segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Prezados parcos leitores

Darei um tempo nas palavras para me dedicar ao consumo de vinhos, passeios e descobertas em solo chileno. Espero estar de volta logo após o ano-novo. Um bom final de ano para todos e, como diria o velho e alquebrado Exterminador do Futuro, hasta la vista, baby.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Escalada


A persistência dos alpinistas sempre me intrigou. O que leva um sujeito a se dependurar durante dias montanha acima para chegar ao topo, e só então se deixar impregnar do prazer efêmero de descortinar o mundo como um rei anônimo? Praticar alpinismo é flertar o tempo todo com os próprios limites, e superá-los a cada dia. É saber que existe uma redenção aguardando os mais perseverantes ao final da jornada, e que é necessário sofrer bastante no caminho para que essa redenção seja ainda mais valorizada.

A leitura de determinados livros guarda estreita semelhança com o ato de subir uma montanha. Somos o tempo inteiro instigados por nosso corpo – no caso, a nossa mente – a desistir de tudo aquilo e voltar para o conforto de um Hemingway ou de um García Márquez, onde nos sentimos em casa. Em alguns casos, acabamos desistindo no primeiro terço ou na primeira metade, e olhamos com desalento o trecho intransponível das páginas restantes. Já me vi, por motivos diversos, desistindo de encarar o topo de um Everest literário. Não consegui, por exemplo, ir além da página 276 de Auto-de-Fé, a obra maior de Elias Canetti, mesmo acreditando que uma paisagem esplendorosa me esperaria no ponto final, lá pela página 614. Simplesmente cansei de acompanhar as desventuras do misantropo Peter Kien e sua relação com a governanta abjeta. Seguir adiante seria como insistir na subida do Aconcágua mesmo sabendo que os dedos do pé ficariam necrosados ou que o coração não suportaria tamanho esforço. O mesmo aconteceu com Palmeiras Selvagens, de Faulkner, Ulisses, de Joyce, e Morte a Crédito, de Céline, para ficar apenas com as montanhas de alto grau de dificuldade.

Por outro lado, consegui transpor esta semana um verdadeiro K2 (a segunda maior montanha do mundo e a mais perigosa de todas elas). É provável que existam livros mais penosos de superar do que Moby Dick – e O Som e a Fúria está aí para comprovar –, mas há muito tempo não sentia tanta dificuldade em terminar um romance como no caso da obra máxima de Herman Melville. Após um início promissor o livro empacou, como uma caravela num mar sem vento, muito em função das digressões do autor sobre detalhes anatômicos dos cachalotes, baleias verdadeiras e outros leviatãs, que ocupavam páginas e mais páginas, exigindo uma leitura disciplinada e em muitos momentos exaustiva. Até que em dado momento optei por pular as passagens que não levavam a nada, acredito, para me concentrar na verdadeira história. Foi então que, passadas as 400 primeiras páginas – nas quais padeci de sensações semelhantes à vertigem no ar rarefeito – me vi diante do topo do mundo nas cem últimas páginas.

Cem páginas de um embate de contornos bíblicos entre o homem e a natureza selvagem, feroz e libertadora, representada pelo cachalote branco. Ahab e Moby Dick se irmanam numa fúria mútua cega e destrutiva. Não sei se carregam um carma demoníaco, uma maldade intrínseca à qual são incapazes de resistir. É provável que não. Pelas pistas deixadas por Melville ao longo do livro, ambos são apenas títeres nas mãos de um ser supremo, e promovem nas águas do Oceano Pacífico a encenação de uma tragédia escrita no princípio do mundo. Daí o acento fatalista que acompanha a obsessiva jornada do Pequod rumo à própria destruição, como se outro destino fosse impensável. Como dirá o autor ao final do livro: “A grande mortalha das águas continuou a ondular, como já ondulava cinco mil anos antes”. Por tudo isso, seria um reducionismo dizer que Ahab representa a insanidade que habita as sombras de cada ser humano. Seu ódio está a serviço de algo muito maior, que ele não consegue apreender. Uma mão invisível que o empurra na direção da baleia, por mais que intimamente saiba que deve fugir dela. “Oh, morte solitária em vida solitária! Oh, agora eu sinto que minha mais alta grandeza jaz em minha mais alta mágoa”.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Acalanto


Ouvir Carla Bruni provoca em mim sensações distintas, que vão da ternura ao desalento. Sua voz, como seu rosto, mais oculta do que revela, como a quietude que precede o ataque fatal de um cachalote. Carla canta como se acalentasse uma criança. Gostaria de falar francês para compreender as frases que ela sopra em nossos ouvidos para nos fazer dormir. Mas está claro, pelo tom da sua voz, que existe muita tristeza se esquivando por trás da aparente doçura de canções como Le Ciel dans une Chambre (tão linda que faz a gente chorar por dentro), Tout Le Monde, La Noyée e Chanson Triste (como o nome já sugere). Todas do álbum Quelqu’un M’a dit, o melhor dos seus três discos, embora o outro trabalho em francês, Comme Si de Rien N’Etait, também possua seus pequenos diamantes. Só não gostei do disco em inglês, No Promisses, que me faz lembrar uma Joni Mitchell menos inspirada.

Ouço sua voz agora e penso nela. Na sua trajetória que conheço superficialmente, de modelo de sucesso a primeira-dama da França, esposa de uma figura controversa como Nicolas Sarkozy, com passagens pelos tablóides de fofocas por conta de fotos em que aparece nua e casos com Mick Jagger e Donald Trump. O que isso importa? Ao cantar, Carla Bruni parece dissipar tudo a sua volta. Fica apenas o cálido acalanto, que nos enleva e nos faz querer ouvi-lo até o mergulho tranqüilo na inconsciência.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sobre heróis e reminiscências 2


Nos últimos dois ou três meses minha atenção teve um só objeto, como a obsessão de um esquizofrênico. Lia, trabalhava, assistia a um filme, mas invariavelmente um sopro de angústia teimava em se fazer presente, a recordar que meu time, aquele que veste vermelho e preto e movimenta 39 milhões de pessoas no país inteiro, podia chegar lá, à medida que ia pondo por terra seus adversários um a um. Uma compulsão meio tola, dirão alguns, ou um gasto desnecessário de energia, na opinião de outros. Talvez porque não entendam que, aos 39 anos, eu ainda conserve a derradeira chama do garotinho de 10 que viu seu time ser campeão brasileiro pela primeira vez – a primeira de um total de seis conquistas – ao vencer o Atlético Mineiro por 3 a 2 num Maracanã abarrotado.

No último domingo, o garotinho voltou a aparecer, e confesso que por um breve momento ele chorou dentro de mim. E eu chorei com ele. Porque não tinha mais meu pai para abraçar, como tive nas cinco conquistas anteriores. E porque tinha agora minha filha ao meu lado assistindo comigo, também ela ansiosa, à nossa última batalha, vencida com dificuldade por 2 a 1 contra o Grêmio, adversário tradicionalmente traiçoeiro. De virada, com um gol heróico de um zagueiro cearense, de origem pobre e índole rara, chamado Ronaldo Angelim. Voltamos a ser campeões nacionais, enfim, 17 anos depois. Voltamos ao topo.

Quando o Flamengo conquistou seu último título brasileiro, eu tinha 22 anos e estava em Porto Seguro, a primeira das muitas escalas que me levariam ao sul do Brasil, numa viagem marcada pela solidão e a ausência de rumo. Liguei para meu pai e ele já tinha saído, mas na verdade tínhamos conquistado a taça na partida anterior, quando derrotamos o Botafogo por 3 a 0, e aquele segundo jogo era quase uma formalidade, desde que jogássemos com tranqüilidade e não deixássemos a vantagem se evaporar. Também lembro nitidamente da terceira conquista, um 3 a 0 sobre o Santos, quando Adílio marcou o terceiro de peixinho e meu pai levantou da cama onde assistíamos ao jogo, vestiu o manto sagrado e me chamou para abraçá-lo. Coisas assim não se esquece. Como não se esquece um time que ressurgiu da lama e, liderado por três gladiadores de boa cepa, Andrade, Adriano e Petkovic, conquistou o sexto título da nossa história. O primeiro sem meu pai. O primeiro com minha filha.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Analogia involuntária


Ontem assisti, no noticiário da Globonews, a uma reportagem sobre as vítimas da chuva em São Paulo. Gente muito pobre, que só tem uma escolha: aquele barraco sob o morro ou a rua. Enquanto acompanhava o trabalho de resgate dos corpos, li de relance os letterings na parte inferior do vídeo, que listavam as outras notícias do dia. Falavam dos desdobramentos do escarcéu envolvendo José Roberto Arruda e sua corja em Brasília. A princípio, imagem e texto pareciam assuntos estanques, desprovidos de qualquer conexão: um desmoronamento numa zona miserável da maior cidade do país e um escândalo numa zona riquíssima da capital desse mesmo país.

Mas depois me dei conta de que estava diante de uma analogia involuntária. Os dois episódios eram na verdade faces distintas de uma única desdita, uma como conseqüência da outra e vice-versa, por mais que seja difícil identificar semelhanças entre um canalha bem vestido com cara de bobo e um homem de roupas puídas que acaba de perder a família. Na minha cabeça, as imagens mostrando a tragédia e os letterings relatando o escândalo adquiriram a dimensão de um melancólico filme estrangeiro com legenda em português. Um traduzia perfeitamente o outro. O dinheiro que faltava ao catador de lixo para fugir daquele barraco e se instalar num lugar menos arriscado sobrava na meia do político abjeto. Tudo isso torna a analogia ainda mais perversa, mas é pouco para explicar por que, mesmo com imagens tão nítidas e legendas tão elucidativas se sucedendo à nossa frente, permanecemos impassíveis, incapazes de compreender o que se passa nesse filme de quinta categoria que não acaba nunca.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

365


No dia 4 de dezembro de 2008, escrevi um texto no qual refletia sobre uma era que se desintegrava. Lastimava o desinteresse do poder público e a indiferença da população baiana em relação ao espólio de Jorge Amado e Zélia Gattai, mais precisamente ao futuro da mítica Casa do Rio Vermelho. De um ano para cá, que eu saiba, nenhuma medida foi tomada para tombar a casa e transformá-la num museu. Afinal, Jorge, Zélia e tudo que eles significam para a cultura brasileira são parte de um tempo morto, sobre o qual quase ninguém se interessa.

