quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Idioma universal




Não sei se há diferentes escalas de barbárie. Pouco importa se os motivos são radicalmente distintos ou se os assassinos são mais ou menos cruéis, a brutalidade é sempre uma só, farta em sofrimento, escassa em sentido. Um estampido de fúria e insensatez que nos atinge indiretamente, como uma bala raspando nosso rosto, até que um dia nos acerta em cheio. Como aconteceu com Caroline Silva Lee, 15 anos, executada com dois tiros no último domingo, durante um assalto, em São Paulo. Ou como ocorreu com Malala Yousufzai, 15 anos, que sofreu uma tentativa de assassinato no início do mês no Paquistão.

Como eu vinha dizendo, a barbárie não permite diferentes degraus ou matizes: ela é chapada, seca, sem nuances. Não estamos, portanto, em um estágio mais avançado do que o Paquistão. Malala é uma jovem ativista, que escreve um blog no qual denuncia e combate a violência contra as mulheres cometida pelos fanáticos do grupo Talibã. Por essa postura, rara em uma garota da sua idade, ela foi baleada na cabeça por um extremista que simpatiza com as ideias (se é que podemos usar esse termo neste caso) do Talibã. É intolerância em estado bruto, ocorrida do outro lado do mundo, em uma nação pobre e convulsionada da Ásia. “Que situação triste vive esse país”, você pode pensar, e eu concordo. Mas a verdade é que nós, brasileiros, estamos no mesmo barco. Afundamos de mãos dadas.

Caroline foi morta por se recusar a entregar a bolsa. Levou dois tiros à queima-roupa desferidos por um sujeito que, após ser preso, disse que é isso o que acontece com quem reage. Segundo o seu namorado, ela deve ter hesitado em entregar a bolsa por conta de uns desenhos para tatuagem que ela tinha criado e não queria perder. O depoimento do rapaz à Folha de S.Paulo, dois dias depois do assassinato, me deixou comovido. É um menino articulado, inteligente, gente do bem, como também parecia ser a garota. Gente que batalha, que sofre com transporte público precário e empregos mal remunerados, mas que mesmo assim cultiva seus sonhos, por menos ambiciosos que sejam. Gente com os dois pés fincados na realidade. Eles me lembraram um pouco o casal Miles e Pilar do romance Sunset Park, de Paul Auster, que li recentemente: ele um pouco mais velho, ela novinha. Os dois sem grandes expectativas além das próprias expectativas, que para eles tinham a dimensão do universo.

O assassinato de uma menina tão jovem revela, em toda a sua sordidez, o profundo fosso em que nós, brasileiros, estamos metidos. Ignoramos a guerra civil não declarada que faz tombar diariamente gente muito nova nas cidades entupidas em que moramos. Continuamos a entender o brasileiro como um ser cordial, boa-praça, sempre disposto a uma conversa fiada num botequim. Não somos assim. Não pode existir cordialidade em um país que mata de forma violenta milhares de pessoas todos os anos, seja no trânsito ou em situações que envolvem armas de fogo, como afirma em uma brilhante palestra o historiador Leandro Karnal. Aqui, a morte é banal, vulgar, quase um efeito colateral do que chamamos progresso.

O atentado contra Malala causou uma comoção mundial, tanto que ela acabou transferida para Londres, onde se recupera bem, apesar das prováveis sequelas. Faz sentido. Malala é um símbolo de resistência, uma voz quase infantil a bradar contra um dos regimes mais estúpidos surgidos na era moderna. Seu grito reverbera fundo no mundo contemporâneo e ganha a adesão maciça dos que prezam a liberdade. Mas... e o que fazer com o grito mudo de Caroline ao receber os dois tiros que lhe arrancaram a existência? Quem vai abandonar a zona de conforto para aderir a sua causa perdida? Seu silêncio nos incomoda, porque nos iguala ao Paquistão, à Síria, ao Iraque. Barbárie é barbárie, e o seu idioma é universal.

sábado, 29 de setembro de 2012

Whole lotta love



Hebe Camargo morreu hoje. Ou foi ontem, não sei. Uns dias antes já tinha ido embora Ted Boy Marino, de quem guardo uma lembrança simpática, embora enevoada. Meu pai costumava chamar meu irmão mais novo de Ted Boy, e costumávamos ver o astro do Telecatch em ação no programa dos Trapalhões, que eu adorava. Lembro de quando meu pai nos levou ao cinema para ver Os Trapalhões no Planalto dos Macacos, num cinema na área central e hoje bastante empobrecida da cidade. Foi, talvez, o primeiro filme que assisti no cinema, mas pode ter sido Tentáculos, sobre um polvo gigante assassino. São reminiscências que chegam até o homem que sou hoje envolvidas numa pátina maciça de tempo. Reminiscências sem muita lógica, que me vão povoando a mente enquanto o Led Zeppelin (também ele uma lembrança de outros tempos) sacode o meu gabinete com uma sonoridade espessa. Sei apenas que me causa certo desalento saber da morte de pessoas que habitaram o meu imaginário infantil, como aconteceu há alguns meses com Chico Anísio.

Aos 42 anos, sou muito mais vulnerável do que fui. Sinto falta da redoma que durante décadas nos protegeu – a mim e a minha família – das doenças graves, dos acidentes, da violência urbana, e que se quebrou de vez quando meu pai adoeceu. É como diz aquela canção linda de Cazuza que Ney Matogrosso gravou: “De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua, que vai ficando no caminho”. Sim, a sensação de abrigo, morna e ingênua, que pais verdadeiramente amorosos passam aos seus filhos, e que perdemos aos poucos enquanto crescemos e nos tornamos, também, pais amorosos. “Uma infância feliz é a pátria mais invulnerável”, me disse certa vez numa entrevista o poeta argentino Juan Gelman. Acho que isso tem muito a ver também com Ted Boy Marino, Didi Mocó, o Homem de Seis Milhões de Dólares, o Homem do Fundo do Mar e tanta gente mais que nos fez companhia nas tardes solitárias da nossa aurora – ou da minha, pelo menos.  

Hoje eu protejo a minha criança em fase de metamorfose, crio um casulo impermeável a sofrimento e frustração, enquanto temo o embrutecimento coletivo ao meu redor. Mas... passou tão rápido. Sou tão criança ainda. Mal nos acostumamos a nos comportar como adultos e a vida já nos mostra o fim da linha. Que crueldade é essa que fazem com nós? Quem faz? Às vezes é muito duro ser ateu, e nesses momentos compreendo a opção pela crença sem questionamentos, pelo aceitar tranquilo e resignado de que estamos de passagem rumo ao paraíso. Mas o que tenho é apenas este lado do paraíso. Uma porção incompleta, sem a outra metade, já que à vida falta uma porta, como disse Ferreira Gullar. Sou estes ossos que apalpo, este tendão de Aquiles inflamado que me faz mancar, esta pele já não tão rígida, este ouvido que escuta agora Whole Lotta Love no volume máximo. Sou um homem que envelhece lentamente, enquanto a vida leva aos poucos nossas lembranças de infância, nossos Ted Boy particulares, nos deixando apenas a perplexidade.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Cócegas no infinito




Leio sobre a teoria do multiverso na coluna do físico e astrônomo Marcelo Gleiser na Folha de S.Paulo. Segundo ela, o universo que nós (mal) conhecemos seria apenas “um entre uma multidão de outros universos, todos parte de um multiverso que pode ter existido por toda a eternidade”. Gosto dos textos de Gleiser porque ele explica com clareza o que está à beira da nossa incompreensão. Como imaginar algo ainda maior e mais intangível do que o nosso universo? Como pensar em bolhas gigantescas convivendo em espaços-tempos diferentes e estanques desde sempre, sem começo, meio ou fim? Que seres existiriam nesses outros universos? Como eles seriam? Haveria algum tipo de inteligência superior? Ou apenas microrganismos unicelulares, como fomos um dia?

