segunda-feira, 26 de abril de 2010

Eldorado


Até bem pouco tempo atrás, havia um oásis de tranqüilidade que parecia não ter sido afetado pelo recrudescimento da violência urbana em Salvador. Em qualquer estádio de futebol da capital baiana era possível ver torcedores de Bahia e Vitória caminhando juntos com suas respectivas camisas rumo à mesma catraca, torcendo juntos numa mesma arquibancada e voltando para casa irmanados no mesmo ônibus lotado. Afinal, o futebol, aqui, sempre foi encarado como uma festa descompromissada, por mais que a alma do torcedor saísse ferida após uma eventual goleada ou um título perdido.

Hoje não são as almas que saem feridas, nem apenas títulos são perdidos. A delinqüência e a estupidez invadiram de vez o universo futebolístico baiano, como de resto já haviam invadido o cotidiano de um estado em franco processo de degradação. Importamos de São Paulo a barbárie institucionalizada das torcidas organizadas, mas não conseguimos importar a opulência industrial e a prosperidade das cidades do interior do estado mais rico do país. Da mesma forma, importamos do Rio de Janeiro o crime organizado e a onipresença das drogas, mas somos incapazes de nos transformar numa terra bonita e cosmopolita como aquela cantada por Jobim e Vinicius.

Somos uma cidade e um estado estagnados há décadas, esperando um porvir improvável, onde a ausência de lideranças políticas sérias, cabeças pensantes e profissionais competentes leva a um marasmo intelectual e a um cemitério de idéias e iniciativas. A cordialidade de outros tempos foi parar em algum aterro sanitário, e hoje vivemos num território sem lei, violento e amargo, com uma desigualdade social brutal, travestido de eldorado tropical para consumo interno e externo. E agora nem é mais possível enterrar as mágoas dessa desdita com um singelo e sofrido grito de gol.

6 comentários:

Ricardo Ballarine disse...

É, meu caro, violência em estádio não é mais privilégio de SP - Rio, BH, Porto Alegre, Curitiba, Salvador... Violência muitas vezes alimentada pelos clubes, que gostam de manter uma relação quase promíscua com essas organizadas.

Paulo Sales disse...

É, mas o que mais me chama a atenção é como o microcosmo do futebol reflete a decadência das relações sociais nessas cidades. Estamos vivendo um processo de bestialização que em última instância acaba chegando aos estádios.
abs

Ricardo Ballarine disse...

Só para constar, sou Flamengo desde sempre nesta fase da Libertadores. Veja se me faça o favor de eliminar o Corinthians. Metade já foi, segura lá o jogo em SP...

Paulo Sales disse...

Faremos o possível, meu caro. Até porque o Corinthians é o time que eu mais odeio. Mas é parada dura, jogo complicado, apesar de Ronaldo estar risível em campo. Até eu consigo fazer mais do que aquilo.
abs

Marcos Carneiro disse...

Paulao, já freqüentei centenas de jogos aqui na cidade, sei q infelizmente não existe mais o clima tão gostoso de outrora da época da Fonte Nova, mas pode acreditar q ainda existe cordialidade entre a maioria dos torcedores daqui. O q mancha o clássico Bavice hj em dia é simplesmente a rixa irracional promovida entre Bamor e Tui. Parece q só qnd morrer o filho de alguém importante é q vão fazer algo serio em relação a isto. ST

Paulo Sales disse...

Acredito que ainda exista cordialidade sim, Pantico. O problema é que a brutalidade começa a tomar conta de tudo e a tirar gente que presta dos estádios e deixar só pessoas apodrecidas por sabe-se lá o quê. Briga de torcidas, francamente, é ridículo.