quarta-feira, 9 de maio de 2012

Noite que segue






A insônia é território da angústia. Um território opaco e espesso, onde vigília e inconsciência se irmanam e se desconectam, formando um todo aterrador. Um estado de espírito alterado, como se constituído de vontade própria, que vara a madrugada lançando centelhas no sono por vir. Uma neblina sem ternura ou aconchego, que avança na cinza das horas. No quarto quente, com o ar-condicionado quebrado, a temperatura do corpo é glacial perto da temperatura da mente, uma brasa vigorosa movida a passado.

A insônia desarruma os desvãos da alma. Desaloja episódios cuidadosamente esquecidos, remexe no arquivo morto de paixões cremadas e convertidas em cinzas, impressões enevoadas pelo pouco uso, cidades há muito visitadas e das quais guardamos só rostos e esquinas. Versos lidos há pouco ou lidos há décadas. Papéis imaginários. Um desassossego me invade e me impede de ler o livro de Pessoa na mesa de cabeceira, fuçar a vida alheia nas redes sociais ou rever pela sétima vez a sequência final de um filme qualquer na tevê a cabo. Um desassossego silencia o meu sono.

Olho para a insônia e ela me olha de volta, desolada, como se me pedisse desculpas. Deixo a cama e derramo estas palavras sem lucidez na tela. Olho meus livros, meus discos, meus retratos. Espelham o que sou, ou imagino ser. Noite que segue. Sinto falta do papel na máquina de escrever, sinto falta de sonhos. Minha mente anda muito ocupada por lembranças, atravancada pela persistência da memória.

6 comentários:

Sérgio Maggio disse...

Insônia, companheira de guerra. Adorei

Paulo Sales disse...

Valeu, Serginho. Mas, para mim, a insônia está mais para uma adversária, que me transforma em terra arrasada na manhã seguinte.
Abração.

Camila disse...

terra arrasada: exatamente assim

Paulo Sales disse...

Isso mesmo, Camila. Uma terra arrasada, refratária ao prazer da inconsciência e do descanso.

Claudina Ramirez disse...

Putz!
E cá estou!!!

Paulo Sales disse...

Seja bem-vinda, companheira!
Bjs