terça-feira, 25 de agosto de 2009

Contraponto


A indignação é inimiga da sensatez. Não são raras as vezes em que vociferamos, saliva escorrendo pelo queixo, contra o absurdo de um crime ou a desfaçatez de um político que acabamos de ver na televisão ou ler no jornal. Opiniões coléricas são quase sempre desatinadas. Por isso é sempre bom deixar a poeira baixar e, de vez em quando, recorrer a pontos de vista mais lúcidos e serenos, muitas vezes diametralmente opostos aos nossos, para que possamos resgatar nossa própria lucidez e serenidade.

Eu mesmo me vi tomado pela indignação ao saber da libertação do terrorista líbio Abdelbaset Ali Mohmed Al Megrahi, responsável pela explosão de um avião na Escócia em 1988, que causou a morte de 270 pessoas – todos os passageiros e tripulantes mais onze em terra. Sujeito abjeto, Megrahi foi recebido com festa na Líbia, para desespero de Barack Obama e dos parentes das vítimas, quase todos britânicos e norte-americanos. O tribunal escocês alegou motivos humanitários – “razões de compaixão”, para ser mais preciso – para libertar o terrorista, que havia sido condenado a prisão perpétua, mas sofre de um câncer em estágio avançado na próstata, que provavelmente o matará em questão de meses.

Qual foi a minha primeira reação? Condenar, obviamente, a decisão da corte escocesa. Por que dar a um assassino em série o prazer de ser aclamado por uma multidão de compatriotas no seu país de origem, enquanto pais, mães, filhos e netos foram destituídos das pessoas que amavam? Encontrei a resposta para esta pergunta no blog Diário do Centro do Mundo (http://colunas.epoca.globo.com/pelomundo), do jornalista Paulo Nogueira, correspondente da revista Época em Londres. Com a serenidade dos sensatos, ele foi certeiro ao analisar a questão, como nos trechos abaixo:

Mas, indo à essência do caso, o governo escocês tem um ponto que me recordou a lógica de Churchill diante da tortura na Segunda Guerra Mundial. Como os inimigos torturavam, alguém sugeriu a Churchill que os britânicos fizessem o mesmo. Ele disse que era um erro se igualar a quem pratica barbaridades.”.

“A civilização deve ganhar da barbárie não pela imitação, e sim pelo contraponto.”

“Razões de Compaixão’, num caso tão dramático, foi um momento fugaz de triunfo da elevação humana sobre a selvageria, da civilização sobre o terror - ainda que possa ter parecido o contrário.”

São argumentos que enriquecem nossos questionamentos e nos fazem repensar nossas convicções, mesmo que não concordemos inteiramente com eles, como eu não concordo. Mas, se algum dia vencermos a barbárie – e não me refiro apenas à barbárie de gênese fundamentalista, mas à nossa barbárie cotidiana –, será certamente porque a colocaremos no lugar que lhe é devido. Não iremos nos bestializar, aderir ao confronto estúpido, ressuscitar o olho por olho, dente por dente. Mesmo sendo filosoficamente a favor da pena da morte, sou contrário à sua aplicação, sobretudo em países marcadamente desiguais, injustos e dados a confissões sob tortura, como o Brasil. Mesmo acreditando que quem nos priva deliberadamente do nosso único bem merece ser privado do seu, não creio que essa privação proporcionará aos nossos descendentes uma civilização menos truculenta. Como sugere Paulo Nogueira, temos que nos contrapor, e não nos igualar à barbárie, por mais que essa escolha possa parecer inócua e covarde à primeira vista.