir a merda q fizeram pro Brasil”, “Tomara que esses nordestinos morram de fomeee, seus burros”. E por aí vai.

Existe um fato fundamental nessa história toda que precisa ser ressaltado. A candidata do PT venceria as eleições mesmo se os votos do Nordeste (ou do Norte e Nordeste) não tivessem sido computados. Ou seja, ela ganharia mesmo que o país fosse cindido ao meio, como sugeriu Carlos A. Júnior numa mensagem (“Dividam o Brasil ao meio, me nego a ser da mesma nação dos nordestinos”).

Bem, como diria Dorival Caymmi, acontece que eu sou baiano. Nordestino, para ser mais abrangente. Não votei em Dilma, por achar que o Brasil precisa acima de tudo de alternância no poder, para acabar com os vícios do partido único e evitar uma incômoda propensão ao autoritarismo que enxergo em alguns setores do PT. Mas considero absolutamente legítima a vitória da candidata, até porque o candidato no qual votei, José Serra, de um partido que admiro, o PSDB, se deixou levar pelo oportunismo mais deslavado e por táticas rasteiras. Mais: a vitória de Dilma representa a derrocada – definitiva, ao que parece – do voto de cabresto. Pode-se discordar da escolha, mas jamais do fato de que os mais pobres votam com mais consciência hoje do que há 10, 20 anos. Votam em quem, na opinião deles, vai ao encontro das suas necessidades imediatas, muito mais prementes que as minhas ou as de quem lê este texto.

Como baiano, nordestino ou mesmo brasileiro, não me considero atingido por essas ofensas. Como ser humano, sim. Se por um lado são uma aberração, por outro são o epílogo perfeito para uma das eleições mais estúpidas da nossa história recente. Regredimos algumas décadas nos últimos quatro meses, sobretudo no último, quando as discussões sobre o futuro de um dos países mais desiguais e miseráveis do mundo se restringiram a temas pinçados da idade média, o que permitiu a proliferação de uma improvável corja de neocarolas. Bobagens de parte a parte, acusações tolas, extremismo desnecessário, denúncias sem substância. E, para coroar tudo isso, as vociferações virtuais da turma de Mayara Petruso.

Nada disso teria maior importância se o episódio não abrisse um precedente perigoso: manifestações como essas deixam claro que o fascismo agoniza mas não morre. Nesse sentido, é sintomático que uma das revoltosas, de nome Rayssa Medeiros, tenha citado como exemplo a ser seguido o indivíduo mais abjeto nascido no século 20: “so hitler acaba com a raça dos petistas.. construindo camara de gas no nordeste matando geral..”. Soa como uma versão feminina do Capitão Nascimento. A história ensina que ignorância, sobretudo se somada a desencanto e indiferença, produz efeitos devastadores para a humanidade. Rayssa provavelmente não sabe que garotas como ela – jovem e bem-humorada, a julgar por sua foto no Twitter – deixaram de existir apenas por serem judias. Não pelo que pensavam, não por aquilo que queriam para si ou para sua família, mas porque haviam nascido em berço judaico.

O fato é que tudo isso deixa entrever o nosso lado racista, preconceituoso, babaca mesmo, que tentamos jogar para baixo do tapete em nome de uma cordialidade inexistente, de uma democracia racial e social ainda no paleolítico. Por fim, contrapondo os versos do Ira!, que anseiam por gente da sua terra, gente do seu sangue, eu lembro de um verso de Caetano Veloso – singelo, alegórico e datado, mas nem por isso menos legítimo: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”.

10 comentários:

Marcos disse...

Perfeito. Sem mais.

Paulo Sales disse...

Valeu, Pantico.
Grande abraço.

DAVID FRANCO disse...

Excelente reflexão.

Luciana disse...

Paulo, parabéns pela clareza do texto. Votei em Serra exatamente pelos mesmos motivos mas não deixo de esperar que Dilma faça um grande governo. Precisamos de mais tolerância, de mais pessoas se expressando com clareza e argumentos sensatos. Abraço.

Paulo Sales disse...

Fala, David.
Valeu, meu velho.

Paulo Sales disse...

Obrigado, Luciana. E concordo com você: precisamos de muita tolerância, clareza e sensatez, três coisas que estiveram ausentes nessas eleições.
abs

Tê Barretto disse...

Compadre, você tocou em um ponto fundamental nesta discussão toda: trata-se de um epílogo de um conto-fantasma que foi tomando forma na campanha eleitoral. E que revelou cores fascistas muito mais vivas do que esperaríamos da sociedade brasileira.

Paulo Sales disse...

Sim, Comadre, o extremismo chegou ao ponto da não aceitação do outro, isso de parte a parte. Não entendo como, mas o fascismo provoca um fascínio irresistível entre os ignorantes - e não estou falando de ignorantes por falta de formação. No caso da turma de Petruso, é quase uma ignorância deliberada.
bjs

Pri Viotto disse...

Diante de sua forma de apresentar os fatos, a clareza e divulgação de um tema pouco difundido na blogosfera.
Sim, é possível encontrar pessoas discutindo sobre o assunto, mas não com esse charme elegância exposto no texto.
Sinto-me até sem jeito para comentar ou discutir sobre o que seja. Mesmo assim, estou aqui para que dar os parabéns, o texto está perfeito.

Boa semana!

Paulo Sales disse...

Cara Pri Viotto,
Muito obrigado pelo comentário e pelos elogios. Acho que blogosfera está aí para isso, para que possamos expor nossas angústias e inquietações de alguma maneira.
Um grande abraço e continue aparecendo no blog.