Enfim, nossa incompreensão é avassaladora. Uma avalanche de questionamentos nos leva à mais completa ignorância do que somos feitos, de onde viemos, para onde vamos e por que afinal estamos aqui. Em A Árvore da Vida,Terrence Malick trata dessa incompreensão absoluta diante da imensidão em que estamos imersos. Como encontrar respostas para a perda de quem amamos, se essa perda é só um farelo no curso da existência do universo? Se o próprio curso do planeta Terra é, também ele, só um farelo, uma centelha quase invisível? Nossa insignificância é assombrosa. Lançamos nossas preces ao céu em busca de um sinal, uma lógica, algo em que possamos nos agarrar antes de naufragar de vez na inconsciência.

Por outro lado, o quase nada que temos é crucial para que continuemos vivos. Enquanto o universo segue indiferente o seu caminho, tendo ou não a companhia de universos paralelos, nós prosseguimos como nômades por um cotidiano de perdas, frustrações, tédio, medo, cansaço e sofrimento, mas também de carinho, compaixão, amor, alguma esperança e momentos fugazes de alegria genuína. Como escreveu Christopher Hitchens em seu último livro, “Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo”. Enfim, um mistério ainda maior e mais angustiante que o do multiverso. A carapaça que nos abriga é também tudo o que somos, em toda a nossa incompletude e finitude.

A vida é o que nos resta, portanto, já que a alternativa a ela não é nem um pouco atraente. Viver é bom, vale a pena, embora por vezes nos desencantemos com uma realidade tão brutal. Enquanto me deixo fascinar pela possibilidade do multiverso, o mundo banal e irrelevante que habito se projeta sobre mim com todo o seu tenebroso esplendor. Um mundo feito de atentados a bomba motivados por pretextos fúteis, execuções gratuitas de adolescentes pobres, corrupção desenfreada e índices alarmantes da mais pura miséria humana. E o que é pior: tudo isso é apenas farelo. Apenas uma cócega ligeira na sola do pé do infinito.

domingo, 26 de agosto de 2012

As cidades invisíveis




Tenho um interesse muito peculiar por cidades soterradas pelo tempo. Fico intrigado ao ver programas de tevê que mostram expedições arqueológicas desvendando segredos de civilizações ancestrais, encobertos por camadas e mais camadas de terra e concreto. Gosto de saber da existência dos guerreiros de terracota, milhares de estátuas em tamanho natural que guardavam o mausoléu do imperador Qin, na China, e que só foram descobertos na década de 1970. Ou que em cidades como Cairo e Alexandria, no Egito, qualquer obra subterrânea – seja uma extensão do metrô ou uma instalação de tubulações de gás ou esgoto – acaba sempre revelando porções generosas de passado. Antigos objetos de uso doméstico, afrescos, vestígios de antigas residências ou mesmo corpos mumificados dentro de esquifes de ouro.  

Assim como cidades são soterradas com o passar dos séculos, sociedades inteiras também são. É uma parcela enorme da humanidade que deixa o mundo paulatinamente para dar lugar a uma nova era. Mas não me refiro aqui às velhas civilizações da idade antiga. Falo das pessoas que viveram há pouco menos de 200 anos em cidades relativamente parecidas com estas em que vivemos. Tenho pensado nelas ao ler os primeiros livros de James Joyce, Os Dublinenses e Retrato do Artista quando Jovem. Seja nas desventuras em série do adolescente Stephen Dedalus ou na festa de confraternização das velhas irmãs do conto Os Mortos, Joyce fala de um mundo extinto: a Dublin de fins do século 19. São pessoas, comportamentos, objetos e formas de lazer e diversão soterrados pela modernidade. Por um mundo habitado por aviões a jato, telefones celulares, festas movidas a música eletrônica e drogas sintéticas, computadores com internet, pendrives com centenas de músicas e filmes e nada menos que seis bilhões de pessoas espalhadas pela Terra.

O curioso de tudo isso é que, daqui a 200 anos, todos esses seis bilhões de seres humanos estarão literalmente soterrados. Incluindo eu, você e os bebês que acabam de nascer neste exato momento, seja em Roma, Porto Príncipe, Tóquio ou num povoado esquecido do Sri Lanka. A dita modernidade de hoje dará lugar a um mundo radicalmente diferente do nosso, que será relembrado por alguém no futuro – do mesmo modo que faço agora – como um tempo tão exótico e remoto quanto a Dublin de Joyce. Não por acaso, é dele a frase: “O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se”. Joyce se referia ao mundo de Gabriel e sua esposa, Gretta, personagens de Os Mortos. Após ouvir por acaso uma canção há muito esquecida, Gretta se lembrara de um amor adolescente, um garoto chamado Michael Furey, morto aos 17 anos. A reminiscência desse trecho de juventude esquecido trouxe a tiracolo um misto de saudade e tristeza, que a deixou prostrada.

Fico imaginando o que permanece de nós quando nos tornamos invisíveis. Uma saudade que deixamos em nossos filhos e nossos amigos. Algo que escrevemos e que se reproduz por um tempo entre leitores que não conhecemos. Uma foto muito antiga que escapa das nossas gavetas e vai parar em um museu. Mas, em seguida, tudo se aniquila. Nossas cidades serão soterradas, assim como nossos corpos, nossa memória e nossos sentimentos. Vão passar os anos. Cem, duzentos, mil anos. E então o século 21 se converterá numa espécie de Mesopotâmia. Distante e desconhecido como o grito de um mudo num deserto de areia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Somos todos japoneses




Há alguns meses, um homem morreu eletrocutado aqui em Salvador. Foi uma morte lenta. Ele tropeçou e caiu em cima de um fio de alta tensão, que tinha sido lançado ao solo após um caminhão ter derrubado um poste. Ficou longos minutos tostando enquanto perdia aos poucos a consciência. O episódio, fartamente exibido em um jornal por um fotógrafo profissional que coincidentemente passava por ali, gerou uma discussão ética nas redes sociais, com pessoas condenando ou absolvendo o fotógrafo por registrar sem retoques o fim de uma vida. Mas o que me deixou chocado nessa história toda foi outro fato, que passou despercebido nas discussões: uma das fotos mostrava o público que observava o acontecimento. Praticamente todas as pessoas ali filmavam ou fotografavam com seus celulares o homem morrer. O olhar deles era vazio, e havia um profundo fastio naquelas expressões. Eles registravam aquilo como se registrassem, sei lá, um congestionamento numa rua ou um funcionário do almoxarifado fazendo o seu trabalho.

Esse acontecimento me voltou à tona quando li um artigo de Umberto Eco, que tem como tema a maneira excessiva com que as pessoas registram tudo em máquinas fotográficas ou filmadoras, sobretudo após a disseminação dos celulares com câmeras. Na parte final do texto, Eco relembra o impacto que sofreu ao presenciar, quando tinha 11 anos, a morte de uma mulher que acabara de ser atropelada. Era a primeira vez que ele presenciava a morte, a dor e o desespero. “O que teria acontecido se eu tivesse um celular equipado com uma câmera de vídeo, como todo menino tem hoje? Talvez tivesse registrado a cena para mostrar a meus amigos que eu estive lá. E talvez tivesse publicado meu tesouro visual no YouTube, para delícia de outros devotos do ‘schadenfreude’. Depois disso, quem sabe? Se tivesse continuado a registrar esses infortúnios, poderia ter-me tornado totalmente indiferente ao sofrimento dos outros. Em vez disso, preservei tudo em minha memória. Setenta anos depois, a imagem mental daquela mulher continua me assombrando e, de fato, me ensinou a empatizar com o sofrimento dos outros em vez de ser indiferente a ele.”

É muito perceptível, na sociedade de hoje, essa indiferença a que o escritor italiano se refere. E não apenas em relação à dor dos outros. Uma espécie de enfado coletivo parece guiar uma civilização que avança no piloto automático, olhando apenas para a frente. Não vou me estender aqui em discussões sobre a insensibilidade social ou o individualismo ferrenho que vemos em qualquer esquina. Falo apenas dessa apatia generalizada, que Eco traduziu perfeitamente na associação que fez com a obsessão contemporânea por registros visuais. Lembro que antigamente sacaneávamos com os turistas japoneses pelo costume que tinham de fotografar e filmar incessantemente os lugares que visitavam, em vez de realmente sentirem a atmosfera do local, suas peculiaridades, seus cheiros, suas cores. Para eles, a viagem começava quando voltavam para casa e conectavam a filmadora na tevê.

