sábado, 5 de junho de 2010

Um cara decente



“E pouco depois de dar esse telefonema, ele estava de pé no escritório e sentiu uma tontura. ‘Tô ficando tonto’, disse. Aí ele se sentou numa cadeira, e eu vi os olhos dele ficarem vazios. O olhar dele ficou vazio. Ele tinha morrido. Mas eu pensei que ainda desse para fazer alguma coisa, saí de carro correndo para a casa de um cardiologista que morava ali perto. Não encontrei o cardiologista, voltei pra casa e ele já estava morto. Foi terrível viver com essa imagem de ver o pai morrer, ver a morte tomar conta de uma pessoa. Ficar com os olhos vazios assim.”


Luis Fernando Verissimo, em Conversa sobre o Tempo.


***


Não pude ver os olhos de meu pai ficarem vazios. Quando cheguei esbaforido do trabalho com meu irmão, ele estava lá na cama enquanto os paramédicos tentavam reanimá-lo. Mas não havia mais vida naqueles olhos nem naquele corpo. Lembro que me senti mal, como se o coração fosse transbordar de sangue, e corri ao banheiro para chorar. Minha mãe veio em seguida e me deu um comprimido para que me acalmasse. A partir daí, fiquei em suspensão. Deixei de sentir tristeza e um alheamento incômodo me invadiu, só me abandonando uns dois dias depois do enterro. Os paramédicos terminaram o serviço e deram início aos trâmites burocráticos. Após um curto tempo, sentei ao lado de meu pai e fechei seus olhos apagados. Restava muito pouco da pessoa que sete meses antes fora diagnosticada com um câncer no pulmão com metástase no cérebro. Os cabelos surpreendentemente pretos e vastos para a idade tinham caído após as sessões de quimioterapia e – como disse minha mãe – ele foi se apagando aos poucos, como uma vela. Meu pai deixou a vida com dignidade, em sua cama, como no verso de Lorca.


Passados quase oito anos, é uma saudade que não cessa. E faz com que me apegue ainda mais a minha mãe, pelo temor de perder a outra parte do meu alicerce. Hoje não posso compartilhar com ele minhas impressões sobre os jogos do Flamengo. Não posso compartilhar os vinhos que compro e bebo sozinho na varanda lamentando a sua ausência. Não posso compartilhar os livros que leio, os discos que escuto, os filmes que assisto. Não posso compartilhar as viagens que faço de vez em quando com a minha (e sua) família, nas quais sua presença seria louvada. Enfim, faço minhas as palavras de Verissimo, ao final de Conversa sobre o Tempo, quando ele diz: “Eu gostaria de ser lembrado como um cara decente. Um cara decente como foi meu pai, decente em todos os sentidos da palavra”. Acho que é por aí.

4 comentários:

Nina disse...

Que texto doído, Paulo.

Doído e bonito. Vieram-me lágrimas aos olhos.

Bj

Paulo Sales disse...

É, Nina, dói em mim também. Muito.
beijos
P.

Marcos Carneiro disse...

Velhao, não posso ler esse tipo de texto q choro. Abs

Paulo Sales disse...

Imagino que sim. Pena que te fiz ir do riso às lágrimas em tão pouco tempo. O importante é que sobrevivemos e vamos levando a vida, meu velho.
abração.