sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Somos todos cordiais


Bendito fruto, que revi ontem na Globo, é um dos filmes mais subestimados da safra recente do cinema nacional. Crônica social aguda, travestida de uma aparentemente ingênua comédia de costumes, o longa aponta para a chaga silenciosa do nosso racismo cordial, explicitado na relação, digamos, informal, entre Edgar, um dono de salão branco (Otávio Augusto), e sua amásia negra Maria (Zezeh Barbosa). Maria é um misto de esposa, empregada e cria da família dele, não se sabe bem. Ou melhor: não interessa saber. O mais premente no filme de Sérgio Goldenberg é exatamente mostrar esse não-dito. Esse preconceito que não ousa dizer o nome. Ao contrário dos Estados Unidos, onde o racismo é exposto sem meias-palavras, tanto que até bem pouco tempo banheiros públicos e bebedouros separados estampavam as palavras “white” e “coloured”. No Brasil seria impossível existir uma Rosa Parks, a mulher que, na década de 50, se recusou a sentar num dos bancos reservados aos negros no fundo de um ônibus, dando início a uma nova era no combate ao preconceito racial na América. A Rosa Parks brasileira sempre pôde andar nos ônibus, assim como embarcar nos elevadores sociais e freqüentar bons restaurantes, mas não o fazia, por não suportar o olhar reprovador e silencioso (voltamos ao não-dito) dos brancos. Quando é pronunciado pelas bandas de cá, o racismo se manifesta na forma do escracho, em frases tipo “como negra ela é bonita” ou, de forma ainda mais explícita, em versos como “Mas como a cor não pega, mulata/mulata eu quero o teu amor”. Nós, brasileiros brancos, padecemos de um racismo atávico, por mais que tentemos banir esse sentimento que é quase instintivo. É mais fácil se livrar daquilo que nos é imposto claramente, como o ateu que recusa a fé católica na qual foi criado durante toda a infância, justamente por ter se impregnado dela esse tempo todo. Livrar-se de algo apenas sugerido, feito de gestos e comentários indiretos ou eufemísticos, é muito mais complicado. Tendemos intimamente a achar que a mulher negra no elevador é uma serviçal, ou que o rapaz negro de camisa branca no bar é a pessoa a quem devemos pedir uma cerveja. Arrancar esse aspecto torpe de nossa personalidade requer um esforço que vai além da racionalidade, e ainda vão passar algumas gerações até que possamos olhar para um ser humano de pele negra e ver exatamente o que ele é: um ser humano. Claro, a aberração pré-abolição ainda está muito presente em nossa sociedade, sobretudo na Bahia e no Rio, ambos estados de maioria negra. Basta penetrar em qualquer uma das invasões que “maculam” as grandes avenidas de vale de Salvador: a maioria negra maciça vivendo de forma subumana, reproduzindo a nossa miséria secular. Sempre se convencionou pensar que o nosso racismo era menos agressivo que o congênere exacerbado dos norte-americanos, por não ter gerado grandes conflitos inter-raciais ou disseminado oficialmente a segregação. Mas, aos poucos, a conta vem sendo cobrada. Não há nada de afável no ódio que move o bandido preto sem pai nem mãe que atira sem dó na mulher branca com um belo carro e uma família modelo. Da mesma forma que a relação entre o patrão branco de Bendito fruto e sua concubina de cor é pautada pelo não-dito, o ódio do bandido é uma forma velada de racismo às avessas. Num país onde a desigualdade social e a violência só fazem aumentar, torna-se ainda mais palpável o fato de que estamos vivendo num regime de apartheid. Mas é claro que ninguém vai dizer isso abertamente. Afinal, somos todos cordiais, esqueceu?

2 comentários:

Marcos Carneiro disse...

Velho, texto do caralho, parabens.

Anônimo disse...

Paulinho,

Dozinha me indicou seu blog. Gostei muito de você está fazendo o que gosta e o que sabe (escrever).
Deve ser mal de família...
Beijo, sucesso e tudo de bom!!

Tchó