domingo, 8 de março de 2009

O delírio silencioso



“Uma história era uma forma de telepatia. Por meio de símbolos traçados com tinta numa página, ela conseguia transmitir pensamentos e sentimentos de sua mente para a mente de seu leitor. Era um processo mágico, tão corriqueiro que ninguém parava para pensar e se admirar. Ler uma frase e entendê-la era a mesma coisa; era como dobrar o dedo, não havia intermediação. Não havia um hiato durante o qual os símbolos eram decifrados. A gente via a palavra castelo e pronto, lá estava ele, visto ao longe, com bosques verdejantes a se estender a sua frente...”

Ian McEwan, Reparação


Não sei quando foi inoculado em mim o veneno do delírio silencioso. Talvez na infância remota, ao sentir na ponta dos dedos a textura áspera do papel e os códigos desconhecidos que o preenchiam. Ou, mais provavelmente, antes mesmo de me deparar com a claridade primeva, recém-saído do líquido amniótico, os genes carregados da herança do meu avô paterno de origem lusitana, que durante 50 anos cuidou da biblioteca do Gabinete Português de Leitura, de onde só saiu para a aposentadoria. Quando garoto, 6 ou 7 anos, sonhava em ganhar de presente uma banca de revistas, mais precisamente a da entrada da minha rua, onde meu pai e meu irmão me compravam as histórias de Mickey, Donald e Tio Patinhas (mais tarde doadas por minha mãe, sem o meu consentimento, a uma empregada que pouco ficou lá em casa, de sotaque carioca, que fumava como se estivesse no corredor da morte).

Dos quadrinhos migrei para a Coleção Vaga-Lume. Lembro de ansiar pela chegada do meu aniversário para receber de presente da minha madrinha o livro Cem Noites Tapuias, de Ofélia e Narbal Fontes. Havia outros: Spharion, O escaravelho do Diabo, Éramos Seis, A Ilha Perdida. O meu preferido era Coração de Onça: Papudo, a rejeição e depois as minas de Potosí. Que livro. Levava meu imaginário à estratosfera e me trazia saciado de lá. Uma vez, já adolescente, conheci um desses autores, Aristides Fraga Lima (que tinha escrito A Serra dos Dois Meninos, outro que adorava), pai de uma amiga: numa das minhas visitas a ela, fiquei com ele numa sala, junto com meu primo, mas fui incapaz de esboçar algum comentário sobre os seus livros ou mostrar de algum modo a minha admiração. Apenas ouvi meu primo comentar: “O tempo está quente”, e ele responder: “Sim, e há muitas muriçocas”. O mais perto que cheguei de um ídolo em toda a minha vida e apenas me limitei a ouvir esse diálogo. Não sei se Aristides ainda é vivo, mas virou nome de rua aqui em Salvador.

Em seguida – ou simultaneamente – vieram outros livros: As Aventuras de Tibicuera, de Erico Veríssimo, um dos primeiros, sobre um índio que viveu 500 anos, do descobrimento aos dias de hoje, tendo encontrado nas matas o Curupira e o Anhangá. Tenho esse exemplar aqui na minha biblioteca, guardado com carinho, por incrível que pareça o único do autor, ao lado de vários do filho Luis Fernando. E também Viagem ao Mundo Desconhecido, sobre as aventuras do português Fernão de Magalhães, primeiro navegador a dar a volta ao mundo (cito aqui de memória as cinco naus que compunham sua frota: Trindade, Concepción, Santiago, Santo Antonio e Victoria, a única que voltou para contar a história, e sem o seu comandante). A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, na verdade uma versão adaptada por Paulo Mendes Campos (tinha receio de ler, pois era indicada a maiores de 12 anos, idade a que só chegaria dali a um ano). Um romance de suspense infantil que li em Itabuna, e do qual só lembro que era ambientado em Brusque, Santa Catarina (já adulto, movido pela curiosidade provocada pelo livro, fui à cidade e encontrei apenas frieza no clima e nas pessoas). E mais Tom Sawyer, O Conde de Monte Cristo, os livros de Julio Verne (20 mil Léguas Submarinas, A Ilha Misteriosa, Miguel Strogoff, Viagem ao Centro da Terra...). Provavelmente esqueço algum aqui.