Isso foi há exatamente um ano, quando esse texto, intitulado A Derrocada de uma Era, deu início a este blog, que chega enfim ao seu primeiro aniversário. De lá para cá foram 127 postagens, 2.264 visitas (muitas delas involuntárias, de pessoas que procuravam o que o blog não oferecia), 14 seguidores (sendo a metade formada por pessoas que não conheço e que não sei como chegaram ao blog) e o surgimento de um agradável canal de diálogo com amigos, conhecidos e gente que nunca vi na vida. Não sei, por exemplo, quem é o leitor de Mountain View, na Califórnia, que sempre visita o blog, assim como pessoas de vários cantos do Brasil que de vez em quando lembram que ele existe e postam seus comentários, como anônimos ou não. Nesses 365 dias, falei de cinema, livros, música, lembranças e episódios reais que insistem em me assombrar. E cada um desses textos contribuiu em maior ou menor medida para que compreendesse um pouco mais (embora muito menos do que gostaria) os mecanismos e engrenagens que movem este lado do paraíso, dividindo impressões com meus poucos e fiéis leitores. Isso posto, agora é esperar a noite para comemorar bebendo um Frontera e ouvindo um Miles. And that's all, folks.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Afeto tortuoso


Até que ponto nos desnudamos quando reproduzimos em palavras nossas experiências pessoais? Até onde se estende a realidade e se inicia a mistificação? Que fronteira jamais deve ser transposta? Sabemos que a sinceridade e a veracidade nem sempre são o forte dos textos memorialísticos, até porque selecionamos naturalmente certas passagens e deixamos outras no limbo, em muitos casos inconscientemente. Dito tudo isso, me impressionou a franqueza sem meio termo do francês Jean-Louis Fournier, um diretor de programas de TV que escreveu um livro – intitulado Aonde a Gente Vai, Papai? – sobre a relação com seus dois filhos, ambos deficientes mentais. Não li o livro, apenas trechos reproduzidos pelo repórter Geneton Moraes Neto em seu excelente blog. Mas foi o suficiente para me defrontar com sentimentos dilacerantes, que reviram pelo avesso noções preconcebidas de compaixão, amor paterno, abnegação e muitas outras questões essenciais para um pai. Pelo que li, Fournier sempre optara pelo silêncio quando o assunto eram os meninos Mathieu e Thomas, até resolver escrever o livro após a morte de um deles (ambos atingiram a idade adulta e o outro filho vive numa casa de repouso). Ao que parece, ele não respeitou fronteiras morais preestabelecidas ou se deixou guiar pelos limites da própria consciência. Foi fundo, talvez o mais fundo que pode ir um pai de filhos deficientes. Reproduzo a seguir alguns trechos, retirados do blog de Geneton, que também entrevistou Fournier:

“Quando estou sozinho no carro com Thomas e Mathieu, passam-me às vezes pela cabeça ideias estranhas. Penso que se sofresse um grave acidente de carro talvez fosse melhor. Estou ficando cada vez mais insuportável de conviver – e as crianças crescem e ficam cada vez mais difíceis. Então, fecho os olhos e acelero – mantendo-os fechados o maior tempo possível”.

“Queríamos poder tê-lo defendido da sorte que se havia agarrado a ele. O mais terrível é que não podíamos fazer nada. Não podíamos sequer consolá-lo, dizer-lhe que o amávamos assim como era – tinham-nos dito que ele era mudo. Quando penso que sou o autor dos dias dele, dos dias terríveis que ele passou na Terra, que fui eu quem o fez vir, tenho vontade de lhe pedir desculpas”.

“Aqueles que nunca tiveram medo de ter um filho que não fosse normal que levantem a mão. Ninguém levantou. Todo mundo pensa nisso como pensa num terremoto, como pensa no fim do mundo – algo que só acontece uma vez. Eu tive dois fins do mundo”.

“Não tive sorte. Joguei na loteria genética, perdi”.

São palavras duras, as de Fournier. Mas nem por isso despidas de afeto, por mais tortuosa que seja a manifestação desse afeto. Quem poderia julgá-lo? Julgar seus atos, sua franqueza, sua frieza? Não tenho um filho com doença mental. Imagino que deva ser um fardo, ainda que seja possível carregá-lo. Fournier apenas nos desvela as dimensões, o peso e a textura desse fardo, assim como faz Cristóvão Tezza em outro livro pungente, O Filho Eterno, que reconstitui com elementos de ficção a relação com o filho portador de Síndrome de Down. Mas me parece, pelo menos a princípio (já que não li o livro de Fournier), que nem Tezza foi tão fundo, mesmo porque há uma grande ternura nos momentos finais do seu romance, os dois, pai e filho, no estádio torcendo pelo Atlético Paranaense. De qualquer modo, em ambos os casos vemos pais lutando para reprimir a amargura, mitigar o desalento, encontrar atenuantes que tornem suportável o ato de continuar vivendo. Ter um filho doente é como sofrer uma perda ao contrário, uma espécie de morte invertida. Afinal você não perde alguém, e sim ganha alguém, só que esse alguém é indesejado. Por mais que rumine sobre tudo isso, permaneço num estado de pasmo, de letargia, como se fosse impossível – e realmente é – apreender em sua totalidade os sentimentos envolvidos em histórias de vida tão dolorosas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O princípio do fim


Lembro da primeira vez que li sobre a existência da aids, quando ela nem tinha esse nome. Era só o “câncer gay”, conforme reportagem da revista Planeta, que nem sei se ainda é publicada. Estávamos em 1983, e a matéria relatava o pânico que atingira a comunidade gay de São Francisco após dezenas de mortes misteriosas, retratadas posteriormente no filme Meu Querido Companheiro, um trabalho sensível do diretor Norman René. Há outro filme sobre o tema, chamado E a Vida Continua, comentado por um amigo no seu blog (http://verbotransitivo.blogspot.com), mas este eu não vi.

De qualquer modo, o comentário me fez recordar esses primeiros anos da doença, que coincidiram com meus primeiros anos de adolescência e vida sexual. Uma época em que a aids era pouco mais que uma peste de gueto, rodeada de preconceito e com origem nebulosa (teorias conspiratórias diziam até que se tratava de um vírus de laboratório concebido como arma biológica pelos americanos). Era, enfim, algo muito distante da nossa realidade, tanto que virou até mote para uma canção de Léo Jaime, de humor desastroso, com um refrão ridículo (“aids, não tente colocar band-aids”). Claro que a gente não se dava conta disso, mas naquele momento quase todas as conquistas da revolução sexual dos anos 60 – o sexo casual, a permissividade paterna, a promiscuidade sem culpa – estavam prestes a passar por um período de intenso refluxo, substituídas pelo pavor de se contrair uma doença sem cura e com altíssimo grau de letalidade.

Os anos passaram e vimos cantores, atores, artistas plásticos, estilistas e muita gente comum sucumbirem à aids, muitos deles gays, embora não todos, o que deixava claro que não se tratava mais de um problema “deles”. Cazuza agonizava em praça pública, como estampou a polêmica capa da Veja em 1989. Betinho e Henfil, heterossexuais, mas hemofílicos, contraíram a doença via transfusão de sangue, causando uma comoção no país. Passamos a conhecer pessoalmente portadores do vírus, muitos deles sobreviventes do período mais duro e sombrio da doença, e a camisinha se tornou item obrigatório (bem, nem tanto) na hora de se aventurar na noite. Enfim, saímos de uma ditadura política e entramos numa ditadura comportamental. Terreno fértil para o puritanismo fatalista, pois havia algo de bíblico, talvez uma punição divina, numa doença que atingia os degenerados e pervertidos, incapazes de manter uma relação monogâmica ou praticar sexo apenas para procriação. Monogamia? Procriação? Lembro agora de outro filme, Kids, tristemente premonitório do trinômio sexo, drogas e tédio na adolescência contemporânea, no qual a garota quase virgem se descobria portadora do vírus e, como num efeito dominó, passava-o para frente mesmo que de maneira involuntária. Era o princípio do fim, que chegava cedo demais.


***


E na África, onde teoricamente o vírus foi gerado, a aids se alastrou de tal forma que hoje é quase um desastre natural, um tsunami que arrasta milhões de pessoas, muitas delas crianças, sem atendimento adequado, coquetel de medicamentos ou qualquer ajuda formal dos arremedos de governo. Lá, a aids está longe de ser uma doença crônica, mas não necessariamente letal. É como a fome ou a barbárie, arrebata e destrói o que aparece pela frente.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Seres extraordinários


Há um vácuo na minha formação que me impede de compreender em sua totalidade algumas notícias que me atingem como punhaladas ao abrir um jornal ou acessar a internet. Nunca li nenhuma obra de Freud, Jung, Lacan ou algum outro teórico essencial da psicologia e de sua corrente principal, a psicanálise. Mas é provável que, mesmo conhecendo a fundo conceitos como superego ou Complexo de Édipo, restasse em mim apenas o pasmo ignorante de um leigo, o espanto primordial de um idiota ao saber que um pai se arremessou junto com o filho de dois anos do alto de um prédio de 18 andares, por não aceitar o fim do relacionamento com a mãe do garoto. Ou que um homem-bomba deu cabo de si mesmo e de dezenas de pessoas, todas elas do seu próprio povo e muitas delas crianças e mulheres, num mercado lotado no norte do Paquistão.

São episódios completamente diferentes, com pretextos radicalmente diversos. Mas ambos encerram uma questão que vai além da barbárie em estado bruto. Afinal, seus protagonistas não apenas mataram, mas também morreram intencionalmente na ação. Como entender isso? Que motivações são capazes de promover atitudes tão brutais? A meu ver, fanatismo ou desespero não dão conta dessas questões. Mais do que a banalização dos assassinatos, estamos assistindo também à banalização dos suicídios. Mata-se e morre-se pelos motivos mais esdrúxulos, sobretudo os ligados a uma radical distorção do conceito de fé ou à incapacidade de se viver sem aquele que se ama.

Na condição de um semi-analfabeto em psicologia, recorro então aos romances, que ao longo dos séculos nos ensinaram muito sobre a alma humana, e logo me vêm à mente dois livros que não falam propriamente sobre suicidas assassinos, mas desvelam em parte a psique do criminoso. Para Raskolnikov, personagem principal de Crime e Castigo, existem duas categorias de seres humanos: os ordinários, que devem respeitar as leis e viver na obediência, e os extraordinários, ou gênios da raça, aqueles que podem até cometer um crime se sua consciência assim determinar. Alçado por si mesmo à segunda categoria, ele comete o seu crime, e passa o resto dos dias corroído pelo remorso (daí que, mais do que propriamente um romance sobre crime ou castigo, Dostoievski criou um romance sobre a culpa).

