segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Obviedade mórbida


Nunca o sedentarismo foi tão combatido e desprezado como nos dias de hoje. Abdicar de fazer exercícios físicos regularmente, seja em casa, na praia ou numa academia, representa não apenas um descuido com a própria saúde, mas também uma forma deliberada de ficar de fora de boa parte das rodas sociais contemporâneas. Há um preconceito, de certa forma velado, contra os barrigudos (no caso dos homens) ou contra as portadoras de celulite, culotes e afins (no caso das mulheres). Enfim, cultua-se o corpo apolíneo, a musculatura bem torneada e a gostosura bem delineada como se fossem a expressão máxima da nossa evolução como espécie.

Desde que sem exageros, acho válida essa ditadura do esplendor físico. Mas, por outro lado, não deveríamos também combater o sedentarismo mental? Afinal, com o mesmo fervor com que se cultua o físico também se cultua a mediocridade. Estamos nos tornando mentalmente preguiçosos. Cada vez mais os encontros sociais, sejam eles reais ou virtuais, são pautados por platitudes e manifestações explícitas de preconceitos, seguidas invariavelmente de expressões como “exato”, “com certeza”, “é verdade” ou qualquer outro clichê que endosse o que está sendo dito sem que se necessite acrescentar uma opinião própria. Apoia-se o descalabro pela preguiça do embate. Padecemos de uma espécie de obviedade mórbida, que pode se manifestar no besteirol interativo da TV aberta, nos 140 caracteres do Twitter, em comentários sem pé nem cabeça no Facebook ou em qualquer outro canto onde alguém resolva exprimir sua opinião sem sequer pensar a fundo sobre o que está falando ou escrevendo.

Em seu blog Herdando uma Biblioteca, o escritor paranaense Miguel Sanches Neto aborda o assunto com perspicácia: “Precisamos de algumas frases feitas para manter uma conversa em situações de banalidade ou de formalidade. É isso que se espera de uma pessoa que vive no meio das outras: que ela possa reverenciar as convenções. O indivíduo, por exemplo, não acredita na mística do ano novo, mas deseja um bom ano para amigos ou meramente conhecidos. Neste momento, não é ele que está falando, mas a própria linguagem que funciona sozinha. Essas frases são acionadas nas ocasiões as mais diversas: para consolar pessoas, concluir um assunto, refletir sobre acontecimentos. Há quem as use com moderação, mas outros falam apenas por meio desses clichês. Por mais que se policie, ninguém está, no entanto, a salvo deles. Por trás de cada frase há um conceito sobre as coisas, sobre a própria vida. Então, ao repetir um desses chavões, nós estamos vendendo determinada visão do mundo, que talvez não seja nem a nossa, mas que passamos adiante como a expressão de uma verdade, de uma tendência, de uma ideologia”.

Sanches Neto toca num ponto crucial: estamos passando para a frente uma visão de mundo que sequer foi concebida por nossa própria mente, mas que endossamos meio que por letargia. Afinal, para forjar uma opinião consistente é preciso exercitar-se, pôr a musculatura dos neurônios para pegar peso, e não apenas entrincheirar-se em lugares-comuns ou frases feitas. Tudo é derivativo. Ou, como diria Chacrinha, “nada se cria, tudo se copia”. Hoje, enquanto almoçava num restaurante, via de relance pela televisão ligada – mas felizmente sem som – um programa de auditório, no qual o apresentador conversava com tipos oriundos de um reality show. E pensei comigo: para milhões de pessoas espalhadas pelo Brasil , aquele sujeito é a fonte primordial de informação a que têm acesso naquele momento, e de certa forma ele e os demais que participam daquele circo involuntário representam uma espécie de reserva moral da nossa sociedade, de exemplos a serem seguidos, da personificação do nosso ideal, por mais absurdo que isso possa parecer. Havia ali algo tão mecânico, tão artificial em sua busca pela atenção do telespectador, que eu me senti constrangido e tratei de prestar atenção ao meu prato.

