quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Talibãs apaixonados




Betty Blue, o romance de Philippe Djian que foi levado às telas com maestria por Jean-Jacques Beineix, se encerra em forma de tragédia. Ao se deparar com o que restou de sua namorada Betty (Béatrice Dalle), tomada pela insanidade e presa a uma cama de hospital, Zorg (Jean-Hughes Anglade) toma uma decisão extrema: poupá-la de tamanho sofrimento. É impossível mensurar a dimensão da sua dor quando ele pega um travesseiro e a sufoca. Zorg sai de lá vazio, oco como um tronco tomado por cupins, do mesmo modo que Frank, o personagem de Clint Eastwood em Menina de Ouro, após cometer eutanásia na sua aprendiz e jovem lutadora Maggie (Hillary Swank), a quem amava com fervor de pai.

Tanto Zorg quanto Frank estão moídos por uma tristeza infinita, revirados em si mesmos por se sentirem obrigados a cometer atos tão extremos. A vida, nas duas situações, é tirada como uma forma de preservação, se é que isso é possível. São homens matando mulheres, o que é deplorável, mas também são seres humanos poupando outros seres humanos de um destino sombrio, para dizer o mínimo. Ao sacrificarem por compaixão as pessoas que amam, eles sacrificam a própria dignidade, reduzindo suas vidas a escombros. Ambos põem em prática o que se poderia chamar de crime passional, numa acepção rigorosa do termo, hoje tão banalizado.

É algo bem diferente do que acontece com espantosa frequência nas cidades brasileiras, onde execuções motivadas por ódio, ciúmes ou intolerância recebem a alcunha de crimes passionais. São chamados assim sem qualquer tipo de reflexão pela polícia, pela imprensa e pela população em geral – numa inversão de valores que torna o algoz uma espécie de justiceiro a lavar sua honra com sangue. Ao contrário dos crimes de Frank e Zorg, profundamente misericordiosos, atos como esses revelam antes de tudo um incômodo egoísmo. Os motivos alegados são invariavelmente os mesmos: matam a mulher que, em teoria, amam por conta de uma suposta impossibilidade de viverem sem ela. Mas e a vida dela? E os filhos de ambos, as famílias destroçadas?

Suicidar-se em seguida não melhora a situação, antes a agrava. Mas, numa sociedade patriarcal e ainda presa a sua origem rural, o morto sobrevive forjando um arquétipo de herói. É o Brasil arcaico sobrevivendo no Brasil moderno e sobrepondo-se a ele. Nesse cenário desolador, nós caminhamos a passos largos rumo ao passado, como bandeirantes broncos e desajeitados, incapazes de encarar um mundo no qual pessoas de sexos diferentes, etnias diferentes e orientações sexuais diferentes sejam capazes de conviver entre si. É uma espécie de fundamentalismo, guardando desagradável semelhança com o mundo islâmico contemporâneo, que condena mulheres a uma vida de desterro por trás de panos grossos e inacessíveis ao cotidiano. Somos como talibãs ocidentais, apaixonados por futebol, praia, cerveja e mulheres de biquíni minúsculo, desde, é claro, que não sejam as “nossas” mulheres.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O gigante inerte




Quando eu cursava jornalismo em São Paulo, lá pelos idos de 1994, acompanhei a gravação de um programa na TV Gazeta (que ficava no mesmo prédio da minha faculdade) com o então candidato a presidente Lula. Lembro de ter ficado a uns três metros dele, observando-o tirar o microfone da lapela enquanto conversava com seus assessores. Quis me aproximar, dizer alguma coisa, apertar sua mão, mas a timidez falou mais alto. Na mesma época, eu e um amigo estávamos saindo de um cinema especializado em filmes de arte, perto da Av. Paulista, e nos deparamos com José Genoíno no saguão. Ficamos um tempo ali, a uns três metros de distância, observando um dos políticos mais queridos, atuantes e respeitados do Brasil enquanto ele conversava com amigos de um jeito simpático e descontraído. Pensamos em nos aproximar, dizer alguma coisa, apertar sua mão, mas novamente a timidez falou mais alto.

O PT perdeu as eleições presidenciais naquele ano. Amparado pelo êxito do Plano Real, Fernando Henrique começava ali o reinado de oito anos do PSDB, que rendeu uma série de melhorias significativas ao país, embora tenha decepcionado no aspecto social e na forma quase obsessiva com que rezou pela cartilha do neoliberalismo. Enquanto isso, Lula, Genoíno e outros petistas, como Aloísio Mercadante e Eduardo Suplicy, permaneceram incólumes como os portadores legítimos de uma utopia, a nossa utopia. Eram os caras que a gente queria ver no poder, para encarar de frente o abismo da desigualdade social, da educação em frangalhos, da saúde sucateada, dando um basta na corrupção sem freios, na politicagem mesquinha.

Dezoito anos separam 1994 de 2012. Hoje, o que o homem de 42 anos teria a dizer àquele jovem idealista de 24? Bem, a primeira coisa seria: não acredite em utopias, meu rapaz. Não existem mais ilusões. Agora o principal: o que eu teria a dizer a Lula e Genoíno hoje, se a timidez novamente não falasse mais alto? A primeira pergunta seria: onde foram parar o Lula e o Genoíno de 1994? Ou será que eles nunca existiram, eram apenas espectros projetados por nossos anseios em uma parede descascada? Ao observar imagens recentes de Genoíno, com seu semblante abatido, me sinto tomado por uma profunda desilusão. Bem ou mal, devemos em grande parte o estado democrático em que vivemos a pessoas como ele. Adianto que não estou aqui defendendo uma punição mais branda para seus delitos, que são graves, apenas tentando entender como uma trajetória tão elevada se deixou arruinar. Genoíno não tem a prepotência nem o perfil stalinista de um José Dirceu. Sempre foi um conciliador, um sujeito que acreditava no diálogo, um cara do bem, imaginávamos.

Com Lula, a situação me parece ainda mais séria. Seu governo foi, apesar de todos os equívocos, histórico. Daqui a cem anos, ele será lembrado como um dos estadistas que construíram o Brasil do século 21, para o bem e para o mal. Mas... que tipo de proveito Lula tirou ou está tirando de tudo isso? Como uma personalidade tão amada e admirada, dentro e fora do país, pode ser capaz de deliberadamente encardir a própria biografia de um modo tão vil? Que espécie de pragmatismo justifica uma aliança com Paulo Maluf ou um abraço em Fernando Collor? Nunca o velho ditado “diz-me com quem andas e te direi quem és” foi tão apropriado.

Esse sentimento de desilusão é nocivo. Estamos sendo tomados por um profundo ceticismo, por mais que o julgamento do mensalão represente um marco civilizatório na política brasileira, como se dissessem: isso aqui não é mais a Ilha de Vera Cruz. O fato é que, ao condenarmos o Genoíno de hoje, amassamos e jogamos fora o Genoíno de ontem, e com ele todas as nossas convicções, nossas utopias ingênuas, nosso ideal de um país viável. Perguntamos a nós mesmos: quem restou, com a digna exceção de personalidades isoladas e sem cacife político para chegar ao poder, como Marcelo Freixo? Ninguém. Habitamos um cemitério de ilusões, um deserto de idéias. O fruto disso tudo todo mundo sabe: um país que nada tem de cordial, embebido em dispersão, inércia e brutalidade. Um gigante que, ao contrário do que mostra a propaganda do Johnny Walker, permanece longe de despertar.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ausências




Anoiteço lentamente na companhia de Dave Brubeck, a quem velo com fervorosa admiração neste final de quarta-feira, enquanto saboreio um delicioso vinho argentino. Dave vai embora, um dia antes de completar 92 anos, com sua música atemporal e seu jeito sereno e até certo ponto obsessivo de encarar a vida e a arte. Ouço seu piano em contraponto ao sax alto de Paul Desmond, sua alma gêmea musical. Até poucos minutos atrás estava revendo um documentário sobre ele, Redescobrindo Dave Brubeck, que mostra imagens do músico já bem velhinho, com uma simpatia arrebatadora, tocando com os filhos e colhendo com serenidade os frutos do reconhecimento. Dave viveu bem, produziu muito e ficará eternizado por temas como Take Five e Blue Rondo a la Turk, mas também por se posicionar radicalmente contra o racismo. Enfim, um homem de valor.