Albert Camus também se embrenha nos desvãos escuros de um assassino, Mersault, cuja absoluta indiferença em relação à própria existência e a tudo que a rodeia acaba por levá-lo à pena de morte. Em O Estrangeiro, o ato de matar também é cometido quase como num surto, num momento de catarse, embora não exista a perda completa da lucidez. Tanto Raskolnikov quanto Mersault sabiam exatamente o que estavam fazendo, por mais que a intensidade da luz do sol ou uma teoria cretina de superioridade intelectual pudesse isentá-los de responsabilidade.

É possível fazer um paralelo entre a teoria de Raskolnikov e os homens-bombas arregimentados pelo fundamentalismo islâmico (embora neste último caso estejamos diante de crimes sem castigo, já que o criminoso vai embora junto com as vítimas). Em suas cabeças carcomidas pelo fanatismo, não seriam eles seres extraordinários, dotados de um poder celestial que os habilita a matar centenas de congêneres ordinários em função de uma causa maior? É provável que sim. Mas que causa é essa? Que fim justifica meios tão abjetos? Sinceramente, não sei. O próprio Camus disse que o suicídio é a grande questão filosófica do nosso tempo, ponderando que “decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia”. É uma teoria válida, obviamente, mas possivelmente defasada. Talvez a grande questão filosófica nestes tempos sombrios em que vivemos seja decidir não apenas se a própria vida, mas também – e principalmente – a vida alheia merece ser vivida. Em muitos casos, um suicídio é compreensível: a perda de quem amamos muito, uma doença terminal que nos fará sofrer fisicamente, um surto depressivo. Já um suicídio acompanhado de um ou muitos homicídios é injustificável, não só moralmente, mas também psicologicamente. A não ser que os livros que nunca li tenham uma resposta para tanta estupidez.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Flores em vida


Numa de suas muitas canções repletas de singela sabedoria, Nelson Cavaquinho recusava de forma categórica homenagens póstumas. E pedia: “Me dê as flores em vida, um carinho, a mão amiga, para aliviar meus ais. Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais”. Lembrei dessa canção de Cavaquinho ao rever ontem à noite os minutos finais de Buena Vista Social Club, filme que recupera do oblívio um grupo de artistas de talento e trajetória singulares. É comovente observar aqueles velhinhos cubanos alcançando a glória tardia no Carnegie Hall, em Nova York, após décadas de ostracismo e subempregos, durante as quais guardaram em suas mentes e gavetas um apogeu perdido.
Vê-los ali tocando, se divertindo e se emocionando nos faz pensar na montanha russa que os arrebatou num período de suas vidas em que já se preparavam para deixar o mundo anonimamente, com a cabeça no travesseiro e o terno surrado devidamente engomado. É fato que Ibrahim Ferrer, Ruben González, Compay Segundo e Pio Leyva, entre outros dos quais não me recordo os nomes, já estão mortos. Mas é fato, também, que ao contrário da maioria de nós, anônimos errantes deste planeta, eles receberam as flores em vida. Basta prestar atenção no semblante silencioso de Ibrahim Ferrer, ao contemplar profundamente comovido a platéia do Carnegie Hall, para vislumbrar ali uma epifania, e provavelmente uma valorosa sensação de missão cumprida.
É bem provável que, se não fosse por iniciativa de Wim Wenders e Ry Cooder, todos eles teriam permanecido obscuros, lembrados apenas por alguns sobreviventes de uma geração que conheceu a Cuba pré-revolucionária, com suas casas de espetáculos, cassinos e clubes de bailes. É como se tivessem vivido todo esse tempo apenas aguardando inconscientemente a chegada de Cooder e seu filho à ilha, como uma tumba egípcia (a comparação é de mau gosto, reconheço, mas adequada neste caso) escondida numa pirâmide aguarda milênios a chegada de um arqueólogo. Um acaso monumental em suma, que permitiu a eles imprimir, merecidamente, as digitais na máquina do mundo. O resultado desse acaso é que hoje você se depara com o rosto sorridente e maroto de Compay em qualquer megastore que se preze, assim como encontra milhares de referências a Ferrer no Google ou pode baixar discos de González em sites de compartilhamento de arquivos.
E agora, enquanto penso nos velhinhos do Buena Vista, acabo pensando também nos artistas sem nome – homens e mulheres, vivos ou mortos – que não conseguiram ser pinçados da massa amorfa que compõe a escória humana. Por que uns e não outros? Não duvido que para cada Compay Segundo ou Ibrahim Ferrer há muitos tipos igualmente talentosos perambulando por vielas de cidades como Havana, Kinshasa, Lisboa, Pequim ou Rio de Janeiro. E então volto a pensar em Cavaquinho, que morreu pobre e bêbado, mas famoso. E também em Cartola, redescoberto já velho enquanto trabalhava como um improvável flanelinha no centro do Rio. Enfim, fico aqui pensando em toda essa gente que, por um espasmo do destino, alcançou a eternidade a despeito de todo e qualquer prognóstico contrário.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Disparates


Às vezes me chega às mãos alguma edição passada da revista Veja, e costumo folheá-la de trás para frente, para conferir as críticas de cinema e uma ou outra matéria sobre literatura. No meio delas, encontro as colunas de Diogo Mainardi. Habitualmente, seu texto me provoca um ligeiro sorriso ou um pouco de tédio. Mas de vez em quando me espanta a maneira como ele – assim como outro colunista, Reinaldo Azevedo – personifica o reacionarismo sem escrúpulos da publicação para a qual escreve. Há muito tempo a Veja deixou de ser uma revista séria. Basta dar uma olhada nas pautas para entrever, entre as matérias culturais ou comportamentais, um veículo para desancar desafetos ou desqualificar tudo e todos que estejam direta ou indiretamente relacionados ao que se convencionou chamar de esquerda. Não que a esquerda seja um território habitado por vestais (não é) ou que as ideologias a ela ligadas sejam uma solução para as mazelas da civilização (o comunismo provou em definitivo que não são). E, como contraponto, vale lembrar que uma revista como a Caros Amigos, situada no espectro oposto da Veja, utiliza os mesmos artifícios e atinge os mesmos resultados risíveis.

Mas não queria falar da Veja. Voltando a Mainardi, li outro dia uma coluna antiga, de julho, na qual ele falava das impressões da escritora irlandesa Edna O’Brien sobre a sua viagem a Paraty para participar da Flip, onde participou de encontros com outros autores, incluindo aí Chico Buarque e Milton Hatoum. Edna detestou os dois, achou-os arrogantes e com pouca erudição. Daí Mainardi conclui: “Chico Buarque é o buzinador das letras: fon-fon. Ele está para a literatura assim como Dilma Rousseff está para as teses de mestrado. Ou assim como José Sarney está para Agaciel Maia”. Nunca li um livro de Chico Buarque. Das adaptações de seus romances para o cinema, vi apenas Estorvo, de Ruy Guerra, um filme que beira o insuportável. Não acredito que seja um grande escritor, e não pretendo conferir, embora pense que é impossível seccionar em compartimentos estanques a obra de um artista, mesmo que atue em frentes opostas (ou seriam complementares?). Por tudo isso, penso cá comigo: não seria um exagero tecer comparações tão esdrúxulas para afirmar que Chico Buarque é um embuste, uma fraude sem substância a enganar milhares de leitores ingênuos? Claro que é um exagero, que por sua vez embute uma necessidade imperiosa de nadar contra a maré, de desafinar o coro dos contentes. Mas o que dizer de um articulista que define como “basbaque” o estilo de Luis Fernando Verissimo? Mainardi é um dos muitos herdeiros de Paulo Francis que parecem não ter apreendido a essência do mestre. Já escrevi aqui no blog que Francis entrou para a história da imprensa brasileira não pela tendência a emitir de tempos em tempos opiniões descabidas e preconceituosas que minavam sua credibilidade. Mas sim por ter sido capaz de abordar temas espinhosos com um coloquialismo e uma autenticidade sedutores, além de ter escrito dois livros de memórias magníficos (O Afeto que se Encerra e Trinta Anos Esta Noite).

Mainardi tem de Francis o seu pior. Polemiza usando como armas argumentos imprecisos e sem fundamento, apesar da sua inegável erudição. É que talvez lhe falte o talento que sobrava no outro. Ironia sem substância acaba se resumindo a leviandade. Tenho em casa um de seus romances, Malthus, que li até a metade. Fraco. De qualquer modo, o que me incomoda em seus artigos não é o que ele publica, e sim o discurso das entrelinhas. Mainardi, me parece, não quer atingir Chico Buarque por aquilo que ele escreve, mas pelo que pensa: o autor de A Banda defende entre outras coisas o regime castrista de Cuba – algo abominável para Mainardi, e para mim também. Daí a chamá-lo de “buzinador das letras”? Para quem cresceu ouvindo Chico cantar – e ainda criança descortinava, mesmo que superficialmente, os sentimentos dilacerantes ocultos nos versos de Pedaço de Mim e Angélica –, esse epíteto soa como um mero disparate.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Das barricadas ao puritanismo



Outro dia, como sempre gosto de fazer nos finais de noite, fiquei conversando com minha filha até ela dormir. Falávamos, entre outras coisas, dos seus amigos e amigas de escola, e ela me contou, usando suas palavras, que há um muro invisível separando meninos e meninas, com algumas exceções. Sua justificativa para isso foi certeira: “Os meninos só fazem correr, brigar e xingar”. É claro que nos próximos anos os hormônios em profusão e as mudanças de comportamento farão com que os dois sexos, para meu desespero de pai, venham a se aproximar. Mas a afirmação de minha filha deixa claro – e aí entra uma questão bem mais grave do que um tolo ciúme paterno – que há uma mudança em curso no comportamento dos meninos e adolescentes brasileiros.
O ambiente juvenil é e sempre foi violento, um lugar hostil para almas sensíveis ou corpos franzinos, e não é fácil sobreviver a ele sem seqüelas. Mas nunca vi tamanha agressividade como tenho observado nos últimos tempos. Algo que se pode confirmar numa pesquisa recente, na qual, se não me engano, 87% das adolescentes entrevistadas relataram ter sofrido agressões de seus namorados, que vão de tapas no rosto a título de “brincadeira” até socos movidos por ciúme. É um número por si só estarrecedor, mas que desvela problemas ainda mais sérios, como desagregação familiar causada por alcoolismo, violência doméstica, abusos sexuais e aniquilamento sistemático de preceitos éticos e morais básicos.
O resultado de tudo isso é uma terra devastada, onde um jovem mata a ex-namorada de 15 anos com um tiro na cabeça. A justificativa? Não conseguia viver sem ela. Ou onde um grupo de rapazes voltando da farra espanca uma moça num ponto de ônibus por diversão. A justificativa? Pensavam que era “uma puta”. E desde quando uma puta merece ou precisa ser espancada? Só um cenário assim poderia desaguar naquele episódio da garota que, por chegar para a aula na faculdade usando um microvestido, foi agredida, xingada e quase estuprada por 700 alunos ensandecidos. A justificativa? A roupa não era adequada. E qual roupa seria adequada? Uma burca? De onde veio esse neo-puritanismo repentino praticado por gente com uma idade que, em outros tempos, levantava barricadas, saía as ruas contra ditaduras e queria mudar o mundo? Ao que parece, a herança dos anos 60 foi totalmente pulverizada. Por onde andam Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Allen Ginsberg, Bob Dylan e aquele bando de ripongas pelados que praticava o amor livre e pregava a igualdade entre os sexos? Sumiram sem deixar marcas no nosso país tropical abençoado por Deus. Ou seja: voamos sem escalas do conservadorismo dos anos 50 para o puritanismo estulto e sexista dos anos 2000. E, como sempre, não aprendemos nada com o passado.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Uma rajada de balas


