domingo, 13 de junho de 2010

A importância do caos


Num universo cada vez mais conservador e politicamente correto como o do futebol, a presença de Diego Maradona na Copa do Mundo merece ser louvada. Gosto de ouvi-lo dizer que seus jogadores poderão praticar sexo e beber vinho nos dias de folga da seleção argentina. Gosto de vê-lo cobrar faltas com perfeição e em seguida acender um charuto para curtir os últimos momentos do treino, já com o dia indo embora. Sua anarquia extemporânea (não há nada mais anacrônico do que um Che Guevara tatuado no braço) representa a agonia de uma era. No futebol pragmático e irremediavelmente chato de hoje, Maradona e seu time personificam um sopro derradeiro de invenção, uma manifestação caótica do imponderável, uma desordem genial. Vendo a seleção argentina jogar, eu me deparo com artistas, não com atletas. Capazes de executar lançamentos longos e precisos, trocas de passes em altíssima velocidade e finalizações surpreendentes. E, fora do campo, um maestro desajeitado e histriônico, a nos lembrar de um tempo em que os gênios decidiam uma Copa, não os esquemas táticos ou o comprometimento dos atletas com seu país. Não deixa de ser sintomático que Maradona tenha reaparecido justamente num torneio realizado na África, onde o improvável desafia o pragmatismo para o bem (as torcidas alegres e barulhentas ou a linda dança dos jogadores sul-africanos antes de entrarem em campo) ou para o mal (os feridos num amistoso desastroso entre Nigéria e Coréia do Norte).

Nesse sentido, não há nada mais oposto do que Argentina e Brasil. As diferenças entre Maradona e Dunga vão muito além da já gasta dicotomia Apolo versus Dionísio. São formas de encarar o mundo que se confrontam em meio ao enxame de abelhas promovido pelas vuvuzelas. Com seu ufanismo tolo, sua ótica tosca e seus jogadores medíocres (com raras exceções), o treinador brasileiro lembra um general de comédias antigas, desses que acabam sendo invariavelmente ludibriados por seus subordinados. Não importa quem seja o campeão: se Brasil, Argentina (o meu preferido) ou um terceiro país à sua escolha. Afinal, reflito aqui muito menos sobre futebol e muito mais sobre o comportamento humano. Sobre ordem e caos, e em como ambos são necessários em nossas vidas, desde que na medida certa.

8 comentários:

Nina disse...

Irremediavelmente atraída pelos outsiders, sou fã do Maradona. Torço para que a Argentina vá longe nesse Copa, pois até esse momento, é nessa que seleção que enxergo aquilo que é o que penso ser o espírito do futebol.

E, ah, vendo esse chato do Kaká, como sinto saudades do Romário...

Gosto das ovelhas negras, dos desgarrados e dos que desafiam as convenções!

Bjo

(tá chatinha essa Copa até agora, não é? A F-1 hoje foi bem melhor!)

Paulo Sales disse...

Oi, Nina
Maradona é o outsider clássico.
Sinto muita falta do baixinho também, inclusive quando lembro das suas atuações pelo Mengão.
Hoje teve um bom jogo, com uma ótima seleção, a da Alemanha. Gostei muito.
Mas vou discordar de você em um ponto: prefiro ver XV de Piracicaba X Flamengo do Piauí a ver uma corrida de Fórmula 1.
beijão

Ricardo Ballarine disse...

Falta jogador mais humano, e não máquinas de marketing. Romário, Maradona, Stoikovich (ou algo assim), Zidane, gente que faz do futebol uma pequena diversão também. Por isso a Copa tão chatinha até agora - veja a Espanha, um belo time parado por um paredão sem graça...

Paulo Sales disse...

Sim, e mais invenção também. O drible que desconcerta e abre uma clareira, o passe que descortina um jogador livre, o arremate certeiro, como esses caras que você citou faziam (não seria Stoitkov, aquele búlgaro marrento, a que você estava se referindo?). De todos esses times, é a Argentina que mais aproxima dessas características, e que pode fugir de eventuais paredões.

Ricardo Ballarine disse...

Esse mesmo. Hristo Stoichkov, segundo o Google. E a Argentina já começou a fugir. E nada como ver Maradona dominando a bola na área técnica.

Paulo Sales disse...

Nada como ver Messi driblar três zagueiros na entrada da área e bater por cobertura, deixando o goleiro desesperado. O gol, nesse caso, é só um detalhe irrelevante.

Marcos Carneiro disse...

Ae! Mais um q torce pro futebol arte e não ta nem aí pra essa rivalidade boba q se inventou contra a Argentina. Por mim, a final seria pela 3a vez eles contra a Alemanha. Tão merecendo. ST

Paulo Sales disse...

É verdade. Mas quer saber? Acho que a Alemanha está jogando o fino. Merece ser campeã. Ou eles ou os hermanos.
abs