quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O ser e o nada



Leio na Folha de S.Paulo que cientistas conseguiram capturar um átomo de antimatéria. É um feito promissor, que pode abrir caminho para novas descobertas no campo da física, embora eu não tenha qualquer noção do que significa em termos práticos a antimatéria. A reportagem diz que em condições normais ela não costuma existir, já que o universo é todo feito de matéria convencional – prótons de carga positiva e elétrons negativos. O Big Bang, aquele sopro primordial que lançou no espaço todos os planetas, estrelas, cometas, nebulosas, peixes, plantas, cachorros e pessoas que sabemos ou não existir, também produziu muita antimatéria, embora não se saiba onde ela foi parar. Essa incógnita ganha ares de dramaticidade quando se sabe que, ao se encontrarem, partículas de matéria e de antimatéria provocam uma espécie de auto-aniquilação. Ou seja, mandam para o vácuo tudo aquilo que somos nós.

O fato é que, por mais que tente, não consigo compreender os fatores envolvidos na descoberta e na manipulação da antimatéria, e só me resta contemplar, do alto de minha estupidez, a complexidade da nossa insignificância, a valorosa perseverança da vida diante de um ambiente hostil. Fiquei tentado a pensar que, caso esse átomo recém-descoberto venha a se chocar com um átomo de matéria, os dois poderão ser aniquilados, levando a reboque tudo ao redor, inclusive nós, que seríamos sugados tão rápido que nem teríamos tempo de esboçar um adeus a quem amamos ou ao mundo que conhecemos. Gostaria de saber mais sobre física, para quem sabe desvendar as questões primordiais que movem o homem desde sempre: de onde viemos, quem somos, para onde vamos. O que me consola (ou desanima) é que sujeitos dotados de intelecto muito mais musculoso, como Albert Einstein, Stephen Hawking ou Carl Sagan, também ficaram pelo caminho. Encontraremos uma resposta satisfatória? Provavelmente sim, só não sei quando.

Continuo lendo a reportagem e, à medida que avanço, ela vai se tornando absolutamente incompreensível, um pouco como o Aleph de Borges, impossível de descrever, embora fascinante. A diferença é que a leitura do conto do mestre portenho abre imensas clareiras em nossas mentes simplórias, nos transportando para um universo paralelo habitado por uma espécie de tudo ao mesmo tempo agora. Já a reportagem – e o autor não tem qualquer culpa nisso – provoca apenas um pasmo resignado. Mas, enfim, aonde quero chegar com tanta baboseira? Não faço a mínima idéia. Apenas compartilho aqui a minha suprema ignorância, as minhas inquietações tolas e o meu singelo desejo de entender por que precisamos ir embora do mundo. Afinal, não é fácil resignar-se frente ao fato de que, daqui a 200 anos, todos nós – eu, você, nossos filhos e até aquele bebê que acaba de nascer numa maternidade do Nepal – não seremos nada além de partículas de antimatéria, sem qualquer serventia ou história para contar.

2 comentários:

Carol Costa disse...

Querido Paulo,

Com todo respeito eu discordo de sua opnião tão bem argumentada :)
Acho que nosso pensamento moderno( ou pós), nos propõe uma visão limitadora e técnica sobre a vida. A anti-matéria não vai nos engolir só pq agora conseguimos manipular. Se acontecer, será pelo motor criador de tudo, que a gente não sabe (e eu acho que nunca vai saber) o que é.
Acho que antes de entender coisas de fora, a gente precisa entender coisas de dentro, como o fundamento pra homofobia e movimentos a favor dos paulistas. Isso realmente me intriga. Sem falar na doença pelo Bahia né? hehehe.

Paulo Sales disse...

Oi, Carol. Obrigado pela visita e pelo comentário.
Mas a minha opinião não é bem argumentada, e nem sei sequer se é uma opinião. É só uma manifestação de espanto diante do que somos, da nossa insignificância e, por outro lado, da nossa complexidade como seres humanos. Também acho que não vamos acabar sugados pela antimatéria, é só um delírio mesmo. Mas talvez seja uma forma escapista de falar de tudo isso que você disse, e que eu já abordei em posts anteriores. Inclusive, se puder dê uma lida no texto http://paradiseduluoz.blogspot.com/2009/05/tao-longe-tao-perto.html. Tem a ver com o que você falou. Quanto ao Bahia, eu acho maravilhoso, mesmo não sendo torcedor, só um apaixonado por futebol.
Um beijo.