sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Nós e eles


É difícil descrever o que sinto pelos animais. Sobretudo aqueles que perambulam sozinhos nas calçadas e se deparam com a indiferença e a estupidez humanas. Por que tanta raiva? Vejo pessoas assustando e tentando chutar gatos e cachorros, e outras que não se preocupam em frear o carro quando um deles atravessa a rua. Cada resto de bicho no asfalto me causa um sofrimento íntimo que não consigo entender. De onde vem isso? Não faço idéia. Quando era criança, pensava que me tornaria um veterinário, embora gostasse mais dos animais selvagens que dos domésticos. Nunca tive bichos em casa, à exceção dos passarinhos engaiolados, o que hoje deploro. Quando voltei de São Paulo, há uns10 anos, fiz amizade com um gatinho vira-lata chamado Téo, que vivia lá em casa e fazia a maior festa quando eu chegava. Ele e sua família. Foi uma das criaturas mais complexas que conheci, sem dúvida mais complexa que a maioria das pessoas com quem sou obrigado a dividir a cidade. Acabei deixando Téo quando me mudei (ele ficava num condomínio com outros gatos e os vizinhos o alimentavam), mas depois soube que ele foi morto pelo pitbull de um paspalho que morava lá. Lembro bem que durante todo o tempo em que fiquei arrumando as coisas no carro para ir embora ele não tirou os olhos de mim. Me olhava como se implorasse para ir junto. Isso já tem muito tempo, mas ainda lembro com nitidez aquele olhar e me arrependo muito de não ter levado Téo comigo. No ano passado, comprei uma cachorrinha para minha filha, Lile, que eu chamava de Caçula. Tivemos que dá-la para que não acabasse com a casa. Mas foram 10 meses de uma convivência maravilhosa com um animal que emanava afeição sem pedir nada em troca. Não dava para ficar com a Caçulinha, mas sinto falta da agitação que ela provocava, da alegria com que me recebia quando eu chegava em casa. Só sosseguei quando visitei a nova dona e vi que ela estava bem. Hoje, eu e minha filha ficamos vendo os dois vira-latas que vivem no módulo policial em frente ao nosso prédio. Estão sempre brincando e recebem carinho e alimento dos policiais e das pessoas que moram ali em frente. É preciso tão pouco para que se sintam bem. Amar um animal é uma forma de sabedoria.

3 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Cara, tb adoro animais. Meu cachorro morreu com quase 18 anos, já aprontou varias tb, mas as coisas boas q ele trazia compensavam tudo. Depois de tanto tempo ele já fazia parte da familia. Chegou ate a viajar com a gente entrando no hotel escondido dentro da mala...

vivi disse...

nossa, visitei este blog por indicação da minha colega de trabalho que estudou com você, e para falar a verdade, não imaginava que seria tão bom. Você lembra da Helga (turma de jorn. Cásper)? a indicação veio dela.
Amei este texto e vi nas suas palavras tudo que tenho vontade de falar, tudo que sinto e vejo nos animais. Fico aliviada em ver que ainda existem pessoas que doam parte do seu tempo para tratar, mesmo com um belo texto, destes seres que carregam o fardo do descaso humano. Parabéns!

Paulo Sales disse...

Cara Vivi,
Muito obrigado pelo comentário e pelos elogios. Claro que lembro de Helguinha, uma figura muito gente boa, que também tem um blog bem legal.
Adoro os animais, e sinto um aperto no peito toda vez que vejo algum vira-lata tentando atravessar uma rua movimentada, como se fosse uma criança desamparada. Se não posso cuidar deles, só me resta manifestar o que sinto em textos como este.
Um abraço e continue aparecendo no blog.