sábado, 30 de maio de 2009

Antecedentes criminais


É óbvio que o Brasil não detém o monopólio das tragédias. Diria até que, apesar das nossas desditas cotidianas, há povos mais desafortunados ao redor do mundo, que parecem viver em estado crônico de sofrimento. Existe, porém, uma modalidade de tragédia na qual somos hegemônicos em nível mundial: as tragédias anunciadas. Nesse quesito, somos tão imbatíveis quanto o escrete canarinho da Copa de 70. Governos se abancam, governos se despedem, e continuamos a nos deparar melancolicamente com desastres perfeitamente evitáveis, como o que aconteceu esta semana no Piauí. A frágil barragem que segurava a fúria de uma correnteza brutal estava prestes a romper, como percebeu um morador da região – leigo em engenharia, porém pós-graduado em matéria de sofrer – mas nenhuma medida foi tomada para retirar as pessoas que estavam lá. Ontem assisti a uma entrevista (gravada antes do episódio) do engenheiro responsável pelo laudo que considerava a barragem absolutamente segura. Ele afirmou de forma enfática ao interlocutor que o concreto não se romperia, e ignorou os apelos de um bombeiro que havia sugerido a retirada dos moradores. Deu no que deu. Não seria o caso, portanto, de as famílias dos mortos entrarem com um processo contra esse engenheiro e contra o Estado por homicídio doloso? Doloso mesmo, com intenção de matar, como um bêbado ao volante sabe que mais cedo ou mais tarde vai arrancar a vida ou as pernas de alguém.
A tragédia anunciada no Piauí é apenas um item a mais na extensa lista de antecedentes criminais que revela o nosso caráter acomodado, incapaz de impedir ou prevenir que pessoas morram em desabamentos, enchentes, secas, acidentes de carro e de avião ou doenças seculares como meningite e dengue. Enfim, somos complacentes com diversas formas de desastre perfeitamente evitáveis quando há fiscalização, responsabilidade, cumprimento de leis e, em último caso, punição. Mas não. Vivemos num limbo, num deserto de idéias e de iniciativas capazes de dar cabo desses assassinatos coletivos dos quais não se consegue descobrir e muito menos punir os autores. Na falta de expressão mais adequada, cabe aqui o batido clichê de que estamos deitados eternamente em berço esplêndido, esperando sabe-se lá o quê, enquanto a roda gira e nos deixa mais uma vez esperando o próximo bonde da história.

Um comentário:

Isabel disse...

Paulo,isso faz parte do deixar-morrer, o controle de qualidade do sistema de hegemonia auto eleita superior, o cidadão de segunda acredita em fatalidade ele não tem arma-conhecimento pra lutar contra, o deixar-morrer é o genocídio autorizado....