No mesmo dia, Oscar Niemeyer cessou sua chama, com espantosos 104 anos. Já era um adolescente quando Brubeck nasceu, e ninguém há de negar que sorveu como poucos o seu tempo – ou, melhor dizendo, os seus tempos. Outro dia, comecei a escrever um texto sobre o fascínio que a longevidade de Niemeyer e Manoel de Oliveira (o cineasta português, ainda vivo e ativo aos 105 anos) provocava em mim. Invejava a oportunidade que eles tiveram de contemplar o século 20 se descortinando aos seus olhos, o mesmo século ao qual cheguei já nos estertores. Tanto Niemeyer quanto Oliveira têm (me recuso a usar o verbo no passado) de velhice mais ou menos o que eu tenho de vida. É um oceano de tempo. Como se ambos ousassem roçar a eternidade e brincar com o nosso conceito de finitude. Como se ambos fossem monumentos feitos de ossos, sangue e sentimento, a atestar a nossa permanência na Terra, imperecíveis como pirâmides egípcias. Mas agora sei que o velho arquiteto comunista finalmente capitulou.

Fico imaginando o que os olhos de Niemeyer, Oliveira e mesmo os de Brubeck já viram. Nascidos nas primeiras décadas do século 20, já eram adultos em 1939, quando a insânia nazista desaguou na guerra mais brutal da história humana. Brubeck, inclusive, presenciou o horror da batalha, da qual felizmente saiu sem sequelas físicas (já que as psicológicas invariavelmente permanecem). Talvez o mundo de hoje, tomado por uma imbecilidade sem tamanho, já não precise deles, embora Manoel ainda resista e mostre que o seu tempo particular prossegue, num desafio que nos impressiona e sobretudo nos comove. Talvez nenhum deles tenha conseguido entender como a barbárie permanece incólume, mesmo após 100 anos de sofrimento generalizado. Ou quem sabe não é exatamente o oposto: quem, como eles, viu o mundo quase se desintegrar no início dos anos 40 talvez não se espante mais com nada, e esteja mais apto que qualquer um de nós a enriquecer com arte o que outros homens preenchem com pinceladas de estupidez.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Acalanto




A primeira sensação que tive ao saber que ia ser pai foi um certo desespero. Estava com quase 30 anos e numa situação profissional incerta, sem trabalho fixo, tendo voltado a morar em Salvador após os anos de faculdade em São Paulo. Naquele momento, nem lembrei que costumava dizer que queria ter um filho no ano 2000, numa época em que o ano 2000 ainda estava bem longe, assim como os 30 anos, e minha juventude beirava a eternidade. Mas ali estava o fato, inapelável. No entanto, três dias após a notícia, a sensação já havia mudado: passou a ser de uma ternura muda, como se alguém me cantasse um acalanto baixinho no ouvido. Essa ternura se intensificou quatro meses depois, quando a médica que fazia a ultrassonografia – uma senhora que nos transmitia uma imensa serenidade – disse: “Olha só, é uma menininha”. Lembro de, bem nesse instante, ser invadido por uma sensação úmida, cálida e aconchegante, como um banho morno após um dia intenso de trabalho. Minha filha.

Escolhi seu nome muitos anos antes do seu nascimento, ainda no colegial, quando ouvi pela primeira vez, numa aula de história, o nome de uma antiga cidade da Mesopotâmia. A sonoridade da palavra me encantou, e decidi que minha filha teria o mesmo nome da capital do império assírio, que abrigou a primeira grande biblioteca criada pela humanidade. A mesma cidade que, segundo a Bíblia, Deus pretendia destruir e para a qual mandou Jonas, responsável por avisar aos seus habitantes sobre a catástrofe iminente – e que hoje é apenas um sítio arqueológico no norte do Iraque, composto de ruínas provocadas pelo tempo e por bombas norte-americanas.

A princípio, minha filha seria a primogênita de uma prole que teria ainda outros nomes insólitos, cultivados durante a adolescência. Acabou sendo a única a vir ao mundo povoar de encanto a minha vida. Seu nascimento promoveu em mim uma pequena hecatombe interior, proporcionando uma transformação radical no modo como encarava a vida. Meu egocentrismo inato deu lugar a um altruísmo meio sem jeito, a uma descoberta do outro através dessa outra parte de mim mesmo. E também precisei enfrentar a dificuldade de adaptação às obrigações sociais e profissionais da idade adulta para sustentar a família, como fazem homens e mulheres desde os tempos mais remotos.

Imaginava que me tornaria escritor um dia. Um romancista nos moldes de, sei lá, Scott Fitzgerald. Escrevi dois ou três livros de poesia, outro de contos autobiográficos e a metade de um romance, mas minha obra maior – feita em parceria e a única a ser “publicada” – acabou sendo aquele ser humano frágil e assustado, que vi pela primeira vez pelo vidro da maternidade. Um ser humano que no decorrer dos últimos 12 anos foi aos poucos ganhando a forma de uma jovem mulher, de cabelos longos e castanhos, sorriso largo, olhos inquietos, corpo esguio e harmonioso. Mas, principalmente, uma jovem mulher íntegra, amorosa, com uma generosidade e um senso de justiça e lealdade que quase sempre me surpreende.

Há muito de mim nela, assim como há muito da mãe, o que me tranquiliza. Não gostaria de legar a minha filha os meus titubeios e o meu desnorteio perene – embora ela tenha herdado de mim a incompreensão diante das equações, operações e expressões numéricas que compõem o ensino de matemática. De certa forma, começo a perceber que um ciclo está se encerrando. Sem traumas ou rupturas, a infância se despede dela, deixando (inclusive em nós, pais) um sentimento de missão cumprida, de que os 12 primeiros anos de sua existência foram vividos em plenitude. E que venha o futuro.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Portas de percepção




Em Joseph Anton, seu recém-lançado livro de memórias, o escritor anglo-indiano Salman Rushdie escreveu: “À medida que crescemos, nós nos acostumamos com o jeito como as coisas são, à cotidianidade da vida, e uma espécie de poeira ou película nos tolda a visão, e com isso nos escapa a natureza verdadeira, miraculosa, da vida na Terra. A tarefa do artista consiste em remover essa camada que nos cega e restaurar nossa capacidade de maravilhamento”.

Um livro como o de Rushdie é por si só uma comprovação do que ele afirmou. Capaz de remover a camada de mesmice e nos fazer enxergar melhor e com mais nitidez, como se fizéssemos com o nosso cérebro o mesmo movimento de dedos que fazemos para aproximar uma imagem em um smartphone, numa espécie de zoom da própria consciência. Algo simplesmente se ilumina, como uma clareira numa mata fechada. Mas há diferentes formas de “maravilhamento”, diversas maneiras de chegar com precisão àquele ponto ínfimo de interseção entre a massa encefálica e o músculo cardíaco. São sentimentos distintos que nos enlaçam e abrem portas de percepção em algum território ermo e rarefeito do nosso íntimo.

No meu caso, o que sinto ao ouvir, por exemplo, Gilberto Gil cantando Pai e Mãe é diametralmente oposto ao prazer que me atinge quando escuto Joshua Bell tocar a Serenade de Schubert. Um prazer mais sensorial, que me enleva e me lança para longe de mim, enquanto o outro sentimento mexe com minhas reminiscências, minhas ausências, meus arraigados princípios morais. Enfim, me leva a pensar. Hemingway me atinge de uma maneira, Fitzgerald, de outra, mas ambos às vezes me deixam com o coração exaurido. A cena final de A Insustentável Leveza do Ser (até hoje o meu filme predileto) já me levou aos prantos mais de uma vez, assim como o final de, quem diria, Procurando Nemo. Em um, o desespero e o desalento diante da extinção inevitável. No outro, a saudade em carne viva do pai para sempre perdido.

O fato é que arte verdadeira, e não apenas a literatura, nos enche de centelhas, nos povoa de questionamentos, nos inunda de conhecimento de nós mesmos. É como se nos tirasse da caverna e nos apresentasse à luz do dia. Por outro lado, nos torna ainda mais ignorantes diante do infinito, como neandertais fascinados pela lua, embora incapazes de compreendê-la. Como alguém já escreveu, o que o artista cria é muito diferente do que o leitor/espectador/ouvinte interpreta. Nenhuma obra é fechada em si mesma. É, sim, um eterno trabalho em andamento, movendo-se ao sabor dos tempos e das diferentes formas de compreensão, ou – no caso dos Versos Satânicos de Rushdie – da mais completa incompreensão. Voltando a ele: “A alma tinha muitos desvãos escuros, e às vezes os livros os iluminavam”.

