quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A derrocada de uma era



Já é uma discussão extemporânea e não quero entrar em querelas judiciais. Mas não consigo acreditar que a Casa do Rio Vermelho, onde Jorge Amado e Zélia Gattai viveram a maior parte da vida de casados, não foi tombada como patrimônio público e transformada num museu. Me deprime saber que a obtusidade do poder público, o desinteresse de grandes empresas e a indiferença de uma população cada vez mais estulta tenham feito com que os herdeiros do casal optassem por vender parte do acervo e se virassem sozinhos para manter vivo o legado dos pais. O problema se estende até a Fundação Casa de Jorge Amado, praticamente sem recursos para continuar funcionando. A gente não precisa sair da América do Sul para encontrar modelos louváveis de preservação de riquezas literárias: as casas de Neruda no Chile, incluindo a de Isla Negra; o Centro Cultural Borges em Buenos Aires; a Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre.

Jorge Amado merecia muito mais do que esse desprezo. Não foi o maior escritor brasileiro (é preciso percorrer as veredas dos grandes sertões de Minas para encontrar o titular do cargo), mas foi certamente o maior disseminador do que se conhece por Brasil fora das nossas fronteiras inóspitas, além de ter sido um cidadão do mundo, figura de proa nas relações com os mestres estrangeiros, com os quais dialogava ombro a ombro. Merecia muito mais do que a apatia dos idiotas.

Tudo isso sem falar na Casa propriamente dita: quem já foi lá reconhece na edificação um templo sagrado. O jardim a perder de vista, os móveis gastos, as esculturas, os sapos de cerâmica. Fui lá duas vezes para entrevistar Zélia. A primeira antes da morte de Jorge (ele já senil e resguardado no quarto) e a segunda, depois. Nessa última, ela me confessou, entre lágrimas, que contava os dias para reencontrar o homem que amou e registrou de todos os ângulos com sua câmera. Foi um dos momentos mais tocantes que presenciei em minha vida de repórter. Aquela mulher ainda bonita, de rosto sulcado, que viu e conviveu com alguns dos maiores escritores do século 20, devastada pelo mais primevo dos sentimentos, hoje já devidamente soterrado no jardim da casa.

É esse sentimento que desaparece junto com a Casa do Rio Vermelho. Enquanto isso, excrescências midiáticas – cuja maior contribuição à cultura baiana é a frase “sai do chão” – continuam arrebanhando milhares de devotos nessa cidade cada vez mais brutal e destroçada. Pois é: mais do que o oblívio de dois escritores, a dissolução da Casa representa a derrocada de uma era.

4 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Muito bom, seu Paulo. Já chegou chutando a porta!

Claudina disse...

Já não era sem tempo!
Só não digo que estava "doida" para ler seu blog porque essa característica, a esta altura da vida, só cabe a Vera Ficher... rsrsr
Amigo, tenho muitas saudades de voce, e torço pelo seu sucesso! beijssssssssss

Leo Maia disse...

Muito bom o texto, PSales! Enviei inclusive para algumas pessoas que conheço, fazendo propaganda do seu blog! hehe Abs!

micheline disse...

Sempre soube que tinha um escritor memorável em casa, o que me deixa muito orgulhosa. Fico feliz porque sei que agora outras pessoas têm a chance de conhecer os seus textos, que são reflexões sobre a vida, as pessoas, a existência, o comportamento...Enfim, eu sabia que não estava casando apenas com um corpinho bonito.