Durante muito tempo ouvimos dizer que as cinematografias do Brasil e dos Estados Unidos reproduziam na tela as obsessões de suas respectivas sociedades. Enquanto a América dissecava a violência, nós nos dedicávamos a glorificar a safadeza. Enquanto eles tinham Dirty Harry, Bonnie & Clyde e aqueles impiedosos desejos de matar do Charles Bronson (depois substituído por Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Jean-Claude Van Damme), a gente se deliciava com as estripulias inconseqüentes de Vadinho em Dona Flor e seus Dois Maridos, a ninfomania traumática de Sonia Braga em A Dama do Lotação ou o liberou geral de Rio Babilônia. Um tempo bom, sem dúvida. Mas um tempo que acabou.

Hoje a realidade é outra, e o Brasil que se vê na tela reflete o Brasil que se vê nos jornais e na rua. Cultuamos a violência com um grau de brutalidade que nem o discurso fascista de Tropa de Elite ou a radiografia certeira de Cidade de Deus são capazes de dar conta – e suponho que nem Salve Geral, recém-indicado a uma vaga no Oscar, também seja. Há milhares de Capitães Nascimentos espalhados pelas grandes cidades, mais ou menos corruptos, mais ou menos truculentos. Assim como há milhares de Zé Pequenos promovendo execuções em massa nas favelas, dando forma a um cenário tosco, sem resquícios de um certo romantismo que em outros tempos embalava produções como Pixote ou Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. Não há mais causas ou conseqüências, apenas o ato em si, abjeto e sem sentido.

Por mais que o cinema brasileiro contemporâneo tente reproduzir a realidade de forma verossímil, falta desvelar o principal – que talvez apenas Sergio Bianchi, em seus delírios niilistas, tenha percebido: o estado de coisas em frangalhos que presenciamos todos os dias é resultado direto das atitudes e posições equivocadas que tomamos ao longo de décadas. Um exemplo prático: tivemos, há cerca de quatro anos, a oportunidade de desarmar a população, mas optamos por manter os cidadãos de bem com armas em casa, no carro e na cintura. O resultado está aí, bem à nossa frente: os tais cidadãos de bem matam por quase nada em discussões de trânsito ou brigas de bar, por não aceitarem fechadas, buzinas ou olhares indiscretos em direção a seus pares. É uma gente estúpida e amoral, que cultua fuzis AR-15 e submetralhadoras Uzi, vibra com os combates do UFC e venera carros tunados. Traficantes e policiais são de certa forma espelhos dessa gente, com suas rajadas de balas que matam mulheres e bebês e transformam o cotidiano de gente comum num filme de terror B, sem final feliz ou morte do vilão.

sábado, 24 de outubro de 2009

Cem páginas de solidão


Escrever é uma forma de renúncia. Com raras exceções, um autor necessita – além de talento, concentração e disposição para o trabalho – da mais vasta solidão para se embrenhar nos desvãos da própria mente e voltar à tona com quilos de palavras meticulosamente enfileiradas. Como numa pesca submarina, ou melhor, como num sono profundo, no qual a permanência prolongada na zona abissal do inconsciente é responsável pelos sonhos e pesadelos mais complexos e devastadores. Um mundo arrebatador, sem dúvida, mas a que custo? O que a solidão oferece ela tira em dobro, e sabemos que a solidão vai mudando de sabor e textura à medida que envelhecemos. Num dos meus momentos de maior solidão – justamente o momento em que cheguei mais próximo de me tornar um escritor – pus na boca do personagem de um romance inacabado a seguinte observação: “Solidão é uma praga. Quando a gente é jovem, ainda acha que ela tem um sabor agridoce. A partir dos trinta a solidão se torna amarga. Aos sessenta, que é o meu caso, o gosto é pior que o de cocô”. A frase é dita por um escritor bissexto e recluso ao principal personagem do livro, um jovem jornalista que trabalha na editoria de cultura do maior jornal de São Paulo e aspira se tornar um novo Scott Fitzgerald.
Esse livro, que se chama Puppy, começou a ser escrito entre agosto e outubro de 2002, e nunca consegui terminá-lo. Ele tomou forma quando passei quatro meses em Fortaleza, trabalhando na campanha política de um dos candidatos a governador do Ceará. Fui sozinho, deixando minha mulher e minha filha em Salvador, e nos últimos dois meses praticamente não havia mais trabalho. Tinha que ficar de sobreaviso caso meus serviços – era uma espécie de repórter investigativo que fuçava os podres dos adversários – fossem novamente requisitados, o que se tornou cada vez mais raro. Sozinho num flat que ficava de frente para a praia de Mucuripe, no 12º andar, eu passei a me dedicar à construção do Puppy (o título é uma homenagem ao barzinho que considerava meu paraíso particular quando morava em São Paulo, e onde tinha cadeira cativa e uma cerveja invariavelmente gelada à minha frente). Tinha basicamente tudo de que precisava em mãos para me tornar eu mesmo um novo Scott Fitzgerald (exceto o seu talento, obviamente): notebook, cigarros – que comprava a qualquer hora da madrugada na barraca de praia à frente do edifício –, uísque e uma solidão avassaladora, acentuada pela saudade. Costumava começar lá pelas 10 da noite e trabalhava até cinco, seis da manhã. Uma vez fui até as onze horas sem parar. Posso dizer que era uma experiência agradável ficar na varanda escrevendo e de vez em quando desviar a vista para observar os madrugadores caminhando no calçadão, o céu se impregnar pouco a pouco das cores do novo dia e as velas do Mucuripe, ancoradas ali na frente, protegidas por uma barra, saírem para pescar, levando suas mágoas para as águas fundas do mar. Em dois meses, cheguei às cento e dez páginas do Puppy, um romance de arquitetura um pouquinho complicada, pois precisava dar conta de quatro personagens, todos eles com voz em terceira pessoa, mesclando fluxos de consciência com sutis observações do narrador. Em maior ou menor medida, Matheus, Renato, Bóris e Daniel eram inspirados em colegas da faculdade de jornalismo da Cásper Líbero e, principalmente, em mim mesmo. Apesar de ficção, havia muito conteúdo autobiográfico ali, o que representava um desafio adicional: até onde a ficção deveria ser sobrepujada pela realidade? A tendência era invariavelmente apelar para a narrativa memorialística, deixando de lado a criação propriamente dita.
Mas, enfim, o fato é que passados os dias em Fortaleza, voltei ao convívio da minha família e consegui retomar o trabalho no jornal, de onde só fui sair em 2007, e um ano depois entrei na agência de propaganda onde estou hoje. Infelizmente, não consegui retomar o Puppy, por mais que tenha escrito um ou dois capítulos, depois perdidos quando meu computador quebrou. Algo ficou pelo caminho, e não me senti disposto a voltar aos dias de solidão. Seria um custo alto demais a pagar pela conclusão do romance, que está aqui arquivado há sete anos, esperando ser retomado. Quem sabe um dia, quando minha filha deixar de entrar no meu gabinete para conversar comigo e interromper meus textos ou minha leitura, me enchendo de uma alegria terna e silenciosa, eu volte e finalmente o conclua. De vez em quando, releio alguns trechos, mexo em outros e no geral aprecio o que tem ali, embora saiba que se trata ainda de um trabalho em progresso, um prédio sem acabamento e com tijolos faltando, muito longe da entrega das chaves.

sábado, 17 de outubro de 2009

A incompletude do desejo


Ao amor – e, por conseqüência, à felicidade – não é dada a possibilidade de ser vivido em plenitude. Em Desejo e Perigo, como antes em O Segredo de Brokeback Mountain, Ang Lee enxerga as relações humanas como engrenagens defeituosas, formadas por peças que não se encaixam umas nas outras. Ou talvez como avassaladoras forças da natureza situadas em campos opostos e contidas por uma barreira sólida e intransponível. Na relação entre Ennis Del Mar e Jack Twist, a incompletude do amor se dava pela incapacidade de superar o preconceito – não apenas de uma sociedade reacionária e brutalizada, mas também do próprio íntimo.

Em Desejo e Perigo, a barreira é a história, a caudalosa história da civilização, que traga qualquer individualidade e une e separa o senhor Yee e a jovem Wong, durante a ocupação japonesa na China, na Segunda Guerra Mundial. Yee faz parte do alto escalão do poder colaboracionista, que tem como principal função reprimir focos de rebelião contra os invasores e matar sem compaixão compatriotas envolvidos na luta armada. Um canalha, em suma, mas também um peixe grande, que deverá ser pescado pela espiã Wong, integrante de um grupo de estudantes ligados ao movimento subversivo.

Essa é a grande história. A pequena, que realmente interessa a Ang Lee, é a do desejo arrebatador, que vem antes do amor e é seu principal combustível. Yee e Wong estão em lados contrários no espectro político, mas quando se juntam são carne em brasa. Para ele, o sexo é uma espécie de libertação. Penetrar, praticamente violentando a amante, arrancando dela sangue e gritos, faz com que se sinta vivo e deixe por um breve tempo o lamaçal cotidiano no qual está permanentemente imerso. Não há alma em Yee, talvez apenas um espírito retorcido, esmagado pela brutalidade, mas que renasce com a chegada de Wong. Para ela, o sexo é um abismo, mas igualmente libertação: da rotina sem perspectivas, da ausência paterna, do olhar niilista sobre a vida.