Tive o privilégio de, desde menino, ter sido capaz de iluminar os meus próprios desvãos graças ao conhecimento do mundo que me trouxeram livrinhos despretensiosos, como Viagem ao Mundo Desconhecido, Coração de Onça, A Máquina do Tempo e As Aventuras de Tibicuera. Meus desvãos então já eram muitos, e por vezes se abriam como gavetas, onde até hoje escondo medos, dúvidas e frustrações. A cada grande livro, filme ou canção (mas sobretudo a cada grande livro), essas gavetas se abrem e me permitem contemplar o seu conteúdo, examinar suas nuances, verificar o quanto mudaram desde a última vez em que foram expostos. São como um retrato de Dorian Gray ao contrário, que guarda a minha essência intacta, enquanto lá fora o invólucro se corrompe e perde o vigor com a passagem dos anos. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Maremotos




De acordo com a teoria do caos, concebida pelo meteorologista norte-americano Edward Lorenz nos anos 60, uma mudança aparentemente insignificante no curso dos acontecimentos pode provocar consequências imponderáveis no futuro. É o chamado efeito borboleta, segundo o qual o ruflar das asas de uma borboleta no deserto do Saara pode provocar, digamos, um maremoto na costa de Nova York. Partindo desse pressuposto, eu me pergunto: quais as consequências, sobre nossa consciência, de um míssil israelense despencando em um prédio cheio de mulheres e crianças na Faixa de Gaza? Ou, para não ir tão longe, de um tiro desferido por um bandido contra um bebê no colo da mãe, em um carro na periferia de São Paulo?

São atitudes infinitamente mais concretas que o simples bater de asas de uma borboleta. Como elas chegam até nós? Como reagimos a tamanha onda de agressividade reverberando por aí até nos atingir como furacões? É possível que tenhamos desenvolvido anticorpos mentais, capazes de fazer as balas e mísseis ricochetearem para longe das nossas preocupações diárias. Vamos vivendo, e é o que importa. Mas será mesmo? Ou com o acúmulo dos anos algo em nós vai lentamente erodindo, perdendo as formas originais, como uma rocha exposta ao sol, vento e chuva? Nosso semblante anestesiado revela uma resignação impotente, devidamente amadurecida em barris abarrotados de sofrimento alheio. O efeito borboleta traz a desgraça de bem longe e ela se aloja em nosso peito, na inquietude silenciosa que nos invade antes de cairmos no sono. Mas em seguida adormecemos. “Amanhã é um outro dia. Não é”, como cantou Renato Russo em A Via Láctea.

Há em nós algo de Winston, o personagem de George Orwell na terrível distopia narrada em 1984, que foi confrontado com seus medos mais profundos (no caso, o de ratos famintos) ao ter seu caso amoroso descoberto pelo regime totalitário comandado pelo Grande Irmão. Winston renegou a mulher que amava, renegou a liberdade, a lucidez, o direito ao delírio, para preservar a própria vida. Tornou-se um homem oco, como acontece com os que sofrem um trauma profundo ou passam por uma lavagem cerebral. O esquecimento generalizado, no caso de Winston e também no nosso, se faz necessário. Deixamos de lado o disparate dos corpos em cascata desabando ao nosso lado para preservar a lucidez. Caso contrário, nossa mente os absorverá como um mata-borrão. É dor demais para um ser humano.

Mas é isso o que acontece comigo. Absorvo como uma esponja cada perda inútil de vida, cada criança morta por obra de adultos estúpidos, cada tiro letal disparado por armas em profusão nas mãos de homens com o desenvolvimento mental de pulgas. Não tenho a capacidade de esquecer, de virar a página e continuar imune. Com o tempo, aprendi a refletir, sem o auxílio de padres ou psicanalistas, sobre a origem desse sentimento perene de perda.  A deixar pedaços dessa dor em papéis ou confissões. De qualquer modo algo permanece e se acumula, o ruflar das asas da borboleta que despeja sucessivos maremotos dentro de mim. E é com eles que acordo todos os dias, aperto o botão do elevador, levo minha filha na escola, converso com minha mulher, troco ideias com os colegas de trabalho e por fim chego em casa, assisto tevê, leio e adormeço. Afinal, amanhã é outro dia. Não é.

sábado, 10 de novembro de 2012

Adoração tardia




Eu era criança e gostava da canção Leãozinho, de Caetano Veloso. Mas, para um incipiente amante do mundo animal, havia uma incongruência na letra. “Gosto de te ver ao sol, Leãozinho, de te ver entrar no mar”. De acordo com minha mente infantil, mas já suficientemente bem informada, leões não entravam no mar. Eram animais que habitavam savanas, regiões áridas, sem água abundante. Meu irmão mais velho então me explicou: “Leãozinho é uma pessoa, um cara”. Aquilo me provocou um sentimento de decepção, uma sensação de que o mundo era muito mais complexo e estranho do que imaginava aquele garoto ingênuo, incapaz de perceber o conteúdo nitidamente gay daquela canção de louvor a um homem por quem o autor parecia irresistivelmente apaixonado. Poucos anos depois, já no colegial, apelidei uma colega de Leãozinho, e usava a canção e o apelido para declarar a ela a minha paixão tímida e inaudita.

Caetano sempre esteve relegado a um segundo plano lá em casa. O gênio indiscutível era Chico Buarque, e através dele a minha inocência foi sendo aos poucos reduzida a pó. Chico tocava fundo em mim com suas canções lancinantes, com seus versos que fincavam estacas de maturidade naquele cérebro infanto-juvenil. “Leva o vulto teu, que a saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto, do filho que já morreu”. Era óbvio que aquilo queria me dizer alguma coisa essencial, embora eu só fosse compreendê-la em sua totalidade muitos anos mais tarde. Mas, enfim, Chico povoou a minha infância. Caetano, não. Lembro do meu pai desqualificando sem meias medidas a poesia do filho de Dona Canô: “Caetano só canta aquelas besteiras, tipo ‘eu tomo uma Coca-Cola, ela pensa em casamento’”.

Talvez tudo isso tenha contribuído para que Caetano Veloso chegasse tão tarde até mim. Logo agora, que ele está ancorado na sensatez inquieta dos seus 70 anos. Eu, por minha vez, descubro aos 42 anos que estou diante de um gênio. De um poeta com profunda sensibilidade, capaz de formular frases aparentemente simplórias, mas que soam surpreendentes, verdadeiras, desassossegadas, atemporais. Alguns de seus discos dos anos 70 são obras-primas incontestáveis: Transa (principalmente), Muito, Qualquer Coisa, Bicho e tantos outros. Canções impregnadas de um prazer sensorial que só agora, 40 anos depois de concebidas, atingiram o alvo. É claro que este texto, embebido em duas garrafas de vinho e diretamente influenciado pelo que ouço agora, neste início de madrugada, pode soar um tanto laudatório. Mas o fato é que esse sentimento de revelação tardia vem me acompanhando de forma permanente nos últimos meses. Caetano simplesmente me fascina, como em outros tempos fascinou milhares de pessoas.

Confesso que não entendia essa devoção. Achava Caetano supervalorizado, produto de uma espantosa capacidade de autopromoção. Afinal, o que havia de genial em frases como “a força da grana que ergue e destrói coisas belas” ou “que a força mande coragem pra gente te dar carinho durante toda a viagem que realizas no nada, através do qual carregas o nome da tua carne”? Bem, havia tudo. Claro que estou chegando atrasado, que o bonde já passou há muito tempo. Não tive interesse em ouvir os últimos discos de Caetano, e concordo com a tese do meu irmão de que ele não produziu nada de relevante nos últimos, sei lá, 20 anos. O fato é que gosto do Caetano que existiu quando era uma criança. Eu tinha dois anos quando Transa foi gravado, no exílio, fruto de uma saudade que só hoje apreendo. A saudade de Santo Amaro, do cheiro inconfundível do Recôncavo, da triste e dessemelhante Bahia, de um país que se encaminhava sem dó rumo a um futuro sombrio. Uma saudade que, percebo agora, é minha também. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Era de Virgens




Às vezes tenho a impressão de que os anos 60 e 70 passaram sem deixar sequelas comportamentais na sociedade brasileira. É como se tivéssemos pulado do conservadorismo sisudo dos anos 50 diretamente para o conservadorismo festivo dos anos 80. Em que esquina do esquecimento foram parar o amor livre, a Era de Aquários, as farras regadas a ácido lisérgico, a porra-louquice, os sutiãs queimados, as trincheiras do Maio 68 e as canções de Bob Dylan? Por que chegamos ao século 21 tão profundamente moralistas, preconceituosos, sexistas, como se a revolução comportamental que varreu o mundo de cinco décadas atrás tivesse sido varrida do nosso quintal?

Bem, pelo menos é isso que me parece claro quando assisto às mais tolas frivolidades (que eu imaginava superadas) reemergindo revigoradas, como se habitássemos um museu de grandes novidades. Em boa medida graças ao jornalismo chinfrim que cobre o mundo das celebridades, subcelebridades e demais mortais que almejam fazer parte desse clube a qualquer custo. Tenho acompanhado a distância segura o caso da jovem de 19 ou 20 anos que leiloou a própria virgindade. Agora, os sites de notícias me dizem que ela continua virgem, que revelou seu nome verdadeiro numa entrevista e que parece ter sido barrada em um desfile de moda.

