terça-feira, 24 de agosto de 2010

O fim da política


Outro dia reproduzi aqui no blog a seguinte frase de Albert Camus: “A política e o destino da humanidade são moldados por homens sem ideais e sem grandeza”. Uma frase que, passados 50 anos da morte precoce do autor de O Estrangeiro, permanece vívida como um desarranjo nos intestinos da civilização. E nem estou me referindo aqui aos homens sem ideais e sem grandeza que movem o mundo e atravancam o nosso caminho: de George W. Bush a Vladimir Pútin, de Mahmoud Ahmadinejad a Kim Jong II. Falo da arraia-miúda (ou nem tanto) que habita os noticiários e o programa eleitoral gratuito cá por estas bandas ao sul do Suriname. Uma gente sem graça e sem vergonha que aparece para nós de dois em dois anos, com seus sorrisos postiços e seus discursos mal decorados.

A política, na prática, não me interessa. Já me interessou durante a juventude, sobretudo em 1989, naquela eleição histórica que terminou em catástrofe, com a vitória de um embuste sobre o suposto mensageiro da utopia. Agora não restam utopias, apenas o cinismo. Mesmo aquilo que em eleições passadas produzia um desafogo, hoje produz enfado. Impossível esboçar um sorriso, por exemplo, com as tiradas do cantor e humorista (?) Tiririca, que se lançou candidato a deputado federal em São Paulo com o slogan “pior que tá não fica”. Fica, sim. O fato de Tiririca ter chances reais de entrar para o Congresso Nacional é por si só uma constatação de que não dá para prosseguir com o velho chavão de que só nos resta “rir das nossas desgraças”.

Enquanto isso, a eleição presidencial caminha para ser decidida no primeiro turno, vencida por uma candidata de currículo nebuloso e sotaque mais nebuloso ainda. Uma verdadeira personificação da palavra incógnita. Faz um certo sentido, já que se busca a continuidade, e não a ruptura – que talvez só viesse mesmo com a eleição de Marina Silva. Mas não me animo a discorrer sobre o assunto. Tanto na esfera nacional quanto na local, são flagrantes a repetição exaustiva de fórmulas publicitárias e a impressão de que aquelas pessoas que lhe sorriem estão na verdade se lixando para você. O que acaba provocando um efeito recíproco: passamos a nos lixar para elas, para o destino do país e para o nosso próprio futuro como cidadãos que vivem numa nação miserável. É um alheamento arriscado, e a história ensina onde ele pode chegar.

(ilustração retirada do blog http://turmacaribepi.blogspot.com)

2 comentários:

Geraldo Pinho disse...

Concordo contigo e com o Roberto Pompeu de Toledo, da VEJA. Acrescento que, na minha opinião, o Tirircia é apenas mais um sintoma do enorme câncer que corroi a inteligência brasileira desde algum tempo. Desculpe se pareço arrogante, mas anda difícil de aturar programas feito o criança esperança sem ter vontade de vomitar com o desfile do "filé" artístico brasileiro. A era Lula e a iminente eleição de Dilma só vem coroar essa nova fase sem brilho algum, de total mediocridade. Desculpe e um abraço!

Paulo Sales disse...

Não é arrogância, Geraldo, é desencanto mesmo. Compartilho da sua irritação, afinal vivemos uma era de culto à mediocridade em quase todos os segmentos. Tiririca é a prova de que a política é um deles.
Abraços e bem-vindo ao blog.