Louis Malle também já havia tratado da insanidade do desejo em Perdas e Danos, e Bertolucci tangenciou o assunto em O último Tango em Paris. Em todos, fica a certeza da incompletude. Não há futuro possível para Yee e Wong, para além das convenções sociais. São inimigos, e se ele a destrói fisicamente, ela corrói os resquícios de espírito que ainda se manifestavam nele. A chama se extingue. Dali por diante, Yee não será mais capaz de se emocionar com uma canção de amor entoada para ele pela mulher amada, nem de esboçar ternura ao vê-la colocando um diamante no dedo. Será um homem oco, cujo único propósito será matar, matar e matar. Até a grande história se voltar novamente contra ele, com a derrota japonesa e o fim da grande guerra.

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Desejo e Perigo não seria o magnífico filme que é sem seus protagonistas. Conhecia Tony Leung de Amor à flor da pele, Herói e outros trabalhos, e já tinha me dado conta de que é um ator na acepção clássica do termo. Mas Yee é uma construção soberba, e seria um reducionismo atroz defini-lo como um vilão. Há uma espantosa diversidade de sentimentos – terríveis e sublimes em igual medida – latejando por debaixo do seu olhar, como que pedindo para sair. Já Wei Tang – uma veterana em seu longa de estréia – dialoga de igual para igual com Leung, fazendo com que a escalada de Wong da inocência ao desalento comova e se insira de forma permanente em nossa memória. Regendo os dois, um diretor que merece respeito e admiração.

***

Segue abaixo crítica de O segredo de Brokeback Mountain publicada no Correio da Bahia na época do lançamento do filme:


Um estudo sobre a infelicidade
Ang Lee imerge no amor impossível entre dois cowboys em ‘O segredo de Brokeback Mountain’
Paulo Sales
Há uma cena que simboliza de forma exemplar o sofrimento vivido pelos homens de O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, EUA, 2005). É quando Jack Twist (Jake Gyllenhaal) sugere a Ennis Del Mar (Heath Ledger) que eles poderiam ser felizes juntos, tocando a vida num rancho cheio de animais. Só os dois. Ennis rebate. Diz ser impossível. E lembra que, quando criança, foi levado pelo pai para ver um sujeito ser morto de forma violenta por ser homossexual e morar com o companheiro num rancho. Por fim, diz ao amante que não há muito o que fazer, que eles precisam continuar se encontrando secretamente, enquanto suas vidas desmoronam.
Quando esse encontro acontece, já na metade final da narrativa, Ennis e Jack são homens de meia-idade, casados e com filhos. Apaixonaram-se muito antes, ainda jovens, quando pastoreavam ovelhas na montanha Brokeback. Ao idílio inicial se seguiram a separação, os casamentos e as vidas em paralelo, intercaladas por encontros furtivos. Mais do que um romance gay ambientado no coração da América rural dos anos 60, o filme de Ang Lee é um estudo sobre a infelicidade. Ou, para ser mais preciso, sobre a impossibilidade do ser humano de encontrar, na sua curta passagem pela Terra, momentos que signifiquem algo além do nascer, crescer, envelhecer e ir embora.
Lançado inicialmente em poucas salas nos Estados Unidos, O segredo de Brokeback Mountain foi aos poucos conquistando o público, inclusive nos bolsões mais conservadores do país, a mesma região onde a trama é ambientada. Há uma provável razão para esse êxito: o filme é profundamente americano. Nele, se revela a América da música country, dos rodeios, da vastidão e das belas paisagens solitárias, desbravadas por homens rudes e mulheres submissas.
Não há espaço para o amor de Ennis e Jack nesse lugar. Um amor que se manifesta fisicamente, como na primeira separação, quando o personagem de Ledger se contorce de dor nas entranhas e esmurra uma parede por não conseguir reprimi-la. Marcados por uma infância de carências afetivas e materiais, ambos se vêem obrigados a construir uma imagem de masculinidade e autonomia que se torna insustentável com o passar dos anos. Casado com Alma (Michelle Williams, mulher do ator também na vida real) e pai de duas filhas, Ennis tem seu segredo logo descoberto pela esposa, que demonstra imensa dificuldade em lidar com a situação, agravada pelas dificuldades financeiras do casal.
Jack teve um pouco mais de sorte, ao menos no aspecto econômico, ao se casar com a filha de um homem rico e arrogante, que o trata como um serviçal. Fracassou como cowboy de rodeio e seu casamento é também um malogro, embora não tanto quanto o do amante. Mas, à medida que os dois precisam lidar com a própria homossexualidade, incluindo explosões de virilidade sempre que são feridos, fica evidente o quanto são frágeis. Sufocados por um amor que não ousa dizer o nome, para usar as palavras de Oscar Wilde, Ennis e Jack acabam confinados à amargura e ao desalento.
O afeto é a principal argamassa utilizada por Ang Lee para edificar sua história, baseada em conto da norte-americana E. Annie Proulx. Seu olhar sobre os conflitos vividos pelos cowboys é invariavelmente revestido de ternura e compreensão. Com esses elementos, o cineasta taiwanês subverte a mitologia criada ao longo de décadas em torno do western, assentada na bravura, na vingança e na lavagem da honra com as próprias mãos. Mesmo ambientado na segunda metade do século 20, quando a revolução sexual promovida pelo movimento hippie começava a invadir as grandes cidades da América, O segredo de Brokeback Mountain é embebido da atmosfera do gênero que celebrizou John Wayne. O país que se vê no filme está bem mais próximo dos tempos da conquista do oeste selvagem que do psicodelismo dos centros urbanos.
Parte dessa atmosfera se deve à soberba fotografia de Rodrigo Prieto, que capta as majestosas paisagens do Canadá, onde o longa foi rodado (substituindo o Wyoming original). Jake Gyllenhaal está impecável. Totalmente amparada no olhar, sua atuação é tão intensa que eclipsa o trabalho de Ledger. Este recorreu a uma interpretação de caráter naturalista, popularizada pelo lendário Actor’s Studio, a mais conceituada escola para atores dos EUA. É impossível não perceber semelhanças com o trabalho de Marlon Brando (principal cria da entidade fundada por Elia Kazan) em O poderoso chefão, sobretudo na fala engasgada. Mas com a diferença de que o discípulo dificilmente atingirá a estatura do mestre.
O tema da homossexualidade já havia sido tratado por Ang Lee - com o mesmo grau de sutileza, embora de forma mais amena - em O banquete de casamento. Outros filmes do diretor, como Razão e sensibilidade, Tempestade de gelo e mesmo um trabalho de entretenimento como Hulk, também imergiam, em maior ou menor medida, na inadequação dos personagens ao meio em que viviam. Mas O segredo de Brokeback Mountain vai mais longe. A frustração, o desnorteio e a desesperança de Ennis e Jack produzem um travo amargo. Principalmente porque deixam claro que na vida, ao contrário do que se pode pensar em instantes de felicidade passageira, não existe espaço para a redenção.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Receita para fazer um vilão


Acabo de ler uma reportagem que relata os crimes de Hildebrando Pascoal, aquele sujeito que lá no Acre tinha o costume de se armar de uma motosserra para dar cabo de seus desafetos ou qualquer um que cruzasse indevidamente o seu caminho. A trajetória de Hildebrando é exemplar: nos anos 80, ele comandou um grupo de extermínio responsável por mais de 60 assassinatos no estado – foi nessa época que se diplomou com louvor no curso de operador de motosserra – e pouco depois já manejava seus tentáculos por todo o poder público acreano, além de diversificar seus negócios com o tráfico de drogas. Isso antes de ser eleito deputado federal, o que acabou coroando uma carreira em franca ascensão. Mas depois de todo auge vem a derrocada: hoje ele está preso, e a soma de suas penas chega a 106 anos. Entre tantos crimes, o mais conhecido foi o assassinato de um homem inocente e de seu filho de 13 anos. Repito: 13 anos. Para isso, utilizou seu instrumento favorito, com o qual amputou braços, pernas e pênis. Não foi tudo: o homem ainda teve os olhos arrancados e um prego enfiado na testa, antes de receber no mínimo quatro tiros na cabeça. Sua viúva, que testemunhou contra Hildebrando no Tribunal do Júri do Acre, vive escondida com os outros filhos do casal em paradeiro desconhecido, após ter fugido apavorada de Rio Branco. Não reproduzo esses detalhes por prazer mórbido, mas para tentar exorcizar o sentimento de impotência e indignação que me toma como uma febre. E, também, para repensar minhas convicções e dividi-las com quem lê este texto. Afinal, o que merece um homem assim? Devemos nos igualar ao nobre deputado Hildebrando e cortá-lo em pedacinhos? Matá-lo com instrumentos perfurocortantes em meio a um discurso verborrágico, como um personagem de Tarantino? Deixar que apodreça na cadeia? Ou aceitar passivamente que no Brasil as leis só permitem a um condenado passar no máximo três décadas encarcerado? Deixo com vocês.
O que mais me intriga em casos como o de Hildebrando Paschoal é de que forma pessoas como ele – estúpidas, embrutecidas e intrinsecamente más – conseguem acumular tamanho poder, afora o fato de exercerem o terror em escala industrial como estratégia de intimidação. A verdade é que o mal seduz e inebria, e a trajetória humana sobre a Terra está aí para comprovar isso. Ou que outra justificativa haveria para que milhões de seres humanos aceitassem passivamente que um homem, apenas um, ordenasse e pusesse em prática um genocídio? Com sua motosserra covarde, Hildebrando é apenas uma piabinha no oceano habitado por grandes vilões da civilização, que tem em Hitler o mais corpulento dos leviatãs que já singraram esses mares. Hitler, porém, não está sozinho. Nem preciso ir até a estante e consultar um livro intitulado Tiranos para citar de cor nomes como Pol Pot, Pinochet, Stálin, Milosevic, Hussein e Idi Amin, para ficar apenas no século 20 e nos mais altos postos de comando. Como eles chegaram a tanto? E, numa escala reduzida (não de perversidade, obviamente), como Hildebrando pôde chegar a tanto, mesmo matando, torturando, aterrorizando e intimidando tanta gente? Ou seria exatamente por isso que ele chegou a tanto? Não há um padrão, um molde preciso para o êxito do mal, embora a apatia, a indiferença e o medo sejam talvez os principais ingredientes dessa receita – ingredientes fartos na maior parte do mundo, vale ressaltar. Enfim, as perguntas que me faço a cada dia, a cada novo fato repulsivo que salta dos jornais e das telas de computador, são sempre as mesmas. De onde vem o mal? Qual é a sua natureza? Como ele se processa em nossos corações e mentes? Que tipo de centelha permite que ele deixe o estado latente e se manifeste? Por que é tão poderoso? Penso que nem Hildebrando, no exato momento do abate de inocentes, seria capaz de respondê-las.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Companheiros de geração


