terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Anda. Anda. Anda


Após um atraso de meses (o que talvez torne este texto particularmente desinteressante), aproveitei o recesso do Carnaval para finalmente assistir aos filmes mais recentes dos diretores que, ao menos para mim, fazem hoje o melhor cinema do país. E saí de cada um deles com impressões radicalmente distintas. Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, nunca se decide entre construir uma parábola existencial (falta-lhe substância para isso) ou apenas se limitar a ser um thriller apocalíptico, do qual está mais próximo (lembrando inclusive Extermínio, de Danny Boyle, em alguns momentos). Houve claramente um retrocesso em relação a O Jardineiro Fiel. Meirelles vive agora um momento de consolidação (ou talvez não) como cineasta internacional, fase pela qual Walter Salles já passou de forma um tanto traumática (sobretudo no caso de Água Negra, quando os produtores lhe negaram o corte final). O trauma fez com que o diretor de Central do Brasil voltasse (embora não definitivamente) à realidade do próprio país, e nesse sentido Linha de Passe representa um salutar retorno às origens. Trata-se de um filme denso e coeso, essencialmente humanista como todos os trabalhos de Walter, mas sem que esse humanismo acabe se convertendo no bom-mocismo ingênuo de, por exemplo, Diários de Motocicleta. Sandra Corveloni levou o prêmio de melhor atriz em Cannes pelo papel de uma mãe solteira, mas foi a atuação segura – aguda em alguns momentos, contida em outros – dos quatro rapazes que vivem seus filhos que mais me chamou a atenção. Mas o que realmente importa na trama urdida pelo diretor e sua parceira Daniela Thomas é o olhar desnudo – mas com boa dose de compaixão – que ela direciona a um microcosmo acima de tudo brutal: o cotidiano dos brasileiros urbanos de classe baixa. Enquanto essa realidade asfixiante se desenrolava à minha frente, eu me perguntava em silêncio como é possível viver com perspectivas tão exíguas. A pobreza e o horizonte estreito representam um fardo gigantesco, um peso intangível que impede que aqueles seres humanos – invisíveis para a maioria de nós, mesmo andando ou trabalhando ao nosso lado – alcancem uma liberdade mínima de movimentos. O que fazer quando pernas, braços e cérebro permanecem invariavelmente engessados por um fatalismo incontornável? Quem é íntegro e quem não é, nesse pequeno universo onde a solidez de caráter convive fraternalmente com a escassez diária de dignidade e a presença avassaladora da violência como fonte de renda? Ou melhor: onde termina o desespero e onde começa a abjeção? Os quatro filhos sem pai daquela mãe sem marido transitam permanentemente por essa zona cinzenta, e Linha de Passe termina sem qualquer sinal de redenção para eles. Não poderia ser diferente, ou estaríamos assistindo a uma realidade edulcorada, um conto de fadas hollywoodiano com seus heróis anônimos que superam as adversidades para se estabelecerem como alguém no mundo, tornando-se enfim visíveis aos que habitam o topo da pirâmide. Não é assim que funciona para quem mora em Cidade Líder, bairro que serviu de locação para o filme. Não é assim que funciona para quem mora no Nordeste de Amaralina, na Ceilândia, no Pavãozinho ou em qualquer bairro pobre de uma grande cidade brasileira. O que permanece é a paralisia, o imobilismo involuntário. Por mais que, como um dos personagens do filme, todas essas pessoas vivam dizendo a si mesmas: “Anda. Anda. Anda”.

3 comentários:

Paulo Cunha disse...

Concordo totalmente, meu caro. 'Ensaio', badaladíssimo, não me empolgou. Por outro lado, 'Linha de Passe' é o melhor nacional que vi ultimamente. Aquele abraço!

Paulo Sales disse...

Linha de Passe é mesmo muito bom, Paulão. Só espero que Walter não perca a mão em On the Road, se é que ele vai mesmo filmar o clássico de Kerouac. Tem tanto tempo essa história e nada até agora.
abs

Marcos Carneiro disse...

Ainda nao vi Linha de Passe, mas me empolguei muito com Estomago! Já viram?