terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Compaixões seletivas


“No passado, era conveniente pensar em termos bíblicos, acreditar que vivemos cercados de autômatos comestíveis, habitantes da terra e do mar, para nos servir. Agora se sabe que mesmo os peixes sentem dor. Tal é a complicação crescente da condição moderna, o círculo crescente da solidariedade moral. Não só os povos remotos são nossos irmãos e irmãs, as raposas também, e os macacos de laboratório, e agora os peixes. Perowne continua a pescá-los e comê-los e, embora nunca jogue uma lagosta viva dentro da água fervente, está disposto a pedir que lhe sirvam uma lagosta num restaurante. O truque, como sempre, a chave para o sucesso e para o domínio humano, consiste em ser seletivo nas compaixões. A despeito de todo o palavrório sensato, é o que está perto da mão, é o visível que exerce a força suprema. E aquilo que não se vê...”

Ian McEwan, Sábado

O mais interessante nesse trecho do instigante livro de McEwan é o conceito – o truque, nas palavras dele – das compaixões seletivas. Em outras palavras, uma versão amena de hipocrisia, uma forma de evitarmos o confronto entre nossas convicções racionais e o nosso desejo primal, instintivo. É reconfortante se deliciar com um corte ao ponto de bife ancho ou miolo de alcatra já que não vemos, ali à nossa frente, o boi ser executado com uma pistola de ar comprimido e depois retalhado, com sangue e vísceras escorrendo por todo lado. A idéia de pescar está tão entranhada em nossa memória afetiva de crianças que não nos damos conta do absurdo que é arrancar um ser vivo de dentro do seu meio e em seguida sufocá-lo numa cesta de vime (para depois, em muitos casos, nem aproveitá-lo como alimento).

A verdade é que reproduzimos – obviamente com sofisticação, complexidade e escala de produção e consumo inigualáveis – a ancestral necessidade de extinguir outra vida, de nos apropriarmos da sua energia para continuarmos andando. Você pode degustar uma lagosta ao molho termidor ou uma galinha ao molho pardo, mas jamais vai apagar o fato de que está comendo uma lagosta ou uma galinha. Para justificar em palavras sua renúncia total ao alimento de origem animal, uma amiga minha disse que não come nada que tenha rosto. Racionalmente, gostaria de agir da mesma forma. Mas minhas compaixões são, como as do personagem de McEwan, mais seletivas. Algo em mim clama por sangue, pelo “ardente prazer de dilacerar”, para usar as palavras com que Borges traduziu o desejo inato de um leopardo.

Seria uma hipocrisia e tanto afirmar que este coração hedonista não padece de pequenos surtos de prazer ao dilacerar finas e delicadas tiras de salmão cru ou pedaços tenros e altos de picanha cheios de gordura, enegrecidos pela brasa. Renunciar a esses surtos seria doloroso ao extremo, quase um castigo perpétuo. Por outro lado, o que fazer com o apelo racional, o aprendizado constante que a evolução intelectual nos impõe? Não vou viver para presenciar o fim desse dilema, até porque sou parte dele, mas é bem possível que a humanidade caminhe – a passos de tartaruga – para um mundo habitado apenas por herbívoros. Sem churrascarias e suas carnes exóticas, iguarias japonesas, moquecas de camarão e siri mole, ostras, polvos, mexilhões, presuntos de Parma ou mesmo um simpático feijão branco com rabada. Pensando bem, não ser imortal tem lá suas compensações.

Um comentário:

Marcos Carneiro disse...

Ainda bem q li esse texto depois de almoçar, senao ficaria com agua na boca, principalmente apos a penultima frase...