terça-feira, 16 de junho de 2009

Meu rol de lacunas



Num poema chamado Limite, Jorge Luis Borges manifestava assim o seu lamento sobre a passagem do tempo: "Entre os livros da minha biblioteca (posso vê-los agora), há um que não mais abrirei". Fico imaginando, enquanto termino de ler esta sublime reflexão sobre a brevidade da vida, as formas e as cores desse livro sem nome, repousando em alguma prateleira perdida daquele labirinto de papel que deve ter sido a biblioteca de um homem que dedicou a vida a consumir palavras – e a trazê-las de volta à tona com esplêndida maestria. Poderia ser uma antologia de poemas de Paul Verlaine, já que no mesmo poema Borges diz: "Há uma linha de Verlaine que não voltarei a lembrar". Mas poderia ser qualquer outra obra perdida naquela vastidão.

De minha parte, há livros de Borges que nunca lerei, assim como há obras-primas que jamais passarão pelas minhas mãos ou ocuparão um cantinho de nobreza no meu coração. Obras que mudariam radicalmente a minha visão de mundo ou trariam um novo alento às minhas noites de insônia. Pensando nelas, cheguei a esboçar uma lista dos livros preferidos que nunca li (ou que ainda não li). Ou melhor: um rol de lacunas imperdoáveis, que deixaria à mostra a minha erudição capenga. Entrariam na relação, por exemplo, os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, que venho colecionando com afinco desde que a auto-intitulada “edição definitiva” da editora Globo chegou às livrarias. Sempre disse a mim mesmo que se tratava de uma obra para ser lida aos 40 anos, por isso fui adiando, mas agora 2010 se aproxima e me empurra incessantemente rumo à quarta década da minha existência.

Poderia incluir, também, Ulisses, que comecei a ler, mas parei por falta de tempo, para usar a mais injustificável das desculpas. Ou tantos que aguardam pacientemente o instante em que serão (se é que serão) retirados da prateleira e depositados carinhosamente no criado-mudo: Dom Quixote (Cervantes), Macbeth (Shakespeare), Submundo (DeLillo), Luz em Agosto (Faulkner), Os Irmãos Karamazov (Dostoievski), Estranhos Embora Íntimos (Fitzgerald), Extinção (Bernhard), Os Thibaut (Martin Du-Gard) e mais livros de Lispector, Vargas Llosa, Kerouac (os quatro ou cinco em inglês que possuo), Mallamud, Pynchon e muitos, muitos, muitos outros, cuja ausência deixa entrever certa indigência intelectual.

Por outro lado, ainda tenho tempo (espero) e todos eles ao alcance da mão ou de um banquinho, é só pegar. Como peguei recentemente Soldados de Salamina (Javier Cercas), A morte de Ivan Ilitch (Tolstoi), O Grande Bazar Ferroviário (Paul Theroux) e a Antologia Pessoal de Borges, que deu origem a toda essa conversa. No caso de Soldados..., o interesse por Javier Cercas fez com que comprasse outro livro dele, A Velocidade da Luz, que já li e também gostei, embora tenha identificado certa repetição de fórmulas. E por aí vai, um puxando o outro, como peças de dominó caindo em seqüência. E, quem sabe, aos poucos alguns integrantes desse rol de lacunas mudem de lado, e passem a fazer parte do rol de paixões, que não são poucas. Mas elas ficam para um próximo post.

2 comentários:

João disse...

Caríssimo! Compactuo sua frustração. Há obras-primas com as quais jamais teremos o prazer de passar noites. Mas envelhecer não é só perceber que o corpo já não responde na mesma rapidez que antes. Ter quarenta anos ou mais também nos dá uma dimensão maior do mundo e das coisas. Pense que, (assim esperamos) bem mais à frente, quando estivermos bem velhinhos, quando nossos amigos já tiverem quase todos morrido, quando o sexo for uma coisa de tão fácil manejo quanto um fusor nuclear para leigos, restará o rol de nossas lacunas pessoais. Alivie-se: nossas noites jamais serão totalmente solitárias.
Literatura é isso.
Grande abraço!

::Soda Cáustica:: disse...

A morte de Ivan Ilitch está na minha listinha de próximos "pegáveis". Adorei o texto Paulinho da Bahia.