De certa forma, estamos virando japoneses, só que infelizmente sem a polidez e o recato característico deles. Cada vez mais filmamos tudo, fotografamos tudo, compartilhamos tudo nas redes sociais. Cada vez mais sentimos um vazio quando, ao invés de apreciarmos a apresentação dos nossos filhos no palco da escola, nos preocupamos em filmar toda a apresentação com nossos smartphones. Vemos o mundo através de uma telinha minúscula, e é com esse filtro que nos conectamos com a vida real e, de certa forma, nos protegemos dela. Ressalto: acho positivo que tenhamos acesso a tecnologias que nos permitem captar tantas coisas em um curto espaço de tempo e compartilhá-las com quem gostamos. Mas há uma perda aí, que ainda não consigo saber exatamente qual é. Apenas tenho a vida alheia cada vez mais próxima da minha retina, e isso turva a minha visão.

domingo, 15 de julho de 2012

O princípio e o fim




Às vezes, passamos anos esperando que algo aconteça e, quando ele finalmente chega até nós, nos damos conta de que veio tarde demais. O impacto que poderia causar se apresenta amortecido, convertido em um ligeiro sussurrar sobre nossas reminiscências, meio que dizendo: “Lembra de quem você era?”. Acho que foi mais ou menos isso que senti quando deixei o cinema após assistir a Na Estrada, filme de Walter Salles baseado no clássico beat On the Road, de Jack Kerouac. Não é um livro qualquer, ao menos para mim. Como já escrevi algumas vezes aqui no blog, On the Road foi uma centelha que durante anos povoou o meu imaginário. Ele estava lá aos 17 anos, quando minha adolescência se liquefazia numa zona permanente de desconforto e inadequação. E, três anos mais tarde, foi o guia que me levou a paragens distantes, me permitindo vivenciar experiências que moldaram parte importante da minha personalidade.

Dito tudo isso, a principal substância que posso extrair da experiência de ter assistido a Na Estrada – e seria impossível viver essa experiência sem qualquer envolvimento afetivo – é a saudade de um tempo particularmente feliz da minha vida. Mas um tempo que, por outro lado, ficou definitivamente para trás, como uma antiga paixão a quem reencontramos e nos damos conta de que a brasa virou cinza. Posso me despedir dela agora e está tudo bem, cada um segue o seu caminho sem mágoas ou feridas mal cicatrizadas. Muita coisa veio à tona. Percebi, nas falas em off que reproduziam trechos do romance, o quanto tentei escrever como o velho Jack naquela época. Diversas cenas me transportaram para o passado e provocaram uma nostalgia aconchegante, como uma casa de avós queridos à qual voltamos depois de muito tempo: a vastidão sem fim, as paisagens que se sucedem à margem das rodovias, a névoa do início da manhã, o tempo sem pressa, a solidão avassaladora e uma valorosa sensação de liberdade.

Mas o fato é que Na Estrada produziu em mim mais distanciamento e contemplação do que envolvimento e encanto, e continuo sem saber se isso é um defeito do filme ou um efeito perverso da passagem do tempo sobre os meus ingênuos ideais dos 20 anos. Jovens praticando pequenos delitos, transando de forma quase desesperada e se drogando com benzedrina dizem muito pouco a mim hoje. Senti falta, também, de algo que me fascinava no livro: o culto às figuras sagradas, aos vagabundos sem nome, aos americanos comuns cheios de bons sentimentos e mesmo aos companheiros de estrada que borrifavam vida por todos os poros e partiam em busca da própria verdade. Onde foi parar o senso de urgência, a necessidade vital de expansão para além dos próprios limites? Onde foram parar o Paradise e o Dean que nos inspiraram a pedir caronas e viajar em boléias de caminhão país afora?

Um vácuo existencial parece mover os personagens. Uma sensação de vazio que em alguns momentos ultrapassa a tela e atinge o espectador, como me atingiu. Depois de pensar um pouco, enquanto dirigia de volta para casa, me dei conta de que a narrativa pareceu reproduzir na tela não o livro de Jack Kerouac, mas sim o processo criativo e as experiências que permitiram a ele escrever o livro. Como uma espécie de making of, um On the Road lido retrospectivamente, através do qual é possível perceber os 55 anos que separam o livro do filme. Dean e Marylou parecem se mover permanentemente em busca de algo que não conseguimos apreender. Passam a impressão de ansiar por uma vida estável, careta, a qual são incapazes de viver em plenitude. A pergunta é: o livro era assim? São 20 anos que me separam das seguidas leituras de minha bíblia querida de juventude, e precisaria voltar a ela para conferir.

Tiro o livro da estante e o folheio com cuidado e carinho. O mesmo velho e carcomido volume publicado pela Brasiliense que levei algumas vezes comigo para a estrada, onde relia os trechos preferidos enquanto distâncias enormes eram consumidas em fogo brando. Leio o início e percebo que o roteirista adulterou o conteúdo para estabelecer um paralelo entre os dois protagonistas através dos efeitos da ausência paterna em ambos, mas nem sei se isso faz alguma diferença. Folheio mais um pouco e em seguida fecho o livro. Lembro agora de ter ficado feliz ao ouvir de novo nomes esquecidos, como Ed e Galatea Dunkel, Carlo Marx, Old Bull Lee e tantos outros personagens que povoaram o meu imaginário juvenil. Lembro também que me emocionei ao ouvir, na voz de Sam Riley, o comovente trecho final do livro, que reli tantas vezes e que ouvi outras tantas recitado pelo próprio Kerouac. Havia, naquele final, um esboço do que o filme de Walter Salles poderia ter sido e não foi: um divisor de águas na trajetória de milhares de jovens atônitos, inseguros e loucos por uma aventura. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tempos duros




“As pessoas não eram diferentes naquela época do que sempre foram e sempre serão. Garotas ficam com o coração partido. Homens e mulheres sofrem sozinhos pelas próprias escolhas que fizeram. E garotos muito confusos, cheios de medo, de amor e de coragem, crescem furtivamente na calada da noite”. Está lá, no final de um episódio particularmente comovente de Anos Incríveis, uma série de tevê que continuo adorando, por mais que os anos passem, e que voltei a assistir agora há pouco. Há muito de mim em Kevin Arnold, o garoto sensível que cresce em um subúrbio norte-americano tentando tatear o mundo à sua volta. Um mundo que mudava com a velocidade de um Sputnik cruzando os céus naquela década de profundas convulsões sociais, comportamentais e políticas: os anos 60.

Vejo Kevin e vejo a mim mesmo, um menino nascido de tempos duros, buscando vislumbrar para além do porto seguro e enxergando perplexo a brutalidade do mundo lá fora. Um menino ensimesmado, filho de pais batalhadores e amorosos, que tentavam abarcar para mim, dentro de suas próprias limitações, a complexidade de existir. Sou acima de tudo um homem do século 20. Um herdeiro da Guerra Fria, do golpe militar, de um país que enfim deixava de ser rural para abraçar sem amarras a urbanidade, com suas avenidas repletas de Fuscas, Brasílias e Corcéis. Seus terrenos baldios a perder de vista que aos poucos se convertiam em favelas. Seus jovens casais que fumavam Hollywood mas não encontravam o sucesso. Sou um homem nascido em 1970, apenas 25 anos depois de encerrada a guerra que dizimou o continente responsável por gestar o que conhecemos por civilização. Sim, nasci apenas 30 anos depois da Alemanha nazista. E apenas 20 anos antes de Ruanda, Sérvia, Serra Leoa.

Nasci há tão pouco tempo e por vezes me sinto um velho. Afinal, os tempos estão mudando, como cantou Bob Dylan em The Times they’re a-changing, que ouço agora enquanto bebo um vinho e tento uma transmutação rumo ao meu paleolítico particular. Hoje, como também disse Dylan, criticamos o que não conhecemos. É nítida a nostalgia, a saudade de outros tempos, embora esses tempos não tenham sido necessariamente idílicos. Mas ao menos havia uma redoma, um escudo protetor. Sou fruto de tempos tristes, e a eles me agarro como à última madeira flutuando à minha frente, como se o futuro fosse tóxico e o presente, incompreensível.

