sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ícone desterrado


Já contei aqui no blog que passei fome por causa de um livro de J. D. Salinger. Era uma edição esgotada de Pra Cima com a Viga, Moçada e Seymor, uma Introdução, da Brasiliense, que se apresentou aos meus olhos de 22 anos, numa livraria de Florianópolis, como o último espécime de um inseto em extinção: sua importância era inversamente proporcional a sua aparência, com a capa discreta, bege, sem ilustrações, orelhas ou fotos do autor, como ele exigia. Estava nos dias derradeiros de uma viagem solitária que durava quase um mês, na qual já havia adquirido outros exemplares, novos e usados, mas nenhum tão raro. Na época não tinha conta em banco nem cartão de crédito. Só me valia do dinheiro que levava colado comigo no bolsinho da calça jeans, e com ele pagava os hotéis baratos, os ônibus imundos, a cerveja gelada e a boa mesa, que fazia questão de cultivar mesmo em tempos duros. Pra Cima com a Viga, Moçada representou um desfalque significativo nesse orçamento, e quando comprei a passagem de ônibus para o meu destino final, Porto Alegre, só me restaram algumas moedas. O que a princípio seria uma jornada noturna tranqüila e fria acabou se revelando um martírio. Quando o ônibus parou em algum canto, juntei minhas moedas e percebi que não davam para comprar sequer um mísero pastel que me olhava triste por trás da vitrine. Como desejei aquele pastel. Imaginei sua textura, adivinhei a maciez e o sabor do seu recheio, a carne moída combinando harmoniosamente com as ervilhas e a cebola. Voltei para o ônibus derrotado, com o estômago mal acostumado pedindo um afago que não viria.

No fim das contas, nem sei se o sacrifício valeu a pena, e muitos anos depois acabei trocando o livro ou dando ele de presente para uma amiga (algo do qual me arrependo) quando recebi no jornal a edição novinha publicada pela Companhia das Letras, agora com o título Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira. A verdade é que Pra Cima com a Viga, Moçada era um livro fragmentado, um tanto bobo e meio sem propósito, impressão que se estende em parte para outros textos de Salinger. Seus contos e novelas guardavam um certo encanto, um olhar deliberadamente pueril sobre um mundo nem tanto, mas, olhando à distância, acho sua obra superestimada.

Agora que o pai de Holden Caulfield e de toda a família Glass está morto, após 91 anos de vida – os trinta últimos vividos em reclusão absoluta –, me pego lembrando dele. E do impacto que O Apanhador no Campo de Centeio e, principalmente, Franny & Zooey provocaram no meu imaginário juvenil. Havia neste último uma espiritualidade vibrante, uma crença no outro mais do que num ser superior, o que desvelava em certa medida o caráter compassivo de Salinger. E havia ainda a paulada na alma desferida pelo conto Um dia Perfeito para os Peixes-Bananas, que descrevia o suicídio do primogênito Seymour, espécie de reserva moral da família Glass e em torno do qual orbitavam os outros irmãos. Gostava de outras das Nove Histórias, mas não lembro mais delas, já que há muito tempo não retiro um livro de Salinger da estante para ler. Talvez faça isso hoje à noite. Mas desde já penso nele como um velho ícone desterrado, tragado pelo tempo e a maturidade, que esmaecem nossas convicções e nos impelem incessantemente rumo ao desencanto.

5 comentários:

Nina disse...

Eu gostava de Salinger, e continuo gostando. Embora ache que deva ser lido pela primeira vez na adolescência, especialmente "O Apanhador no Campo de Centeio". Depois, pode-se até voltar a ler, mas o impacto é maior quando lido na idade certa, quando a identificação com as personagens é quase absoluta.

Aliás, quando eu era adolescente, costumava dar "O Apanhador" para os candidatos a namorado lerem. Não gostou, reprovado, rs!

Você já leu esse: Hapworth 16, 1924
http://archives.newyorker.com/?i=1965-06-19#folio=032

beijo!

Paulo Sales disse...

É, como você disse é um escritor para ser lido na adolescência ou no máximo até os vinte e poucos anos. Seu encanto permanece, mas acho que a reclusão tornou ele um autor mais badalado do que o seu talento justificaria. Gosto muito de Franny & Zooey, mas até do que de O Apanhador, e também do conto que cito no texto. Hapworth é a única coisa que ainda não tinha lido dele, vou entrar no link.
Beijão, Nina
p.s. - o seu teste até que era light. Eu dava Bukowski para as namoradas. Elas se escandalizavam com aquela sucessão de sacanagens do velho safado.

Nina disse...

Mas aí já eram namoradas, né? Já tinham passado no teste inicial!
Bukowski, ahahaha! Podia ser Anaïs Nin.

Bj

João disse...

... na década de 80 dei "Porcos com asas" para uma paixão juvenil.
Nunca rolou um beijo sequer com ela. Acho que abusei um pouco no presente.

Paulo Sales disse...

É, você pegou pesado (rsrsrs). Porcos com Asas dava seu cartão de visitas logo na primeira frase, uma sucessão de palavrões que o personagem usava para se excitar. Mas lembro que era um livro bem legal, só não lembro o nome do autor.
Grande abraço, meu caro.