quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Transcendência




Hemingway dizia que a Espanha era o melhor país do mundo depois do seu próprio país.  Foi lá (e também em Paris) que ambientou O Sol Também se Levanta, sua obra-prima, além do melancólico testemunho romanceado da Guerra Civil Espanhola em Por Quem os Sinos Dobram, livro que não está entre os meus preferidos. Chamado de Don Ernesto por toureiros e garçons que costumavam lhe servir um jerez puríssimo, o Papa amava as touradas, o embate viril e esteticamente belo entre homem e touro. Mas a Espanha que amou, ainda agrária e profundamente católica, era um país bem diferente do de hoje, que parece enfim ter se libertado do espectro hostil da ditadura franquista. A crise pós-2008 ainda está em curso, mas o que se percebe é uma nação feliz, sem amargura aparente, entregue a um hedonismo agradável de fim de noite, com seus bares lotados e gente de todas as idades caminhando sossegada pelas ruas. 

Claro que é uma visão superficial de quem esteve poucos dias, e as bandeiras da Catalunha expostas aos montes nas sacadas de Barcelona deixam claro que a ferida aberta pelo “generalíssimo” está longe de cicatrizar. Em uma dessas sacadas, um cartaz dizia, em catalão: “A língua é um direito e uma cultura”, como uma resposta aos idiomas sufocados durante a ditadura. No País Basco, que não visitei, a ferida é ainda mais extensa. Franco fez um mal danado, assim como Salazar no país vizinho. 

Falando em Franco e em guerra civil, por pouco não consegui ver de perto a Guernica no Reina Sofia, talvez o mais pungente testemunho de um artista sobre a barbárie que se abateu sobre a Espanha. Para compensar em parte, pude ver as pinturas negras de Goya no Museu do Prado, e contemplei, entre horrorizado e fascinado, Saturno devorando um de seus filhos bem à minha frente.

Quem quiser falar com Deus deve ir à Espanha. Suas igrejas e monastérios nos fazem pensar seriamente (ao menos durante os segundos de encanto) na existência de algo além da nossa finitude. Já na primeira noite, fomos a uma missa na Sagrada Família a convite de uma amiga que mora lá. Uma experiência que, a despeito do sono, provocou em mim uma sensação de epifania, de transcendência. Dias depois, ao chegar no Monestir de Montserrat, cercado por aquele exército de rochas silenciosas lá pertinho do céu, eu mesmo duvidei do meu ateísmo renitente.

Mas o que mais me impressionou na Espanha - ao lado da genialidade quase absoluta de Gaudí - foi a capacidade singular que os espanhóis possuem de produzir beleza humana a partir de lugares de beleza natural quase infinita. Tanto Madri quanto Barcelona são cidades estupendas, capazes de nos fisgar pela fé, pelo deslumbramento ou, o mais provável, pela boca. De qualquer modo, saí de lá sem a mesma sensação de pertencimento com que me deparei em Paris e em Lisboa. Estas calaram fundo em meu passado, como se meu íntimo estivesse estreitamente atrelado a algo que só o Tejo ou o Sena seriam capazes de decifrar. A Europa, de qualquer modo, continua a me seduzir. Quanto mais me embrenho pelo continente, mais quero me perder por lá, fuçar cada país, descobrir nos diferentes idiomas a minha própria voz.

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