segunda-feira, 23 de março de 2009

Inventário de ilusões


Circulou durante muito tempo na internet uma crônica falsamente atribuída a Gabriel García Márquez (que além de negar a autoria ainda espinafrou o texto), na qual o narrador listava um inventário do que deixou de ter feito e o que faria caso tivesse a chance de rebobinar a própria vida e começar de novo. Gabo foi impiedoso com o texto, que apesar de piegas tem lá seu encanto, mesmo sem valor literário (hoje se sabe que foi escrito por um ventríloquo mexicano de nome Johnny Welch). Mesmo com alguns bons pares de anos pela frente – a não ser que se abata sobre mim uma tragédia ou um enfarto fulminante -, às vezes penso no que deixei de fazer e no que nunca farei, mesmo que viva mais 200 anos. Cada decisão tomada ou cada empurrão do acaso nos leva a caminhos singulares, como num labirinto infinito em que não é possível retroceder, apenas seguir em frente. Não vou me ater sobre o que poderia ter feito diferente, mas sobre o que gostaria de fazer ao menos uma vez na vida, mesmo tendo consciência plena de que, em sua maioria, são sonhos irrealizáveis. E, no caso dos improváveis, só se o meu mundo se transformar numa festa móvel regada a dinheiro farto (quem sabe uma mega-sena?), como a vida que Jorginho Guinle levou entre os salões da alta corte carioca, os bares enfumaçados de jazz em Nova York e as festas de arromba, gim e cocaína em Hollywood, até morrer da maneira mais digna possível, de barriga cheia, banho tomado e alma lavada, numa cama do Copacabana Palace.
Aí vai o meu inventário de ilusões, umas impossíveis, outras improváveis: surfar uma onda de nove metros em Pipeline. Beber uma garrafa de Chateau Margaux 1900. Abraçar um leão sem ser morto por ele. Almoçar espaguete com frutos do mar e muito azeite numa casa italiana à beira do Mediterrâneo. Passar um mês em silêncio num templo budista no Tibet. Fazer um gol no Maracanã lotado com a camisa do Flamengo. Conversar com Ernest Hemingway sobre touradas, pescarias, bebidas e literatura, não necessariamente nessa ordem. Ver um urso caçando salmões numa corredeira de rio no Canadá. Ler todos os livros que valem a pena ser lidos. Amar todas as mulheres que valem a pena ser amadas. Pedir carona numa estrada sem me preocupar com a maldade dos condutores. Contemplar o mundo do topo do Everest sem ter que escalá-lo. Estar numa mesa do Village Vanguard ouvindo Miles Davis, Clifford Brown e John Coltrane num mesmo conjunto, com Thelonious Monk, Charles Mingus e Art Blakey na seção rítmica. Ter minha filha ao meu lado com seu rosto de criança por toda a eternidade. Encontrar Fernando Pessoa numa tabacaria em Lisboa e fumar um charuto com ele. Tomar um Ventisquero com meu pai numa casinha à beira-mar. Ver a aurora boreal num fiorde da Noruega. Atirar num caçador de filhotes de foca. Atirar num caçador de gorilas. Sentir o vento frio no rosto. Ir ao espaço e concordar com Yuri Gagarin sobre a cor da Terra. Ser o primeiro (ou o segundo, ou o vigésimo oitavo) homem a ver os anéis de Saturno da janela de uma nave. Ir além do Sistema Solar, da Via Láctea, dos limites do universo. Tentar fazer o bem. Morrer decentemente em minha cama, como no poema de Lorca. Morrer de barriga cheia, banho tomado e alma lavada, como Jorginho Guinle.

6 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Bala, Paulao! Já sorri no primeiro item do inventario. Genial.

Fiz uma listinha dessas um dia, incluia aprender violao, saltar de paraquedas, morar fora, etc. Aos poucos a gente vai realizando nossos sonhos.

Sobre sua lista fantastica, a unica coisa realmente impossivel é "sentir o vento frio no rosto". Q calor dos diabos faz nessa cidade!

Paulo Sales disse...

É mesmo. E pra você ver como essas listas são sempre incompletas: esqueci de três grandes sonhos que você acabou me lembrando: aprender a tocar um instrumento (trompete, gaita ou piano), andar de asa delta e morar na França ou na Suíça. Daqui a pouco lembro de outras.

claudina disse...

rsrsrsrsrsrsrsr
muito bom! e por acaso vc já surfou?!(vc já viu que minha memória não anda tão boa...)
Adorei te ver em família, elas são lindas! vamos juntá-las, acho que seria bacana,
beijssssss

Paulo Sales disse...

Não, dessa vez não é sua memória, Antonia. Surfar sempre foi um sonho não realizado. E vamos nos ver, sim.
bjs

claudio cordeiro disse...

Mandou bem Paulo. A lista é ótima e pelo menos uma delas só depende de vc: marcar um gol no Maraca pelo Menguinho - liga pro Cuca q ele te escala na hora !!!!!
Um abração e o blog tá bem bacana, parabéns

Paulo Sales disse...

Valeu, Claudião.
Quem me dera ser um centro-avante matador vestindo o manto sagrado. Isso é para o Josiel.
Vi e torci pelo seu time hoje, espero que ele vá pra final, está bem arrumadinho.
abração