Não sei onde quero aterrissar. Talvez tudo se resuma aos velhos questionamentos que insistem em nos fustigar desde eras imemoriais: de onde viemos, quem somos, para onde vamos? Gerações vão se suceder, nações vão surgir e submergir e nós continuaremos crescendo furtivamente na calada da noite, com os olhos abertos, tentando compreender o que fazemos aqui, sem que qualquer epifania venha nos trazer consolo ou redenção. Está tudo acabado agora, Baby Blue.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Contra a multidão




Algum tempo atrás, conversava com dois casais de vizinhos do prédio onde moro. Papo descontraído e despretensioso, que em dado momento enveredou para as mazelas cotidianas que enfrentamos em nossa cidade e em nosso país. Comentei que vivíamos sob vários aspectos uma época de degeneração social. Um dos meus interlocutores complementou: "O maior problema são esses gays. Esse negócio de gay em todo lugar, querendo casar, fazer passeata". Aquilo me assustou, mas em seguida, a moça do outro casal confirmou o diagnóstico: "É isso mesmo. Uma coisa horrível. Aqui mesmo no prédio tem duas. Outro dia peguei elas se abraçando na garagem". Tentei argumentar, dizendo que não me referia a isso quando falava em degeneração social, acrescentando que para mim o homossexualismo estava longe de ser um problema, tinha amigos gays, etc. A moça respondeu: "Tenho medo por minha filha, de ela crescer vendo essas coisas".

O clima pesou um pouco. Naquele momento, percebi que a minha relação com os casais deveria prosseguir no mesmo grau de superficialidade em que se mantivera até ali. Um amistoso "boa noite, tudo bem com você?" na porta do elevador e vida que segue. Ressalto que aceito outras visões de mundo, mesmo que sejam radicalmente opostas à minha. Aceito até certo ponto os preconceitos alheios, mesmo porque tenho também os meus, que carrego como um estorvo. Mas havia, embutida naquelas frases, algo mais grave: uma não-aceitação de outros seres humanos. Não se tratava apenas de não gostar de determinado comportamento, mas sim de repudiar a existência de quem pratica tal comportamento. Pensei de imediato na Alemanha nazista, onde as pessoas eram mortas não por pensarem, sei lá, que o nazismo era uma estultice qualquer que não deveria ser levada a sério. Eram mortas porque existiam.

Esse tipo de pensamento expelido durante a conversa poderia ser apenas resultado de uma forte influência religiosa ou de uma formação moral um pouco mais rígida. Poderia ter nascido, digamos, da aversão aos trejeitos festivos que são o clichê comportamental dos gays. Até aí tudo bem. O problema é que esse tipo de pensamento tem servido para criar um certo conformismo diante de episódios chocantes. O último deles foi a morte de um rapaz de 22 anos, que estava abraçado ao seu irmão gêmeo e foi espancado por um grupo que os confundiu com um casal gay. Quando um fato como esse acontece – e acontece com frequência estarrecedora –, há algo de muito errado na sociedade. Uma sociedade que, em sua maioria, pensa como os meus vizinhos. E que, em uma parcela bem mais reduzida, age violentamente com base nas mesmas premissas.

É sintomático que o acirramento das manifestações homofóbicas esteja estreitamente ligado às conquistas recentes dos homossexuais no terreno dos direitos humanos. Não lembro (e posso estar totalmente enganado a esse respeito) de casos tão corriqueiros de ataques a gays nas grandes cidades. Era algo comum em rincões conservadores, com população pequena, mas não numa Avenida Paulista. Do mesmo modo, nunca soube de nada semelhante ao projeto de lei do deputado goiano que propõe a legalização da "cura gay". Claro que não vai passar no Congresso, mas não deixa de ser um retrocesso e tanto.

É algo que me assusta. Em 42 anos de vida, construí convicções que foram se sedimentando ou se diluindo enquanto crescia e me lançava à vida real, para além do mundo ideal da família. Um processo complicado, no qual você precisa abandonar tolices há muito arraigadas na consciência e consolidar seu olhar particular sobre o mundo. O preconceito contra os homossexuais foi uma dessas tolices, deixada de lado à medida que conhecia obras de grandes autores e conhecia grandes pessoas que tinham como denominador comum sentir atração e amor por iguais. Hoje, o preconceito – não apenas de sexo, mas também de cor e de classe – me entristece, me exaure, me exaspera. Como andar contra uma multidão de torcedores do time adversário vindo em sentido contrário. 

sábado, 23 de junho de 2012

Ritos de passagem



Uma amiga virtual – que conheci através deste espaço e da paixão comum por Scott Fitzgerald – escreve um blog no qual se dedica a contar histórias para sua filha ler quando for adulta. Creio que Este Lado do Paraíso também é, de certa forma, um lugar onde minha filha vai encontrar, quando crescer, uma faceta diferente do pai que sente por ela uma espécie de veneração. Um cantinho aconchegante, no qual minha voz chegará a ela através do silêncio cúmplice ou de revelações nunca ditas quando era a criança que ainda é. Devaneios, muitas vezes singelos, de um homem que tateia no escuro em busca de uma lanterna, um lastro no qual apoiar seus questionamentos vãos, seus sentimentos aflorados ou latentes, suas dúvidas cada vez mais avassaladoras.

Por mais disparatados que sejam os assuntos contidos aqui no blog, algo os une e se expressa nas entrelinhas: uma obsessão em deixar um legado, um pequeno rol de princípios morais que sirvam de farol para a pessoa que mais amo, por mais que a luz desse farol esteja em alguns momentos opaca e oculte as pedras sob a maré. Há um mundo por desbravar lá fora, e ela já ensaia alguns olhares para além do ninho, como deve ser. Achei que esse momento me assustaria, o do rito de passagem da infância para as dores e delícias da juventude, mas me vejo tranquilo, observando a lenta metamorfose se operando sobre o seu corpo – hoje mais esguio e sinuoso, com ossatura mais saliente – e sobre o rosto que já desvela a mulher que ela se tornará, por mais que ainda conserve a doçura infantil e os dentes de leite que ainda teimam em amolecer e cair – e que eu mesmo extraio, me revelando um improvável dentista.

Em minha filha, o ritual de iniciação não vem se manifestando como ruptura, antes como um processo harmônico e natural, ao contrário do meu, que foi de certa forma traumático. Gosto de assistir a essa transformação, assim como gosto de sentir o cheiro dos seus cabelos quando a beijo na testa e a aninho junto de mim. Ou quando brinco com seu gosto musical, fazendo troça dos seus artistas preferidos, e ela sorri, dizendo que são muito melhores que “esse tal de Miles Davis”. São mesmo. Nada como os ídolos da juventude, os primeiros espelhos, só que inatingíveis, para que possamos desenvolver a própria identidade, firmar nossos pés no mundo que se anuncia. Então chegará a vez de a vida envolvê-la e lançá-la em território desconhecido, como faz com as jovens leoas, águias e tartarugas. Eu estarei aqui, espero, observando encabulado o curso natural da existência e escrevendo textos como este, meio tolos e derramados, que com os anos ganharão um tempero extra de saudade. Saudade de um tempo em que fomos muito felizes.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Carrascos?



Às vezes, caio de pára-quedas em rodas de conversas com pessoas mais ou menos conhecidas, para cumprir obrigações sociais. Nessas ocasiões (nas quais meu lado introspectivo sofre como um goleiro diante do pênalti), costumo ouvir coisas que provocam em mim uma aversão imediata. São frases do tipo "tem que matar mesmo" ou "por mim, bandido tem mais é que morrer". Essa aversão é fruto do meu caráter racional e humanista, cultivado ao longo de décadas, nas quais edifiquei meus próprios princípios. O problema é que esses princípios estão assentados em terreno movediço. Sujeitos, portanto, a abalos eventuais.