Receio que o meu próprio discurso possa soar moralista. Afinal, é muito bom poder ter acesso diariamente a qualquer tema, inclusive sexo, sem que exista algum tipo de censura a nos cercear. Mas uma notícia que tem a virgindade como tema principal não é por si só moralista? Estamos assim tão obsoletos? O tal tabu do hímen rompido a sangue, abolido a duras (sem qualquer malícia aí embutida) penas pelas jovens mulheres de 40 anos atrás, volta agora como farsa extemporânea, revelando uma caretice coletiva chata, desinformada, incapaz de formular uma reflexão, um questionamento.

Lembro agora de O Céu de Suely, o bonito filme de Karim Aïnouz sobre uma moça que organiza uma rifa, premiando o vencedor com uma noite de sexo com ela mesma. Estamos aqui no Brasil arcaico, o Nordeste de costumes profundamente arraigados, com leis morais rígidas. Hermila, a moça que leiloa a si mesma, quer fugir desse universo a qualquer custo, e a rifa é a forma mais rápida que encontrou de ganhar dinheiro e partir. Mas para onde ela iria?

O Brasil urbano, com suas metrópoles superpovoadas, parece estar se convertendo em um povoado remoto, intelectualmente tosco, refratário a conceitos mais arejados, a uma visão de mundo que enxergue tolerância e alteridade em vez de obtusidade e indiferença. Um país que espanca e mata mulheres e homossexuais com desconcertante naturalidade, e que ainda usa popularmente expressões do tipo “crime passional”, talvez como uma evolução do antiquado “crime de honra”. Nesse cenário desolador, a exposição da virgindade diante de nós ainda ocupa uma posição central nos debates diários à mesa do jantar, nos salões de beleza, no cafezinho do escritório. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Idioma universal




Não sei se há diferentes escalas de barbárie. Pouco importa se os motivos são radicalmente distintos ou se os assassinos são mais ou menos cruéis, a brutalidade é sempre uma só, farta em sofrimento, escassa em sentido. Um estampido de fúria e insensatez que nos atinge indiretamente, como uma bala raspando nosso rosto, até que um dia nos acerta em cheio. Como aconteceu com Caroline Silva Lee, 15 anos, executada com dois tiros no último domingo, durante um assalto, em São Paulo. Ou como ocorreu com Malala Yousufzai, 15 anos, que sofreu uma tentativa de assassinato no início do mês no Paquistão.

Como eu vinha dizendo, a barbárie não permite diferentes degraus ou matizes: ela é chapada, seca, sem nuances. Não estamos, portanto, em um estágio mais avançado do que o Paquistão. Malala é uma jovem ativista, que escreve um blog no qual denuncia e combate a violência contra as mulheres cometida pelos fanáticos do grupo Talibã. Por essa postura, rara em uma garota da sua idade, ela foi baleada na cabeça por um extremista que simpatiza com as ideias (se é que podemos usar esse termo neste caso) do Talibã. É intolerância em estado bruto, ocorrida do outro lado do mundo, em uma nação pobre e convulsionada da Ásia. “Que situação triste vive esse país”, você pode pensar, e eu concordo. Mas a verdade é que nós, brasileiros, estamos no mesmo barco. Afundamos de mãos dadas.

Caroline foi morta por se recusar a entregar a bolsa. Levou dois tiros à queima-roupa desferidos por um sujeito que, após ser preso, disse que é isso o que acontece com quem reage. Segundo o seu namorado, ela deve ter hesitado em entregar a bolsa por conta de uns desenhos para tatuagem que ela tinha criado e não queria perder. O depoimento do rapaz à Folha de S.Paulo, dois dias depois do assassinato, me deixou comovido. É um menino articulado, inteligente, gente do bem, como também parecia ser a garota. Gente que batalha, que sofre com transporte público precário e empregos mal remunerados, mas que mesmo assim cultiva seus sonhos, por menos ambiciosos que sejam. Gente com os dois pés fincados na realidade. Eles me lembraram um pouco o casal Miles e Pilar do romance Sunset Park, de Paul Auster, que li recentemente: ele um pouco mais velho, ela novinha. Os dois sem grandes expectativas além das próprias expectativas, que para eles tinham a dimensão do universo.

O assassinato de uma menina tão jovem revela, em toda a sua sordidez, o profundo fosso em que nós, brasileiros, estamos metidos. Ignoramos a guerra civil não declarada que faz tombar diariamente gente muito nova nas cidades entupidas em que moramos. Continuamos a entender o brasileiro como um ser cordial, boa-praça, sempre disposto a uma conversa fiada num botequim. Não somos assim. Não pode existir cordialidade em um país que mata de forma violenta milhares de pessoas todos os anos, seja no trânsito ou em situações que envolvem armas de fogo, como afirma em uma brilhante palestra o historiador Leandro Karnal. Aqui, a morte é banal, vulgar, quase um efeito colateral do que chamamos progresso.

O atentado contra Malala causou uma comoção mundial, tanto que ela acabou transferida para Londres, onde se recupera bem, apesar das prováveis sequelas. Faz sentido. Malala é um símbolo de resistência, uma voz quase infantil a bradar contra um dos regimes mais estúpidos surgidos na era moderna. Seu grito reverbera fundo no mundo contemporâneo e ganha a adesão maciça dos que prezam a liberdade. Mas... e o que fazer com o grito mudo de Caroline ao receber os dois tiros que lhe arrancaram a existência? Quem vai abandonar a zona de conforto para aderir a sua causa perdida? Seu silêncio nos incomoda, porque nos iguala ao Paquistão, à Síria, ao Iraque. Barbárie é barbárie, e o seu idioma é universal.

sábado, 29 de setembro de 2012

Whole lotta love



Hebe Camargo morreu hoje. Ou foi ontem, não sei. Uns dias antes já tinha ido embora Ted Boy Marino, de quem guardo uma lembrança simpática, embora enevoada. Meu pai costumava chamar meu irmão mais novo de Ted Boy, e costumávamos ver o astro do Telecatch em ação no programa dos Trapalhões, que eu adorava. Lembro de quando meu pai nos levou ao cinema para ver Os Trapalhões no Planalto dos Macacos, num cinema na área central e hoje bastante empobrecida da cidade. Foi, talvez, o primeiro filme que assisti no cinema, mas pode ter sido Tentáculos, sobre um polvo gigante assassino. São reminiscências que chegam até o homem que sou hoje envolvidas numa pátina maciça de tempo. Reminiscências sem muita lógica, que me vão povoando a mente enquanto o Led Zeppelin (também ele uma lembrança de outros tempos) sacode o meu gabinete com uma sonoridade espessa. Sei apenas que me causa certo desalento saber da morte de pessoas que habitaram o meu imaginário infantil, como aconteceu há alguns meses com Chico Anísio.

Aos 42 anos, sou muito mais vulnerável do que fui. Sinto falta da redoma que durante décadas nos protegeu – a mim e a minha família – das doenças graves, dos acidentes, da violência urbana, e que se quebrou de vez quando meu pai adoeceu. É como diz aquela canção linda de Cazuza que Ney Matogrosso gravou: “De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua, que vai ficando no caminho”. Sim, a sensação de abrigo, morna e ingênua, que pais verdadeiramente amorosos passam aos seus filhos, e que perdemos aos poucos enquanto crescemos e nos tornamos, também, pais amorosos. “Uma infância feliz é a pátria mais invulnerável”, me disse certa vez numa entrevista o poeta argentino Juan Gelman. Acho que isso tem muito a ver também com Ted Boy Marino, Didi Mocó, o Homem de Seis Milhões de Dólares, o Homem do Fundo do Mar e tanta gente mais que nos fez companhia nas tardes solitárias da nossa aurora – ou da minha, pelo menos.  