Recentemente, o jornalista Daniel Piza falou em seu blog sobre a ausência de critérios no julgamento de uma obra de arte por parte do público, mesmo louvando a democratização da informação: “Se o espaço para a informação e o debate aumentou com a multiplicação da mídia, aumentou em proporção bem maior para o palpite e o preconceito. Nos assuntos culturais, em especial, desconfio sempre de quem faz distinções nítidas entre amador e profissional, até porque às vezes o profissional tem um olhar tão viciado e pedante que se afasta do espírito da obra de arte; mas interpretá-la sem esforço de compreensão e sem fundamento na opinião só nos vai deixar menos livres. Mesmo a resenha que tem certo número de linhas anda parecida demais com as estrelinhas dadas nos guias, os achismos lançados em twitters, o ‘curti’ ou ‘não curti’ das redes sociais. O crítico precisa conhecer técnica e história para primeiro entender o que o artista quis fazer e depois dizer se gostou ou não”. Piza decifrou a senha: ficamos menos livres quando pensamos menos. Ou seja: é preciso refletir, gastar neurônios como se gasta a sola de um tênis durante uma corrida de três quilômetros. Uma coisa não exclui a outra, é bom que se diga. Tanto o exercício físico quanto o mental são fundamentais para que nos tornemos pessoas saudáveis, em todos os sentidos. Nada mais nada menos do que aquela velha frase dos tempos de escola: “Mens sana in corpore sano”. Enfim, mais um clichê.

8 comentários:

Marcos disse...

A dadiva dos blogs!

Paulao, tirando os textos sobre jazz, q nao leio, gosto de tudo q vc escreve aqui. Difícil ate discordar da sua sensatez.

Fora q hj aprendi uma palavra nova nesse nobre local: platitude!

Valeu!

Ps: bora marcar uma cerva nessa 5ª? Abs

Anônimo disse...

Paulinho,
Belo texto!
Aborda tudo aquilo que discutimos longa e sutilmente no penúltimo sábado .
Abs
Deco

Paulo Sales disse...

Valeu, Decão.
Grande abraço.

Paulo Sales disse...

Valeu, Pantikolo. Sua presença aqui no blog é muito importante. Esta semana está complicado, mas podemos marcar mais para a frente.
abs

Armundo disse...

Poucas coisas produzem mais prazer do que uma boa caminhada na orla ou uma hora de baba, mas o culto à boa forma física está mesmo tomando ares de exagero. Vejo com tristeza as pessoas praticamente endeusarem um tal de Andreson Silva, praticante de um gênero televisivo de luta-livre ou sei lá o que. Talvez seja reflexo do embotamento mental (desculpem se estou sendo preconceituoso) a que os autores citados se referem. Aqueles que apreciam a cultura no sentido intelectual correm o risco de encontarem cada vez menos parceiros para as conversas, já que em qualquer roda as 'análises' do Big Brother sobrepujam os outros assuntos. Aliás, o BBB parece ser a colheita do que a TV vem plantando há muito tempo.

Paulo Sales disse...

É verdade, Armundo.
Até acho importante que se cultue um corpo saudável. O problema é não se cultuar também uma mente saudável. Quanto ao BBB, sequer perco meu tempo com isso.
Grande abraço.

Aranha disse...

Amigo..não tenho o privilégio de tomar cerveja com vc nas 5ª, contudo não posso deixar de registrar minha admiração pelo seu texto..Aliás, se me permitir gostaria de repriduzi-lo no meio blog.... Parabéns

Paulo Sales disse...

Muito obrigado, Aranha. Fique à vontade para reproduzir o texto no seu blog. Vou até lá dar uma olhada. Acho importante esse intercâmbio de informação. E quem sabe um dia a gente ainda não toma uma cerveja na quinta?
Grande abraço.