Cazuza tinha 32 anos quando morreu, em 1990. Eu estava com vinte na época, e ter 32 anos me parecia algo remoto, como um ponto vagamente luminoso no céu escuro. Renato Russo morreu em 1996, aos 36 anos. Eu estava com 26 e, mesmo nessa época, ter 36 anos me parecia algo distante, como um lampejo do que queríamos ser quando éramos adolescentes. Mas agora, ao ler o texto de um amigo sobre John Lennon, me dei conta de que ele morreu aos 40 anos. E esse número não me remeteu a um ponto vagamente luminoso ou mesmo a um lampejo do passado. Lennon morreu com a idade que terei daqui a quatro meses. Percebo então, com a clarividência dos ignorantes, o quanto somos novos, por mais que o relógio insista em dizer a cada segundo, como num filme de Mario Peixoto: “Menos um, menos um, menos um”. Quase três décadas após sua morte, nos tornamos enfim, Lennon e eu, companheiros de geração. Enquanto eu dei a sorte de caminhar sem olhar para trás, as quatro balas que se alojaram em seu corpo fizeram dele uma estátua de sal, como na maldição divina imposta à mulher de Ló, que se virou para contemplar a Sodoma destruída.

Lembro de uma cena em Antes do Amanhecer que até hoje me comove: é quando Céline está com Jesse num cemitério em Viena que ela havia visitado quando criança, e lá vê o túmulo de uma garota morta aos 13 anos. Enquanto Céline chegou aos 20, a garotinha permanece com 13. Ou seja: algo muito precioso lhe foi roubado. Como foi roubado de Lennon quando Mark Chapman descarregou o revólver em cima dele. Já escrevi aqui no blog uma bela frase de Scott Fitzgerald, na qual ele diz: “Aos 18 anos, nossas convicções são colinas de onde contemplamos o horizonte; aos 45, são cavernas em que nos escondemos”. Bem, vou fazer 40 anos, e ainda não me vejo encerrado numa caverna, embora as minhas convicções estejam em grande parte sedimentadas de forma definitiva num maciço geológico. Duvido que tenha sido diferente com Lennon. Em dezembro de 1980, pouco antes de se virar para atender ao chamado do seu assassino, o mundo devia se apresentar para ele como um sofisticado e bem equipado laboratório de experiências existenciais. Ou, para ser mais direto, um lugar do qual ele não gostaria de se despedir tão, mas tão cedo.

sábado, 3 de outubro de 2009

Plenitude

A lua gorda e branca banhando o meu corpo, a rede e a varanda neste início de noite. O vento frio nos meus pés e no meu peito. Um avião passando com luzes vermelhas e azuis. A lembrança de um período particularmente feliz da minha vida. E a voz de anjo de Teresa Salgueiro cantando: “Eu tenho um amor bem escondido, num sonho que nem sei contar, e guardarei sempre comigo”.

“À vida falta uma porta”


É possível entender a morte como uma conseqüência da vida. Um curso tão natural quanto o do rio que deságua numa cachoeira ou no mar, se perdendo a partir daí. Essa passagem compulsória que todos fazemos de um estágio para o outro – um plano superior para a maioria, o nada para uns poucos – é tratada com placidez e a delicadeza inerente aos orientais em A Partida. Não que o filme de Yojiro Takita descarte a catarse que acompanha o dramático ritual de despedida entre os que ficam e os que vão. Ela está lá, claro, mas não se constitui num estorvo, e sim num processo de autoconhecimento e descoberta de sentimentos obscuros, trancados há muito tempo em algum canto de nós. O deparar-se com a morte se torna, enfim, uma espécie de compreensão silenciosa da condição humana, e é legítimo pensar a vida como uma epopéia particular com início, meio e fim.

Mas, então, o que pensar quando a epopéia não se completa? Quando a vida é abruptamente retirada de um corpo ainda em formação e não preparado, portanto, para o fim? Toda a harmonia que poderia existir se pulveriza quando há uma ruptura no curso natural das coisas. Ao ler nos jornais tantos casos de assassinatos, muitos deles envolvendo crianças como o bebê baleado em Osasco, sinto um irreprimível sentimento de vazio, de ignorância em relação à minha condição de ser vivo. Como um improvável Silvio Brito eu grito em silêncio: pare o mundo que eu quero descer. Olho o meu corpo, as mãos que escrevem este texto, as veias sob a tênue camada de pele, os pelos, a respiração, a textura do rosto. Está tudo aqui, mas um dia vai sumir, junto com a minha consciência. Como entender e, principalmente, aceitar isso? Afinal, eu não sou um rio.

Ferreira Gullar já escreveu que “não há soluço maior que despedir-se da vida”. É o nosso choro mudo, nossa revolta derradeira. Gullar diz muito mais. Diz que “à vida falta uma porta” ou que “onde a vida cessou começa o abismo”. Muito mais velho e sábio do que eu, ele tateia da mesma forma no escuro, buscando uma explicação, ínfima que seja, para a tragédia de se extinguir. E – talvez por ignorância ou pela incapacidade de pensar como um oriental – ele também não consegue enxergar beleza na ausência.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bonzinhos e maldosos


Nada como uma sociedade reacionária e estulta para permitir o florescimento de anomalias comportamentais e culturais. No caso específico da nossa era, uma dessas anomalias é a disseminação do politicamente correto. Vivemos uma avalanche de conservadorismo e pretenso bom-mocismo, e é nesse território pálido e amorfo – e, por isso mesmo, confortável – que germina o excesso de pudor, minando o surgimento e o intercâmbio de pensamentos originais e radicais – no bom sentido, é claro. Philip Roth reflete sobre isso de forma aguda em A Marca Humana, sobre um professor decano de uma universidade tradicional americana que é demitido após se referir a dois alunos faltosos como “spooks”, termo que em inglês significa tanto “fantasmas” quanto “negros”. Um detalhe: ele não sabia que os alunos eram negros nem que a expressão tinha esse segundo significado.

Mas não queria ficar aqui apenas condenando o politicamente correto, e gostaria de tentar entender o processo que levou à sua proliferação. Deve-se, antes de tudo, tratá-lo como um legado amargo do século 20 – e, em menor medida, dos séculos que vieram antes dele. Por mais hipócrita que seja, todo esse cuidado no trato com a diferença e as minorias talvez seja uma pedido inconsciente de desculpas. Ou seja, tentamos reparar com eufemismos o que fizemos com balas. É difícil concordar com a prática de evitar ou censurar expressões como “humor negro” ou “judiar” para não ferir suscetibilidades das etnias a que elas remotamente se referem. Mas, de certa forma, essa prática não é compreensível?

Por outro lado, a aversão ao politicamente correto vem provocando um efeito colateral igualmente indesejável: apreciar tudo que vai de encontro a ele. Como se ser politicamente incorreto – incluindo aí emitir opiniões racistas, sexistas ou puramente polêmicas, mesmo que vazias – fosse um antídoto para a mesmice, um comportamento de guerrilha contra o status quo. Esta semana, li no blog do repórter Geneton Moraes Neto uma entrevista com o historiador Paul Johnson, na qual ele desfila uma sucessão de sandices sobre tudo quanto é assunto, de religião a arte moderna. Ao ler os comentários dos leitores, vi que quase todos saudavam Johnson como o legítimo combatente de uma cruzada contra o politicamente correto. E por quê? Porque ele disse, entre outras coisas, que Picasso foi um artista medíocre por ter sido stalinista, e que sua obra não tinha um propósito moral, como toda arte deve ter. Mas por que toda arte deve ter um propósito moral? Um propósito estético certamente, mas um propósito moral?

Engraçado que o blog traçou um paralelo entre Johnson e o finado jornalista Paulo Francis, pela forma como ambos expressam suas opiniões polêmicas de forma destemida, enfrentando a tudo e a todos. Bobagem. Francis foi um excelente articulista, capaz de tratar de temas espinhosos com um coloquialismo sedutor, e foi também um memorialista arguto e sensível, como se pode comprovar em O Afeto que se Encerra e Trinta Anos Esta Noite, dois livraços. Isso era o que ele tinha de melhor (o que é muito), e não a tendência a emitir de tempos em tempos opiniões descabidas e preconceituosas que minavam sua credibilidade. Vejo uma coisa parecida na forma como alguns cronistas saudam um filme como Brüno, de Sacha Baron Cohen, que seria um petardo contra o politicamente correto. Petardo? Qual o valor prático de fazer piadinhas gratuitas sobre autismo e discriminação racial? O pior é que o filme ainda é chato, bobo e extemporâneo – o pessoal do Planeta Diário e da Casseta Popular fazia o mesmo com mais competência vinte anos atrás. Enfim, para ter incorreção é preciso ter substância, ou ficamos apenas na vala comum da ofensa gratuita.

sábado, 26 de setembro de 2009

Devoção


Aos 16 anos eu ansiava por inconformismo. Buscava nos livros algo que referendasse intelectualmente o meu pendor incipiente pelo discurso de igualitarismo do mundo em vermelho – mundo que se esfacelaria de vez um punhado de anos mais tarde, levando a reboque minhas tolas aspirações. Foi por essa época e com esse objetivo que encontrei Bertolt Brecht. Não o dramaturgo, mas sim o poeta, que acabou camuflado pelo êxito de peças como A Ópera dos Três Vinténs e O Círculo de Giz Caucasiano. Brecht foi uma revelação para aquela mente adolescente. E o curioso é que não foram seus poemas engajados que me pescaram, mas os outros, aqueles poucos que habitam o início e o fim de uma alentada antologia lançada pela Brasiliense, que abarcava os anos de 1913 a 1956, quando ele partiu para seu exílio derradeiro. Esses versos eram arrebatadores, atulhados de lirismo e movidos por um senso de justiça muitas vezes ingênuo – como o meu de então. Passei a escrever como Brecht (o que percebo nitidamente quando releio meus poeminhas de juventude) e falava dele para meus amigos com um entusiasmo religioso.