Hoje eu protejo a minha criança em fase de metamorfose, crio um casulo impermeável a sofrimento e frustração, enquanto temo o embrutecimento coletivo ao meu redor. Mas... passou tão rápido. Sou tão criança ainda. Mal nos acostumamos a nos comportar como adultos e a vida já nos mostra o fim da linha. Que crueldade é essa que fazem com nós? Quem faz? Às vezes é muito duro ser ateu, e nesses momentos compreendo a opção pela crença sem questionamentos, pelo aceitar tranquilo e resignado de que estamos de passagem rumo ao paraíso. Mas o que tenho é apenas este lado do paraíso. Uma porção incompleta, sem a outra metade, já que à vida falta uma porta, como disse Ferreira Gullar. Sou estes ossos que apalpo, este tendão de Aquiles inflamado que me faz mancar, esta pele já não tão rígida, este ouvido que escuta agora Whole Lotta Love no volume máximo. Sou um homem que envelhece lentamente, enquanto a vida leva aos poucos nossas lembranças de infância, nossos Ted Boy particulares, nos deixando apenas a perplexidade.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Cócegas no infinito




Leio sobre a teoria do multiverso na coluna do físico e astrônomo Marcelo Gleiser na Folha de S.Paulo. Segundo ela, o universo que nós (mal) conhecemos seria apenas “um entre uma multidão de outros universos, todos parte de um multiverso que pode ter existido por toda a eternidade”. Gosto dos textos de Gleiser porque ele explica com clareza o que está à beira da nossa incompreensão. Como imaginar algo ainda maior e mais intangível do que o nosso universo? Como pensar em bolhas gigantescas convivendo em espaços-tempos diferentes e estanques desde sempre, sem começo, meio ou fim? Que seres existiriam nesses outros universos? Como eles seriam? Haveria algum tipo de inteligência superior? Ou apenas microrganismos unicelulares, como fomos um dia?

Enfim, nossa incompreensão é avassaladora. Uma avalanche de questionamentos nos leva à mais completa ignorância do que somos feitos, de onde viemos, para onde vamos e por que afinal estamos aqui. Em A Árvore da Vida,Terrence Malick trata dessa incompreensão absoluta diante da imensidão em que estamos imersos. Como encontrar respostas para a perda de quem amamos, se essa perda é só um farelo no curso da existência do universo? Se o próprio curso do planeta Terra é, também ele, só um farelo, uma centelha quase invisível? Nossa insignificância é assombrosa. Lançamos nossas preces ao céu em busca de um sinal, uma lógica, algo em que possamos nos agarrar antes de naufragar de vez na inconsciência.

Por outro lado, o quase nada que temos é crucial para que continuemos vivos. Enquanto o universo segue indiferente o seu caminho, tendo ou não a companhia de universos paralelos, nós prosseguimos como nômades por um cotidiano de perdas, frustrações, tédio, medo, cansaço e sofrimento, mas também de carinho, compaixão, amor, alguma esperança e momentos fugazes de alegria genuína. Como escreveu Christopher Hitchens em seu último livro, “Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo”. Enfim, um mistério ainda maior e mais angustiante que o do multiverso. A carapaça que nos abriga é também tudo o que somos, em toda a nossa incompletude e finitude.

A vida é o que nos resta, portanto, já que a alternativa a ela não é nem um pouco atraente. Viver é bom, vale a pena, embora por vezes nos desencantemos com uma realidade tão brutal. Enquanto me deixo fascinar pela possibilidade do multiverso, o mundo banal e irrelevante que habito se projeta sobre mim com todo o seu tenebroso esplendor. Um mundo feito de atentados a bomba motivados por pretextos fúteis, execuções gratuitas de adolescentes pobres, corrupção desenfreada e índices alarmantes da mais pura miséria humana. E o que é pior: tudo isso é apenas farelo. Apenas uma cócega ligeira na sola do pé do infinito.

domingo, 26 de agosto de 2012

As cidades invisíveis




Tenho um interesse muito peculiar por cidades soterradas pelo tempo. Fico intrigado ao ver programas de tevê que mostram expedições arqueológicas desvendando segredos de civilizações ancestrais, encobertos por camadas e mais camadas de terra e concreto. Gosto de saber da existência dos guerreiros de terracota, milhares de estátuas em tamanho natural que guardavam o mausoléu do imperador Qin, na China, e que só foram descobertos na década de 1970. Ou que em cidades como Cairo e Alexandria, no Egito, qualquer obra subterrânea – seja uma extensão do metrô ou uma instalação de tubulações de gás ou esgoto – acaba sempre revelando porções generosas de passado. Antigos objetos de uso doméstico, afrescos, vestígios de antigas residências ou mesmo corpos mumificados dentro de esquifes de ouro.  

Assim como cidades são soterradas com o passar dos séculos, sociedades inteiras também são. É uma parcela enorme da humanidade que deixa o mundo paulatinamente para dar lugar a uma nova era. Mas não me refiro aqui às velhas civilizações da idade antiga. Falo das pessoas que viveram há pouco menos de 200 anos em cidades relativamente parecidas com estas em que vivemos. Tenho pensado nelas ao ler os primeiros livros de James Joyce, Os Dublinenses e Retrato do Artista quando Jovem. Seja nas desventuras em série do adolescente Stephen Dedalus ou na festa de confraternização das velhas irmãs do conto Os Mortos, Joyce fala de um mundo extinto: a Dublin de fins do século 19. São pessoas, comportamentos, objetos e formas de lazer e diversão soterrados pela modernidade. Por um mundo habitado por aviões a jato, telefones celulares, festas movidas a música eletrônica e drogas sintéticas, computadores com internet, pendrives com centenas de músicas e filmes e nada menos que seis bilhões de pessoas espalhadas pela Terra.

O curioso de tudo isso é que, daqui a 200 anos, todos esses seis bilhões de seres humanos estarão literalmente soterrados. Incluindo eu, você e os bebês que acabam de nascer neste exato momento, seja em Roma, Porto Príncipe, Tóquio ou num povoado esquecido do Sri Lanka. A dita modernidade de hoje dará lugar a um mundo radicalmente diferente do nosso, que será relembrado por alguém no futuro – do mesmo modo que faço agora – como um tempo tão exótico e remoto quanto a Dublin de Joyce. Não por acaso, é dele a frase: “O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se”. Joyce se referia ao mundo de Gabriel e sua esposa, Gretta, personagens de Os Mortos. Após ouvir por acaso uma canção há muito esquecida, Gretta se lembrara de um amor adolescente, um garoto chamado Michael Furey, morto aos 17 anos. A reminiscência desse trecho de juventude esquecido trouxe a tiracolo um misto de saudade e tristeza, que a deixou prostrada.

Fico imaginando o que permanece de nós quando nos tornamos invisíveis. Uma saudade que deixamos em nossos filhos e nossos amigos. Algo que escrevemos e que se reproduz por um tempo entre leitores que não conhecemos. Uma foto muito antiga que escapa das nossas gavetas e vai parar em um museu. Mas, em seguida, tudo se aniquila. Nossas cidades serão soterradas, assim como nossos corpos, nossa memória e nossos sentimentos. Vão passar os anos. Cem, duzentos, mil anos. E então o século 21 se converterá numa espécie de Mesopotâmia. Distante e desconhecido como o grito de um mudo num deserto de areia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Somos todos japoneses




Há alguns meses, um homem morreu eletrocutado aqui em Salvador. Foi uma morte lenta. Ele tropeçou e caiu em cima de um fio de alta tensão, que tinha sido lançado ao solo após um caminhão ter derrubado um poste. Ficou longos minutos tostando enquanto perdia aos poucos a consciência. O episódio, fartamente exibido em um jornal por um fotógrafo profissional que coincidentemente passava por ali, gerou uma discussão ética nas redes sociais, com pessoas condenando ou absolvendo o fotógrafo por registrar sem retoques o fim de uma vida. Mas o que me deixou chocado nessa história toda foi outro fato, que passou despercebido nas discussões: uma das fotos mostrava o público que observava o acontecimento. Praticamente todas as pessoas ali filmavam ou fotografavam com seus celulares o homem morrer. O olhar deles era vazio, e havia um profundo fastio naquelas expressões. Eles registravam aquilo como se registrassem, sei lá, um congestionamento numa rua ou um funcionário do almoxarifado fazendo o seu trabalho.

Esse acontecimento me voltou à tona quando li um artigo de Umberto Eco, que tem como tema a maneira excessiva com que as pessoas registram tudo em máquinas fotográficas ou filmadoras, sobretudo após a disseminação dos celulares com câmeras. Na parte final do texto, Eco relembra o impacto que sofreu ao presenciar, quando tinha 11 anos, a morte de uma mulher que acabara de ser atropelada. Era a primeira vez que ele presenciava a morte, a dor e o desespero. “O que teria acontecido se eu tivesse um celular equipado com uma câmera de vídeo, como todo menino tem hoje? Talvez tivesse registrado a cena para mostrar a meus amigos que eu estive lá. E talvez tivesse publicado meu tesouro visual no YouTube, para delícia de outros devotos do ‘schadenfreude’. Depois disso, quem sabe? Se tivesse continuado a registrar esses infortúnios, poderia ter-me tornado totalmente indiferente ao sofrimento dos outros. Em vez disso, preservei tudo em minha memória. Setenta anos depois, a imagem mental daquela mulher continua me assombrando e, de fato, me ensinou a empatizar com o sofrimento dos outros em vez de ser indiferente a ele.

