terça-feira, 14 de julho de 2009

Da cama para o mundo


Pelo menos uma vez por semana recebo e-mails de conteúdo pornográfico. É uma corrente virtual que não cessa. Outro dia foi uma seqüência protagonizada por uma participante do Big Brother. Ontem foi a vez das cenas da vereadora de São Paulo, cuja vida virou pelo avesso com a disseminação das imagens toscas em que aparece abocanhando um pênis e sorrindo para a câmera. É praticamente o que vemos durante os quarenta e poucos segundos de duração do vídeo. Terminei de ver, apaguei a mensagem e senti um tédio danado. Lembrei de imediato de um conto de Roberto Bolaño em que ele fala da “tristeza dos caralhos”, ou melhor, da “tristeza dessas pirocas monumentais na vastidão e na desolação deste continente”. Você termina de assistir e tem a impressão de que aquilo não reverbera, não provoca reações significativas no seu córtex cerebral. Mais ou menos como eu me senti aos 13 anos, após a primeira e entusiasmante meia-hora de exibição de Garganta Profunda, o primeiro pornô a que assisti, num cinema vagabundo de Aracaju. A repetição gera o fastio.

Embora não me negue o prazer de contemplar fotos de mulheres nuas, no geral me cansa essa propagação maciça de voyeurismo pela internet. Essa necessidade cada vez mais premente em homens e mulheres de acrescentar uma dose farta de exibicionismo ao sexo, sobretudo o casual. Mais do que nunca, numa espécie de pulverização da intimidade, o prazer acontece não no momento do orgasmo, mas depois: dias, semanas, meses ou – no caso da vereadora – anos. Como se, ao gravar aquelas imagens, fosse possível perpetuar o prazer e passá-lo de mão em mão. Além, obviamente, de permitir o surgimento de novos Casanovas. Hoje, a cereja do bolo não está na relação sexual em si, mas na quantidade de pessoas que presenciam essa relação à distância. Que nem aquela piada em que o cara transa com a Sharon Stone numa ilha deserta e depois de um tempo, já meio de saco cheio, pede a ela que se fantasie de homem só para ele chegar e dizer: “Rapaz, você não sabe quem eu tô comendo”.

Mas não é só isso. Em alguns e-mails, junto com as imagens, recebo informações sobre a mulher que se despe para a câmera: é recepcionista da clínica tal na cidade tal ou trabalha na agência tal do banco tal. É como se fosse preciso buscar algum tipo de legitimidade naquelas imagens. Como se, ao saber que se trata de uma moça comum, gente como a gente, alguma fagulha despertasse em nós a libido refreada pelo excesso de ócio ou de trabalho. Não basta mais ver vídeos ou fotos estrelados por quem sobrevive da indústria do sexo (indústria que, como as demais gigantes do entretenimento, deve ter perdido parte do poder e do faturamento com a chegada da internet). É preciso conferir a vida como ela é. Pescar na rede imagens gravadas por celulares mostrando bocas, picas e bucetas anônimos em ação, ou de preferência saber que eles pertencem a alguém com nome, sobrenome, carteira de trabalho e CPF. E assim vamos nos abobalhando, ávidos por sexo a qualquer preço (incluindo aí a humilhação alheia) e entediados ao extremo, como viciados recém-libertos do efeito da droga. Até que a caixa de entrada volte a se encher e nos faça gozar de novo com o pau dos outros.

3 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Só faltou falar da lista da igreja...hehehe Mas falando serio, so acho sacanagem (sem trocadilhos) q nesses videos q acabam caindo na rede a mulher é tida como puta e o cara é o garanhao. Essa vereadora nao foi a 1a e nem sera a ultima, hj em dia os mais jovens acham ate normal trocar videos eroticos entre si. E aposto q no futuro varias pessoas terao seu canal no pornotube pra poder ficar postando suas fodas, com direito a comentarios e coisas do tipo. hehe

Marcos Carneiro disse...

P.s: 2 textos seguidos envolvendo sexo em 3 dias. Ta tomando viagra é?

Ah, esqueci de comentar tb a cabeleira de Kate Wislet no post abaixo. Só perdeu pra Claudia Ohana.

Paulo Sales disse...

Fala, Pantico
Como eu disse, é uma pulverização da intimidade. E me incomoda essa ausência de escrúpulos, esse olhar sexista sobre a mulher, esses adultos se comportando como adolescentes.
Ah, e em O Leitor sexo é só um dos muitos elementos que compõem uma tragédia individual e coletiva marcada pelo silêncio.
p.s. - Quanto à sua pergunta: não, ainda não me aventurei pelo mundo dos estimulantes sexuais de base química. Mas, quem sabe, um dia provavelmente vou precisar deles (hehehe).
abraços