terça-feira, 21 de abril de 2009

O que fazemos de nós


Por que a necessidade de desbravar o desconhecido, tão freqüente no nosso imaginário juvenil, se esvai com o passar dos anos até quase sumir, como se nossa consciência fosse uma cobra que vai se desfazendo das peles antigas à medida que cresce? O que nos leva (não a todos, é evidente) a abdicar deliberadamente de anseios tão caros nos nossos anos de formação, sem que exista qualquer pressão externa ou interna aparente? Esses questionamentos me ocorreram num fim de tarde do último final de semana, enquanto a chuva chicoteava meu rosto dentro do barco que me levava com minha mulher e minha filha à ilha de Boipeba. De certa forma, senti de volta uma inquietude típica daqueles velhos tempos ao estar naquele barquinho que a todo minuto nos lançava para fora dos assentos, deixando minha pequena atemorizada. E procurei descobrir em que estrada ou hotelzinho de quinta categoria abandonei o desejo de me lançar ao inesperado e ao fortuito. Não encontrei o que procurava, mas é certo que uma hora cansamos dos ônibus imundos, dos lanches sofríveis nas rodoviárias, da solidão que desfere golpes ligeiros como um gancho de direita desferido por Mike Tyson. E que, no extremo oposto do rol de prazeres, é gostoso demais deixar a vida passar num hotel confortável e luxuoso, com uma mesa de sinuca e um varandão feito sob medida para se degustar um charuto e beber um vinho. São prazeres que a maturidade e um mínimo de estabilidade financeira nos trazem, mas por outro lado são compensações insatisfatórias para a renúncia à aventura.
Não sei aonde quero chegar com essa conversa de boteco, mas talvez esteja ruminando o que ando lendo num livro interessante de Eduardo Giannetti, chamado Felicidade. Nele, o autor discorre, entre outras coisas (e com um grau de erudição que me joga para escanteio quase o tempo todo), sobre as escolhas que fazemos ao longo da vida e como elas nos levam – ou não – a um patamar, por mínimo que seja, de felicidade. É aí que entra o que tentei esboçar no início do texto: por que em determinado momento tudo aquilo que nos move de forma imperiosa simplesmente implode para dar lugar a satisfações radicalmente opostas? Existem várias camadas de felicidade? Elas se sobrepõem ou eliminam-se mutuamente? A verdade é que todas essas questões são insolúveis, sobretudo porque não existe sequer uma percepção única ou coletiva de felicidade. Giannetti vai mais longe: em que a modernidade (e com ela a tecnologia e o conforto) contribuiu – se contribuiu – para alcançarmos padrões mais elevados de realização pessoal?
Cada vez mais penso que caímos na armadilha do consumo maciço como ideal não apenas de felicidade, mas também (e talvez principalmente) de demonstração de poder e de superioridade frente aos semelhantes. Um carro novo ou uma viagem a Paris produzem felicidade? Sinceramente, acho que produzem generosos surtos de contentamento, mas até que ponto esse contentamento é genuíno, e não apenas um trunfo que usamos para nos diferenciarmos dos nossos vizinhos ou colegas de escritório e nos aproximarmos dos que estão no andar de cima? Fico me perguntando se no fim das contas não vai sobrar um vazio imenso nessa escalada rumo ao nada, já que a gente sabe que não vai sobrar nada mesmo. Estamos transmitindo o legado da nossa riqueza material ou da nossa miséria espiritual? Como posso saber? E quem pode? Sei apenas que uma aventura trivial como um passeio de barco por um lugar belíssimo e ainda primitivo faz a gente trazer de volta sensações e prazeres que deixam de nos acompanhar quando o hedonista que há em nós morre para dar lugar ao pragmático. Ou, me apropriando de uma parábola do livro de Giannetti, quando Epimeteu desaparece para que Prometeu possa reinar em paz.

2 comentários:

Marcos Carneiro disse...

E ai, blogueiro! Sao 2h da matina aqui e tava querendo ler algo legal, nao me arrependi... Esse blog tá cada vez melhor, pena q tou sem tempo de comentar tudo, mas tou acompanhando sempre q posso. Valeu pela companhia, abs.

Claudio Cordeiro disse...

Oh meu caro Paulo, compartilho e muito dessa, vamos dizer, angústia em se aquietar conscientemente no nosso cantinho ao invés de buscarmos novas maravilhas desse brasilzão. Buscas essas interrompidas um pouco pelas questões financeiras e profissionais, mas muito pela acomodação e por uma sensação de bem-estar dentro do nosso ninho. Fui cinco ou seis vezes pra Morro e só na última me aventurei por Boipeba. Estava só, a família estava em Sampa. Foi legal, mas corrido, e agora lendo o post me deu uma baita vontade de voltar com a família inteira.