sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bonzinhos e maldosos


Nada como uma sociedade reacionária e estulta para permitir o florescimento de anomalias comportamentais e culturais. No caso específico da nossa era, uma dessas anomalias é a disseminação do politicamente correto. Vivemos uma avalanche de conservadorismo e pretenso bom-mocismo, e é nesse território pálido e amorfo – e, por isso mesmo, confortável – que germina o excesso de pudor, minando o surgimento e o intercâmbio de pensamentos originais e radicais – no bom sentido, é claro. Philip Roth reflete sobre isso de forma aguda em A Marca Humana, sobre um professor decano de uma universidade tradicional americana que é demitido após se referir a dois alunos faltosos como “spooks”, termo que em inglês significa tanto “fantasmas” quanto “negros”. Um detalhe: ele não sabia que os alunos eram negros nem que a expressão tinha esse segundo significado.

Mas não queria ficar aqui apenas condenando o politicamente correto, e gostaria de tentar entender o processo que levou à sua proliferação. Deve-se, antes de tudo, tratá-lo como um legado amargo do século 20 – e, em menor medida, dos séculos que vieram antes dele. Por mais hipócrita que seja, todo esse cuidado no trato com a diferença e as minorias talvez seja uma pedido inconsciente de desculpas. Ou seja, tentamos reparar com eufemismos o que fizemos com balas. É difícil concordar com a prática de evitar ou censurar expressões como “humor negro” ou “judiar” para não ferir suscetibilidades das etnias a que elas remotamente se referem. Mas, de certa forma, essa prática não é compreensível?

Por outro lado, a aversão ao politicamente correto vem provocando um efeito colateral igualmente indesejável: apreciar tudo que vai de encontro a ele. Como se ser politicamente incorreto – incluindo aí emitir opiniões racistas, sexistas ou puramente polêmicas, mesmo que vazias – fosse um antídoto para a mesmice, um comportamento de guerrilha contra o status quo. Esta semana, li no blog do repórter Geneton Moraes Neto uma entrevista com o historiador Paul Johnson, na qual ele desfila uma sucessão de sandices sobre tudo quanto é assunto, de religião a arte moderna. Ao ler os comentários dos leitores, vi que quase todos saudavam Johnson como o legítimo combatente de uma cruzada contra o politicamente correto. E por quê? Porque ele disse, entre outras coisas, que Picasso foi um artista medíocre por ter sido stalinista, e que sua obra não tinha um propósito moral, como toda arte deve ter. Mas por que toda arte deve ter um propósito moral? Um propósito estético certamente, mas um propósito moral?

Engraçado que o blog traçou um paralelo entre Johnson e o finado jornalista Paulo Francis, pela forma como ambos expressam suas opiniões polêmicas de forma destemida, enfrentando a tudo e a todos. Bobagem. Francis foi um excelente articulista, capaz de tratar de temas espinhosos com um coloquialismo sedutor, e foi também um memorialista arguto e sensível, como se pode comprovar em O Afeto que se Encerra e Trinta Anos Esta Noite, dois livraços. Isso era o que ele tinha de melhor (o que é muito), e não a tendência a emitir de tempos em tempos opiniões descabidas e preconceituosas que minavam sua credibilidade. Vejo uma coisa parecida na forma como alguns cronistas saudam um filme como Brüno, de Sacha Baron Cohen, que seria um petardo contra o politicamente correto. Petardo? Qual o valor prático de fazer piadinhas gratuitas sobre autismo e discriminação racial? O pior é que o filme ainda é chato, bobo e extemporâneo – o pessoal do Planeta Diário e da Casseta Popular fazia o mesmo com mais competência vinte anos atrás. Enfim, para ter incorreção é preciso ter substância, ou ficamos apenas na vala comum da ofensa gratuita.

2 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Mais um bom texto, sacana!

Paulo Sales disse...

Mais uma vez, obrigado pelo comentário e pelas visitas, meu velho.
abs