Afinal, como não pensar em rever nossos conceitos quando nos deparamos com episódios plenos de barbárie, como aquele envolvendo a mulher que matou e esquartejou o marido? Ou o pai que estuprou as filhas gêmeas de dois anos e matou uma delas? Ou, ainda, a quadrilha que enforcou um casal de trabalhadores para roubar 6 mil reais, no velho golpe da venda de um imóvel inexistente? O que merecem pessoas assim? Pergunto a mim mesmo, sem que a resposta adquira a convicção das frases que ouço nas tais rodas de conversa. Mas, por outro lado, também não me entusiasmo com minha própria convicção de que criminosos devem pagar de acordo com as leis frouxas do país.

Sou, filosoficamente, a favor da pena de morte. Mas, repito, filosoficamente. Em um país ideal, imune a ingredientes como miséria maciça, acesso fácil a armamentos, justiça suspeita e corrupção desenfreada. Num cenário como esse, o fato de alguém matar deliberadamente outro ser humano deveria ser passível de punição máxima, afinal, é uma vida que foi tirada, muitas vezes por motivos esdrúxulos. Um exemplo claro? Anders Behring Breivik, que assassinou 77 pessoas em uma das sociedades mais avançadas do mundo. Lá, ele teria (como está tendo) um julgamento justo e sem pressão popular exacerbada. O que ele merece? Para mim, sem sombra de dúvida, uma execução. Da mesma forma que Timothy McVeigh, outro maníaco de extrema direita, que explodiu um prédio em Oklahoma e recebeu em troca uma injeção letal nos Estados Unidos.

Mas... e quanto aos criminosos brasileiros que listei acima? A resposta, sincera e claudicante, é: não sei. Temo um estado de barbárie, onde a justiça comece a ser feita com base no clamor das ruas. Até porque a nossa sociedade permite, mesmo que de forma escamoteada, a execução sumária de milhares de pessoas a cada ano. Acima de tudo, desprezo o sentimento que vislumbro nas frases tipo "tem que morrer devagarzinho, sob tortura". A vingança é um estado de espírito alterado, constituído de um prazer sádico que não compreendo. Mas é um dilema de difícil solução, no qual nosso lado racional convive em permanente disputa com o que temos de mais primitivo: o sentimento de preservação da espécie. Quando alguém mata, sobretudo uma criança, está invadindo um território sagrado da humanidade, daí as reações tão instintivas. Dostoievski e Camus já trataram desse tema com muito mais propriedade e profundidade em Crime e Castigo e O Estrangeiro.

Enfim, não gosto de convicções sedimentadas, porque tendem a virar dogmas e adquirir a forma de preconceitos. É o caso dos paladinos do justiçamento, os carrascos midiáticos ou não que vêem no bandido apenas uma deturpação da espécie, uma aberração que deve ser extirpada da civilização. Uma visão simplista, preguiçosa e obtusa. Mas por que, em alguns momentos diante de um jornal ou de uma tela de tevê, nós nos pegamos pensando de um jeito parecido? O que atiça em nós o ódio irracional? O que nos faz bradar como bárbaros, pedindo a morte de tipos abjetos como o casal Nardoni ou o goleiro Bruno? Talvez seja pelo fato de que a existência, assim, como a vida em sociedade, não é algo homogêneo, sem meios-tons, com lados bem definidos. Compartilho aqui essas dúvidas justamente por isso. Porque meus princípios também possuem seus meios-tons, sua ética própria, que avança e retrocede ao sabor da maré.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

A Bahia tinha um jeito




Na semana passada, ajudei a criar uma campanha publicitária para o Dia dos Namorados, que tem como tema o amor de Jorge Amado e Zélia Gattai. Uma relação de 56 anos, personificada na cumplicidade e no companheirismo mútuos, que fizeram o casal se dedicar com afinco a sorver o século 20, tendo como ingredientes fundamentais o romance, a política e sobretudo a literatura. Tenho um carinho especial pela vida de Jorge e Zélia, mesmo não tendo sido um leitor freqüente dos livros dele nem um admirador dos livros dela. O que me atrai nessa trajetória é o que ela simboliza: um tempo em que a arte e a cultura eram cultivados com dedicação no quintal de nossas casas. Um tempo em que a Bahia representava a vanguarda, mas também a tradição.

Soube que a Casa do Rio Vermelho, onde o casal viveu por décadas, começa a dar sinais de desamparo. Em qualquer lugar do mundo seria um museu concorridíssimo, uma atração turística nos moldes das casas de Pablo Neruda no Chile ou mesmo da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Mas preferimos o desdém, o menosprezo, como escrevi no primeiro texto que fiz para este blog, em dezembro de 2008. Nesse mesmo texto, escrevi também que estive na casa duas vezes, a primeira quando Jorge ainda era vivo, embora senil, e a segunda após sua morte, quando encontrei uma Zélia Gattai fragilizada, a me revelar que só esperava a hora de reencontrar o homem que amava. Hoje, o que restou de ambos está enterrado no jardim da casa, ao lado do banco onde costumavam sentar.

O silêncio em torno de Jorge e Zélia diz muito sobre o que a Bahia se tornou. O próprio conceito de baianidade se corrompeu, reduzindo-se a um estado de espírito permanentemente alterado por uma suposta alegria movida sabe-se lá a quê. Vivemos, nesta segunda década do século 21, a total desintegração do que fomos na segunda metade do século 20: um estado efervescente, para o qual migravam intelectuais, artistas plásticos e músicos de ponta e de onde saíam movimentos culturais de relevância nacional, como o Ciclo Baiano de Cinema, e artistas mais relevantes ainda, como Caetano Veloso, Tom Zé, Calasans Neto, Glauber Rocha. Havia algo que motivava tudo isso, e certamente não eram as águas do Porto da Barra ou o dendê do Recôncavo. Havia sobretudo a disseminação natural de conhecimento, que levava à formação de um público culto, ansioso por transformar um estado até então provinciano em um pólo cosmopolita.

Mas onde foi parar tudo isso? Onde foi parar o universo tropical opulento que era a substância vital dos romances de Jorge Amado? Ou o recanto idílico que motivou Caetano a cantar, apropriando-se dos versos de Dorival Caymmi: "Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem. A Bahia tem um jeito"? Não faço a menor idéia. Sou apenas um espectador amedrontado assistindo à ruína do lugar onde nasci. Um lugar que agoniza em estultice e mansidão, como se sofresse uma espécie de Alzheimer coletivo, na mais completa ignorância do que um dia foi. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Os segredos do abismo




Gostaria de escrever alguma coisa sobre Carlos Fuentes, agora que ele acaba de ir embora. Mas nunca li Carlos Fuentes. Ele se vai sem que eu jamais tenha manifestado o interesse, em algum momento da minha vida, de ler uma de suas obras, mesmo que um livro seu, A Morte de Artemio Cruz, habite há um bom tempo a estante de minha casa, numa edição vagabunda que, ao folhear agora, percebo estar parcialmente comida por cupins. Nunca li Fuentes, assim como nunca li Octavio Paz, e só me salvo da absoluta ignorância em relação à literatura mexicana por ter me embrenhado um dia no imaginário denso e enevoado de Juan Rulfo. O que sei de Fuentes é o que quase todos sabem. Que foi um intelectual ativo, de opiniões relevantes e sintonizado com o seu tempo, embora nos últimos anos declarasse em entrevistas que não reconhecia o mundo ao seu redor.

Mais não sei e, portanto, não continuarei falando do autor mexicano, e sim de tudo aquilo que ele simboliza: cultura, revelações e conhecimento, essas coisinhas maçantes que vivem ocupando nossos cérebros com sucessivos pontos de interrogação. Adquirir conhecimento é mais ou menos como fabricar abismos. Quanto mais ele nos envolve, mais nos sentimos na mais completa ignorância do que nos falta conhecer. São como portas que se abrem eternamente para outras portas, e quanto mais prosseguimos, mais deixamos para trás a obscuridade, a zona de conforto da ignorância. Certezas preconcebidas são aos poucos substituídas por dúvidas irremovíveis. Afinal, a dúvida é uma das matérias-primas primordiais da evolução humana.