Engraçado como quase esqueci tudo isso. Durante muito tempo, o máximo que li do livro foi sua lombada, ao me deparar acidentalmente com ele enquanto procurava outro volume na área dedicada à poesia. Até que na semana passada resolvi tirá-lo do abandono e dar uma folheada carinhosa nele – agora com as páginas empalidecidas e empoeiradas – como se fosse um velho álbum de retratos. E por incrível que pareça, consegui enxergar a mim mesmo, aos 16 anos, enquanto consumia as páginas com um misto de espanto e revelação. Novamente, passei ao largo dos poemas com títulos grandiloqüentes – “Quando o Pintor Fala Sobre a Paz Através dos Auto-Falantes”, “Trezentos Cules Assassinados Depõem a uma Internacional”, “Perguntas de um Trabalhador que Lê” – e me fixei no resto:

“Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!”
(“A Minha Mãe”)

Ou

“Agora minha mãe morreu, ontem no fim de tarde,
dia 1º de maio! Não é mais possível arranhá-la com as
unhas.”
(“Canção de Minha Mãe”)

Ou

“Numa noite fria, nessa terra crua
Cada qual leva a morte que é sua.
Cada homem certamente amou a vida
Coberto por palmos de terra batida.”
(“Da Amabilidade do Mundo”)

Mas mesmo entre os poemas ditos revolucionários existem coisas lindas. Como A Despedida, por exemplo:

“Nós nos abraçamos.
Eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
Permanente amizade.
Todo o resto
Seria amargo demais.”

Reconheço que não há, nem nos trechos acima nem em nenhum outro poema do livro, um grande verso. Brecht não foi um Eliot, muito menos um Pound. Sua poesia não é ourivesaria e nem pretende ser. Mais do que lapidar versos, seu objetivo sempre foi lapidar consciências, e talvez por isso tenha sido tão importante num período crucial da minha vida. Passados mais de vinte anos, deixei de lado conceitos como mais-valia, dialética e materialismo científico (se é que algum dia realmente os levei a sério ou os entendi direito). Mas, felizmente, não deixei de lado a capacidade de me assombrar, de sentir uma navalha cruzando meu coração ao ler um verso como “Sabemos que somos fugazes. E depois nada virá, somente poesia”.

Agora os poemas de Brecht voltarão à estante. Para, quem sabe, daqui a vinte anos eu me deparar com uma nova epifania.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Onde estará Maurício Ribeiro?


Você está dormindo sossegado com sua mulher em seu quarto. Quem sabe sonhando com uma promoção no emprego ou uma praia deserta, sentindo inconscientemente a maciez do travesseiro no rosto e o conforto do colchão king-size recém-comprado suportando bem o peso do seu corpo. Lá pelas cinco e meia da manhã, o dia começando a dar as caras, vocês acordam sobressaltados ao ouvirem a porta do quarto ser arrombada. Em seguida, entram vários homens armados com pistolas e metralhadoras que passam a ameaçá-los violentamente, perguntando por um tal de Maurício Ribeiro. Você conhece algum Maurício Ribeiro? Nem eu. Assim como um casal que mora no Bairro no Paz (uma das muitas favelas de Salvador dominadas pelo narcotráfico) também não conhece. Mas, ao contrário de mim e de você, que acordamos hoje com uma preguiça gostosa e levantamos para trabalhar, esse casal teve realmente a casa e o quarto arrombados por um grupo de homens truculentos, que perguntavam a todo instante sobre o tal Maurício Ribeiro. Com um detalhe: esses homens, devidamente uniformizados, estavam ali numa missão chancelada pela Secretaria de Segurança Pública. Não eram ladrões ou traficantes.

O que aconteceu com esse casal, que não quis se identificar ao dar seu depoimento para a repórter de um jornal local, desvela um pouco – mas só um pouco – da guerra civil de proporção quase africana em que vivemos. Uma guerra na qual as trincheiras são os amontoados de casas com tijolos aparentes que insistem em aparecer em todos os cantos da cidade. "Nunca fomos assaltados no bairro e somos vítimas de uma violência cometida pela própria polícia", desabafa a moça que teve a casa invadida, dando a deixa para a gente se perguntar: é justo viver assim? Ou melhor, é humano viver assim? Que inversão de valores é capaz de produzir tamanho disparate? Mesmo levando em conta que policiais vivem um cotidiano permeado por situações-limite, são mal pagos, mal aparelhados, mal treinados e malvistos pela população, como entender um procedimento assim, ainda mais em se tratando de uma regra, não de uma exceção?

Quando isso acontece os valores se pulverizam. Se aos olhos de um menino da favela o policial é o bandido, então sua visão de mundo se distorce, e não há senso de justiça plausível, a não ser o da bala disparada, não importando em qual corpo ela venha a se instalar. Numa realidade assim, a tragédia de ser pobre não é ter que se virar diariamente para pagar a conta do mercadinho, arrumar emprego ou conseguir um teto. É ter que negar o tempo todo, para si mesmo e para os outros, que ele não é um bandido. Pobreza não é sinônimo de má índole, embora, num lugar onde elas andam geograficamente irmanadas, seja cômodo pensar assim. Ao menos facilita a vida de quem vai invadir a favela à procura de traficantes. Enfim, é nessa cidade que vivemos. Uma cidade que se assemelha a um gigantesco depósito de pólvora a céu aberto. E – basta lembrar do que aconteceu em Santo André na manhã de ontem – a gente sabe bem o que pode acontecer quando se estoca muita pólvora num só lugar.

domingo, 20 de setembro de 2009

Devastação


O que se vê em Lóki é basicamente uma trajetória clássica de ascensão e derrocada, seguida de um tardio esboço de redenção. Mas o que mais me impressionou no documentário de Paulo Henrique Fontenelle, a que só fui assistir ontem, foi a forma brutal e abrupta com que a juventude se viu extirpada da vida de Arnaldo Baptista. As imagens são dilacerantes: primeiro o garoto expansivo, brincalhão e curioso, novo e ingênuo demais para enfrentar as engrenagens que movem o meio musical e incapaz de abarcar as contradições da época em que vivia – no caso, a de um país assolado pela truculência. E depois, quando o fim do relacionamento com Rita Lee e o mergulho estúpido no ácido lisérgico fulminaram a sua inocência, um rapaz ainda novo demais, só que agora devastado pela tristeza e tragado pela insanidade.
A cisão entre esses dois Arnaldos, separados por um curtíssimo espaço de tempo (embora semelhante a uma pequena eternidade), é o cerne do filme. Ninguém prossegue incólume após perder a juventude de uma hora para outra. Precisamos de um processo lento e contínuo, no qual as experiências dos primeiros anos vão sendo sedimentadas pouco a pouco, nos permitindo abraçar com clareza e alguma resignação as desilusões, perdas e descobertas que acompanham a chegada da maturidade. No seu caso, a perda instantânea da juventude ainda o privou da pessoa que amava e, de quebra, da lucidez, num processo que talvez se assemelhe à sensação de ficar paralítico ou cego após um acidente. É muito, enfim. Sua obra – que considero superestimada – reflete dramaticamente essa mudança. Aquelas canções ao piano, de uma tristeza comovente, deixam evidente que o passado não tinha se tornado passado. Estava ali a assombrá-lo permanentemente, como um sonho que não acaba nem arrefece. É possível que o passar dos anos – a queda, o coma e em seguida a abnegação de uma pessoa capaz de amá-lo incondicionalmente – tenha acabado por formar uma fina camada de cicatrização. Mas a ferida está lá. Basta olhar para o seu rosto e ouvir a sua voz para perceber isso.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Eu não te amo, meu Brasil


O nacionalismo é um conceito que não me agrada. Não compartilho da exaltação à nossa pretensa superioridade nos âmbitos esportivo, cultural ou de belezas naturais, tão disseminada na nossa classe média, e sempre tenho um pé atrás com manifestações tolas e difusas de patriotismo. Afinal, a gente sabe muito bem até onde pode ir uma nação que pratica o ufanismo e a xenofobia. Dois textos que li recentemente no blog de um amigo (http://verbotransitivo.blogspot.com) me fizeram pensar um pouco nessa espécie de nacionalismo que uma grande parcela dos brasileiros faz questão de explicitar em certas ocasiões. Um deles condena a torcida burra para que a seleção da Argentina fique de fora da próxima Copa do Mundo, o que pode realmente acontecer. Criamos, sobretudo ao longo dos últimos 20 anos, uma percepção distorcida sobre o caráter e a personalidade dos nossos vizinhos – invariavelmente estereotipados como malandros, milongueiros e desleais –, acentuada pela forma como o principal narrador da principal rede de televisão do país lança mão de um maniqueísmo imbecil para forjar uma pretensa rivalidade entre nós e eles. Uma bobagem, em suma. Quando estive em Buenos Aires, os argentinos me pareceram corteses e simpáticos, inclusive quando falavam de futebol, que eles entendem e praticam tão bem quanto nós. Mas é aquela velha história: entre o fato e a lenda, imprima-se a lenda.
O outro texto que li reproduz e analisa a coluna do jornalista Mauricio Stycer no Portal do iG (http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/), e versa sobre o comportamento do público num show, em São Paulo, da banda Beirut, que havia feito uma versão descontraída da musica O Leãozinho, de Caetano Veloso. Pelo pouco que ouvi, essa banda me parece um sopro de vitalidade em meio ao modorrento cenário pop contemporâneo, com uma mistura inusitada e divertida de influências musicais do Leste Europeu e do México. Mas sabe o que o público queria ouvir de qualquer jeito, e pedia o tempo todo para que a banda tocasse? O Leãozinho, é claro. Com a palavra, Stycer: “Não canso de me espantar com esse comportamento. Por que alguém vai a um show de um artista estrangeiro e passa 60 minutos pedindo para ele cantar 'Leãozinho'? Por que o público fica tão feliz de ver o músico repetir algumas palavras que decorou em português? Qual é a graça de ver um estrangeiro 'abraçar' a bandeira do Brasil?
O próprio Ricardo, autor do blog, prossegue: “O que dizer de um país que precisa ver um gringo enaltecer contra a vontade a arte local? Não é nem necessidade, é compulsão.”
Acrescento que esse comportamento revela, por outro lado, uma escassez tremenda de espelhos. Não temos em quem nos mirar, e talvez por isso sentimos essa necessidade de enaltecer o que teoricamente temos de mais valoroso. Mas por que precisamos manifestar toda essa paixão por um país que nos dá tão pouco? Não sinto qualquer orgulho quando vejo um esportista brasileiro ganhar uma medalha ou um torneio, seja no vôlei de praia, no tênis ou no atletismo, embora não desmereça essas conquistas. A verdade é que pouco me importa que nação aquele atleta representa. Outro dia, a revista Veja estampou a seguinte manchete para falar da conquista do nadador César Cielo no mundial de natação: “Enfim, um herói”. Um vencedor? Sem dúvida. Um candidato a ídolo? Provavelmente. Mas herói? Estamos tão mal assim? Ou estamos apenas nos mirando nos espelhos errados? Pensando bem, temos, sim, heróis, mas eles são outros. Heróis trágicos, como um Euclides da Cunha, por exemplo, que se embrenhou no Brasil profundo para tentar entendê-lo, deixando, mesmo que precocemente, uma obra maiúscula. Ou heróis anônimos, como um taxista que presenciou um rapaz ser assassinado por uma BMW que avançou o sinal vermelho a 150 km/h e foi atrás dela, anotando a placa e denunciando o fato à polícia, que prendeu e soltou o assassino após o pagamento da fiança. A justificativa do taxista: “Fiz o que fiz para poder continuar vivendo sem ter do que me envergonhar perante meus três filhos”. Simples assim. Como ele, tem muita gente de carne, ossos, nervos e dignidade praticando atos silenciosos de heroísmo país afora. Mas esses são espelhos turvos, opacos, sem brilho, e não queremos nos ver refletidos neles.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Mergulho na zona cinzenta



“Eu tinha esperança de que aquele marco de estupidez fosse o fundo do poço em termos de violência, e que se tomasse consciência de que existem outros caminhos. O que a gente vê é que foi um marco para a banalização da violência.”

