sábado, 9 de julho de 2011

Impedimento



Acompanho futebol desde muito criança. Talvez por isso tenha uma memória prodigiosa para recordar jogos e times que me marcaram. Lembro, por exemplo, da decisão por pênaltis do Campeonato Brasileiro de 1977, entre São Paulo e Atlético-MG, quando tinha apenas sete anos. Ou do timaço que o Guarani montou no ano seguinte para ser campeão, com Renato, Zenon e Careca. Ou do primeiro título do Flamengo, em 1980, numa final emocionante de 3 a 2 contra o Atlético-MG, que abriu caminho para os títulos que o Mengão conquistaria em seguida na Libertadores e no Mundial. São imagens que permanecem vívidas, guardadas com carinho como se fossem pequenos troféus que contam a história de um clube.

Ainda hoje gosto de assistir partidas de futebol. Continuo torcendo feito criança pelo Flamengo e, como quase todo mundo, me encanto com a forma de jogar do Barcelona. Mas está cada vez mais difícil dissociar o que vejo nos gramados do que leio e ouço sobre o mundo do futebol fora do campo. Até porque, a partir de agora, a corrupção generalizada que sustenta esse meio começa a me afetar diretamente - e também a você que lê este texto agora. Pagamos compulsoriamente impostos de todo tipo. Somos reféns de uma carga tributária obscena, além de sermos forçados a honrar compromissos com IPVA, IPTU, IR e muitos outros Is. É um dinheiro alto, que nos faz falta e sai dos nossos bolsos para prover uma estrutura que não criamos, mas que temos imensa dificuldade em mudar. Uma opção é o voto, outra é a desobediência civil nos moldes da pregada por Thoreau, mas essa pode nos sair caro num país tão emperrado pela burocracia como o Brasil.

O que fazer, então, quando nos damos conta de que nosso dinheiro está sendo usado para bancar um evento absolutamente desnecessário e economicamente inviável como a Copa do Mundo de 2014? Seria em nome da paixão que todos nós, brasileiros, cultivamos pelo futebol? Balela. A aprovação, na Câmara dos Deputados, da Medida Provisória que prevê sigilo nos gastos da Copa institucionaliza de vez a canalhice. Em nome do quê devemos ficar reféns de gente sem caráter e sem escrúpulos? É curioso como ainda nos surpreendemos ao saber de coisas como as reveladas na entrevista do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, à revista Piauí. O que há de novo ali? Todo mundo com um mínimo de informação sabe há muito tempo que Teixeira é um tipo vil, safado e incapaz, que se mantém no poder por meio de ameaças e acordos com gente graúda, como ele mesmo deixou claro. Sua relação com a Rede Globo é um escândalo, devidamente escamoteado pelo ufanismo tolo das narrações esportivas comandadas pelo locutor e porta-voz da emissora, Galvão Bueno - um ufanismo que, mais do que tolo, é abjeto.

Não existe novidade nessas revelações nem na postura do Legislativo. Mas me pergunto o que eu poderia ter feito para evitar que o Brasil fosse escolhido para sediar a Copa de 2014. Não acredito em violência, portanto não gostaria de sair por aí arremessando pedras nessa gente. Meus votos não deram em nada e meu ingênuo protesto aqui neste espaço não vai servir para muita coisa. Mas nem por isso devo aceitar que, em um país com uma desigualdade social gravíssima e com um déficit educacional insustentável, sejam gastos cerca de R$ 10 bilhões na construção ou reforma de estádios que serão usados em duas ou três partidas - assistidas apenas por quem conseguir pagar uma fortuna para ver duas horas de pelada entre, digamos, Japão e Costa do Marfim. Fico imaginando de que maneira esse dinheiro poderia ser usado em treinamento de professores ou no aparelhamento de escolas, para ficar nos itens mais básicos da nossa cesta de necessidades.

Esse é um discurso ingênuo e inútil, eu sei. Uma cantilena que já não comove nem estimula, muito menos resolve alguma coisa. Mas mesmo assim me pergunto: não parece óbvio a quem comanda o país o absurdo que significa essa inversão de prioridades? Não há melhoria de infra-estrutura nas cidades-sedes que justifique esse descalabro. Assistimos calados a um dos maiores assaltos já realizados no Brasil, e provavelmente do mundo. Só que, neste caso, conhecemos de antemão os integrantes da quadrilha e sabemos previamente qual será o plano. Não há elemento-surpresa, tocaia ou sequer a engenhosidade dos crimes perfeitos. É apenas um assalto banal, a céu aberto e à luz do dia, na frente de todo mundo, sem a necessidade de máscaras ou de armamento pesado - apenas o cinismo e o despudor, que, pensando bem, são armas bastante eficientes. Fazer o quê? É a nossa sina histórica, o nosso moto-perpétuo.
 
 
Charge retirada do site http://conspirar.wordpress.com

2 comentários:

Marcos Carneiro disse...

O texto está no nível da charge! É absurdo msm e dentro dos absurdos existem outros, como a palhaçada em relação aos estádios q serão usados em SP, RS, etc. Ou Brasilia ter um estádio maior que o de Salvador. Enfim, se mexer na merda fede mais. Abs, Paulão!

Paulo Sales disse...

Rapaz, são tantos os absurdos que preferi me restringir só ao mais básico. Como você disse, se mexer fede mais.
Grande abraço, Pantikolo.