Às vezes, quando estou lendo no meu gabinete, desvio os olhos das páginas e me deparo com todos aqueles volumes nas prateleiras da parede oposta, com sua aparência indevassável. Nelas estão os autores que amo, os que admiro sem muito afeto, os que me decepcionaram e aqueles por conquistar – entre os quais está Carlos Fuentes. Sei que, entre esses últimos, há livros que não vou ler nunca, assim como há outros que ainda irão me inundar de fascínio um dia. O que faço é prosseguir, embora muitas vezes vencido pelo cansaço, outras pela incompreensão.

Tudo isso me faz lembrar do que Eliane Brum escreveu recentemente em seu blog: “De certo modo, toda arte é um monumento ao nosso desespero diante da morte. Como se tudo o que foi criado até hoje documentasse, no fundo, sempre o mesmo desejo impossível de permanência. É como se todo museu ou biblioteca fosse, na verdade, uma prova pungente e grandiosa de nosso fracasso”. Pois o processo de conhecimento (e de autoconhecimento) significa justamente se lançar contra o abismo da nossa finitude e retirar algo de lá. Assim fazem os criadores e assim fazemos nós, os que se aprofundam na obra desses criadores. Mas há, também, o prazer da descoberta, a deliciosa sensação de que algo muito valoroso e único se descortina para nós, como um segredo muito antigo ou uma visão, ainda que fugaz, do paraíso. Só isso já vale as dúvidas, os questionamentos e a insustentável solidão que o conhecimento nos traz. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Noite que segue






A insônia é território da angústia. Um território opaco e espesso, onde vigília e inconsciência se irmanam e se desconectam, formando um todo aterrador. Um estado de espírito alterado, como se constituído de vontade própria, que vara a madrugada lançando centelhas no sono por vir. Uma neblina sem ternura ou aconchego, que avança na cinza das horas. No quarto quente, com o ar-condicionado quebrado, a temperatura do corpo é glacial perto da temperatura da mente, uma brasa vigorosa movida a passado.

A insônia desarruma os desvãos da alma. Desaloja episódios cuidadosamente esquecidos, remexe no arquivo morto de paixões cremadas e convertidas em cinzas, impressões enevoadas pelo pouco uso, cidades há muito visitadas e das quais guardamos só rostos e esquinas. Versos lidos há pouco ou lidos há décadas. Papéis imaginários. Um desassossego me invade e me impede de ler o livro de Pessoa na mesa de cabeceira, fuçar a vida alheia nas redes sociais ou rever pela sétima vez a sequência final de um filme qualquer na tevê a cabo. Um desassossego silencia o meu sono.

Olho para a insônia e ela me olha de volta, desolada, como se me pedisse desculpas. Deixo a cama e derramo estas palavras sem lucidez na tela. Olho meus livros, meus discos, meus retratos. Espelham o que sou, ou imagino ser. Noite que segue. Sinto falta do papel na máquina de escrever, sinto falta de sonhos. Minha mente anda muito ocupada por lembranças, atravancada pela persistência da memória.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Menu de maldades




Gosto de ficar por dentro das novidades da alta gastronomia. Saber, por exemplo, o que Alex Atala anda fazendo no D.O.M. para que o restaurante tenha alcançado o quarto lugar entre os melhores do mundo, segundo a revista Restaurant. Ou quem sabe tentar entender o uso da química nas criações de Ferran Adrià, chef responsável por subverter vários conceitos culinários no extinto El Bulli, que durante anos freqüentou o topo da mesma lista. Ou, ainda, conhecer o que servem os restaurantes três estrelas de Paris, como o Epicure ou o Guy Savoy.

É um universo ao qual pouquíssimos abonados (entre os quais não me incluo) têm acesso, onde são servidas preciosidades inusitadas, como ostras com tutano, ouriço-do-mar com musse de ovo, bochecha de porco cozida em especiarias com batata ou rim de cordeiro com abacaxi e purê de cará com priprioca. Um mundo à parte, que revela o extremo do bom-gosto e da sofisticação alcançados pelo homem, após milênios caçando porcos selvagens com lanças e comendo com as mãos em frente a fogueiras. Mas é um mundo que não esconde o nosso outro lado: o dos predadores cotidianos que atingem, na alimentação de massa, requintes de crueldade.

Quando um ojo de bife chega à nossa mesa, tostadinho por fora e sangrento por dentro, aguçamos nossos sensores pré-históricos e em seguida nos desconectamos da origem dessa carne, de qual elemento ela faz parte. Quem viu o filme Amarelo Manga sabe bem como os bois são abatidos e depois retalhados, para depois virarem picanhas, fraldinhas ou alcatras. Já escrevi há algum tempo aqui no blog, refletindo sobre um texto de Ian McEwan, que nossas compaixões são seletivas. Temos pena do animal que morre, mas não nos culpamos por degustá-lo, seja grelhado, ao molho ou reduzido a porções minimalistas, como vemos nos restaurantes de alta gastronomia. É como se, aos nossos olhos famintos, os ojos de bife e seus congêneres dessem em árvores.

Com relação aos frangos, a situação não é muito melhor: eles passam toda a sua curta existência andando em círculos num ambiente superpovoado e fortemente iluminado, para que não repousem e comam mais, ficando maiores e prontos para o abate em menos tempo. Mas nada supera o que fazemos com os caranguejos: eles são jogados em água fervente, e muitos espirram sua urina ao tocarem a água, o mais próximo que podem chegar de um grito de dor. É bem possível que todo esse sofrimento chegue de alguma forma até nós. Li em algum lugar que animais confinados vivem sob estresse contínuo e liberam substâncias prejudiciais ao nosso organismo. Uma vingança involuntária, talvez.

Partindo de tudo isso, a pergunta que faço é: precisamos causar tanto sofrimento? Se prestarmos atenção, fazemos com os animais algo muito semelhante ao que os nazistas faziam com seus prisioneiros nos campos de concentração. Vale ressaltar, antes que me acusem de hipócrita, que sou um apreciador voraz de carnes, peixes e mariscos, e que não pretendo abdicar desse prazer. Então por que levanto essas questões? Bem, talvez porque elas me incomodem de alguma maneira. Lastimo a morte de um animal na rua, o gato ou cachorro vira-lata que se vê cara a cara com o pára-choque de um carro. Deploro o que se faz com grandes mamíferos, como baleias, gorilas e rinocerontes. Portanto, não poderia pensar diferente em relação aos pobres animais criados em cativeiro, cuja existência tem como único objetivo nos alimentar.

O fato é que, ao matarmos para comer, deixamos às mostras o quanto ainda estamos no início da nossa evolução como espécie. Trata-se apenas de mais uma manifestação do nosso primitivismo, como guerrear em estádios ou morrer no trânsito. Por mais que sejamos capazes de conceber pratos refinadíssimos em restaurantes não menos requintados, somos acima de tudo bichos selvagens e agressivos buscando desesperadamente a perpetuação da espécie. Em pleno século 21, ainda uma aurora para a humanidade, levamos nossos filhotes famintos para lanchar hambúrgueres no Mc Donald's. Igualzinho às leoas, que matam zebras para dar de comer aos seus. 

domingo, 22 de abril de 2012

Erguer e destruir




Esta semana, quando levava minha filha para a escola, Joshua Bell começou a tocar um dos Noturnos mais conhecidos de Chopin no som do carro. Aos poucos, aquela melodia tão poderosa foi nos invadindo, avançando sobre nossa consciência e criando uma espécie de transcendência, uma bolha onde nos abrigamos do congestionamento e do barulho dos carros e motos. Permanecemos silenciosos durante os pouco mais de três minutos em que o violino de Bell quase nos desmanchou (a mim, pelo menos). Foi uma ligeira epifania, uma pequena amostra de beleza absoluta. Chopin morreu em Paris no dia 17 de outubro de 1849, aos 39 anos, mas 163 anos depois ele aparecia para nós, no início de uma tarde quente de outono, nos deixando ensopados de fascínio.

