quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Eu não te amo, meu Brasil


O nacionalismo é um conceito que não me agrada. Não compartilho da exaltação à nossa pretensa superioridade nos âmbitos esportivo, cultural ou de belezas naturais, tão disseminada na nossa classe média, e sempre tenho um pé atrás com manifestações tolas e difusas de patriotismo. Afinal, a gente sabe muito bem até onde pode ir uma nação que pratica o ufanismo e a xenofobia. Dois textos que li recentemente no blog de um amigo (http://verbotransitivo.blogspot.com) me fizeram pensar um pouco nessa espécie de nacionalismo que uma grande parcela dos brasileiros faz questão de explicitar em certas ocasiões. Um deles condena a torcida burra para que a seleção da Argentina fique de fora da próxima Copa do Mundo, o que pode realmente acontecer. Criamos, sobretudo ao longo dos últimos 20 anos, uma percepção distorcida sobre o caráter e a personalidade dos nossos vizinhos – invariavelmente estereotipados como malandros, milongueiros e desleais –, acentuada pela forma como o principal narrador da principal rede de televisão do país lança mão de um maniqueísmo imbecil para forjar uma pretensa rivalidade entre nós e eles. Uma bobagem, em suma. Quando estive em Buenos Aires, os argentinos me pareceram corteses e simpáticos, inclusive quando falavam de futebol, que eles entendem e praticam tão bem quanto nós. Mas é aquela velha história: entre o fato e a lenda, imprima-se a lenda.
O outro texto que li reproduz e analisa a coluna do jornalista Mauricio Stycer no Portal do iG (http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/), e versa sobre o comportamento do público num show, em São Paulo, da banda Beirut, que havia feito uma versão descontraída da musica O Leãozinho, de Caetano Veloso. Pelo pouco que ouvi, essa banda me parece um sopro de vitalidade em meio ao modorrento cenário pop contemporâneo, com uma mistura inusitada e divertida de influências musicais do Leste Europeu e do México. Mas sabe o que o público queria ouvir de qualquer jeito, e pedia o tempo todo para que a banda tocasse? O Leãozinho, é claro. Com a palavra, Stycer: “Não canso de me espantar com esse comportamento. Por que alguém vai a um show de um artista estrangeiro e passa 60 minutos pedindo para ele cantar 'Leãozinho'? Por que o público fica tão feliz de ver o músico repetir algumas palavras que decorou em português? Qual é a graça de ver um estrangeiro 'abraçar' a bandeira do Brasil?
O próprio Ricardo, autor do blog, prossegue: “O que dizer de um país que precisa ver um gringo enaltecer contra a vontade a arte local? Não é nem necessidade, é compulsão.”
Acrescento que esse comportamento revela, por outro lado, uma escassez tremenda de espelhos. Não temos em quem nos mirar, e talvez por isso sentimos essa necessidade de enaltecer o que teoricamente temos de mais valoroso. Mas por que precisamos manifestar toda essa paixão por um país que nos dá tão pouco? Não sinto qualquer orgulho quando vejo um esportista brasileiro ganhar uma medalha ou um torneio, seja no vôlei de praia, no tênis ou no atletismo, embora não desmereça essas conquistas. A verdade é que pouco me importa que nação aquele atleta representa. Outro dia, a revista Veja estampou a seguinte manchete para falar da conquista do nadador César Cielo no mundial de natação: “Enfim, um herói”. Um vencedor? Sem dúvida. Um candidato a ídolo? Provavelmente. Mas herói? Estamos tão mal assim? Ou estamos apenas nos mirando nos espelhos errados? Pensando bem, temos, sim, heróis, mas eles são outros. Heróis trágicos, como um Euclides da Cunha, por exemplo, que se embrenhou no Brasil profundo para tentar entendê-lo, deixando, mesmo que precocemente, uma obra maiúscula. Ou heróis anônimos, como um taxista que presenciou um rapaz ser assassinado por uma BMW que avançou o sinal vermelho a 150 km/h e foi atrás dela, anotando a placa e denunciando o fato à polícia, que prendeu e soltou o assassino após o pagamento da fiança. A justificativa do taxista: “Fiz o que fiz para poder continuar vivendo sem ter do que me envergonhar perante meus três filhos”. Simples assim. Como ele, tem muita gente de carne, ossos, nervos e dignidade praticando atos silenciosos de heroísmo país afora. Mas esses são espelhos turvos, opacos, sem brilho, e não queremos nos ver refletidos neles.

8 comentários:

Paulo Cunha disse...

Mais um belo texto, meu caro. Compartilho inteiramente da sua opinião. Aliás, gostei também do anterior, sobre as Torres Gêmeas. Acabei "roubando" da sua lista dois blogs bem legais sobre vinhos, uma de minhas paixões. Espero, em breve, fazer uma visita pra gente provar algumas garrafas. Abração!

Paulo Sales disse...

Muito obrigado, Paulão. Sua opinião realmente conta muito para continuar escrevendo. E espero você pra gente tomar um bom vinho, claro. Quem sabe um belo cabernet chileno ou um malbec argentino. Vão aí duas dicas, embora você já deva conhecer: Ventisquero Cabernet (Chile) e Etchart Malbec ou Cabernet (Argentina). Nada muito caro, mas muito saboroso.
Grande abraço e melhoras.

Ricardo Ballarine disse...

Salve PH, uma pequena correção, as duas últimas frases da sua citação do Stycer na verdade são minhas. De resto, concordo. E acrescento, me incomoda profundamente o tom que alguns veículos dão para certas situações, tipo "a nossa seleção", "o nosso herói", "a nossa rainha". Como se não pudesse existir divergência.

Paulo Sales disse...

Sorry, meu velho, faltou atenção na hora de fazer o copia e cola no seu texto: correção feita.
Quanto ao que você diz, é aquela história que já conversamos sobre a necessidade de se forjar ídolos, nem que para isso seja necessário criar vilões sobre os quais triunfaremos.
Abração.

Leo Maia disse...

Paulo, grande texto! Muitas vezes me pego torcendo de uma maneira, digamos, exagerada pela Seleção e começo a pensar se vale a pena tanta energia gasta por um nacionalismo tão bobo. Essa capa da Veja saltou logo aos meus olhos, é no mínimo irresponsável carimbar o Cielo como "herói nacional". Parabéns, mais uma vez, passei esse texto para muitos dos meus contatos, tem gerado discussão por aí! Abs

Paulo Sales disse...

Obrigado, Leozão, por frequentar o blog e por divulgar o texto. Tenho lido sempre o seu blog também. Uma boa maneira de desaguar nossas idéias, não? O nacionalismo em geral é uma coisa nociva, ainda mais quando exacerbado em comemorações tolas e ídolos forjados. Torça e sofra pelo seu Bahia, é muito mais saudável.
Abração, meu velho. E vamos beber quando você aparecer aqui.

Marcos Carneiro disse...

Paulao, só hj pude voltar aqui de novo e nao me arrependi. Muito bom texto!

Abs!

M

P.s: curtindo o Red? hehe

Paulo Sales disse...

Valeu, Pantico. Que bom que você curtiu. Estava agora mesmo terminando um Black que tinha aqui em casa, enquanto escrevia mais um texto para o blog. O Red virá na sequência.
abs