Ivan Fairbanks Barbosa, pai de um dos brasileiros mortos no ataque ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001.


Três anos antes dos atentados que destruíram o World Trade Center, eu subi ao topo de uma daquelas torres, não lembro agora qual. Soprava um vento frio de outono e a visibilidade era um pouco turva, mas dava para ver, descortinados à minha frente, o mar de prédios de Manhattan lá embaixo, como numa maquete, e as pontes que ligam a ilha ao Brooklyn e ao continente. Era uma construção maciça, retangular, sem a elegância esguia do Empire State, mas mesmo assim um portento de aço, vidro e concreto. Aquilo definitivamente não tinha sido feito para cair. Naqueles dias, não existia medo em Nova York. Afinal, não tínhamos chegado ainda ao novo século e vivíamos num limbo pós-século 20, encerrado prematuramente em 1991 com o esfacelamento da União Soviética, de acordo com Eric Hobsbawm. Nada, nem as apocalípticas e hiper-realistas previsões dos filmes-catástrofe de Roland Emmerich, poderia levar a crer que o mundo entraria de modo tão brutal no século 21, como de fato entrou no dia 11 de setembro de 2001.

Talvez por tudo isso – pelo inesperado de um ato terrorista daquelas proporções, pela solidez inconteste (embora ilusória) daqueles prédios, pela imagem aterradora dos aviões mergulhando nos paredões –, esses atentados até hoje provocam tamanha perplexidade. Passados oito anos, como reprimir o pasmo frente à nova geopolítica da barbárie que se desenhou para além da fumaça das torres desabando e concebendo um imenso caixão coletivo, onde foram enterrados milhares de seres humanos? Lembro bem da minha reação ao ver as primeiras imagens, que pareciam uma animação grosseira em 3D: “É claro que os prédios não caíram, aqueles prédios não caem”. Ainda hoje penso nas pessoas atemorizadas dentro dos aviões que sobrevoavam Manhattan. Algumas até devem ter pensado: “Bem, eles vão descer no JFK ou em Newark e exigir alguma coisa em troca de nossa libertação. Mais ou cedo ou mais tarde isso termina”.

Numa entrevista a que assisti hoje na TV UOL, o diretor teatral Gerald Thomas, que presenciou os ataques, define a Nova York pós-atentados como “uma cidade amputada”. Não voltei mais lá, infelizmente, mas acredito que seja uma metáfora adequada. Impossível para os habitantes não sentir na carne aquela perda, algo muito próximo, talvez, do incômodo que os amputados sentem na perna que não têm mais. E o que parecia o fundo do poço, como imaginou Ivan Fairbanks Barbosa no depoimento reproduzido no início deste texto (também retirado da matéria da TV UOL), se constituiu na aurora de uma nova era. Um período de desrazão, estultice e violência exacerbada de parte a parte. Firmou-se assim, a partir de setembro de 2001, um suposto embate entre civilização e barbárie, que mobilizou intelectuais, escritores, políticos e outras personalidades, cada um marcando terreno com sua urina ideológica.

O problema é que neste caso, ao contrário da contenda envolvendo Eixo e Aliados na Segunda Guerra, não existe um lado escuro da força. Civilização e barbárie não ocupam lados opostos, até porque há mais semelhanças que diferenças entre as ações de George W. Bush e as de Osama Bin Laden. Ambos freqüentam uma zona cinzenta habitada por interesses escusos, fanatismo, paranóia, desprezo pelo outro e exploração da ignorância. Um território refratário a boas intenções ou atos heróicos, habitado exclusivamente pela covardia.

A conseqüência, de qualquer forma, é que nunca ocidente e oriente estiveram em planos tão opostos. Nem mesmo na Guerra Fria havia menosprezo mútuo tão intenso. Os americanos odiavam os comunistas russos – e vice-versa – por serem comunistas, não por serem russos. Hoje o ódio recíproco é antes de tudo étnico. Uma categoria de ódio muito mais difícil de ser extirpada dos corações e mentes envolvidos. É fato, também, que os norte-americanos reagiram com uma ira que beirou a insanidade, apesar de terem razões justas, como haviam feito na Segunda Guerra com os japoneses (ninguém me convence de que as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram uma decisão militar racional para pôr fim à guerra e evitar mais mortes. Aquilo foi uma vingança desproporcional ao ataque de Pearl Harbor).

O chato de tudo isso é que o mundo ficou mais perigoso. Viajar para a Europa e os EUA virou um suplício. Ser estrangeiro nesses lugares também, principalmente se você carrega feições ou sobrenomes suspeitos. Se já eram quase insuportáveis no passado, países como Iraque, Irã, Israel, Afeganistão e Líbano ficaram ainda piores, e não há sinal de melhora no horizonte. Um alento, se é que se pode chamar assim, é que o ocidente parece disposto a dialogar, afinal Bush e sua corja foram tardiamente banidos da Casa Branca e no lugar deles entrou um homem ao que parece decente e de pensamento pluralista. No oriente, porém, o sectarismo belicista e a intolerância permanecem. São chagas milenares, recentemente despertadas, e não vai ser fácil encontrar a canção de ninar que as faça dormir de novo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sobre homens e trilobites


Certa vez, li numa matéria que se fosse possível condensar a idade da Terra – aproximadamente 4,5 bilhões de anos – em apenas um dia, a espécie humana teria direito a quatro minutos de existência. Ou seja, nós surgimos como espécie só nos quatro últimos minutos de vida da Terra. Mais precisamente, às 23h56. Antes disso, nada. Somente répteis gigantes (os dinossauros teriam vivido cerca de uma hora de todo esse tempo), preguiças enormes, tubarões e vegetação maciça. E mesmo assim só lá no fim da noite, se não levarmos em conta os trilobites e microorganismos – nossos tataravós – que, com seu pioneirismo, deram início a tudo isso que está aí. Na maior parte do tempo, o planeta foi só uma cobaia de si mesmo: eras glaciais, vulcões em profusão, aquecimentos globais poderosos, maremotos e tempestades de meteoritos que castigavam nossa superfície. Em vez dos cinco continentes, um só: Pangéia. Em vez de cidades, trânsito e poluição, paisagens desoladas lentamente substituídas por belezas naturais arrebatadoras.
Mas onde quero chegar com esse papo de quem acabou de ler uma Superinteressante? Não sei. Talvez a uma resposta para questionamentos bem mais triviais e menos grandiosos que a idade da Terra ou a origem da vida. É possível, por exemplo, que o nosso – relativamente – pouco tempo no planeta explique em parte o que fazemos com ele. Ou o que fazemos às outras espécies, animais e vegetais. Ou, principalmente, o que fazemos a nós mesmos. Com um pouco de curiosidade e um tantinho mais de educação formal, é possível chegar às informações que elenquei acima. Informações superficiais, sem dúvida, mas suficientes para permitir que nos confrontemos com o abismo da nossa própria existência, com todas as suas limitações e contradições. Por que então optamos, muitas vezes de forma deliberada, pela ignorância? Somos seres complexos, biologicamente e intelectualmente falando, mas optamos por nos comportar como... trilobites.
É provável que a maciça maioria da população humana desconheça quase por completo o fato de que, geologicamente falando, estamos há pouquíssimo tempo no planeta. Ou de que somos fruto do acaso ou mesmo de que morremos como formigas, num simples estalo, sem que até hoje algum cientista tenha conseguido reanimar sequer o mais primitivo dos animais quando ele suspira pela última vez. O tamanho da nossa insignificância ainda é imensurável para muita gente. Erramos como nômades e nos reproduzimos como coelhos, reféns de seitas difusas, crendo por comodismo na possibilidade impalpável da vida eterna, aguardando uma redenção que não chega. E, talvez por acreditarmos nessa redenção, permanecemos confortavelmente alheios ao que nos cerca. Não sabemos, para além dos clichês, o que significa aquecimento global ou efeito estufa, nem sequer entendemos por que tanta celeuma por causa de uma florestinha dizimada ou um macaquinho extinto.
Se não me engano, foi Mario Quintana quem escreveu uma anedota genial, na qual dizia: o homem vem do macaco, e pelo comportamento de certos homens, percebe-se que alguns ainda estão vindo. Involuntariamente, é possível que ele tenha encontrado a chave que desvenda o nosso percurso. Ainda estamos nos desvencilhando do homem primitivo que persiste em nós, e isso leva tempo. Somos uma espécie em franca evolução biológica, embora nada indique que exista também uma evolução intelectual, moral e comportamental em curso. Pode ser que daqui a alguns séculos não tenhamos mais apêndice, mas é justo supor que permaneça em nós o instinto atávico de destruir. É possível que ele faça parte do nosso código genético, como o pendor por ruminar faz parte dos bois e a predileção por dilacerar faz parte dos felinos. Sendo assim, os poucos que reprovam a destruição em massa seriam na verdade genes recessivos. Uma pequena multidão de albinos e canhotos a postergar, com seus discursos ecochatos, a nossa missão primeva na Terra: tornar o planeta tão inabitável quanto era há 4,5 bilhões de anos.