segunda-feira, 6 de abril de 2009

A voz de todos nós


Quantas perdas são necessárias para fazer uma pessoa sucumbir? Para algumas, uma perda basta, e nunca será pouco. No caso de Edith Piaf, foram necessárias perdas em cascata, desaparecimentos abruptos que em maior ou menor medida foram cruciais para que ela se tornasse a estrela de vidro que veio a ser. No deserto de sentimentos em que transitou durante a infância e a juventude, Piaf foi perdendo paulatinamente o pouco que lhe foi concedido: a prostituta que a amava como filha, a visão (depois recuperada), o homem que primeiro a tirou do submundo e a revestiu de dignidade, uma filha pequena, um grande amor, a saúde e por fim a vida. Não foi por acaso, portanto, que ao morrer, com quarenta anos e alguma coisa, ela parecia uma anciã.
Um fim melancólico, mas perfeitamente compatível com a sua trajetória. Piaf deixou a escória, mas a escória continuou dentro dela: nas suas canções de cabaré, no seu comportamento desregrado e autodestrutivo, no vício em morfina, na saúde precária típica de quem cresceu sem cuidado e proteção. Ao cabo de tudo, o saldo foi maciçamente negativo, embora o pouco que ganhou tenha sido o bastante para torná-la um ícone imperecível.
Tudo isso está no filme de Olivier Dahan, Piaf – Um Hino ao Amor, e nos olhos esbugalhados de Marion Cotillard, que exprimem e ao mesmo tempo ocultam um sofrimento imensurável. Quando a sucessão de privações enfim termina, nos versos dilacerados de Non, Je Ne Regrette Rien, aquele sofrimento também é nosso, e a voz de Piaf também é nossa voz.

4 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Ainda nao vi o filme! Mas gostei do texto. Abs

::Soda Cáustica:: disse...

vi o filme duas vezes e acho Piaf uma das cantoras que mais nos presenteou com a beleza de sua poesia e de sua voz. Adorei ter lembrado dela, Paulinho da Bahia!

Socorro disse...

Paulinho,

A anônima era mesmo eu. Não que tivesse tido a intenção de aparecer assim, mas porque ainda me enrolo com esses trecos da internet. Coisas de quem nasceu quando isso não existia nem na ficção. E que cresceu debaixo do sol inclemente do sertão de Conselheiro e só conheceu o mar e a luz elétrica quando era bem grandinha...
Mas vou sobrevivendo. Errando aqui e ali, mas aprendendo. Vamos ver se consigo hoje postar este comentário com meu nome. Na dúvida, assino no final.
Escrevi muito e não falei do principal. Que sinto muita falta no jornal dos seus comentários sobre livros, discos e, principalmente, sobre filmes. Você faz falta...
Socorro

Paulo Sales disse...

Muito obrigado, Socorrinho. De coração. Também sinto falta de escrever (agora nem tanto, com o blog), mas quando leio o Correio hoje vejo que saí na hora certa, que as coisas que escrevo não cabem no jornalismo atual baiano. Mas, como você mesma diz, vou sobrevivendo.
grande beijo