A adolescência trouxe descobertas de teor radicalmente distinto. Lembro do encanto provocado pelos livros de García Márquez. Li Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera aos 15 anos, com suas páginas embebidas de fascínio, e nunca esqueci da sensação provocada pelas virgens que subiam aos céus ou pelos sucessivos Aurelianos Buendías que superpovoavam as páginas. Os poemas de Brecht aos 16, On the Road, os contos de Bukowski e o fim definitivo da inocência aos 17. A partir daí, o mundo ficou mais brutal e menos lírico. Mas a telepatia a que se referiu McEwan permanece incólume. Ainda hoje me fascina receber diretamente, sem intermediários, como um medicamento intravenoso, o pensamento de alguém que na maioria das vezes nem existe mais. Pode ser uma forma de imortalidade, mesmo que incompleta. Que seja. É o nosso legado, o registro definitivo da nossa muito breve passagem por aqui.

6 comentários:

Ricardo Ballarine disse...

Salve PH, sei que por vezes ronda SP, lazer ou trabalho, nosso amigo em comum me conta sempre que você faz contato. Teu blog é mais recente, já criou disciplina? Eu tento, muitas vezes consigo, mas outras... Como agora, três dias sem atualizar. Tô em SP, me dá um toque quando aparecer. Enquanto isso, vamos no caminho virtual.
Abs
Ricardo

Paulo Sales disse...

Estou conseguindo ter uma disciplina surpreendente, e me esforçando para escrever pelo menos duas vezes por semana. Mas o blog hoje é bem diferente do que imaginava que seria quando resolvi criá-lo. Vou sempre a Sampa - nos dois últimos anos só a lazer - e encontro sempre o velho Jesus e a galera da faculdade, mas este ano não devo aparecer por aí. Bom reencontrar você.
abração

claudina disse...

Minino, vc falou no velho Aristides, a filha dele era minha melhor amiga, Mônica, vc sabia disso? Cresci naquela casa, sempre com muita curiosidade no escritor, que era de um silencio carinhoso que nem sei explicar... tinha 11 anos e os outros filhos eram maiores e na hora do almoço todos contavam histórias e ele ria, divertido e discreto, homem de pouquíssimos comentários e muito cuidado - alheio! a mãe e os filhos cuidavam muito dele que era uns 15 anos mais velho que ela. Sinto muita tristeza quando passo pela casa da Pituba, fechada e murada desde a partida do escritor, acho que há uns dez anos... Não me lembrava que tínhamos essa admiração em comum, obrigada por devolver-me essa recordação! beijssssssssssssss

Paulo Sales disse...

Mas Antonia, a amiga a que eu me referi quando citei essa história era exatamente Monica (Fofucha), e claro que você estava ao meu lado nesses tempos. Era com você que eu ia lá, esqueceu? Bem, tínhamos 15 anos.
beijão,

Leo Salvatore disse...

Paulo,
Boa tarde. Fiz uma busca pelo autor "Aristides Fraga Lima" no google, e seu blog apareceu como resultado da busca. Tornei-me montanhista em 1991 e digo que o livro "A Serra dos Dois Meninos", que li na infância, foi com certeza a semente para o surgimento deste esporte na minha vida. Mas como é dificílimo achar alguma informação sobre o Aristides, gostaria de saber se você tem alguma notícia dele, se vive, se ainda escreve, etc...
Um abraço,
Leonardo Salvatore
Petrópolis - RJ
orkut: Leonardo Salvatore
E-mail:leo4444.salvatore@hotmail.com

Paulo Sales disse...

Olá, Leonardo
Alguns livros nos acompanham a vida inteira, não é? A Serra dos dois meninos é um desses casos. Soube por uma amiga - que escreveu um dos comentários acima do seu - que ele morreu há 10 anos, mais ou menos, e que a casa dele, onde íamos na adolescência, está fechada. Leia o depoimento dela acima para saber um pouco mais.
Grande abraço.