Deixei minha pequena na escola e voltei para casa pensando em Chopin, Joshua Bell e na capacidade que o homem tem de, como disse Caetano, erguer e destruir coisas belas. Um Noturno de Chopin é a prova inequívoca do valor da existência. Diria até que é a prova inequívoca de que podemos vingar como espécie, por mais que a travessia até aqui tenha sido tão penosa. Não foram poucos os percalços, e para isso basta lembrar que Joshua Bell dá prosseguimento a uma longa tradição de geniais violinistas judeus. E que uma das razões pelas quais o violino virou um instrumento judeu por excelência é a sua praticidade. Em outras palavras, um instrumento fácil de carregar quando o anti-semitismo tornava-se insuportável e uma existência nômade, de um canto a outro da Europa, se fazia necessária.

Fiquei sabendo disso ao ler um texto de Arthur Dapieve para a revista Bravo, no qual ele também falava sobre a restauração de violinos enterrados nos campos de concentração nazistas. Talvez não exista imagem mais adequada para personificar o “erguer e destruir coisas belas”: um instrumento capaz de tocar um Noturno de Chopin escondido no âmago de uma máquina concebida para dizimar seres humanos em escala industrial. Dói pensar naquelas vidas sem nome com seus violinos enterrados, provavelmente homens e mulheres de talento inimaginável, aniquiladas pelo que de mais estúpido e devastador a humanidade produziu. Quantos gênios o nazismo transformou em nada? Sabe-se que 6 milhões de judeus morreram na Segunda Guerra (número que se torna ainda mais absurdo se incluirmos os mortos de outras nacionalidades), o que dá uma idéia, ainda que vaga, do que perdemos.

Hoje mais cedo assisti a Um Método Perigoso, de David Cronenberg, e já no final, pouco antes de subirem os créditos, apareceram as informações sobre o destino dos personagens principais do filme, todos eles reais: Sabina Spielrein, mulher inteligentíssima, que de paciente com sério desequilíbrio e amante de Jung se tornou uma brilhante psicanalista, foi fuzilada pelo exército nazista junto com as duas filhas, em 1942. Como pôde o mal invadir de tal forma o território da civilização? Como uma aberração como Hitler chegou tão longe? Os mortos são muitos, mas vale recordar de alguns talentos que sobreviveram para tentarmos mensurar o alcance da insânia nazista: lembro de cara dos escritores Primo Levi, Imre Kertész e Elie Wiesel e do músico Wladyslaw Szpilman, que teve sua epopéia particular reconstituída por Roman Polanski em O Pianista. Ao final do filme, já livre e de volta aos estúdios de gravação, Szpilman toca justamente o Noturno de Chopin que ouvi no carro com minha filha. Talvez não exista antídoto mais eficaz contra a barbárie. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Memória sonegada




O argentino Juan Gelman é um dos grandes poetas vivos da América Latina. E é admirável que tenha conseguido escrever versos tão amorosos e cheios de lirismo após o ano de 1976, quando a sua vida passou a ser ditada por uma busca – ou melhor: por três buscas. Marcelo e Maria Claudia, filho e nora de Gelman, foram assassinados pelo aparelho repressivo da brutal ditadura militar argentina. Durante 13 anos, Marcelo foi dado como "desaparecido", até que finalmente seu corpo foi achado e o pai pôde dar a ele uma sepultura digna. O corpo de Maria Claudia ainda não foi encontrado, mas é bem provável que seja dela uma ossada encontrada no mês passado em um quartel no Uruguai. A terceira busca se encerrou em 2000, quando Macarena, a filha de Marcelo e Maria Claudia, foi finalmente encontrada. Ela vivia com pais adotivos, simpatizantes do regime, a quem fora entregue ainda bebê, e não sabia nada do seu passado.

Lembrei da via-crúcis de Juan Gelman quando assisti na semana passada a O Dia em que não Nasci, de Florian Cossen. Um filme espesso, doloroso, que tem seu ponto de partida quando uma jovem alemã, Maria Falkenmayer, fica presa numa conexão em Buenos Aires antes de chegar a Santiago, onde participaria de um torneio de natação. Maria não fala espanhol, mas enquanto esperava a chamada para o vôo, ouviu uma mãe cantar uma canção de ninar para o seu bebê. Uma canção em espanhol. Maria reconheceu de imediato a letra e o seu significado, e aquilo a intrigou a ponto de mal se conter em lágrimas. No decorrer da narrativa, Maria vai descobrir que é mais uma das centenas de crianças cujos pais foram assassinados pela ditadura e que acabaram adotadas. No caso dela, por um sujeito que manteve estreita colaboração com o regime de Jorge Videla. Um sujeito que, até então, ela amava e chamava de pai.

O Dia em que não Nasci (o título original, em alemão, é Das Lied in Mir, algo como A Canção em Mim) aborda um episódio de clara conotação política, mas o que mais me comoveu nele foi a tragédia individual. Maria teve a sua infância – e, portanto, a sua existência – sonegada da maneira mais torpe. É como se tudo que ela viveu estivesse assentado em um terreno pantanoso, sem vida própria. Apenas um simulacro de memórias, como se ela fosse um daqueles andróides de Blade Runner, que guardam fotos de crianças que não foram e lembram de acontecimentos que não vivenciaram. A tragédia de Maria, desencadeada pelo que havia de mais íntimo nela, o seu inconsciente, me fez lembrar de uma cena tristemente linda da animação Enrolados, quando Rapunzel descobre que todos os desenhos que fez quando estava presa na torre continham uma estrela, escondida entre outros traços e desenhada de maneira inconsciente. A mesma estrela que via quando criança no palácio dos pais verdadeiros.

Já escrevi aqui no blog sobre como a tragédia coletiva de uma ditadura pode levar a reboque quem orbita em torno dela, e como é importante que um país reviva o seu passado, exponha-o em carne viva para exorcizar o sofrimento de seu povo. Mas aqui avanço sobre outro território: o quanto de nossa existência, de nossas memórias mais remotas, nos é sonegado por nossos pais ou por aqueles com quem convivemos? Até que ponto nossas memórias são realmente nossas e até que ponto nos foram incutidas? O que nos gerou: um ato de amor ou um ato de desespero? Há algo que não sabemos, que ficou trancado na bruma do passado ou que nos poupam de conhecer? Quem somos, afinal? O fato é que quanto mais avançamos rumo ao passado, mais nos perdemos em névoa espessa e desconhecimento de nós mesmos.

Uma vez minha mãe me falou de uma senhora já idosa e doente que queria reencontrar a filha que entregou para uma outra família, por não ter condição de criá-la. Ela só guardava na memória a cena da garotinha sendo levada em um cavalo. Tentou por meio de pessoas comuns encontrar a filha, mas depois eu fiquei sabendo que a mãe adotiva, ao saber da procura, entrou em pânico e disse que a moça jamais poderia saber que era filha adotiva e que passava por um momento pessoal delicado. Com isso, o reencontro acabou não acontecendo, e à velha mãe verdadeira restou apenas a imagem da garotinha no cavalo, indo embora. Aquilo me doeu, tanto que permaneceu aqui guardado todo esse tempo. Voltando a Juan Gelman: uma vez eu o entrevistei e ele, no meio de uma das respostas, afirmou que "uma infância feliz é a pátria mais invulnerável". Pode ser. Mas até que ponto nossas infâncias foram verdadeiramente felizes? No caso da Maria de O Dia em que não Nasci e da neta do próprio Gelman, a pátria invulnerável se esfacelou ao ser invadida pela verdade.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Aprendizado



Fui na semana passada a uma cerimônia de batismo. Um ritual simples e singelo, ministrado não por um padre ou pastor, mas por amigos dos pais da criança. Em um pequeno púlpito de frente para o mar, algumas pessoas se revezaram em discursos rápidos e sinceros, e em todas as mensagens percebia-se uma mesma tendência: a de considerar a criança uma bênção, uma dádiva, um acontecimento que veio para enriquecer espiritualmente a vida dos pais. Há um detalhe nessa história: o garotinho, hoje com um ano e meio, é um sobrevivente. Nasceu com uma doença congênita gravíssima e desde o seu nascimento passou por intervenções cirúrgicas invasivas e tratamentos pesados, que o mantiveram boa parte da sua curta existência dentro de hospitais. São perceptíveis os efeitos de todos esses dissabores sobre o seu corpo, mas de resto é uma criança que chora e sorri com a mesma graça pura de qualquer outro bebê.