É muito perceptível, na sociedade de hoje, essa indiferença a que o escritor italiano se refere. E não apenas em relação à dor dos outros. Uma espécie de enfado coletivo parece guiar uma civilização que avança no piloto automático, olhando apenas para a frente. Não vou me estender aqui em discussões sobre a insensibilidade social ou o individualismo ferrenho que vemos em qualquer esquina. Falo apenas dessa apatia generalizada, que Eco traduziu perfeitamente na associação que fez com a obsessão contemporânea por registros visuais. Lembro que antigamente sacaneávamos com os turistas japoneses pelo costume que tinham de fotografar e filmar incessantemente os lugares que visitavam, em vez de realmente sentirem a atmosfera do local, suas peculiaridades, seus cheiros, suas cores. Para eles, a viagem começava quando voltavam para casa e conectavam a filmadora na tevê.

De certa forma, estamos virando japoneses, só que infelizmente sem a polidez e o recato característico deles. Cada vez mais filmamos tudo, fotografamos tudo, compartilhamos tudo nas redes sociais. Cada vez mais sentimos um vazio quando, ao invés de apreciarmos a apresentação dos nossos filhos no palco da escola, nos preocupamos em filmar toda a apresentação com nossos smartphones. Vemos o mundo através de uma telinha minúscula, e é com esse filtro que nos conectamos com a vida real e, de certa forma, nos protegemos dela. Ressalto: acho positivo que tenhamos acesso a tecnologias que nos permitem captar tantas coisas em um curto espaço de tempo e compartilhá-las com quem gostamos. Mas há uma perda aí, que ainda não consigo saber exatamente qual é. Apenas tenho a vida alheia cada vez mais próxima da minha retina, e isso turva a minha visão.

domingo, 15 de julho de 2012

O princípio e o fim




Às vezes, passamos anos esperando que algo aconteça e, quando ele finalmente chega até nós, nos damos conta de que veio tarde demais. O impacto que poderia causar se apresenta amortecido, convertido em um ligeiro sussurrar sobre nossas reminiscências, meio que dizendo: “Lembra de quem você era?”. Acho que foi mais ou menos isso que senti quando deixei o cinema após assistir a Na Estrada, filme de Walter Salles baseado no clássico beat On the Road, de Jack Kerouac. Não é um livro qualquer, ao menos para mim. Como já escrevi algumas vezes aqui no blog, On the Road foi uma centelha que durante anos povoou o meu imaginário. Ele estava lá aos 17 anos, quando minha adolescência se liquefazia numa zona permanente de desconforto e inadequação. E, três anos mais tarde, foi o guia que me levou a paragens distantes, me permitindo vivenciar experiências que moldaram parte importante da minha personalidade.

Dito tudo isso, a principal substância que posso extrair da experiência de ter assistido a Na Estrada – e seria impossível viver essa experiência sem qualquer envolvimento afetivo – é a saudade de um tempo particularmente feliz da minha vida. Mas um tempo que, por outro lado, ficou definitivamente para trás, como uma antiga paixão a quem reencontramos e nos damos conta de que a brasa virou cinza. Posso me despedir dela agora e está tudo bem, cada um segue o seu caminho sem mágoas ou feridas mal cicatrizadas. Muita coisa veio à tona. Percebi, nas falas em off que reproduziam trechos do romance, o quanto tentei escrever como o velho Jack naquela época. Diversas cenas me transportaram para o passado e provocaram uma nostalgia aconchegante, como uma casa de avós queridos à qual voltamos depois de muito tempo: a vastidão sem fim, as paisagens que se sucedem à margem das rodovias, a névoa do início da manhã, o tempo sem pressa, a solidão avassaladora e uma valorosa sensação de liberdade.

Mas o fato é que Na Estrada produziu em mim mais distanciamento e contemplação do que envolvimento e encanto, e continuo sem saber se isso é um defeito do filme ou um efeito perverso da passagem do tempo sobre os meus ingênuos ideais dos 20 anos. Jovens praticando pequenos delitos, transando de forma quase desesperada e se drogando com benzedrina dizem muito pouco a mim hoje. Senti falta, também, de algo que me fascinava no livro: o culto às figuras sagradas, aos vagabundos sem nome, aos americanos comuns cheios de bons sentimentos e mesmo aos companheiros de estrada que borrifavam vida por todos os poros e partiam em busca da própria verdade. Onde foi parar o senso de urgência, a necessidade vital de expansão para além dos próprios limites? Onde foram parar o Paradise e o Dean que nos inspiraram a pedir caronas e viajar em boléias de caminhão país afora?

Um vácuo existencial parece mover os personagens. Uma sensação de vazio que em alguns momentos ultrapassa a tela e atinge o espectador, como me atingiu. Depois de pensar um pouco, enquanto dirigia de volta para casa, me dei conta de que a narrativa pareceu reproduzir na tela não o livro de Jack Kerouac, mas sim o processo criativo e as experiências que permitiram a ele escrever o livro. Como uma espécie de making of, um On the Road lido retrospectivamente, através do qual é possível perceber os 55 anos que separam o livro do filme. Dean e Marylou parecem se mover permanentemente em busca de algo que não conseguimos apreender. Passam a impressão de ansiar por uma vida estável, careta, a qual são incapazes de viver em plenitude. A pergunta é: o livro era assim? São 20 anos que me separam das seguidas leituras de minha bíblia querida de juventude, e precisaria voltar a ela para conferir.

Tiro o livro da estante e o folheio com cuidado e carinho. O mesmo velho e carcomido volume publicado pela Brasiliense que levei algumas vezes comigo para a estrada, onde relia os trechos preferidos enquanto distâncias enormes eram consumidas em fogo brando. Leio o início e percebo que o roteirista adulterou o conteúdo para estabelecer um paralelo entre os dois protagonistas através dos efeitos da ausência paterna em ambos, mas nem sei se isso faz alguma diferença. Folheio mais um pouco e em seguida fecho o livro. Lembro agora de ter ficado feliz ao ouvir de novo nomes esquecidos, como Ed e Galatea Dunkel, Carlo Marx, Old Bull Lee e tantos outros personagens que povoaram o meu imaginário juvenil. Lembro também que me emocionei ao ouvir, na voz de Sam Riley, o comovente trecho final do livro, que reli tantas vezes e que ouvi outras tantas recitado pelo próprio Kerouac. Havia, naquele final, um esboço do que o filme de Walter Salles poderia ter sido e não foi: um divisor de águas na trajetória de milhares de jovens atônitos, inseguros e loucos por uma aventura. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tempos duros




“As pessoas não eram diferentes naquela época do que sempre foram e sempre serão. Garotas ficam com o coração partido. Homens e mulheres sofrem sozinhos pelas próprias escolhas que fizeram. E garotos muito confusos, cheios de medo, de amor e de coragem, crescem furtivamente na calada da noite”. Está lá, no final de um episódio particularmente comovente de Anos Incríveis, uma série de tevê que continuo adorando, por mais que os anos passem, e que voltei a assistir agora há pouco. Há muito de mim em Kevin Arnold, o garoto sensível que cresce em um subúrbio norte-americano tentando tatear o mundo à sua volta. Um mundo que mudava com a velocidade de um Sputnik cruzando os céus naquela década de profundas convulsões sociais, comportamentais e políticas: os anos 60.

Vejo Kevin e vejo a mim mesmo, um menino nascido de tempos duros, buscando vislumbrar para além do porto seguro e enxergando perplexo a brutalidade do mundo lá fora. Um menino ensimesmado, filho de pais batalhadores e amorosos, que tentavam abarcar para mim, dentro de suas próprias limitações, a complexidade de existir. Sou acima de tudo um homem do século 20. Um herdeiro da Guerra Fria, do golpe militar, de um país que enfim deixava de ser rural para abraçar sem amarras a urbanidade, com suas avenidas repletas de Fuscas, Brasílias e Corcéis. Seus terrenos baldios a perder de vista que aos poucos se convertiam em favelas. Seus jovens casais que fumavam Hollywood mas não encontravam o sucesso. Sou um homem nascido em 1970, apenas 25 anos depois de encerrada a guerra que dizimou o continente responsável por gestar o que conhecemos por civilização. Sim, nasci apenas 30 anos depois da Alemanha nazista. E apenas 20 anos antes de Ruanda, Sérvia, Serra Leoa.

Nasci há tão pouco tempo e por vezes me sinto um velho. Afinal, os tempos estão mudando, como cantou Bob Dylan em The Times they’re a-changing, que ouço agora enquanto bebo um vinho e tento uma transmutação rumo ao meu paleolítico particular. Hoje, como também disse Dylan, criticamos o que não conhecemos. É nítida a nostalgia, a saudade de outros tempos, embora esses tempos não tenham sido necessariamente idílicos. Mas ao menos havia uma redoma, um escudo protetor. Sou fruto de tempos tristes, e a eles me agarro como à última madeira flutuando à minha frente, como se o futuro fosse tóxico e o presente, incompreensível.

