quarta-feira, 8 de junho de 2011

Memórias vendidas



Vendi os discos de vinil meus e de minha família. Estavam relegados à estante mais alta e inacessível da casa de minha mãe, empoeirados e olvidados. Objetos sem serventia, reféns da própria obsolescência. Mas, ao me deparar com o espaço vazio que a ausência deles deixou no meu gabinete, me dei conta de que talvez tenha vendido também parte significativa da minha memória afetiva. Na pressa de me desfazer dos discos, acabei salvando apenas dois, que permanecem comigo: A Revolta dos Dândis, do Engenheiros do Hawaii, e uma coletânea de Bob Dylan que me foi dada de presente pelo meu melhor amigo, quando completei 18 anos. Sua dedicatória está lá na contracapa: “Para combater o marasmo dessa nossa terra tediosa, um abraço do amigo Zé W.”.

Antes de vender os discos, digitei uma relação com todos eles e a mandei por e-mail para alguns interessados – um deles fez uma boa oferta e comprou tudo. Esse processo me obrigou a manusear todos os álbuns e me fez relembrar de canções e artistas que há muito estavam no porão de minhas reminiscências. Ray Conniff e Francis Lai, discos de meu pai que eu adorava ouvir quando menino. Muita coisa de João Gilberto, Belchior, Fagner, Raul Seixas, Gonzaguinha, todos do meu irmão mais velho. Assim como os de Chico Buarque, através dos quais deixei aos poucos de ser criança ao ouvir versos como “A saudade é o revés de um parto. A saudade é arrumar o quarto. Do filho que já morreu”. Havia uma dor lancinante ali que eu apenas tateava, mas que já me feria de alguma forma. Canções como Pedaço de Mim, Angélica, Minha História, entre tantas outras, me mostraram que o mundo poderia ser bem mais amargo do que supunha minha alma em formação.

Muitas outras descobertas intelectuais e sensoriais que vivi ao longo de pelo menos 20 anos passaram pela minha frente naquele momento. Discos aparentemente tolos, mas com os quais me afirmei como um jovem confuso, tímido e orgulhoso: Blitz, Robertinho do Recife, 14 Bis, Lulu Santos, Herva Doce. E, mais tarde, Legião Urbana (por que não salvei o Dois e o Que Pais é Este?), RPM, Beto Guedes, Ira!. E, mais tarde ainda, Led Zeppelin, U2, Pink Floyd, Woody Guthrie, Dylan, Rolling Stones, Creedence e muito mais. Capas lindas, muitas delas estragadas pelo manuseio, amareladas pela cinza das horas.

Senti saudade daquela sonoridade que só o vinil tinha, dos agudos mais acentuados, do prazer de colocar a agulha sobre os sulcos e desvendar um mundo. De certa forma, também senti saudade de quem fui antes do surgimento do CD e dos downloads gratuitos. Ao me desfazer daquele “trambolho”, me desfiz também de um pouco de mim. Dos meus devaneios infantis, da minha adolescência angustiada, da minha maturidade incipiente, que ainda hoje não atingiu a plenitude. E só me dei conta disso agora, nesta noite de insônia e ventania. 

11 comentários:

Ricardo Ballarine disse...

Eu me desfiz dos vinis há mais tempo. Confesso que não sinto falta do objeto, mas a memória meio que late ao lembrar-se do que tudo aquilo significava e significou em um momento importante da vida. Tem a minha solidariedade, meu caro.

Paulo Sales disse...

Fala, meu velho
Na verdade, já tinha me desfeito deles, apenas tinham ficado na casa de minha mãe. Mas o fato de levá-los lá pra casa, manuseá-los e vendê-los me trouxe de volta uma série de sentimentos esquecidos havia muito tempo. Senti um pouco de tristeza ao me desfazer deles.
Um abraço.
p.s. - entre os discos, tinha um Exile on Main Street, dos Stones, que foi você quem me deu, pois já tinha comprado o CD. Ouvi muito esse disco em São Paulo, lembro até que um trecho de Tumbling Dice pulava. Mais uma memória que se vai.

Clara Gurgel disse...

Os meus tb estão na casa de mamãe...rsrs
Como no vinil do Cazuza que tenho por lá, te pergunto:"Por que que a gente é assim?"

Paulo Sales disse...

Oi, Clara
Também gostaria de saber porque que a gente é assim. O fato é que somos. E entre os discos que vendi havia dois de Cazuza: Ideologia e Burguesia.
Um beijo

karla disse...

Eu ainda não consegui me desfazer dos meus, fico sempre na promessa de comprar uma "radiola" pra ouvir todos de novo e nunca compro. rs.
Fiz até quadros com as capas de alguns, ficaram ótimos.Para mim, ainda é muito difícil desapegar do passado.
Beijo,

Paulo Sales disse...

Oi, Karla
Fiz isso durante muito tempo, até me dar conta de que não vou mesmo comprar nenhuma radiola. E, para continuar ouvindo os discos que mais gosto, comprei os CDs ou baixei na internet. Agora mesmo, no caminho para o trabalho, botei o Dois do Legião no CD do carro e fiquei ouvindo Daniel na Cova dos Leões. Tão bom.
A idéia de transformar capas em quadros é ótima.
Um beijo.

Vini Serrano disse...

O tema é tão bom que tive que ter cuidado pra não escrever um texto como resposta. Mas é incrível a relação do homem com os objetos, mesmo quando eles não são mais imprescindíveis. Mandou bem, Paulão!

Paulo Sales disse...

Pode escrever um texto, meu velho. Seus comentários são sempre bem-vindos.
Acho que a relação não é necessariamente com os objetos, mas com o que eles representam em nossa memória afetiva. É por isso que deixam um vazio quando nos livramos deles.
Grande abraço e obrigado.

Ricardo Ballarine disse...

É, eu lembro desse dos Stones. Acho que eu estava me preparando para ir para BH e acabei distribuindo alguns vinis. Boa memória.

Pri Viotto disse...

Eu nasci no final da era dos vinis, quando pequena ainda tinha aqueles clássicos infantis: Xuxa, Angélica, Trapalhões, dorava as historinhas do Silvio Santos, e o principal eu adorava a Celly Campello, não era da minha época, mas sempre gostei de coisas fora do tempo.

No meu caso, diferente do seu, quem deu o fim nos vinis foi minha mãe ahahahah
Ela simplesmente deu para um rapaz quando ele passou na rua, vender que nada, a raridade do Elvis era apenas algo velho e sujo.

Lá se foram todas as minhas recordações. De qualquer forma, ainda me lembro que, "fui a praia me bronzear...Me queimei, escureci...Mamãe bronqueou, nada de sol. Hoje só quero...A luz, do luar!"

Yeh, tomo um banho de lua...

Bjs

Paulo Sales disse...

Engraçado, Cely Campello fez parte da minha infância por causa de uma novela da época, Estúpido Cupido, que eu adorava (tinha uns 6 anos, mas adorava).
O bom da música é poder ouvir coisas que não pertencem ao nosso tempo. Hoje me encanta ouvir Miles, Coltrane, Thelonious e outros caras que faziam música quando eu nem era nascido.
Adorei o seu comentário, muito legal (rsrsrs).
Beijos