Observei os pais. A exaustão estava esculpida em seus rostos, causada por 18 meses de sofrimento e abnegação, noites mal dormidas em desconfortáveis poltronas de hospital, esperanças acalentadas e em seguida descartadas. Mas não percebi em nenhum momento uma expressão de fastio, prostração ou desejo de jogar a toalha. Por mais difícil que possa parecer para um cético como eu, era evidente que eles encaravam toda aquela situação – que ainda está muito longe de acabar – de uma maneira estóica, como um aprendizado, uma via-crúcis necessária e até certo ponto almejada, vigorosamente alicerçada num amor profundo por sua cria. Não havia nem mesmo qualquer manifestação de auto-engano, quando as palavras exprimem o oposto do que diz a expressão facial.

Naquele momento, me pareceu claro que a espiritualidade exercia sobre o casal um efeito positivo. Acreditar no que está além do humano permite que se enxergue um aprendizado onde um ateu enxerga apenas dor e sofrimento. Crer, no caso deles, equivale a uma espécie de calor. Nada de fanatismo, ignorância ou dogmas engessados, apenas um sopro morno que os protege do frio voraz que é a nossa brutal e fugaz passagem pela Terra. Era como se os três estivessem cobertos por um manto de solidariedade e aconchego, um grande útero refratário a pensamentos ruins e confrontos interiores, desses que nos lançam contra o que há de mais impiedoso em nós. Acho que pela primeira vez, nessa minha longa trajetória agnóstica, eu me dei conta da capacidade que uma religião tem de atenuar nossas desgraças, aparar nosso desespero, fincar em nossa consciência uma lógica moral que explique por que fomos nós os escolhidos, e não a mãe que abandona o filho no mato. É a mesma lógica de Jó, personagem da Bíblia, aquele que é castigado ao extremo da miséria, das chagas e das perdas em profusão e mesmo assim não renega o seu ser supremo.

Obviamente, o batizado da semana passada não significou para mim uma epifania, uma conversão ao sagrado. Não me tornei de uma hora para outra um católico fervoroso, um espírita convicto ou um evangélico fanático. Não. Sei bem do meu frágil limite físico, da minha insignificância (e a de todos nós) diante de um universo tão vasto que não o apreendemos em sua totalidade. Apenas tateamos, tentando achar em uma nebulosa a bilhões de anos-luz de distância uma resposta para a nossa existência, nossa escalada em um único planeta habitável dentre milhões de astros áridos e inóspitos, quentes ou gelados ao extremo. As religiões nunca vão encontrar respostas para esses questionamentos e nem deveria ser esse o papel delas. Sua função é bem mais modesta, mas não menos valorosa: oferecer algumas xícaras de conforto e resignação bem quentes a quem se depara com um frio lancinante e solitário na alma.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Aquela coisa toda



Acabei de reler Este Lado do Paraíso, romance que batizou este blog. É como atracar em um cais seguro, tão familiar que sabemos exatamente onde ficam as pedras e armadilhas do caminho. Com ele, F. Scott Fitzgerald se tornou aos 24 anos uma celebridade, vendendo milhares de exemplares e moldando uma juventude que se espelhava naqueles jovens ricos, hedonistas e melancólicos personificados na figura de Amory Blaine. Este Lado do Paraíso fez de Fitzgerald a voz dos “anos loucos”, da geração perdida do entreguerras, recém-saída do front na Europa e prestes a enfrentar outro front ainda mais brutal na década seguinte. Uma geração que se esbaldou em festas intermináveis, patrocinadas por fortunas que pareciam também elas intermináveis, como um diamante do tamanho do Ritz. Mas, por outro lado, uma geração culta, que enveredava madrugadas adentro discutindo autores como Chesterton, Wilde e Tolstoi.

Hoje, penso o quanto é improvável que um romance como Este Lado do Paraíso seja capaz de atrair milhares de leitores, muito menos de moldar uma geração inteira. A literatura deixou de ser um meio de massa para se refugiar em trincheiras, sobreviver em guetos. A histeria (e de certo modo a angústia) juvenil está direcionada para outras mídias – o cinema, a música pop, os blogs, as redes sociais, os vídeos do You Tube – e os anseios e interesses estão cada vez mais fragmentados. Num panorama assim, dedicar-se a um ato que exige concentração, disciplina e introspecção, como ler um romance de mais de 300 páginas, soa no mínimo descabido.

Li outro dia um artigo falando sobre o livro A Geração Superficial, de Nicholas Carr, que defende que a internet está criando uma geração de leitores com pouca capacidade de concentração e compreensão de texto, mesmo entre pessoas acostumadas ao ato de ler. Isso me parece claro. Eu mesmo, enquanto estou absorto em um livro, às vezes me pego pensando em entrar na internet para ver se tem alguma atualização, seja no meu blog, no Facebook ou nos portais de notícias. Não estou lamentando tudo isso, é só uma constatação – embora de certa forma essa mudança me entristeça. Nascido em 1970, eu fui moldado em outra era geológica, herdeira direta dos tempos de Fitzgerald e de Este Lado do Paraíso. No meu paleolítico particular, parte significativa (ou não, posso estar redondamente enganado) da juventude cultuava livros que atravessavam gerações. Havia, de certo modo, tempo suficiente para que uma obra nascesse, crescesse e arregimentasse adeptos fiéis, para só então decair e morrer – quando morria.

Cresci lendo e ouvindo falar de obras que poderiam virar do avesso a minha visão de mundo, me elevar a um novo plano intelectual e, quem sabe, espiritual. Eram meus faróis. Não foram poucas as vezes em que varei noites discutindo entusiasmado com amigos os romances que tínhamos acabado de ler. Ou outras em que comemorei achados preciosos em livrarias, sebos e feiras livres nas calçadas. Já fiquei até sem dinheiro para comer durante uma viagem, depois de torrar uma pequena fortuna numa edição raríssima de Pra Cima com a Viga, Moçada, de Salinger, em uma livraria de Florianópolis. E já vibrei de satisfação ao receber, de um vendedor de livros usados no Bixiga, em São Paulo, exemplares em bom estado de Factotum (Bukowski) e Os Subterrâneos (Kerouac), esgotados havia muitos anos. Hoje eles são facilmente encontrados até em postos de combustível, em edições de bolso novinhas, mas naquele tempo, ah, naquele tempo...

Entendo que esse entusiasmo que marcou a minha juventude e a de meus amigos tende a morrer – se é que não já morreu. Entendo que a literatura tenha sido desbancada pelo cinema e pela música como fonte primordial de cultura e entretenimento. Mas ainda me intriga o fato de que muitas pessoas, mais novas ou não, simplesmente não leem sequer jornais. É claro que o velho hábito matinal de folhear notícias tornou-se em parte obsoleto com a internet. Mas onde encontrar informações que avancem para além do lide? Vou além: onde encontrar o fascínio que um romance como Este Lado do Paraíso provoca em nosso córtex cerebral?

Como um velho senil, sinto falta do meu passado, da minha geração, por mais apática e individualista que tenha sido. Sinto também uma nostalgia irrefreável da geração que não conheci, aquela que há quase 100 anos se deixou enlevar pelo livro de Fitzgerald, e que ele definiu com tanta sensibilidade nos derradeiros parágrafos do seu livro: “O espírito do passado meditava sobre uma nova geração, aquela juventude eleita que vinha de um mundo perturbado, impuro, que ainda se nutria romanticamente dos equívocos e sonhos quase esquecidos dos poetas e estadistas. Ali estava uma nova geração, bradando velhos gritos, aprendendo velhas crenças, através de um sonho que se prolongava por longas noites e dias, destinada finalmente a expor-se àquele turbilhão cinza, sujo, a fim de seguir o amor e o orgulho; uma nova geração, mais dedicada do que a anterior ao temor da pobreza e ao culto do sucesso; uma geração que cresceu para descobrir que todos os deuses morreram, todas as guerras haviam sido combatidas, toda fé no homem estava abalada...”