Não sei onde quero aterrissar. Talvez tudo se resuma aos velhos questionamentos que insistem em nos fustigar desde eras imemoriais: de onde viemos, quem somos, para onde vamos? Gerações vão se suceder, nações vão surgir e submergir e nós continuaremos crescendo furtivamente na calada da noite, com os olhos abertos, tentando compreender o que fazemos aqui, sem que qualquer epifania venha nos trazer consolo ou redenção. Está tudo acabado agora, Baby Blue.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Contra a multidão




Algum tempo atrás, conversava com dois casais de vizinhos do prédio onde moro. Papo descontraído e despretensioso, que em dado momento enveredou para as mazelas cotidianas que enfrentamos em nossa cidade e em nosso país. Comentei que vivíamos sob vários aspectos uma época de degeneração social. Um dos meus interlocutores complementou: "O maior problema são esses gays. Esse negócio de gay em todo lugar, querendo casar, fazer passeata". Aquilo me assustou, mas em seguida, a moça do outro casal confirmou o diagnóstico: "É isso mesmo. Uma coisa horrível. Aqui mesmo no prédio tem duas. Outro dia peguei elas se abraçando na garagem". Tentei argumentar, dizendo que não me referia a isso quando falava em degeneração social, acrescentando que para mim o homossexualismo estava longe de ser um problema, tinha amigos gays, etc. A moça respondeu: "Tenho medo por minha filha, de ela crescer vendo essas coisas".

O clima pesou um pouco. Naquele momento, percebi que a minha relação com os casais deveria prosseguir no mesmo grau de superficialidade em que se mantivera até ali. Um amistoso "boa noite, tudo bem com você?" na porta do elevador e vida que segue. Ressalto que aceito outras visões de mundo, mesmo que sejam radicalmente opostas à minha. Aceito até certo ponto os preconceitos alheios, mesmo porque tenho também os meus, que carrego como um estorvo. Mas havia, embutida naquelas frases, algo mais grave: uma não-aceitação de outros seres humanos. Não se tratava apenas de não gostar de determinado comportamento, mas sim de repudiar a existência de quem pratica tal comportamento. Pensei de imediato na Alemanha nazista, onde as pessoas eram mortas não por pensarem, sei lá, que o nazismo era uma estultice qualquer que não deveria ser levada a sério. Eram mortas porque existiam.

Esse tipo de pensamento expelido durante a conversa poderia ser apenas resultado de uma forte influência religiosa ou de uma formação moral um pouco mais rígida. Poderia ter nascido, digamos, da aversão aos trejeitos festivos que são o clichê comportamental dos gays. Até aí tudo bem. O problema é que esse tipo de pensamento tem servido para criar um certo conformismo diante de episódios chocantes. O último deles foi a morte de um rapaz de 22 anos, que estava abraçado ao seu irmão gêmeo e foi espancado por um grupo que os confundiu com um casal gay. Quando um fato como esse acontece e acontece com frequência estarrecedora , há algo de muito errado na sociedade. Uma sociedade que, em sua maioria, pensa como os meus vizinhos. E que, em uma parcela bem mais reduzida, age violentamente com base nas mesmas premissas.

É sintomático que o acirramento das manifestações homofóbicas esteja estreitamente ligado às conquistas recentes dos homossexuais no terreno dos direitos humanos. Não lembro (e posso estar totalmente enganado a esse respeito) de casos tão corriqueiros de ataques a gays nas grandes cidades. Era algo comum em rincões conservadores, com população pequena, mas não numa Avenida Paulista. Do mesmo modo, nunca soube de nada semelhante ao projeto de lei do deputado goiano que propõe a legalização da "cura gay". Claro que não vai passar no Congresso, mas não deixa de ser um retrocesso e tanto.

É algo que me assusta. Em 42 anos de vida, construí convicções que foram se sedimentando ou se diluindo enquanto crescia e me lançava à vida real, para além do mundo ideal da família. Um processo complicado, no qual você precisa abandonar tolices há muito arraigadas na consciência e consolidar seu olhar particular sobre o mundo. O preconceito contra os homossexuais foi uma dessas tolices, deixada de lado à medida que conhecia obras de grandes autores e conhecia grandes pessoas que tinham como denominador comum sentir atração e amor por iguais. Hoje, o preconceito não apenas de sexo, mas também de cor e de classe me entristece, me exaure, me exaspera. Como andar contra uma multidão de torcedores do time adversário vindo em sentido contrário. 

sábado, 23 de junho de 2012

Ritos de passagem



Uma amiga virtual – que conheci através deste espaço e da paixão comum por Scott Fitzgerald – escreve um blog no qual se dedica a contar histórias para sua filha ler quando for adulta. Creio que Este Lado do Paraíso também é, de certa forma, um lugar onde minha filha vai encontrar, quando crescer, uma faceta diferente do pai que sente por ela uma espécie de veneração. Um cantinho aconchegante, no qual minha voz chegará a ela através do silêncio cúmplice ou de revelações nunca ditas quando era a criança que ainda é. Devaneios, muitas vezes singelos, de um homem que tateia no escuro em busca de uma lanterna, um lastro no qual apoiar seus questionamentos vãos, seus sentimentos aflorados ou latentes, suas dúvidas cada vez mais avassaladoras.

Por mais disparatados que sejam os assuntos contidos aqui no blog, algo os une e se expressa nas entrelinhas: uma obsessão em deixar um legado, um pequeno rol de princípios morais que sirvam de farol para a pessoa que mais amo, por mais que a luz desse farol esteja em alguns momentos opaca e oculte as pedras sob a maré. Há um mundo por desbravar lá fora, e ela já ensaia alguns olhares para além do ninho, como deve ser. Achei que esse momento me assustaria, o do rito de passagem da infância para as dores e delícias da juventude, mas me vejo tranquilo, observando a lenta metamorfose se operando sobre o seu corpo – hoje mais esguio e sinuoso, com ossatura mais saliente – e sobre o rosto que já desvela a mulher que ela se tornará, por mais que ainda conserve a doçura infantil e os dentes de leite que ainda teimam em amolecer e cair – e que eu mesmo extraio, me revelando um improvável dentista.

Em minha filha, o ritual de iniciação não vem se manifestando como ruptura, antes como um processo harmônico e natural, ao contrário do meu, que foi de certa forma traumático. Gosto de assistir a essa transformação, assim como gosto de sentir o cheiro dos seus cabelos quando a beijo na testa e a aninho junto de mim. Ou quando brinco com seu gosto musical, fazendo troça dos seus artistas preferidos, e ela sorri, dizendo que são muito melhores que “esse tal de Miles Davis”. São mesmo. Nada como os ídolos da juventude, os primeiros espelhos, só que inatingíveis, para que possamos desenvolver a própria identidade, firmar nossos pés no mundo que se anuncia. Então chegará a vez de a vida envolvê-la e lançá-la em território desconhecido, como faz com as jovens leoas, águias e tartarugas. Eu estarei aqui, espero, observando encabulado o curso natural da existência e escrevendo textos como este, meio tolos e derramados, que com os anos ganharão um tempero extra de saudade. Saudade de um tempo em que fomos muito felizes.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Carrascos?



Às vezes, caio de pára-quedas em rodas de conversas com pessoas mais ou menos conhecidas, para cumprir obrigações sociais. Nessas ocasiões (nas quais meu lado introspectivo sofre como um goleiro diante do pênalti), costumo ouvir coisas que provocam em mim uma aversão imediata. São frases do tipo "tem que matar mesmo" ou "por mim, bandido tem mais é que morrer". Essa aversão é fruto do meu caráter racional e humanista, cultivado ao longo de décadas, nas quais edifiquei meus próprios princípios. O problema é que esses princípios estão assentados em terreno movediço. Sujeitos, portanto, a abalos eventuais.

Afinal, como não pensar em rever nossos conceitos quando nos deparamos com episódios plenos de barbárie, como aquele envolvendo a mulher que matou e esquartejou o marido? Ou o pai que estuprou as filhas gêmeas de dois anos e matou uma delas? Ou, ainda, a quadrilha que enforcou um casal de trabalhadores para roubar 6 mil reais, no velho golpe da venda de um imóvel inexistente? O que merecem pessoas assim? Pergunto a mim mesmo, sem que a resposta adquira a convicção das frases que ouço nas tais rodas de conversa. Mas, por outro lado, também não me entusiasmo com minha própria convicção de que criminosos devem pagar de acordo com as leis frouxas do país.

