terça-feira, 31 de março de 2009

Animal sorrateiro


Vez por outra a literatura nos prega peças. Quando achamos que já tínhamos lido praticamente tudo que merecia nossa dedicação e nosso tempo (algo impossível mesmo para alguém que viveu para ler, como Borges), sempre aparece alguém para nos povoar de assombro e provar que obviamente se trata de uma pretensão absurda da nossa parte. Até porque o passado não é nosso único manancial de palavras: a cada ano surge um novo autor, e com ele uma visão de mundo singular, amparada por suas experiências e percepções, que por sua vez são diferentes das de todos os que vieram antes dele. Ian McEwan não é assim tão novo, mas é um grande autor, na plenitude do domínio narrativo e prestes a atingir a maturidade intelectual. Seus parágrafos funcionam como recipientes, que vão sendo lenta e progressivamente preenchidos por quantidades colossais de angústia, dando a impressão de que vão nos arrastar para dentro deles. Na semana passada, olhos arregalados na noite alta, me vi aprisionado num desses recipientes, com o agravante de que precisava trabalhar na manhã seguinte. Às vezes, o canto do olho alcançava os ponteiros no braço esquerdo, e eles me alertavam: “Rapaz, saia logo daí de dentro”. Mas a teia de Reparação me prendeu lá madrugada adentro, até que o sono me libertou.
Mais do que uma prosa impecável, tanto Sábado quanto Reparação têm como principal característica provocar um mal-estar silencioso, como se caminhássemos numa floresta e soubéssemos intimamente que em algum momento um animal sorrateiro vai nos atacar. Às vezes isso acontece, às vezes não, e é o que faz de McEwan um escritor superior: ele sempre nos reserva espantos, nunca nos entrega o doce de mão beijada como um roteirista de Hollywood, mesmo quando acreditamos antever algum acontecimento. A história de Briony Tallis e o mal que fez à irmã e ao jovem que trabalhava na sua casa ressoa em nossa mente muito tempo depois que a abandonamos. E o neurocirurgião de Sábado é um dos personagens mais solidamente palpáveis que já encontrei nessas minhas andanças pelo território sagrado das palavras. Tenho na estante um outro livro de McEwan: A Criança no Tempo. Cheguei a tirá-lo de lá quando recoloquei Reparação, mas dei uma lida na orelha e a trama me afugentou: um escritor que tem sua filha de três anos roubada numa fila de supermercado. Sei da capacidade do autor de reverberar o mal até o grau máximo do insuportável, e sei também da minha incapacidade cada vez maior de suportar a torpeza que se descortina a cada jornal aberto, assistido ou acessado. É criar coragem agora ou deixá-lo ali, à espera de tempos menos sombrios.

2 comentários:

Ricardo Ballarine disse...

Não irá se arrepender de "A criança no tempo". Experimente também outro, "Amor para sempre", obsessivo. E, se já não assistiu, veja a versão cinematográfica de "Reparação", que saiu com o nome de "Desejo e reparação" (sabe-se lá o motivo...). A cena da fonte é das coisas mais sensuais que já vi.
Até

Paulo Sales disse...

Acho que vou acabar lendo A criança no tempo (quando conheço um novo autor do qual gosto, fico tentado a ler tudo dele), e obrigado pela dica de Amor para sempre. Ainda não vi o filme justamente para não estragar o livro e deixar a imaginação correr solta pelas páginas. Agora estou liberado para assistir.
abraços