domingo, 12 de julho de 2009

Sobre algozes e vítimas


Muitas reflexões proliferam à medida que avançamos na narrativa de O Leitor. Uma delas, talvez a mais importante, é a disseminação quase trivial do mal, traduzida na cumplicidade coletiva que silenciosamente permitiu o genocídio dos judeus na Segunda Guerra – e que tem na figura de Hanna Schmitz um arquétipo perfeito. Sua ignorância – o analfabetismo, o raciocínio tosco – não serve de desculpa ou explicação para o que fez, como bem nota, ao final do filme, a senhora que sobreviveu ao campo de concentração no qual ela serviu de guarda. Mas de certa forma projeta um olhar menos maniqueísta e mais complexo sobre a insânia nazista. Afinal, Hannah não estava sozinha naquela barca que afundou levando junto 200 milhões de pessoas.

Mas o que há de mais pungente no longa de Stephen Daldry é o mal, perene e profundamente arraigado, que ela causa no jovem Michael, e que será determinante para que ele se converta no tipo sorumbático e infeliz que se tornou na vida adulta. Pois, vale lembrar, Michael esteve cara a cara, língua a língua, sexo a sexo com uma aberração – e essa aberração não lhe pareceu nem um pouco torpe, suja ou degradante. Hannah ensinou a Michael o sexo e o amor, assim como lhe mostraria mais tarde que rosto têm a repulsa e o horror. Nada, porém, que extirpasse dele a índole compassiva, explicitada na belíssima seqüência em que grava as fitas com o conteúdo dos romances que lia para ela na juventude. Um ato tão bonito e puro que por vezes oculta o aspecto sombrio da relação entre os dois e o seu diálogo com a História com H maiúsculo. Entra aí, como um parêntese, o poder avassalador da arte. A sua capacidade de, em determinados momentos, permitir um vislumbre ainda que vago da nossa grandeza e, paralelamente, da nossa insignificância. Ao colocar as fitas Basf no gravador portátil, ali no seu quarto solitário de prisão, Hannah imerge num universo paralelo refratário à culpa e ao castigo. Um mundo que ela compartilha à distância com o “menino”, e no qual se sente menos vazia. Porque em Hannah o vazio é abismal.

Quando no finalzinho um Michael já envelhecido leva a filha para conhecer o túmulo da antiga amante, e conta a ela não uma das, mas a única história da sua vida, mesmo aí há uma hesitação, um travo que o impede momentaneamente de se expressar (travo que fica ainda mais acentuado quando se tem um ator excepcional como Ralph Fiennes para traduzi-lo em olhar e silêncio). É que ali, diante da lápide, não está um velho. Mas sim um adolescente, ingênuo e desnorteado como são todos os adolescentes, tentando abarcar numa única mente coisas que não se misturam (ou não devem se misturar), todas elas em doses colossais. Coisas incompreensíveis como amor, ignorância e maldade. Porque, como diria Borges, a máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade dos homens.

4 comentários:

Franchico disse...

Quolé, Paulinho! Nunca comentei, mas tb passo sempre por aqui, duas ou três vezes por semana. Vc, Fred e Pop (olha a intimidade) são meus professores, cara. Em momentos diferentes da minha vida, cada um de vcs me concedeu tempo e dedicação para me ensinar e me deu um empurrão (no caso de Fred, até alguns safanões ;-)) para eu ir adiante. Nunca esqueci disso e sempre carrego vcs comigo - nas lições e nas boas lembranças. Sempre que venho aqui saio com algo para pensar. Fora que seu texto limpo, claro e profundo será sempre uma inspiração pra mim. Grande abraço do seu amigo Chicão. (OK, agora vamo baixando essas calcinha). ;-)

Paulo Sales disse...

Grande Poetinha, obrigado pela missiva e pelas visitas.
A verdade é que aprendemos juntos, ou você esqueceu dos livros e discos que me emprestou, me apresentando a autores e músicos para mim totalmente desconhecidos? Também lembro dos velhos tempos com nostalgia - outro dia arrumei minha caixa de correspondências e encontrei suas cartas, invariavelmente com manchas de chocolate, falando da vida na Bahia para um baiano em auto-exílio em SP.
Enfim, precisamos tomar umas brejas.
Grande abraço e trate de lavar bem as cuecas.

Marcos Carneiro disse...

Fala, Paulao! Vi esse filme um dia desses, legal tb. Ia te indicar mais um filme, mas esqueci o nome. Abs!

claudina disse...

Obrigada por este também!!!