Sou, filosoficamente, a favor da pena de morte. Mas, repito, filosoficamente. Em um país ideal, imune a ingredientes como miséria maciça, acesso fácil a armamentos, justiça suspeita e corrupção desenfreada. Num cenário como esse, o fato de alguém matar deliberadamente outro ser humano deveria ser passível de punição máxima, afinal, é uma vida que foi tirada, muitas vezes por motivos esdrúxulos. Um exemplo claro? Anders Behring Breivik, que assassinou 77 pessoas em uma das sociedades mais avançadas do mundo. Lá, ele teria (como está tendo) um julgamento justo e sem pressão popular exacerbada. O que ele merece? Para mim, sem sombra de dúvida, uma execução. Da mesma forma que Timothy McVeigh, outro maníaco de extrema direita, que explodiu um prédio em Oklahoma e recebeu em troca uma injeção letal nos Estados Unidos.

Mas... e quanto aos criminosos brasileiros que listei acima? A resposta, sincera e claudicante, é: não sei. Temo um estado de barbárie, onde a justiça comece a ser feita com base no clamor das ruas. Até porque a nossa sociedade permite, mesmo que de forma escamoteada, a execução sumária de milhares de pessoas a cada ano. Acima de tudo, desprezo o sentimento que vislumbro nas frases tipo "tem que morrer devagarzinho, sob tortura". A vingança é um estado de espírito alterado, constituído de um prazer sádico que não compreendo. Mas é um dilema de difícil solução, no qual nosso lado racional convive em permanente disputa com o que temos de mais primitivo: o sentimento de preservação da espécie. Quando alguém mata, sobretudo uma criança, está invadindo um território sagrado da humanidade, daí as reações tão instintivas. Dostoievski e Camus já trataram desse tema com muito mais propriedade e profundidade em Crime e Castigo e O Estrangeiro.

Enfim, não gosto de convicções sedimentadas, porque tendem a virar dogmas e adquirir a forma de preconceitos. É o caso dos paladinos do justiçamento, os carrascos midiáticos ou não que vêem no bandido apenas uma deturpação da espécie, uma aberração que deve ser extirpada da civilização. Uma visão simplista, preguiçosa e obtusa. Mas por que, em alguns momentos diante de um jornal ou de uma tela de tevê, nós nos pegamos pensando de um jeito parecido? O que atiça em nós o ódio irracional? O que nos faz bradar como bárbaros, pedindo a morte de tipos abjetos como o casal Nardoni ou o goleiro Bruno? Talvez seja pelo fato de que a existência, assim, como a vida em sociedade, não é algo homogêneo, sem meios-tons, com lados bem definidos. Compartilho aqui essas dúvidas justamente por isso. Porque meus princípios também possuem seus meios-tons, sua ética própria, que avança e retrocede ao sabor da maré.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A Bahia tinha um jeito




Na semana passada, ajudei a criar uma campanha publicitária para o Dia dos Namorados, que tem como tema o amor de Jorge Amado e Zélia Gattai. Uma relação de 56 anos, personificada na cumplicidade e no companheirismo mútuos, que fizeram o casal se dedicar com afinco a sorver o século 20, tendo como ingredientes fundamentais o romance, a política e sobretudo a literatura. Tenho um carinho especial pela vida de Jorge e Zélia, mesmo não tendo sido um leitor freqüente dos livros dele nem um admirador dos livros dela. O que me atrai nessa trajetória é o que ela simboliza: um tempo em que a arte e a cultura eram cultivados com dedicação no quintal de nossas casas. Um tempo em que a Bahia representava a vanguarda, mas também a tradição.

Soube que a Casa do Rio Vermelho, onde o casal viveu por décadas, começa a dar sinais de desamparo. Em qualquer lugar do mundo seria um museu concorridíssimo, uma atração turística nos moldes das casas de Pablo Neruda no Chile ou mesmo da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Mas preferimos o desdém, o menosprezo, como escrevi no primeiro texto que fiz para este blog, em dezembro de 2008. Nesse mesmo texto, escrevi também que estive na casa duas vezes, a primeira quando Jorge ainda era vivo, embora senil, e a segunda após sua morte, quando encontrei uma Zélia Gattai fragilizada, a me revelar que só esperava a hora de reencontrar o homem que amava. Hoje, o que restou de ambos está enterrado no jardim da casa, ao lado do banco onde costumavam sentar.

O silêncio em torno de Jorge e Zélia diz muito sobre o que a Bahia se tornou. O próprio conceito de baianidade se corrompeu, reduzindo-se a um estado de espírito permanentemente alterado por uma suposta alegria movida sabe-se lá a quê. Vivemos, nesta segunda década do século 21, a total desintegração do que fomos na segunda metade do século 20: um estado efervescente, para o qual migravam intelectuais, artistas plásticos e músicos de ponta e de onde saíam movimentos culturais de relevância nacional, como o Ciclo Baiano de Cinema, e artistas mais relevantes ainda, como Caetano Veloso, Tom Zé, Calasans Neto, Glauber Rocha. Havia algo que motivava tudo isso, e certamente não eram as águas do Porto da Barra ou o dendê do Recôncavo. Havia sobretudo a disseminação natural de conhecimento, que levava à formação de um público culto, ansioso por transformar um estado até então provinciano em um pólo cosmopolita.

Mas onde foi parar tudo isso? Onde foi parar o universo tropical opulento que era a substância vital dos romances de Jorge Amado? Ou o recanto idílico que motivou Caetano a cantar, apropriando-se dos versos de Dorival Caymmi: "Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem. A Bahia tem um jeito"? Não faço a menor idéia. Sou apenas um espectador amedrontado assistindo à ruína do lugar onde nasci. Um lugar que agoniza em estultice e mansidão, como se sofresse uma espécie de Alzheimer coletivo, na mais completa ignorância do que um dia foi. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Os segredos do abismo




Gostaria de escrever alguma coisa sobre Carlos Fuentes, agora que ele acaba de ir embora. Mas nunca li Carlos Fuentes. Ele se vai sem que eu jamais tenha manifestado o interesse, em algum momento da minha vida, de ler uma de suas obras, mesmo que um livro seu, A Morte de Artemio Cruz, habite há um bom tempo a estante de minha casa, numa edição vagabunda que, ao folhear agora, percebo estar parcialmente comida por cupins. Nunca li Fuentes, assim como nunca li Octavio Paz, e só me salvo da absoluta ignorância em relação à literatura mexicana por ter me embrenhado um dia no imaginário denso e enevoado de Juan Rulfo. O que sei de Fuentes é o que quase todos sabem. Que foi um intelectual ativo, de opiniões relevantes e sintonizado com o seu tempo, embora nos últimos anos declarasse em entrevistas que não reconhecia o mundo ao seu redor.

Mais não sei e, portanto, não continuarei falando do autor mexicano, e sim de tudo aquilo que ele simboliza: cultura, revelações e conhecimento, essas coisinhas maçantes que vivem ocupando nossos cérebros com sucessivos pontos de interrogação. Adquirir conhecimento é mais ou menos como fabricar abismos. Quanto mais ele nos envolve, mais nos sentimos na mais completa ignorância do que nos falta conhecer. São como portas que se abrem eternamente para outras portas, e quanto mais prosseguimos, mais deixamos para trás a obscuridade, a zona de conforto da ignorância. Certezas preconcebidas são aos poucos substituídas por dúvidas irremovíveis. Afinal, a dúvida é uma das matérias-primas primordiais da evolução humana.

Às vezes, quando estou lendo no meu gabinete, desvio os olhos das páginas e me deparo com todos aqueles volumes nas prateleiras da parede oposta, com sua aparência indevassável. Nelas estão os autores que amo, os que admiro sem muito afeto, os que me decepcionaram e aqueles por conquistar – entre os quais está Carlos Fuentes. Sei que, entre esses últimos, há livros que não vou ler nunca, assim como há outros que ainda irão me inundar de fascínio um dia. O que faço é prosseguir, embora muitas vezes vencido pelo cansaço, outras pela incompreensão.

Tudo isso me faz lembrar do que Eliane Brum escreveu recentemente em seu blog: “De certo modo, toda arte é um monumento ao nosso desespero diante da morte. Como se tudo o que foi criado até hoje documentasse, no fundo, sempre o mesmo desejo impossível de permanência. É como se todo museu ou biblioteca fosse, na verdade, uma prova pungente e grandiosa de nosso fracasso”. Pois o processo de conhecimento (e de autoconhecimento) significa justamente se lançar contra o abismo da nossa finitude e retirar algo de lá. Assim fazem os criadores e assim fazemos nós, os que se aprofundam na obra desses criadores. Mas há, também, o prazer da descoberta, a deliciosa sensação de que algo muito valoroso e único se descortina para nós, como um segredo muito antigo ou uma visão, ainda que fugaz, do paraíso. Só isso já vale as dúvidas, os questionamentos e a insustentável solidão que o conhecimento nos traz.